A esquerda brasileira deveria ter o seu Olavo de Carvalho?

A pergunta obviamente soa estranha. Se Olavo de Carvalho é uma figura detestável, por que seus inimigos poderiam desejar alguém parecido no lado deles? Este texto demonstrará por que a resposta a esta pergunta é “mais ou menos”.

Quem é de esquerda odeia o Olavo de Carvalho por dois motivos. Primeiro porque ele tem orientação política oposta. Segundo porque ele é mau caráter. Este ódio é atenuado por outra característica do ex-astrólogo: ele é tão bizarro que chega a ser engraçado.

Mau caratismo existe em todo o espectro político. Devemos odiar qualquer mau caráter. Aliás, deveríamos odiar até mais o mau caratismo presente no nosso lado na política. Portanto, quem é de esquerda jamais deveria aceitar mau caratismo semelhante ao do Olavo de Carvalho em defesa de sua causa. Também não deveria querer sujeitos bizarros para queimar o filme.

Olavo de Carvalho difunde boatos, fomenta ódio xenofóbico, por exemplo contra os haitianos, defende pseudociência, como a de que tomar vacina não é necessário ou a de que cuspe transmite AIDS, difunde versões inverídicas de História, como por exemplo quando escreveu que a ditadura militar brasileira só censurava propaganda da luta armada, e opina sobre autores que ele parece não ter lido, como ele fez com Marx. Olavo de Carvalho chega a ser bizarro quando faz auto elogios, quando ele considera ele mesmo uma pessoa extremamente brilhante. A dúvida nossa é: se o autointitulado filósofo é tão genial, se as universidades brasileiras só não o contratam como professor porque são dominadas pelo marxismo, por que ele não está demonstrando toda sua genialidade em uma universidade dos Estados Unidos, país onde ele mora? Além disso, alguns boatos e constatações pseudocientíficas dele chegam até a ser engraçados, como a história dos fetos da Pepsi, dos combustíveis fósseis que não existem, ou de que Newton era burro.

Ninguém que é de esquerda deveria desejar ser representado por pessoas de mau caráter, nem por pessoas que fazem determinada orientação política pagar mico. Mas fora o mau caratismo e a bizarrice, há algumas características do Olavo de Carvalho que poderiam ser reproduzidas por formadores de opinião de esquerda.

É necessário reconhecer que Olavo de Carvalho tem algum talento, caso contrário, ele seria desconhecido e este texto não existiria. Não é possível negar que cultura geral ele tem. O autointitulado filósofo paga mico porque tenta ir além da cultura geral que ele já tem, querendo fazer de conta que é doutor em todos os assuntos, algo que ele não é. Resultados disso são os fetos abortados da Pepsi e os combustíveis fósseis que não existem. Mas precisamos reconhecer que ele se expressa com uma linguagem fácil e agradável, acessível para pessoas não muito letradas. Tanto que seu maior nicho é o de estudantes de universidades com pouca exigência para a admissão. Contribuiu para influenciar um rebanho de colunistas que ocupou espaços na mídia e também um rebanho militante. A direita sempre teve mais espaço do que a esquerda na grande mídia, basta conhecer a orientação ideológica das famílias que controlam os conglomerados. Porém, a direita na grande mídia até o final da década de 1990 falava quase que apenas de economia. Olavo de Carvalho e seu rebanho trouxeram outros temas.

Acredito que dificilmente uma pessoa que tenha opiniões convictas de esquerda vai se tornar de direita após a leitura de textos do Olavo de Carvalho. Mas é possível que uma pessoa em fase de formação possa ser influenciada. E que pessoas que já têm ideias de direita podem ser incentivadas pelos textos do autointitulado filósofo a praticar mais militância.

É por isso que faltam formadores de opinião com estas características na esquerda brasileira. São necessários colunistas com ampla cultura geral, que abordem vários temas com linguagem fácil para pessoas pouco letradas e que incentivem militância.

