Tentando entender Galvão Bueno

Muitos provavelmente já tiveram esta dúvida: “Todo mundo acha que o Galvão Bueno é um pé no saco e que ele fala muita merda. Como é que ele continua sendo o principal narrador esportivo da emissora de televisão aberta de maior audiência no Brasil? Se ele é um pé no saco e fala muita merda, isto não daria problema com audiência e consequentemente com patrocinadores?”.

Uma dúvida parecida com aquela que algumas pessoas tinham em 2010, quando Lula tinha 80% de aprovação. “Essas pesquisas devem estar erradas. Todo mundo com quem convivo diariamente odeia o Lula. Como é que ele pode ter 80% de aprovação?”. Normalmente, quem fazia este tipo de indagação eram pessoas de classe média que conviviam apenas com pessoas de classe média. Antes de falar bobagem, deveriam ter consciência de que viviam em um círculo social que não era uma amostra representativa da população brasileira. Isto deveria ser o mínimo para quem se considera integrante da parcela mais culta da população brasileira.

No caso de Galvão Bueno, a situação é um pouco diferente. Ele nunca disputou eleição. Não há pesquisas de opinião sobre a popularidade dele. Mas é possível deduzir que algumas pessoas já gostaram dele, uma vez que uma emissora de televisão, que é uma empresa privada e lucra mais quando tem mais audiência, o mantém como principal narrador esportivo.

Galvão Bueno começou a narrar esportes no rádio em 1974. Pouco depois, virou narrador na TV Bandeirantes. Narrou a temporada de Fórmula 1 de 1980, a única transmitida por esta emissora. Quando a Globo voltou a transmitir Fórmula 1, contratou Galvão Bueno. Em seu início na Rede Globo, quando ainda dividia espaço com Luciano do Valle, tinha uma posição secundária. Narrava corridas de Fórmula 1 e jogos de Copa do Mundo de futebol que não eram do Brasil. Aos poucos, Galvão Bueno foi conquistando a posição de narrador principal. O último jogo do Brasil de Copa do Mundo não narrado pelo Galvão Bueno na Globo foi a derrota do Brasil para a França nos pênaltis em 1986, narrada por Osmar Santos. Da estreia do Brasil contra a Suécia na Copa de 1990 até a derrota do Brasil para a Holanda na disputa pelo terceiro lugar em 2014, todos os jogos do Brasil de Copa do Mundo na Globo foram narrados pelo Galvão Bueno. Ele também continuou o mais importante narrador de Fórmula 1 e também o narrador na Globo das modalidades mais importantes das Olimpíadas. Galvão Bueno saiu da Globo apenas em 1992, depois do “eu sabia eu sabia, Senna deixa Berger passar” da decisão do Mundial de Fórmula 1 de 1991. Voltou apenas um ano depois.

Então por que a emissora de televisão aberta de maior audiência no Brasil manteria o narrador pé no saco que só fala merda? Esta pergunta teria uma resposta fácil até meados da década de 2000: quem, em geral, falava que Galvão Bueno era um pé no saco, que ele só falava merda, eram os fãs de esporte, aqueles que acompanhavam esportes, que entendiam de esportes. Mas este público é minoria até mesmo para futebol. Não é para este público que Galvão Bueno narra. É para o público que vê esportes na televisão só de vez em quando, que liga mais para a emoção que o esporte gera do que para seus detalhes técnicos. Aí, Galvão Bueno sabia se dirigir bem para este público por ser um vendedor de emoções. E de fato, até determinado momento, ele sabia transmitir emoções. E tinha voz boa. E não desagradava nenhum estado brasileiro porque sua fala é dessotaquizada. Apenas lendo um texto eu descobri que ele é carioca. Seus Rs e seus Ss não são muito carregados pelo jeito carioca de falar.

