Fotos da manifestação anti-Temer no centro do Rio de Janeiro

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Manifestação anti-Temer realizada no centro do Rio de Janeiro, 31 de agosto de 2016.

O ato foi convocado pela Frente Brasil Popular e pela Frente Povo Sem Medo. Se concentrou na Cinelândia às 18 horas, saiu em caminhada às 19h30, passando pela Firjan e chegando à Alerj. O ato foi pacífico do início ao fim.

Ocorreram manifestações em várias capitais estaduais brasileiras.

Os defensores do governo Temer e a anedota do suco e do chopp

Há uma conhecida anedota que é assim: um freguês bem malandrão entra no bar. Ele pede um suco de laranja. Quando o suco chega, ele não bebe, devolve imediatamente, e pede para servir um chopp no lugar do suco. Bebe o chopp e tenta sair sem pagar a conta.

– Ei, você não pagou o chopp – diz o garçom.

– Óbvio – responde o freguês – troquei pelo suco.

– Mas você não pagou o suco.

– Óbvio, eu não bebi.

 

Esta é a mesma lógica de quem defende a legitimidade do governo de Michel Temer. Quem faz isso costuma começar dizendo que o processo de impeachment tem base legal, que houve crime de responsabilidade, que “pedalada é grave” (mesmo sem necessariamente saber descrever o que é isso), que os decretos de crédito suplementar são ilegais, que Dilma tomou crédito de bancos públicos. Quando se responde que os créditos suplementares não necessariamente aumentam gastos do governo, que a meta fiscal é anual, que vários governadores também fizeram isso, que atrasar pagamento a bancos não é a mesma coisa que tomar crédito, que é ridículo aos olhos do mundo uma chefe de Estado ter mandato interrompido por causa da forma com que manejou o orçamento, que mesmo quem defende arduamente o impeachment, se for sincero, está cagando para as pedaladas, a resposta que se ouve habitualmente é:

– Tá, mesmo se você assumir que as pedaladas são uma base legal fraca, o escândalo de corrupção da Petrobras é uma base moral muito forte, o PT perdeu a condição de continuar governando o país.

Aí se responde que “base moral” para impeachment não existe, que impeachment de partido não existe, que Dilma não participou deste esquema de corrupção, que se houvesse prova disso, o pedido de impeachment teria sido fundamentado nisso, e que mesmo se aceitássemos o argumento da base moral, aí não só o PT, como o PMDB também não teria condição de continuar governando o país, uma vez que políticos do PMDB também se beneficiaram do esquema, e também políticos do PP, outro partido que integra o atual governo. Se PSDB e DEM, partidos que eram oposição ao governo Dilma, levassem a sério a afirmativa de que “o escândalo de corrupção da Petrobras foi o maior escândalo de corrupção da história da humanidade”, certamente não se sentiriam confortáveis em compor um governo com o PMDB e com o PP, excluindo apenas um dos três partidos principais do esquema. Se ainda assim insistissem no impeachment, uma atitude minimamente decente seria não participar do governo Temer, o que forçaria a renúncia por falta de apoio, e aceitar uma nova eleição. Mas não, né? Povo votando é sempre perigoso, né? Poderia ser eleito um governo não muito comprometido com as tais “medidas impopulares necessárias”, né? Um Cirão da Massa poderia ser eleito, né?

– Tá, mas o impeachment da Dilma não foi baseado na corrupção na Petrobras, e sim nas pedaladas, que foram um crime de responsabilidade grave.

Os créditos suplementares não necessariamente aumentam gastos do governo, a meta fiscal é anual, vários governadores também fizeram isso, atrasar pagamento a bancos não é a mesma coisa que tomar crédito.

– Tá, mas a corrupção na Petrobras…

E assim vai…

chopp suco de laranja

Sobre o direito à posse de arma de fogo

Já repararam nesta contradição? Em geral, as mesmas pessoas que mais criticam as polícias e as forças armadas também defendem que integrantes das polícias e das forças armadas sejam as únicas pessoas a terem permissão de portar armas de fogo. Eu defendo só a primeira parte: devemos sim criticar polícias e forças armadas, principalmente aqui no Brasil. Mas não defendo a segunda parte: se não achamos polícias e forças armadas confiáveis, por que defender que apenas integrantes destas corporações devem ter permissão para portar armas de fogo? Alguns responderão: eu critico as polícias e as forças armadas por causa do jeito que elas são atualmente, mas eu gostaria muito de viver em um mundo em que seja possível confiar nas polícias e nas forças armadas e em que os cidadãos comuns não precisem ter armas de fogo. O problema deste argumento é que ele é idêntico ao “sou contra as cotas porque eu acho que o ensino básico público deveria ser decente”. Muitas pessoas que utilizam este argumento para as armas odeiam este argumento quando ele é utilizado para as cotas.