Olavo de Carvalho escreveu colunas no Globo e na Época entre o final da década de 1990 e meados da década de 2000, que foi uma fase ruim para a direita brasileira, um tempo em que poucas pessoas no Brasil se auto-declaravam direitistas. Os mais conhecidos líderes políticos de direita no Brasil naquele tempo, Paulo Maluf e Antônio Carlos Magalhães, estavam queimados por escândalos. Os dois principais partidos de direita, o PPB (atual PP) e o PFL (atual DEM) eram conhecidos como partidos de coronéis corruptos. O PSDB ainda não podia ser rotulado como direitista, embora o governo de Fernando Henrique Cardoso, eleito com apoio de forças de direita, amargava baixa popularidade por causa de crise econômica, crise energética e escândalo das privatizações.

Neste cenário, o ex-astrólogo autointitulado filósofo pretendeu levantar a bola das ideias de direita discutindo não assuntos de Brasília, mas tratando de política como ciência, e não como prática, e também de filosofia, artes e comportamento. Procurou defender o que todas as tendências de direita tinham em comum, conciliando católicos tradicionalistas e evangélicos, liberais econômicos e militaristas.

O momento atual da política brasileira é oposto ao daquele tempo. Vivemos em um péssimo momento para a esquerda. O PT foi queimado por causa do escândalo de corrupção na Petrobras e da crise econômica do governo Dilma. O discurso do PSOL não consegue alcançar as classes mais baixas. Portanto, não há um partido forte representando a esquerda.

Neste cenário, surge a necessidade de formadores de opinião que fomentem o debate político fora dos assuntos de Brasília, tratando de política como teoria, de filosofia, de economia, de artes, de comportamento e de história. Assim como Olavo de Carvalho utilizava linguagem carregada contra professores universitários esquerdistas e seus alunos, contra políticos de esquerda, contra artistas de esquerda, contra militantes de movimentos sociais, os formadores de opinião de esquerda podem e devem utilizar linguagem carregada contra professores universitários direitistas e seus alunos, contra comentaristas presentes na mídia comercial e seus espectadores, contra proprietários da mídia comercial, contra pastores retrógrados, contra líderes direitistas de associações empresariais, contra artistas de direita e contra políticos de direita. Digo linguagem carregada mesmo, sem frescurinha. Aquilo que os frescurentos chamam de “ataques de baixo nível” podem e devem ser utilizados. Deve ser considerada até mesmo a possibilidade de chamar pessoas que têm opinião formada pela Veja ou pela Globo News de orangotangos, cachorros, ovelhas ou algum outro animal irracional. É importante cativar um público leitor e fazê-lo repudiar o que muitos familiares e colegas de estudo e trabalho dizem.

É importante pegar pesado não apenas com os colunistas trolls de direita, da safra do Olavo de Carvalho, mas também com os colunistas sérios e respeitáveis que trabalham nas mesmas empresas de comunicação. Afinal, os sérios e respeitáveis se beneficiam do serviço praticado pelos trolls, e, por isso, são alvos legítimos. Seria compatível na conjuntura atual a esquerda ter iconoclastas, com capacidade de fazer “ataques de baixo nível” até mesmo a intelectuais de direita considerados sérios e respeitáveis.

A opinião de direita é atualmente a mais falante na grande mídia, nas mesas das famílias de classe média, nas universidades privadas, que concentram a maioria das matrículas do ensino superior no Brasil, e tem muita força até mesmo nas universidades públicas. Em condições normais de temperatura e pressão, o debate civilizado é saudável. Mas não estamos vivendo em condições normais de temperatura e pressão. Estamos vivendo em um período tão tenebroso em que nossa frágil democracia é ameaçada, como escrevi neste texto. Quando o microfone e o amplificador estão com defeito, é necessário gritar alto para ser ouvido.

Durante muito tempo, facções de esquerda dedicavam mais tempo disputando entre si pela hegemonia dentro da esquerda do que disputando a hegemonia da esquerda como um todo dentro da sociedade. Na conjuntura atual, com todas as facções de esquerda enfraquecidas, é necessário que alguém brigue pelas ideias que marxistas-leninistas, trotskistas, fabianos, social democratas têm em comum, que petistas, pecedobistas e psolistas têm em comum, assim como Olavo de Carvalho brigou a favor de católicos tradicionalistas, evangélicos, liberais econômicos e militaristas.

