Como o macarthismo prejudicou a entrada de Keynes nas universidades dos EUA

No meio das discussões sobre o Escola Sem Partido, aproveito para lembrar de uma história sobre como o medo de perigos vermelhos imaginários influenciou a academia. Foi a introdução distorcida do pensamento de Keynes no meio universitário norte americano na segunda metade da década de 1940, período do macarthismo. A paranoia anticomunista impediu a introdução completa do keynesianismo, que acabou entrando no meio universitário norte americano pela metade.

O keynesianismo foi mainstream nos departamentos de economia das universidades norte americanas entre as décadas de 1940 e 1970. Foi introduzido pelo livro-texto Economics: an introductory analysis, escrito por Paul Samuelson em 1948. Este livro-texto introduziu um keynesianismo pasteurizado, com k minúsculo. Recebeu o nome de “síntese neoclássica” porque combinou a microeconomia neoclássica com algumas ideias keynesianas na macroeconomia. Samuelson aceitou a ideia dos neoclássicos de que no longo prazo, a economia se equilibra no pleno emprego, mas considerou no curto prazo, é possível equilíbrio com desemprego porque os preços e salários são rígidos no curto prazo. O livro de Samuelson cortou algumas partes do pensamento original de Keynes, e por isso, a chamada “revolução keynesiana” ficou incompleta.

Mas por que o livro de Samuelson foi o que introduziu o keynesianismo nos Estados Unidos?

Em 1947, o canadense Lori Tarshis havia publicado o livro-texto The Elements of Economics. Este livro apresentava o Keynesianismo com K maiúsculo, preservando as contribuições originais do pensador inglês. Admitia que era possível existir equilíbrio com desemprego involuntário mesmo com total flexibilidade de preços e salários, que a principal causa do desemprego involuntário não era rigidez de preços e salários, e sim a possibilidade de agentes econômicos armazenarem moeda. Tarshis defendeu a ideia de Keynes de que a moeda não é neutra nem no longo prazo e que os agentes vivem em um mundo com incerteza que não pode ser medida em probabilidades. A incerteza poderia fazer com que os agentes retessem moeda ao invés de investir, e, desta forma, poderia haver desemprego mesmo com total flexibilidade de preços e salários.

No início, o livro de Tarshis fez sucesso. Mas pouco depois, por causa do macarthismo que existia naquele tempo, os doadores das principais universidades atacaram o livro de Tarshis por supostamente pregar o socialismo. O ataque ao livro de Tarshis atingiu seu auge em 1951, quando o famoso pensador conservador William Buckley Jr., em seu livro God and Man at Yale, acusou Tarshis de ser inspirado pelo comunismo. As acusações eram ridículas, uma vez que o próprio Keynes rejeitava o comunismo. Mas tiveram influência naquele tempo. O uso do livro de Tarshis declinou e o livro de Samuelson se tornou o principal manual de economia dos Estados Unidos, e, consequentemente, do mundo.

A maneira através da qual Tarshis conheceu o pensamento de Keynes foi diferente da maneira através da qual Samuelson conheceu o pensamento de Keynes. Tarshis foi aluno de Keynes em Cambridge durante a década de 1930. Samuelson conheceu as ideias de Keynes através de “telefone sem fio”. Isto ocorreu quando, em Harvard, Samuelson conheceu Robert Bryce, um canadense que assim como seu compatriota Tarshis, havia sido aluno de Keynes em Cambridge. Saindo desta universidade inglesa, Bryce passou pela London School of Economics e depois foi para Harvard para ensinar o que ele havia aprendido com Keynes, antes da publicação da obra principal do pensador inglês, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.

Enfim, Samuelson, com sua síntese neoclássica, salvou o keynesianismo da fogueira do macarthismo. Porém, este salvamento não ocorreu sem preço. A chamada “revolução keynesiana” ficou pela metade. O keynesianismo de Tarshis, mais fiel ao original, se tornou um pensamento alternativo, restrito a um número bastante reduzido de economistas. O keynesianismo de Samuelson foi mainstream até a década de 1970, até ser atacado por monetaristas e novos clássicos justamente pela incompatibilidade da macro keynesiana com a micro neoclássica. Um restinho de keynesianismo foi preservado no mainstream acadêmico quando surgiram os novos keynesianos, que pouco tinham de keynesianos, na década de 1980. Mankiw, Blanchard, Fischer e outros encontraram explicações microeconômicas para a rigidez de preços e salários (ver este texto, onde resumi as diferentes correntes de pensamento econômico).

Clássicos, Samuelson, monetaristas, novos clássicos e novos keynesianos defendiam os dogmas clássicos que Keynes desejava derrubar: a neutralidade da moeda no longo prazo, a substituição perfeita entre moeda e outros bens, e a tendência ao equilíbrio com pleno emprego em caso de preços e salários perfeitamente flexíveis.

Toda esta história exposta neste texto é explicada em mais detalhes no artigo Post World War II politics and Keynes’s aborted revolutionary economic theory, escrito pelo economista pós keynesiano Paul Davidson em 2008. Este autor considera que a remoção das ideias mais revolucionárias do Keynes e a preservação dos dogmas clássicos tornou a teoria econômica mainstream incapaz de explicar a crise gerada pelo sub prime em 2008, assim como outros problemas da economia mundial no início do século XXI.

Esta história nos mostra como a política faz algumas ideias serem mais bem aceitas dentro da academia do que outras. E também como a dependência das universidades de doações feitas por ricos pode criar censura mesmo sem coerção física do poder público.

red keynes

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