É um engano pensar que o debate sobre a legalidade da posse de armas para cidadãos comuns é um debate simples esquerda versus direita, é um engano pensar que quem é de direita é necessariamente a favor da permissão das armas e quem é de esquerda é necessariamente contra. Esta confusão existe porque os defensores mais barulhentos da permissão das armas são de extrema direita, e que eles frequentemente falam em defesa de propriedades contra invasores. Mas não precisa ser de extrema direita para defender a permissão das armas, e seu uso não é exclusivo para defender propriedades contra invasores. No referendo de 2005, grupos de extrema direita e a Revista Veja foram contra o desarmamento. O PT foi a favor do desarmamento. Porém, o PSDB também foi a favor do desarmamento. As Organizações Globo também foram a favor do desarmamento. O PSTU foi contra o desarmamento. Nos Estados Unidos, por muito tempo Bernie Sanders defendeu maior permissividade com posse de armas de fogo do que Hillary Clinton. Os Estados Unidos têm Estado de Bem Estar Social menor do que outros países desenvolvidos e têm mais permissividade com armas de fogo. Porém, os países escandinavos têm Estado de Bem Estar Social maior do que o Reino Unido, e mesmo assim são mais permissivos com arma de fogo. Uma coisa não tem a ver com a outra.

Nos últimos anos, vimos tornar-se comum no Brasil ataques de grupos de extrema-direita contra integrantes de minorias étnicas e sexuais e contra militantes de esquerda. É possível que alguns integrantes de minorias sintam-se ameaçados e se vejam na necessidade de ter um meio de defesa. É possível que essas pessoas não confiem que as autoridades de segurança pública estejam realmente dispostas a se esforçar para garantir a segurança. Não estou defendendo a possibilidade de posse de armas para fazer insurreição, não defendo insurreição armada. Defendo que para algumas pessoas, a arma pode ser um mal necessário para a defesa.

E quando se fala em combate ao crime comum, a proibição total das armas de fogo, assim como a permissão, é irrelevante. O Brasil tem uma lei razoavelmente rigorosa sobre posse de armas de fogo por pessoas comuns, tem um dos índices mais baixos do mundo de armas legais por milhão de habitantes, e mesmo assim tem 60 mil homicídios por ano. Os Estados Unidos são um dos países mais permissivos do mundo com armas de fogo, têm o maior índice de homicídios do mundo desenvolvido e muitos casos de massacres em lugares públicos. Ainda assim, têm índice de homicídios bem menor do que o do Brasil. E os Estados Unidos tem a maior desigualdade da distribuição de renda do mundo desenvolvido. As vizinhas Alemanha e Holanda têm baixíssimo índice de homicídios. Os dois países têm legislações bem diferentes sobre posse de arma de fogo por cidadãos comuns. A Alemanha é mais permissiva. A Holanda é mais proibitiva. O que estes dois países têm em comum: baixa desigualdade e baixa pobreza.

Uma maior facilidade de possuir armas de fogo legalmente em um país violento como o Brasil poderia enfraquecer o discurso do “cidadão que não tem como se defender dos delinquentes”, e, dessa forma, diminuir a aceitação de torturas e execuções sumárias praticadas por policiais. É de se esperar, infelizmente, que se a polícia for a única defesa possível contra o crime, muita gente vai aceitar que a polícia faça qualquer coisa.

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O que esperar das eleições municipais de 2016?

A campanha para as eleições municipais de 2016 começou em 16 de agosto e ganhará mais evidência depois das Olimpíadas e da votação do impeachment no Senado.

Desde 1988, o Brasil realiza de quatro em quatro anos pleito simultâneo em todos os municípios do Brasil. A maioria das eleições municipais antecipou tendências para as eleições presidenciais que ocorreram um ou dois anos depois. Em 1988, o governo Sarney já era muito impopular. Portanto, o PMDB, que naquele tempo era o centro, teve um desempenho muito ruim nas cidades grandes, e a esquerda e a direita tiveram desempenho bom. O PT ganhou em Porto Alegre, Vitória, São Paulo, Campinas, Santos e muitas cidades no ABCD. O PDT ganhou no Rio de Janeiro. O PFL ganhou em Recife, Maceió e João Pessoa. As eleições municipais de 1988 anteciparam a polarização esquerda/direita que ocorreria na eleição presidencial de 1989.