Como Galvão Bueno vende emoção e como grande parte da emoção do esporte para os brasileiros é ver alguma vitória canarinha sob o som do Brasil-sil-sil, o ufanismo sempre foi a marca do narrador. Dentro deste ufanismo, o otimismo com a seleção brasileira de futebol e a tentativa de alimentar esperanças sobre o Rubens Barrichello e o Felipe Massa. Até aí, sem problemas. Vários locutores brasileiros são assim. O problema ocorre quando existe a tentativa de transformar o confronto entre brasileiros e estrangeiros em um confronto entre mocinhos e bandidos. Nas narrações de jogos da seleção brasileira de futebol, Galvão Bueno fica muito mais indignado com os erros de arbitragem contra o Brasil, mais raros, do que com os erros de arbitragem a favor do Brasil, mais frequentes. A rivalidade esportiva com a Argentina pode ser saudável se ficar restrita às brincadeiras. O problema é que Galvão Bueno estimula a falsa visão de que os argentinos são mais desleais do que os brasileiros. No futebol, há argentinos que cometem faltas violentas, mas também há brasileiros que fazem isso. Há argentinos que colocam a mão na bola, mas também há brasileiros que fazem isso. Há argentinos que tentam cavar falta, mas também há brasileiros que fazem isso. Há argentinos que fazem cera quando estão ganhando, mas também há brasileiros que fazem isso. O estímulo à tensão entre brasileiros e argentinos feito durante tantos anos por um narrador da emissora de televisão aberta de maior audiência no Brasil pode ter contribuído para um clima de aversão de brasileiros a argentinos, clima que gerou cenas de baixaria entre torcedores brasileiros e argentinos nestes Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em partidas de tênis. Outra consequência negativa do ufanismo de Galvão Bueno atinge potenciais beneficiários. Rubens Barrichello e Felipe Massa foram pilotos com resultados satisfatórios, não é qualquer piloto que chega a dez vitórias. O problema é que ao ter criado expectativas extremamente elevadas sobre estes pilotos brasileiros, Galvão Bueno criou um backlash: como os resultados, mesmo satisfatórios, não corresponderam às expectativas criadas, estes pilotos viraram motivo de piada.

Há aproximadamente dez anos, os defeitos de Galvão Bueno passaram a ser não simplesmente o ufanismo exagerado. O narrador principal da Globo se transformou simplesmente em um puro chato. Não tem mais a voz que tinha antes, não passa mais a emoção que passava antes. Passou a se comportar muitas vezes mais como comentarista do que como narrador. E como comentarista, muitas vezes fala merda (até Piquet observou isso). Mesmo no tempo em que era bom narrador, já fazia comentários ruins, como esta e esta observação sobre o Schumacher. Outra pérola foi esta, quando tentou dar uma de professor de física em uma partida de futebol. Seria injusto esculachar Galvão Bueno por causa de erros como quando não percebeu Prost abandonando uma corrida no box ou quando chamou o Plácido Domingo de Plácido Iglesias, porque errar é humano. Mas insistir em comentários ruins é teimosia. Por causa da insistência em acumular funções de narrador e comentarista, Galvão Bueno já teve desentendimento com vários comentaristas da Globo. Outro defeito dos comentários de Galvão Bueno é a excessiva devoção pelos esportistas com fama de bom moço. Por isso, elogios e mais elogios a Ayrton Senna e Ronaldo Fenômeno. O problema é que o bom mocismo de Ronaldo parecia ser muito mais de fachada do que de verdade.

Atualmente, acredito que até quem não acompanha esportes com tanta frequência considera Galvão Bueno um pé no saco. E como ele ainda continua o narrador esportivo número um da Globo? Bom, há motivos que fazem as pessoas optarem pela Globo independentemente de quem é o narrador. Na última Copa do Mundo, eu vi Brasil e Colômbia pela Sportv, por não aguentar mais o Galvão Bueno. Ouvi gritos de gol vindo da rua antes de ter visto na tela o David Luís cobrar a falta lá dentro. Percebi que a imagem da Sportv era levemente defasada. E talvez a Globo goste de um narrador que vive fazendo propaganda do restante da programação da emissora durante as transmissões esportivas. E de quem defende os interesses da emissora. Galvão Bueno já disse uma vez que a Globo deveria mandar até mais do que manda atualmente no futebol brasileiro, porque é quem paga. Só se esqueceu de que outras emissores já chegaram a oferecer valores iguais por direitos de transmissão.

Pouco depois da Copa do Mundo de 2010, Galvão Bueno entrevistou Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, quando ainda não havia expectativa dele cair. As perguntas foram muito mais leves do que aquelas que outros jornalistas esportivos fariam.

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