O momento atual pede guerra de movimento e não guerra de posição

Ser de esquerda é ser conservador? A frase soa estranha, até porque tem duas palavras que não combinam. Mas às vezes, existe a impressão de que a esquerda pode ser conservadora. É bastante comum ver partidos e movimentos identificados com posições de esquerda defendendo bandeiras como:

 

Conservar a CLT

Conservar o SUS

Conservar as empresas públicas

Conservar as regras da previdência

Conservar o Ministério da Cultura

Conservar a maioridade penal aos 18 anos

Conservar a universidade pública e gratuita

Conservar a eleição proporcional para o legislativo

Conservar a possibilidade de ser preso apenas depois do julgamento no STF

 

Sim, isto foi apenas uma brincadeira com a palavra “conservador”. Aqui, a palavra foi utilizada no sentido literal, ou seja, é “conservador” quem quer “conservar”. Nos textos políticos, a palavra “conservador” é sinônimo de “direitista”, ou seja, um conservador não quer conservar tudo o que existe, quer destruir o que é identificado com a esquerda.

Mas esta brincadeira com a palavra tem seu lado sério. Se a esquerda defender apenas conservar isso e conservar aquilo, a direita passa a ser vista como a força que quer fazer mudanças. No passado, a esquerda defendeu as “reformas de base”. Atualmente, a direita se apropriou da palavra “reformas”. Tanto que não se dá mais ao trabalho de especificar quais são as reformas, não se dá mais ao trabalho de falar reforma do quê. Basta falar que “o país precisa de reformas” que o público já sabe quais são.

A esquerda defende o legado de algo que não foi construção sua: o Estado varguista. Sim, há coisas positivas a ser defendidas, não é errado que a esquerda as defenda. O problema é quando isto se torna o seu cartão de visitas.

Em 2010, havia um otimismo em relação ao Brasil, um sentimento de que o país estava funcionando, um desejo de continuidade. Este desejo de continuidade beneficiou não apenas Lula e Dilma, como também até mesmo os governadores do PSDB. A partir de 2013, prevalece o sentimento de que o Brasil não vai bem, por motivos óbvios, o Brasil não vai bem mesmo. Há um desejo de mudança. Isto obviamente beneficia a força política identificada com a palavra “reformas”.

As reformas da direita são a aposentadoria aos 70 anos, a flexibilização das leis trabalhistas, a redução da maioridade penal e as privatizações. A esquerda deve combater estas reformas, mas não deveria ser identificada como a força da não reforma, e sim como a força que tem sugestão de outras reformas.

A esquerda tem muitas possíveis reformas. A reforma urbana para combater a especulação imobiliária, os imóveis ociosos, os vazios com infra-estrutura e as aglomerações sem infra-estrutura. A reforma tributária para aumentar a participação dos impostos sobre renda e propriedade no total arrecadado, impostos estes que atualmente são modestos no Brasil, e mudar esse sistema tributário que atualmente onera mais os pobres do que os ricos. A reforma na segurança pública, para desmilitarizar as políticas, tornar mais humanizado e eficiente o sistema prisional e o sistema sócio-educativo, mudar a política de drogas. A reforma política para acabar de vez com o financiamento empresarial de campanhas políticas (não depender apenas de uma decisão do STF), com as coligações, com os suplentes de senador e para fortalecer mecanismos de democracia direta.

Estas propostas de reformas já são feitas por partidos e movimentos de esquerda, mas precisam estar mais na ponta da língua. A esquerda precisa ser vista como quem tem outras reformas, e não como quem é contra reformas e como quem quer deixar as coisas do jeito que estão.

Foi importante sim a defesa do Ministério da Cultura. Mas poderia ter sido aproveitado o clima de rejeição à Lei Rouanet, fomentado pelos boateiros da direita, para transformar o fim da Lei Rouanet e a criação de um novo método de financiamento à cultura em bandeiras da esquerda. A Lei Rouanet é privatista, criada pelo governo Collor, e sua extinção poderia ser desejada por quem é de esquerda.

Observamos um viés continuísta em políticos de esquerda quando vemos a diferença de ênfase no posicionamento contra a redução da maioridade penal e no posicionamento a favor da legalização do aborto. A redução da maioridade penal tem o apoio de 80% da população brasileira, a legalização do aborto tem a rejeição de 80% da população brasileira. Ou seja, ser contra a redução da maioridade penal e ser a favor da legalização do aborto é ter opinião diferente de 80% da população brasileira. São bandeiras importantes, mas ambas causam o risco de perda de apoio popular. Muitos políticos de esquerda são bem mais enfáticos em ser contra a redução da maioridade penal do que em ser a favor da legalização do aborto, ou seja, aceitam bem mais o risco de perder popularidade sendo contra a redução da maioridade penal do que sendo a favor da legalização do aborto. Preferem nadar contra a corrente quando querem manter algo que a maioria quer mudar do que quando querem mudar algo que a maioria quer manter.