Em 1992, não houve um claro vencedor. A direita venceu em São Paulo, com Paulo Maluf, e no Rio de Janeiro, com César Maia, mesmo tendo ocorrido o pleito pouco depois do impeachment do Collor. É que a direita era pulverizada, o pequeno PRN era apenas um dos muitos partidos de direita. Em compensação, o PT manteve Porto Alegre e ainda venceu em Belo Horizonte, Goiânia e Rio Branco. Sem vencedor claro, o pleito de 1992 não foi um sinal tão claro do que ocorreria na eleição presidencial de 1994.

Em 1996, os partidos da coalizão conservadora que apoiava o então presidente Fernando Henrique Cardoso tiveram esmagadora vitória, antecipando a reeleição no primeiro turno do então presidente, ocorrida dois anos depois.

Em 2000, o PT elegeu prefeitos em seis capitais, São Paulo, Porto Alegre, Aracaju, Recife, Goiânia e Belém, e ainda elegeu prefeitos de cidades grandes do interior, como Campinas e Ribeirão Preto, e também do ABCD. Dois anos depois, Lula foi eleito presidente com enorme margem.

Em 2004, houve antecipação do realinhamento ocorrido na eleição presidencial de 2006. O PT perdeu várias prefeituras de municípios grandes do Sul e do Sudeste, e ganhou várias prefeituras de municípios pequenos do Norte e do Nordeste.

Em 2008, os partidos que eram da base lulista, como o PT, o PMDB e o PSB elegeram muitos prefeitos onde Dilma teria bom desempenho em 2010, e os partidos da oposição de direita, como o PSDB e o DEM elegeram prefeitos onde Serra teria bom desempenho.

 As eleições municipais de 2012 fugiram deste padrão. Nessas eleições, foi enfraquecida a polarização do Brasil pobre do Norte e do Nordeste lulista e Brasil rico do Sul e do Sudeste anti-lulista. O PSDB e o DEM tiveram várias vitórias no Norte e no Nordeste. O PT elegeu prefeitos em vários municípios com grande população de classe média no Centro Sul, como São Paulo, São José dos Campos, Uberlândia, Goiânia, Anápolis e Niterói. Embora não tenha sido a classe média a principal responsável por estas vitórias. No Rio de Janeiro, o candidato com apoio oficial do PT, Eduardo Paes, derrotou o candidato com apoio informal de militantes do PT, Marcelo Freixo, que surpreendeu com o bom desempenho. De qualquer maneira, as eleições municipais de 2012 sinalizaram uma suavização da polarização de 2006 entre o Brasil pobre lulista e o Brasil rico anti-lulista. Dois anos depois, na eleição presidencial, a polarização de 2006 voltou a ser exacerbada, deixando as eleições municipais de 2012 como um ponto fora da curva.

E o que esperar de 2016? Esta é a eleição mais esquecida de todas, por causa do impeachment da Dilma, das Olimpíadas no Brasil e do encurtamento do período de campanha de 90 para 45 dias.

Estas eleições terão mudanças para melhor e para pior. A mudança para melhor foi produzida pelo Supremo Tribunal Federal: a proibição do financiamento de campanha por pessoas jurídicas. A mudança para pior foi produzida pelo Congresso Nacional: a proibição da participação nos debates de candidatos de partidos com menos de nove deputados. O número de deputados estabelecido como barreira foi escolhido especificamente para tirar o PSOL dos debates. Os deputados que mais apoiaram esta lei foram os que mais apoiam o financiamento de campanha por pessoas jurídicas. Pode ter sido uma retaliação contra o PSOL, pelo fato deste partido ter feito campanha contra esta forma de financiamento. Destaca-se também o fato dos propositores desta mudança terem sido deputados do Rio de Janeiro, estado que tem a capital onde o PSOL tem um concorrente forte, o Marcelo Freixo.

O financiamento de campanha por pessoas jurídicas é um excremento que suja a democracia. Faz quem tem dinheiro ter mais votos, desrespeitando o princípio da igualdade. O financiamento exclusivo por pessoas físicas, limitado a mil reais por pessoa torna as campanhas mais democráticas. Mas o fim do financiamento por pessoas jurídicas não está garantido. O Congresso pode votar uma emenda constitucional reestabelecendo esta forma de financiamento. Quando isto estiver próximo de acontecer, partidos de esquerda e movimentos sociais devem se mobilizar para organizar resistência.

O encurtamento do período de campanha de 90 para 45 dias foi uma mudança positiva. Três meses eram um período excessivamente longo. O encurtamento gera um barateamento das campanhas.

E como estão as campanhas?

