O que é um moderate hero?

O termo moderate hero surgiu em debates virtuais para denominar tanto alguns debatedores de fóruns virtuais, quanto colunistas de imprensa.

O texto típico do moderate hero começa da seguinte maneira: “De um lado há aqueles que pensam A. De outro lado há aqueles que pensam B. Mas a verdade é que a realidade não é tão simples. Quem pensa A está certo nisso, nisso e naquilo, mas quem pensa B está certo nisso, nisso e naquilo”. O moderate hero, com sua espada, ou melhor, com seu primeiro parágrafo, corta as cabeças de dois monstros, que são as opiniões extremas, e abraça a princesa da sabedoria, que é a opinião do meio.

Todos aqueles que defendem opiniões do meio em algum assunto são moderate heroes? Óbvio que não. Todos nós temos opinião do meio em um ou outro assunto. Eu tenho opinião do meio em alguns assuntos. Isto é normal. O moderate hero se destaca porque ele quer ter a opinião do meio em todos os assuntos. Tem um fetiche pela opinião do meio. Considera-a um indicador de sabedoria.

Quando há um debate quente entre duas posições, é possível que a opinião mais correta seja a do meio, mas também é possível que uma das opiniões esteja certa, a outra errada, e a do meio errada também. Ou então, a melhor opinião pode se localizar em um ponto intermediário, mas bem mais próxima de um lado do que de outro.

 

Vamos a exemplos:

No debate sobre cotas, a opinião do meio é ser a favor das cotas sociais e contra as cotas raciais. Quando fui apresentado a este debate, quando eu era bem novo, fui contra qualquer cota. Depois me tornei a favor das cotas sociais e contra as cotas raciais. Atualmente sou a favor tanto das cotas sociais, quanto das raciais. Mas ainda não pertenço à opinião mais extrema. Repudio considerar que ser contra as cotas é ser racista e reconheço que há argumentos bons e ruins tanto a favor, quanto contra as cotas. Em outro debate sobre educação, tenho uma opinião bem do meio, que é o uso de avaliações externas padronizadas de larga escala. Sou a favor destas avaliações, mas contra o uso delas para remuneração variável de docentes.

Em alguns textos que postei neste site, defendi uma opinião do meio. Por exemplo neste, em que tenho uma opinião bem intermediária no debate entre luta universalista por justiça social e lutas particularistas de grupos oprimidos específicos.

Em outros, expressei claramente que um dos lados está completamente errado, e, portanto, a opinião do meio também está errada. No caso do Escola Sem Partido, é muito ruim a opinião do meio que diz que o movimento tem reclamações justas, mas propostas estão equivocadas. Na verdade, o movimento é um lixo total, não tem reclamações justas. Este movimento é defendido por pessoas que gostam da safra de colunistas de direita que inclui Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, Leandro Narloch e Luís Felipe Pondé. É errada a opinião do meio que diz que esses colunistas exageram, dizem algumas bobagens, mas que a existência deles torna melhor o debate de ideias no Brasil. Eles não tornam melhor o debate de ideias no Brasil. Alguns desses colunistas dizem que Hitler era de esquerda. É absurdamente equivocada a opinião do meio que diz que “é uma questão muito complexa, o nazi-fascismo tem dificuldade de ser encaixado na linha esquerda-direita”. Não é uma questão complexa. Hitler era de extrema-direita e ponto final. E, por falar em ensino, entre ensinar nas aulas de ciência a Teoria da Evolução ou a Teoria do Design Inteligente, a opinião do meio que propõe dar espaço igual a ambas as teorias sugere dar espaço igual para ciência e pseudociência na aula de ciência.

 

Imaginem o absurdo que poderiam ser as opiniões do meio no passado. No século XIX, um moderate hero dizia “é errado que os negros sejam escravos, mas também não acho que eles deveriam ter o direito de votar”. Ou no tempo de Hitler (que era de extrema-direita sim) alguém dizer “é errado perseguir uma pessoa só pelo fato dela ter ascendência judaica, é errado matar crianças só porque seus pais são judeus, apenas os judeus que decidiram por conta própria continuar judeus devem ser perseguidos”.

Óbvio que estas opiniões são caricaturais vistas sob os olhos de hoje. Mas atualmente, há outros casos de péssimas conclusões obtidas por moderate heroes. Há um grande perigo que pessoas ingênuas sejam enganadas pela retórica moderate hero nestes casos. Um deles é sobre as primárias para a eleição para presidente dos Estados Unidos. É muito enganosa essa simetria que coloca Bernie Sanders como extremista de esquerda igualmente como Donald Trump e Ted Cruz são extremistas de direita, e Hillary Clinton como moderada de esquerda assim como Marco Rubio, John Kasich e Jeb Bush seriam moderados de direita. Neste raciocínio moderate hero, defender saúde pública universal, universidade gratuita e maior tributação sobre os ricos é extremismo tão grande quanto defender muro na fronteira contra o México e retorno ao padrão ouro.

Outro exemplo é a discussão sobre o posicionamento político dos grandes conglomerados de mídia no Brasil. Há sites de esquerda que dizem que esses grandes conglomerados não transmitem informação confiável porque têm viés de direita. Há sites de direita que dizem que esses grandes conglomerados não transmitem informação confiável porque têm viés de esquerda. Uma visão moderate hero completamente equivocada que poderia surgir daí é dizer que por causa disso, os grandes conglomerados de mídia no Brasil são de centro e que não apresentam informação viesada. Em primeiro lugar, mesmo se fossem de centro, isto não impediria a apresentação de informação viesada. Em segundo lugar, basta observar as biografias das famílias que comandam esses conglomerados, os editoriais e a participação de jornalistas importantes no Instituto Millenium para saber qual é o viés ideológico dos grandes conglomerados de mídia do Brasil.

Uma sátira que pode ser feita aos moderate heroes é sobre como eles abordariam a teoria da conspiração do atentado ao World Trade Center de 11 de setembro de 2011. A teoria da conspiração diz que os aviões sozinhos não poderiam ter derrubado o prédio, que provavelmente havia explosivos dentro dos prédios. Os moderate heroes acreditariam parcialmente nesta teoria. Diriam que a torre norte foi derrubada apenas pelo impacto do avião, mas a torre sul caiu com a ajuda de explosivos previamente plantados.

Uma situação engraçada ocorreu no plebiscito sobre divisão do Pará, ocorrido em 2011. Havia votação separada sobre criar o estado de Tapajós e criar o estado de Carajás. A grande maioria da população paraense votou contra a criação destes dois estados. Os percentuais favoráveis à criação de Tapajós e Carajás foram parecidos, o que indica que quem foi a favor de um foi a favor de outro. Mas ainda assim, houve um grupo pequeno de pessoas que propôs “Tapajós sim, Carajás não”. Eles devem ter seus motivos. Mas para quem olha de longe, não deixa de parecer coisa de amantes do muro.

O que daria um nó na cabeça dos moderate heroes é perguntar a eles qual sentença é melhor: “não devemos ser extremistas, devemos ser moderados” ou “devemos ser nem tão extremistas nem tão moderados”? A resposta provavelmente seria: “as duas sentenças têm seus méritos mas também têm seus equívocos”.

 

Ops, percebi um probleminha: quando eu iniciei o texto dizendo que tenho opinião do meio em alguns assuntos e em outros não, me comportei como um moderate hero.

moderate hero figura

moderate hero

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