Durante alguns anos, a esquerda deu mole. Enquanto autores de direita vendiam livros falando que o comunismo matou cem milhões de pessoas, que Hitler era de esquerda, que o Brasil é atrasado por causa das ideias de esquerda, que para entender de economia é preciso ser de direita e que o politicamente correto estava destruindo a civilização, e que era necessário um “Escola Sem Partido” para combater “doutrinação comunista nas escolas”; a esquerda estava uma parte dela defendendo os governos Lula/Dilma e outra parte fazendo críticas a esses governos pela esquerda. Enquanto isso, a direita foi fazendo cabeças sem contestação.

Mas para um formador de opinião de esquerda fazer aquilo que os frescurentos chamam de “ataques de baixo nível”, é necessário ter bagagem intelectual de alto nível. Caso contrário, vai ser enxergado apenas como mais um candidato a diretor de DCE. Já os “ataques de baixo nível” feitos por uma pessoa dotada de grande erudição podem ser vistos como algo fofo. Óbvio que até os “ataques de baixo nível” precisam ser moderados não por causa de pena do agredido e sim para evitar o tiro pela culatra, o efeito bumerangue e o backlash. Dependendo da maneira que for feito, os “ataques de baixo nível” podem ser vistos como cafona, e seu autor pode perder credibilidade.

Outro alerta deve ser feito: é importante tratar de vários assuntos, mas deve ser evitado tratar de assuntos sobre os quais o conhecimento é escasso. Como foi dito neste texto, esta característica do Olavo de Carvalho não deve ser reproduzida. Trata-se de pagação de mico. Poderia comprometer a credibilidade do autor e de suas ideias. E obviamente, outra técnica de comunicação do auto-intitulado filósofo que não deve ser reproduzida é a picaretagem. Boatos e pseudociência não devem ser utilizados para defender causa alguma. Se nós temos convicção de que nossa causa é boa, nós temos que ter convicção de que nossa causa não precisa ser defendida com picaretagem.

Há intelectuais brasileiros de esquerda atualmente que podem exercer esta função? Alguns. Um deles é Vladimir Safatle. Ele tem uma “pequena” diferença com Olavo de Carvalho. Safatle tem doutorado na Universidade de Paris VIII e é professor da USP. Ou seja, para ter conseguido seu título e para ter sido aprovado em um concurso, ele teve seu trabalho avaliado por uma banca de acadêmicos. Idelber Avelar já foi uma potencial voz da esquerda. Também teve uma grande carreira acadêmica. Mas ficou conhecido também pela comunicação com leigos. Seu blog Biscoito Fino e a Massa, desativado em 2011, era um exemplo daquilo que a esquerda precisava: combinação de política com cultura, linguagem fácil e agradável, apelo à militância. Mesmo depois do fim deste blog, este autor ainda fez ótimos textos, como a crítica ao Guia Politicamente Incorreto de História, do Leandro Narloch. Atualmente, Idelber se especializou muito no meio ambiente e nos povos indígenas, não sendo mais um intelectual abrangente. Cynara Menezes, a Socialista Morena, tem exercido um bom papel. Tem bom conhecimento sobre cultura, escreve textos agradáveis de serem lidos. Mas tem um problema: no momento atual, seu apoio ao PT, mesmo que crítico, afasta potenciais leitores. Pessoas despolitizadas pensam que esquerda = PT. Esta visão não pode ser endossada. Olavo de Carvalho, quando apareceu na grande mídia, tinha o costume de falar que direita não era igual a PFL e PPB. Era uma forma encontrada de tentar atrair público para ideias de direita. Colunistas menos partidários, como Leonardo Sakamoto e Gregório Duvivier, também têm se mostrado potenciais vozes da esquerda. Fora do Brasil, Slavoj Zizek, Naomi Klein e Michael Moore têm papel importante.

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