Em São Paulo, o atual prefeito Fernando Haddad disputa a reeleição. Não está bem nas pesquisas. Vem acontecendo com ele o oposto do que aconteceu com Lula. Em 2002, Lula foi eleito com votação razoável da classe média. A reeleição em 2006 dependeu da maioria esmagadora que ele teve entre os muito pobres. Fernando Haddad foi eleito em 2012 tendo a maioria esmagadora dos votos dos muito pobres. Atualmente, seu desempenho menos ruim nas pesquisas está na classe média. Normalmente, candidato à reeleição vê aumento de sua aprovação e intenção de voto durante o período de horário eleitoral gratuito. Isto pode até acontecer com Haddad. O problema de atual prefeito é que ele está começando em um patamar muito baixo.

O PSDB, na sua primária, deu a candidatura a João Dória, um milionário/celebridade de televisão assim como o candidato a presidência dos EUA Donald Trump. As semelhanças com Donald Trump não param por aqui. Ambos irritaram o establishment dos seus partidos. Mas ambos representam melhor a própria base eleitoral de seus partidos do que o establishment representa. Intelectuais ex-querdistas tiveram grande importância na fundação do PSDB. Nos últimos dez anos, o discurso de campanha do PSDB está mais alinhado com quem gosta da Revista Veja (e agora da Isto É) do que com quem gosta de livros. O partido representa muito mais uma elite de dinheiro do que uma elite de intelecto. João Dória é muito mais afinado com isso do que Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Devemos, portanto, elogiar a sinceridade da decisão dos militantes do PSDB na primária. João Dória não está indo bem nas pesquisas como Haddad, e assim como o prefeito, tem desempenho menos pior na classe média.

Além do Haddad, há outra candidatura de esquerda: a da ex-prefeita Luiza Erundina. Pesquisas colocam a intenção de voto dela nos dois dígitos. Sua intenção de voto também é melhor entre a classe média do que entre os pobres. O desempenho de Erundina em São Paulo, assim como o desempenho de Marcelo Freixo no Rio de Janeiro, e de Edmílson Rodriguez em Belém, mostra que o PSOL tem potencial para ter boa votação quando decide se candidatar para valer, com a intenção de realmente exercer o mandato para o qual está concorrendo. As candidaturas presidenciais de Plínio em 2010 e de Luciana Genro em 2014, assim como a candidatura de Gilberto Maringoni para o governo de São Paulo em 2014, eram muito mais candidaturas de voto de protesto, com intenção de fazer discurso bonito e eleger alguns deputados. Em 2016, até Luciana Genro se propôs a concorrer de verdade, e vem bem nas pesquisas de Porto Alegre.

Os candidatos com melhor intenção de voto entre os pobres são o Celso Russomano e a Marta. Russomano foi o cavalo paraguaio da eleição de 2012 e pode repetir o feito agora. Marta surpreendeu pelo bom desempenho nas primeiras pesquisas. Eu pensava antes que quem saía do PT pela direita nunca teria sucesso eleitoral, porque muita gente de direita pensa que “uma vez petralha, sempre petralha”. Marina Silva e Fernando Gabeira ficaram só no quase, Cristóvam Buarque só teve sucesso no Legislativo, Soninha e Eduardo Jorge foram para o ostracismo. Marta pode ter destino diferente. Aumentaria a probabilidade de ter o voto “mal menor” da esquerda em um eventual segundo turno contra João Dória ou Celso Russomano se não tivesse vetado a participação da Erundina nos debates. O desempenho de Marta e Erundina nas pesquisas mostra que a onda de rejeição ao PT não é necessariamente uma onda de apoio ao reacionarismo.

Em São Paulo, o PRB vem liderando as primeiras pesquisas com Celso Russomano. No Rio de Janeiro, o PRB vem liderando as primeiras pesquisas com Marcelo Crivella. A eleição para prefeito do Rio está bem pulverizada. Tem três candidatos de esquerda: Jandira Feghalli, do PCdoB, apoiada também pelo PT, Marcelo Freixo, do PSOL, apoiado também pelo PCB, e Alessandro Molon, da Rede (a fundadora da Rede não é de esquerda, mas o Molon é). Alguns defendem o velho clichê tenkiuniaiskerda. Eu não concordo. Política não é uma ciência exata. Em política 1+1+1 não é necessariamente igual a 3. A candidatura única de qualquer um deles, com apoio dos outros dois, não contaria necessariamente com os votos dos eleitores dos outros dois. Se a candidatura única de esquerda for a da Jandira Feghalli, alguns eleitores de Marcelo Freixo e Alessandro Molon poderiam ter resistência em votar em alguém apoiado por PT e Lula. Se a candidatura única de esquerda for a do Marcelo Freixo, alguns eleitores de Jandira Feghalli e Alessandro Molon poderiam ter receio de votar em um candidato de um partido com escassa experiência de Poder Executivo, embora conforme mencionado anteriormente, Freixo pretende fazer uma candidatura de verdade, e não uma anti-candidatura, como alguns de seu partido já fizeram no passado. Se o candidato único de esquerda for o Alessandro Molon, alguns eleitores do PT, do PCdoB e do PSOL poderiam ter resistência em votar em candidato do partido da Marina Silva. Além disso, três candidatos percorrendo as ruas defendendo bandeiras de esquerda é mais do que um. O que pode acontecer é se, por exemplo, na véspera do primeiro turno, pesquisas apontarem Crivella liderando e um dos candidatos de esquerda disputando a vaga no segundo turno com Pedro Paulo, alguns dos simpatizantes dos outros dois candidatos de esquerda darem o voto útil. Se a esquerda tem três candidatos, a direita tem cinco: Marcelo Crivella, Pedro Paulo, Carlos Osório, Índio da Costa e Flávio Bolsonaro.

