Os defensores do governo Temer e a anedota do suco e do chopp

Há uma conhecida anedota que é assim: um freguês bem malandrão entra no bar. Ele pede um suco de laranja. Quando o suco chega, ele não bebe, devolve imediatamente, e pede para servir um chopp no lugar do suco. Bebe o chopp e tenta sair sem pagar a conta.

– Ei, você não pagou o chopp – diz o garçom.

– Óbvio – responde o freguês – troquei pelo suco.

– Mas você não pagou o suco.

– Óbvio, eu não bebi.

 

Esta é a mesma lógica de quem defende a legitimidade do governo de Michel Temer. Quem faz isso costuma começar dizendo que o processo de impeachment tem base legal, que houve crime de responsabilidade, que “pedalada é grave” (mesmo sem necessariamente saber descrever o que é isso), que os decretos de crédito suplementar são ilegais, que Dilma tomou crédito de bancos públicos. Quando se responde que os créditos suplementares não necessariamente aumentam gastos do governo, que a meta fiscal é anual, que vários governadores também fizeram isso, que atrasar pagamento a bancos não é a mesma coisa que tomar crédito, que é ridículo aos olhos do mundo uma chefe de Estado ter mandato interrompido por causa da forma com que manejou o orçamento, que mesmo quem defende arduamente o impeachment, se for sincero, está cagando para as pedaladas, a resposta que se ouve habitualmente é:

– Tá, mesmo se você assumir que as pedaladas são uma base legal fraca, o escândalo de corrupção da Petrobras é uma base moral muito forte, o PT perdeu a condição de continuar governando o país.

Aí se responde que “base moral” para impeachment não existe, que impeachment de partido não existe, que Dilma não participou deste esquema de corrupção, que se houvesse prova disso, o pedido de impeachment teria sido fundamentado nisso, e que mesmo se aceitássemos o argumento da base moral, aí não só o PT, como o PMDB também não teria condição de continuar governando o país, uma vez que políticos do PMDB também se beneficiaram do esquema, e também políticos do PP, outro partido que integra o atual governo. Se PSDB e DEM, partidos que eram oposição ao governo Dilma, levassem a sério a afirmativa de que “o escândalo de corrupção da Petrobras foi o maior escândalo de corrupção da história da humanidade”, certamente não se sentiriam confortáveis em compor um governo com o PMDB e com o PP, excluindo apenas um dos três partidos principais do esquema. Se ainda assim insistissem no impeachment, uma atitude minimamente decente seria não participar do governo Temer, o que forçaria a renúncia por falta de apoio, e aceitar uma nova eleição. Mas não, né? Povo votando é sempre perigoso, né? Poderia ser eleito um governo não muito comprometido com as tais “medidas impopulares necessárias”, né? Um Cirão da Massa poderia ser eleito, né?

– Tá, mas o impeachment da Dilma não foi baseado na corrupção na Petrobras, e sim nas pedaladas, que foram um crime de responsabilidade grave.

Os créditos suplementares não necessariamente aumentam gastos do governo, a meta fiscal é anual, vários governadores também fizeram isso, atrasar pagamento a bancos não é a mesma coisa que tomar crédito.

– Tá, mas a corrupção na Petrobras…

E assim vai…

chopp suco de laranja

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