Vemos em alguns colunistas de esquerda a prática do garantismo chapa branca, que consiste em criticar abusos cometidos por delegados, procuradores e juízes quando os abusos atingem políticos de sua simpatia. Quando a indignação com a corrupção se torna um assunto frequente, praticar o garantismo chapa branca é o caminho para o isolamento em relação à sociedade. Agora que a esquerda está completamente fora do governo federal, e o atual governo, junto com sua base de apoio tem uma grande coleção de políticos encrencados, o garantismo chapa branca tornou-se mais útil para a direita do que para a esquerda. A esquerda tem a função de combate-lo, e não de praticá-lo. Seria útil também relembrar como Gilmar Mendes, jornalistas e políticos de direita praticaram o garantismo chapa branca para blindar Daniel Dantas.

Quando o FBI pegou vários pilantras do futebol, a esquerda brasileira poderia comemorar, pois muitos dos pilantras brasileiros do futebol têm boas relações com políticos de direita. Além disso, o fato poderia arranhar a imagem da Globo, que tem que ter boas relações com os pilantras do futebol para preservar os direitos de transmissão. Ainda assim, alguns colunistas de esquerda escreveram que o acontecimento foi coisa dos ianques para arruinar a Copa de 2018 na Rússia. Pensar que a esquerda deve alguma coisa ao Putin já é bizarrice. Servir de linha auxiliar de dirigente ladrão de futebol já é exercer o papel de paga lanche. O mesmo papel exercido quando alguns colunistas de esquerda ainda insistiam que os grandes eventos esportivos teriam deixado algum legado para o Brasil.

Outra discussão na qual a esquerda deve repensar seu posicionamento é sobre o serviço público. A seleção na base do “quem indica” é muito ruim. Mas o extremo oposto, com concurso completamente conteudista, estabilidade absoluta e progressão salarial por tempo de serviço sem consideração em relação ao desempenho, também mostrou suas limitações. Muitos dos servidores que se beneficiaram deste sistema não são de esquerda. Seria necessário a esquerda participar do debate sobre reforma administrativa com propostas, e não deixar que a direita surfe na insatisfação popular com o serviço público, que a direita apareça como a única força que tem proposta de reforma. Mais pessoas de esquerda passaram a entender a mudança de necessidade de posicionamento principalmente quando perceberam a chuva de concurseros coxinhas.

Quanto à reforma política, por muito tempo eu fui contra qualquer forma de representação distrital. Mas ao perceber que nosso sistema proporcional faz o mesmo eleitorado que elege Lula e Dilma eleger Congressos ultrarreacionários, começo a pensar que uma representação distrital mista poderia ser um mal menor. Lideranças de esquerda poderiam defender a representação distrital mista combatendo a proposta de representação distrital pura que vem da direita.

Por fim, a esquerda brasileira deve defender o que o Estado varguista e a Constituição de 1988 têm de progressista? Sim. Mas não deve ser a defesa do que está aí a principal atividade da esquerda. Em 500 anos de História, só existiram governos nacionais de esquerda (e com muitas ressalvas em utilizar o rótulo) entre janeiro de 1963 e março de 1964, e entre janeiro de 2003 e maio de 2016. Ainda assim, se a esquerda se focar apenas na preservação, a direita consegue surfar no clima de desejo por mudança e se apresentar como a única que tem a mensagem da mudança. A esquerda não pode permitir que a direita monopolize o uso da palavra reforma.

Apesar deste site se chamar “Trincheiras”, o momento atual da política brasileira pede mais tanques do que trincheiras. Importante lembrar, como metáfora, que a linha Maginot fracassou no combate ao nazismo, e os tanques T-34 tiveram papel fundamental.

Em outros momentos na história do Brasil, foi possível verificar como representar a mudança foi uma estratégia política mais inteligente do que representar a manutenção. Assim como ocorre atualmente, também ocorria um sentimento de desejo de mudança na sociedade brasileira durante a década de 1980. A candidatura de Lula de 1989 transmitia o ideal de ruptura. Superou no primeiro turno as candidaturas de Leonel Brizola, Mário Covas, Ulisses Guimarães e Roberto Freire, que eram mais identificadas com o status quo da esquerda. Estas candidaturas derrotadas já no primeiro turno têm semelhanças com o PT atual. O vencedor de 1989 foi Collor, que também transmitia o ideal de ruptura, ao contrário de Paulo Maluf e Guilherme Afif, que eram mais identificados com o status quo da direita.

Em outros países, isto também já ocorreu. Sarkozy, que havia sido ministro do presidente Chirac, ganhou a eleição de presidente da França em 2007 se apropriando do discurso da necessidade de mudança e identificando os adversários socialistas como o grupo da preservação.

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