De qualquer forma, os três candidatos de esquerda combinaram em não se atacar durante a campanha e dar apoio àquele que entre eles, passar para o segundo turno. Eu vi o debate entre os três candidatos de esquerda, realizado no Teatro Oi Casagrande, no Leblon. Houve bastante convergência de propostas, bastante convergência de diagnóstico dos problemas da atual gestão municipal. Ainda assim, de forma respeitosa e indireta, cada um dos três candidatos tentou diferenciar seu produto, mostrar o que tem que os outros dois não têm. Jandira Feghalli quis mostrar que é a única candidata de partidos que têm experiência com Poder Executivo. Marcelo Freixo quis mostrar que é o único que foi sempre anti-PMDB, que não foi anti-PMDB apenas depois do impeachment da Dilma. Molon quis mostrar que é entre os três, aquele que em um segundo turno teria mais chance de conquistar votos de pessoas que não são de esquerda.

O cenário de 2012 no Rio de Janeiro era diferente do cenário de 2016. Em 2012, Eduardo Paes concorria à reeleição com a popularidade em alta. Ainda existia otimismo em relação ao Rio de Janeiro, ainda existia à crença de que a cidade estava “dando a volta por cima”, existia ainda a expectativa com as Olimpíadas que estavam por vir. Atualmente, o PMDB tem um candidato poste. Hoje se sabe que as experiências com postes não foram muito bem sucedidas. O que Eduardo Paes tinha de entregar, entregou no primeiro mandato. No segundo mandato, acumularam-se obras com defeitos. A nova região portuária ficou bonita, mas houve perda de oportunidade para instalar moradia popular perto do centro (este texto explica bem). O governo estadual, do mesmo partido, não paga servidores em dia. Se o cenário atual não está melhor para o PMDB do que estava em 2012, também não está para o PSOL. Naquele ano, Marcelo Freixo teve sua melhor votação na Zona Sul. Em algumas zonas eleitorais da Zona Sul, superou a votação que Dilma teve no segundo turno em 2010. Ou seja, houve eleitores de Marcelo Freixo em 2012 que votaram em José Serra para presidente em 2010. Freixo teve eleitores que votaram em sua pessoa, e não em seu partido, eleitores que não votam habitualmente em partidos de esquerda. Com a mudança de cenário político do Brasil, não é certo se Freixo conseguirá manter todos estes eleitores. Assim como a eleição municipal de São Paulo, a eleição municipal do Rio de Janeiro também está bastante incerta.

Quanto aos outros municípios brasileiros, não tenho informações suficientes para discutir. Por enquanto, não é possível ter a menor ideia nem de como serão os resultados das eleições municipais de 2016, nem se 2016 será parecido com 1988, 1996, 2000, 2004 e 2008, indicando tendências para a eleição presidencial seguinte, ou se será igual 2012, indicando uma tendência oposta à que ocorreria na eleição presidencial dois anos depois.

Devemos prestar muita atenção não apenas às eleições para prefeito, como também às eleições para vereador. Com tantas câmaras municipais no Brasil votando projetos absurdos de bancada fundamentalista religiosa, como a proibição da “ideologia de gênero” nas escolas ou como os projetos do Escola Sem Partido, é muito importante se engajar em campanhas de candidatos a vereador que têm compromisso com o Estado Laico. É o mínimo que se exige. Deveria ser nada mais que a obrigação, mas… Se tem que lutar por algo tão óbvio, que assim seja.

