As semelhanças entre João Dória e Donald Trump

São várias as semelhanças entre Donald Trump, candidato a presidente dos Estados Unidos pelo Partido Republicano, e João Dória, candidato a prefeito de São Paulo pelo PSDB. Os dois são inexperientes na política, fizeram fama como empresários e celebridades da televisão, praticam o discurso do “se eu sou empresário, eu sei realizar” e ganharam as primárias de seus partidos contra a vontade das principais lideranças de seus partidos.

E por falar no último item, mais uma semelhança: não são acidentes dentro de seus respectivos partidos. Eles são uma representação mais realista do pensamento do eleitorado médio de seus partidos do que as lideranças tradicionais são. Deve ter sido o provável motivo de terem ganhado as primárias, nas quais conta a opinião do eleitor comum, e não das lideranças partidárias.

Donald Trump foi o primeiro candidato republicano a praticar discursos abertamente xenofóbicos contra latinos e muçulmanos. Mas há muito tempos os republicanos vêm tentando ganhar eleições aproveitando o ressentimento de brancos não latinos com o avanço dos direitos das minorias, com programas sociais que beneficiam os muito pobres, e consequentemente, as minorias, e com o declínio da participação da população branca não latina no total da população. Mas antes de Donald Trump, os líderes republicanos não praticavam preconceito explícito. De boca para fora, o Partido Republicano continuava a ser apenas o partido do small-government. Mas através do uso da linguagem codificada, conhecida como dog-whistle, os republicanos habitualmente faziam apelos a brancos não latinos que odiavam quem era diferente deles. Exemplos disso são a exploração política do caso da Welfare Queen, o discurso de defesa que Reagan fez dos “direitos dos estados” no Mississippi (estado que considera segregação um “direito dos estados”), as teorias sobre o local de nascimento do Obama e a pronúncia por extenso do nome do meio do Obama.

Donald Trump simplesmente disse explicitamente o que grande parte dos eleitores republicanos quer ouvir faz tempo. Pode defender tranquilamente a preservação do Social Security e do Medicare, porque grande parte dos eleitores republicanos não é contra Estado de Bem-Estar Social para quem está dentro do mercado de trabalho. Esses eleitores repudiam os programas sociais para “aquelas pessoas”, os não integrados no mercado de trabalho, grupo em que há maior proporção de membros de minorias do que na população como um todo.

João Dória é um caso semelhante de político que é mais próximo do eleitorado médio de seu partido do que as lideranças são. Seu partido, o PSDB, tem como lideranças de destaque ex-intelectuais de esquerda, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra, ex-militantes de esquerda, como Alberto Goldman e Aloysio Nunes, e introduzidos na política por padrinhos que se opuseram à ditadura militar, como Aécio Neves (introduzido por seu avô) e Geraldo Alckmin (introduzido por Mário Covas). Mas a maioria dos eleitores do PSDB não está interessada no passado intelectual e esquerdista dos fundadores deste partido. O que eles querem é o discurso típico de comentaristas de sites de notícias. O discurso simplista “privado bom público ruim”. O discurso que agrada uma parte da classe média que não gosta de beneficiários de programas sociais, de movimentos sociais, de movimentos de minorias. João Dória é muito mais a cara do novo PSDB do que Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Alberto Goldman, Aloysio Nunes e Aécio Neves. Tanto que esses mencionados já fizeram discursos típicos de comentarista de site de notícias para se mostrar alinhados com seu novo eleitorado (ou por terem se convertido a este discurso). João Dória é mais autêntico neste tipo de discurso.

E por falar em comparações entre João Dória e coisas que começaram nos Estados Unidos, o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo também já praticou dog-whistle. Propôs extinguir as secretarias de política LGBT e de juventude. Secretarias que nem existem. Alegou motivações técnicas. Mas certamente essa “promessa” soa como música agradável nos ouvidos de quem odeia políticas para o público LGBT.

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