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Tentando entender Galvão Bueno

Muitos provavelmente já tiveram esta dúvida: “Todo mundo acha que o Galvão Bueno é um pé no saco e que ele fala muita merda. Como é que ele continua sendo o principal narrador esportivo da emissora de televisão aberta de maior audiência no Brasil? Se ele é um pé no saco e fala muita merda, isto não daria problema com audiência e consequentemente com patrocinadores?”.

Uma dúvida parecida com aquela que algumas pessoas tinham em 2010, quando Lula tinha 80% de aprovação. “Essas pesquisas devem estar erradas. Todo mundo com quem convivo diariamente odeia o Lula. Como é que ele pode ter 80% de aprovação?”. Normalmente, quem fazia este tipo de indagação eram pessoas de classe média que conviviam apenas com pessoas de classe média. Antes de falar bobagem, deveriam ter consciência de que viviam em um círculo social que não era uma amostra representativa da população brasileira. Isto deveria ser o mínimo para quem se considera integrante da parcela mais culta da população brasileira.

No caso de Galvão Bueno, a situação é um pouco diferente. Ele nunca disputou eleição. Não há pesquisas de opinião sobre a popularidade dele. Mas é possível deduzir que algumas pessoas já gostaram dele, uma vez que uma emissora de televisão, que é uma empresa privada e lucra mais quando tem mais audiência, o mantém como principal narrador esportivo.

Galvão Bueno começou a narrar esportes no rádio em 1974. Pouco depois, virou narrador na TV Bandeirantes. Narrou a temporada de Fórmula 1 de 1980, a única transmitida por esta emissora. Quando a Globo voltou a transmitir Fórmula 1, contratou Galvão Bueno. Em seu início na Rede Globo, quando ainda dividia espaço com Luciano do Valle, tinha uma posição secundária. Narrava corridas de Fórmula 1 e jogos de Copa do Mundo de futebol que não eram do Brasil. Aos poucos, Galvão Bueno foi conquistando a posição de narrador principal. O último jogo do Brasil de Copa do Mundo não narrado pelo Galvão Bueno na Globo foi a derrota do Brasil para a França nos pênaltis em 1986, narrada por Osmar Santos. Da estreia do Brasil contra a Suécia na Copa de 1990 até a derrota do Brasil para a Holanda na disputa pelo terceiro lugar em 2014, todos os jogos do Brasil de Copa do Mundo na Globo foram narrados pelo Galvão Bueno. Ele também continuou o mais importante narrador de Fórmula 1 e também o narrador na Globo das modalidades mais importantes das Olimpíadas. Galvão Bueno saiu da Globo apenas em 1992, depois do “eu sabia eu sabia, Senna deixa Berger passar” da decisão do Mundial de Fórmula 1 de 1991. Voltou apenas um ano depois.

Então por que a emissora de televisão aberta de maior audiência no Brasil manteria o narrador pé no saco que só fala merda? Esta pergunta teria uma resposta fácil até meados da década de 2000: quem, em geral, falava que Galvão Bueno era um pé no saco, que ele só falava merda, eram os fãs de esporte, aqueles que acompanhavam esportes, que entendiam de esportes. Mas este público é minoria até mesmo para futebol. Não é para este público que Galvão Bueno narra. É para o público que vê esportes na televisão só de vez em quando, que liga mais para a emoção que o esporte gera do que para seus detalhes técnicos. Aí, Galvão Bueno sabia se dirigir bem para este público por ser um vendedor de emoções. E de fato, até determinado momento, ele sabia transmitir emoções. E tinha voz boa. E não desagradava nenhum estado brasileiro porque sua fala é dessotaquizada. Apenas lendo um texto eu descobri que ele é carioca. Seus Rs e seus Ss não são muito carregados pelo jeito carioca de falar.

Como Galvão Bueno vende emoção e como grande parte da emoção do esporte para os brasileiros é ver alguma vitória canarinha sob o som do Brasil-sil-sil, o ufanismo sempre foi a marca do narrador. Dentro deste ufanismo, o otimismo com a seleção brasileira de futebol e a tentativa de alimentar esperanças sobre o Rubens Barrichello e o Felipe Massa. Até aí, sem problemas. Vários locutores brasileiros são assim. O problema ocorre quando existe a tentativa de transformar o confronto entre brasileiros e estrangeiros em um confronto entre mocinhos e bandidos. Nas narrações de jogos da seleção brasileira de futebol, Galvão Bueno fica muito mais indignado com os erros de arbitragem contra o Brasil, mais raros, do que com os erros de arbitragem a favor do Brasil, mais frequentes. A rivalidade esportiva com a Argentina pode ser saudável se ficar restrita às brincadeiras. O problema é que Galvão Bueno estimula a falsa visão de que os argentinos são mais desleais do que os brasileiros. No futebol, há argentinos que cometem faltas violentas, mas também há brasileiros que fazem isso. Há argentinos que colocam a mão na bola, mas também há brasileiros que fazem isso. Há argentinos que tentam cavar falta, mas também há brasileiros que fazem isso. Há argentinos que fazem cera quando estão ganhando, mas também há brasileiros que fazem isso. O estímulo à tensão entre brasileiros e argentinos feito durante tantos anos por um narrador da emissora de televisão aberta de maior audiência no Brasil pode ter contribuído para um clima de aversão de brasileiros a argentinos, clima que gerou cenas de baixaria entre torcedores brasileiros e argentinos nestes Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em partidas de tênis. Outra consequência negativa do ufanismo de Galvão Bueno atinge potenciais beneficiários. Rubens Barrichello e Felipe Massa foram pilotos com resultados satisfatórios, não é qualquer piloto que chega a dez vitórias. O problema é que ao ter criado expectativas extremamente elevadas sobre estes pilotos brasileiros, Galvão Bueno criou um backlash: como os resultados, mesmo satisfatórios, não corresponderam às expectativas criadas, estes pilotos viraram motivo de piada.

Há aproximadamente dez anos, os defeitos de Galvão Bueno passaram a ser não simplesmente o ufanismo exagerado. O narrador principal da Globo se transformou simplesmente em um puro chato. Não tem mais a voz que tinha antes, não passa mais a emoção que passava antes. Passou a se comportar muitas vezes mais como comentarista do que como narrador. E como comentarista, muitas vezes fala merda (até Piquet observou isso). Mesmo no tempo em que era bom narrador, já fazia comentários ruins, como esta e esta observação sobre o Schumacher. Outra pérola foi esta, quando tentou dar uma de professor de física em uma partida de futebol. Seria injusto esculachar Galvão Bueno por causa de erros como quando não percebeu Prost abandonando uma corrida no box ou quando chamou o Plácido Domingo de Plácido Iglesias, porque errar é humano. Mas insistir em comentários ruins é teimosia. Por causa da insistência em acumular funções de narrador e comentarista, Galvão Bueno já teve desentendimento com vários comentaristas da Globo. Outro defeito dos comentários de Galvão Bueno é a excessiva devoção pelos esportistas com fama de bom moço. Por isso, elogios e mais elogios a Ayrton Senna e Ronaldo Fenômeno. O problema é que o bom mocismo de Ronaldo parecia ser muito mais de fachada do que de verdade.

Atualmente, acredito que até quem não acompanha esportes com tanta frequência considera Galvão Bueno um pé no saco. E como ele ainda continua o narrador esportivo número um da Globo? Bom, há motivos que fazem as pessoas optarem pela Globo independentemente de quem é o narrador. Na última Copa do Mundo, eu vi Brasil e Colômbia pela Sportv, por não aguentar mais o Galvão Bueno. Ouvi gritos de gol vindo da rua antes de ter visto na tela o David Luís cobrar a falta lá dentro. Percebi que a imagem da Sportv era levemente defasada. E talvez a Globo goste de um narrador que vive fazendo propaganda do restante da programação da emissora durante as transmissões esportivas. E de quem defende os interesses da emissora. Galvão Bueno já disse uma vez que a Globo deveria mandar até mais do que manda atualmente no futebol brasileiro, porque é quem paga. Só se esqueceu de que outras emissores já chegaram a oferecer valores iguais por direitos de transmissão.

Pouco depois da Copa do Mundo de 2010, Galvão Bueno entrevistou Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, quando ainda não havia expectativa dele cair. As perguntas foram muito mais leves do que aquelas que outros jornalistas esportivos fariam.

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Como o macarthismo prejudicou a entrada de Keynes nas universidades dos EUA

No meio das discussões sobre o Escola Sem Partido, aproveito para lembrar de uma história sobre como o medo de perigos vermelhos imaginários influenciou a academia. Foi a introdução distorcida do pensamento de Keynes no meio universitário norte americano na segunda metade da década de 1940, período do macarthismo. A paranoia anticomunista impediu a introdução completa do keynesianismo, que acabou entrando no meio universitário norte americano pela metade.

O keynesianismo foi mainstream nos departamentos de economia das universidades norte americanas entre as décadas de 1940 e 1970. Foi introduzido pelo livro-texto Economics: an introductory analysis, escrito por Paul Samuelson em 1948. Este livro-texto introduziu um keynesianismo pasteurizado, com k minúsculo. Recebeu o nome de “síntese neoclássica” porque combinou a microeconomia neoclássica com algumas ideias keynesianas na macroeconomia. Samuelson aceitou a ideia dos neoclássicos de que no longo prazo, a economia se equilibra no pleno emprego, mas considerou no curto prazo, é possível equilíbrio com desemprego porque os preços e salários são rígidos no curto prazo. O livro de Samuelson cortou algumas partes do pensamento original de Keynes, e por isso, a chamada “revolução keynesiana” ficou incompleta.

Mas por que o livro de Samuelson foi o que introduziu o keynesianismo nos Estados Unidos?

Em 1947, o canadense Lori Tarshis havia publicado o livro-texto The Elements of Economics. Este livro apresentava o Keynesianismo com K maiúsculo, preservando as contribuições originais do pensador inglês. Admitia que era possível existir equilíbrio com desemprego involuntário mesmo com total flexibilidade de preços e salários, que a principal causa do desemprego involuntário não era rigidez de preços e salários, e sim a possibilidade de agentes econômicos armazenarem moeda. Tarshis defendeu a ideia de Keynes de que a moeda não é neutra nem no longo prazo e que os agentes vivem em um mundo com incerteza que não pode ser medida em probabilidades. A incerteza poderia fazer com que os agentes retessem moeda ao invés de investir, e, desta forma, poderia haver desemprego mesmo com total flexibilidade de preços e salários.

No início, o livro de Tarshis fez sucesso. Mas pouco depois, por causa do macarthismo que existia naquele tempo, os doadores das principais universidades atacaram o livro de Tarshis por supostamente pregar o socialismo. O ataque ao livro de Tarshis atingiu seu auge em 1951, quando o famoso pensador conservador William Buckley Jr., em seu livro God and Man at Yale, acusou Tarshis de ser inspirado pelo comunismo. As acusações eram ridículas, uma vez que o próprio Keynes rejeitava o comunismo. Mas tiveram influência naquele tempo. O uso do livro de Tarshis declinou e o livro de Samuelson se tornou o principal manual de economia dos Estados Unidos, e, consequentemente, do mundo.

A maneira através da qual Tarshis conheceu o pensamento de Keynes foi diferente da maneira através da qual Samuelson conheceu o pensamento de Keynes. Tarshis foi aluno de Keynes em Cambridge durante a década de 1930. Samuelson conheceu as ideias de Keynes através de “telefone sem fio”. Isto ocorreu quando, em Harvard, Samuelson conheceu Robert Bryce, um canadense que assim como seu compatriota Tarshis, havia sido aluno de Keynes em Cambridge. Saindo desta universidade inglesa, Bryce passou pela London School of Economics e depois foi para Harvard para ensinar o que ele havia aprendido com Keynes, antes da publicação da obra principal do pensador inglês, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.

Enfim, Samuelson, com sua síntese neoclássica, salvou o keynesianismo da fogueira do macarthismo. Porém, este salvamento não ocorreu sem preço. A chamada “revolução keynesiana” ficou pela metade. O keynesianismo de Tarshis, mais fiel ao original, se tornou um pensamento alternativo, restrito a um número bastante reduzido de economistas. O keynesianismo de Samuelson foi mainstream até a década de 1970, até ser atacado por monetaristas e novos clássicos justamente pela incompatibilidade da macro keynesiana com a micro neoclássica. Um restinho de keynesianismo foi preservado no mainstream acadêmico quando surgiram os novos keynesianos, que pouco tinham de keynesianos, na década de 1980. Mankiw, Blanchard, Fischer e outros encontraram explicações microeconômicas para a rigidez de preços e salários (ver este texto, onde resumi as diferentes correntes de pensamento econômico).

Clássicos, Samuelson, monetaristas, novos clássicos e novos keynesianos defendiam os dogmas clássicos que Keynes desejava derrubar: a neutralidade da moeda no longo prazo, a substituição perfeita entre moeda e outros bens, e a tendência ao equilíbrio com pleno emprego em caso de preços e salários perfeitamente flexíveis.

Toda esta história exposta neste texto é explicada em mais detalhes no artigo Post World War II politics and Keynes’s aborted revolutionary economic theory, escrito pelo economista pós keynesiano Paul Davidson em 2008. Este autor considera que a remoção das ideias mais revolucionárias do Keynes e a preservação dos dogmas clássicos tornou a teoria econômica mainstream incapaz de explicar a crise gerada pelo sub prime em 2008, assim como outros problemas da economia mundial no início do século XXI.

Esta história nos mostra como a política faz algumas ideias serem mais bem aceitas dentro da academia do que outras. E também como a dependência das universidades de doações feitas por ricos pode criar censura mesmo sem coerção física do poder público.

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