O que as pesquisas estão dizendo sobre a eleição para presidente dos EUA

No dia 8 de novembro, será realizada a 58ª eleição para presidente dos Estados Unidos da América. Faltam um pouco mais que duas semanas. Este texto será sobre o que as pesquisas indicam e sobre como esta eleição se difere das eleições passadas.

Apesar de parte da mídia já estar cantando vitória para Hillary Clinton e estar começando até mesmo a falar da possibilidade dos democratas retomarem a maioria nas duas casas do Congresso, o cenário para a candidata democrata não está tão confortável assim.

O gráfico a seguir mostra a evolução dos quatro principais candidatos nas 69 pesquisas realizadas nos últimos 30 dias. Estas pesquisas estão listadas no verbete em Inglês da eleição presidencial norte americana de 2016. Para evitar os ruídos provocados por uma ou outra pesquisa que se diferencia muito das outras, o gráfico foi composto por uma média móvel das últimas cinco pesquisas. Assim, foi possível verificar a tendência de cada candidato.

grafico-pesquisas-eua

Observando o gráfico, é possível verificar que no dia 22 de setembro, a distância entre Hillary Clinton e Donald Trump era mínima. Do início até o meio de outubro, a distância alargou. Na semana mais recente, houve novamente uma redução da distância. Verificou-se que a subida de Trump foi acompanhada da descida de Johnson, o que indica que pode estar ocorrendo alguma transferência de votos do libertário para o republicano; e a descida de Clinton foi acompanhada pela subida de Stein, o que indica que pode estar ocorrendo alguma transferência de votos da democrata para a verde. A média das últimas cinco pesquisas verificada hoje, dia 22 de outubro, coloca Hillary Clinton com 41.2%, Donald Trump com 40.6%, Gary Johnson com 6.6% e Jill Stein com 3.2%. Há quase um empate entre os dois primeiros colocados.

Alguns pensam que as falas patéticas de Trump e a falta de apoio de figuras importantes de seu próprio partido seriam indícios de que ocorrerá uma derrota acachapante do republicano, mas não é isso que as pesquisas estão indicando. Bom, na cidade de São Paulo, neste ano, houve um candidato herdeiro mega empresário celebridade de televisão que falava coisas polêmicas e tinha sido esquecido por figuras importantes de seu próprio partido e mesmo assim acabou ganhando.

Como o que decide nos Estados Unidos é o Colégio Eleitoral, e não o voto popular, é importante verificar como estão as pesquisas por estado. Uma ressalva deve ser feita, porém: não é conveniente superestimar a importância dos números por estados e subestimar a importância dos números nacionais porque das 40 eleições em que ocorreu disputa entre democrata e republicano, em 37 delas quem ganhou a maioria do voto popular nacional ganhou o Colégio Eleitoral. O presidente eleito não teve maioria no voto popular nacional apenas em 1876, 1888 e 2000. Nestas três ocasiões, o candidato democrata teve maioria no voto popular nacional, mas o candidato republicano ganhou no Colégio Eleitoral. Em 1876, Tilden superou Hayes por 3 pontos percentuais no voto popular nacional. Em 1888, Harrison superou Cleveland por 0,8 ponto percentual. Em 2000, Gore superou Bush por 0,5 ponto percentual. Ou seja, em 39 das 40 eleições presidenciais norte americanas disputadas entre democrata e republicano, quem venceu por no mínimo um ponto percentual no voto popular nacional ganhou no Colégio Eleitoral. Em 40 dessas 40 eleições, quem venceu por no mínimo três pontos percentuais no voto popular nacional ganhou no colégio eleitoral. E as eleições apertadas não foram raras: 14 eleições presidenciais disputadas entre democrata e republicano tiveram diferença de voto popular nacional entre os dois principais candidatos inferior a cinco pontos percentuais.

De qualquer maneira, é possível que o vencedor no voto popular nacional perca no Colégio Eleitoral, mesmo que a probabilidade seja muito pequena. Então, vamos falar sobre as pesquisas por estado.

O site Dave Leip’s Atlas of US Presidential Elections publica regularmente as pesquisas por estado. Este mapa, de elaboração própria, mostra como está o desempenho dos candidatos dos dois maiores partidos em cada estado, medido de acordo com a média das últimas três pesquisas realizadas em outubro. Nos estados em que não houve pesquisa em outubro, foi considerada a última pesquisa realizada em setembro. Os estados em vermelho escuro são aqueles em que Donald Trump lidera por diferença superior a 10%. Os estados em vermelho claro são aqueles em que Donald Trump lidera por diferença entre 2,5% e 10%. Os estados em cinza são aqueles em que nenhum dos candidatos lidera com diferença superior a 2,5%. Os estados em azul claro são aqueles em que Hillary Clinton lidera com diferença entre 2,5% e 10%. Os estados em azul escuro são aqueles em que Hillary Clinton lidera com diferença superior a 10%.

(quem tem dificuldade de identificar os estados no mapa pode ver a lista no final do texto)

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Os estados de cor escura têm vencedor certo. Os estados de cor clara têm favorito, mas o resultado ainda não é certo. Os estados em cinza terão a disputa mais acirrada. Estes estados são Flórida, Ohio, Arizona, Nevada e Utah. Neste último, Hillary não tem chance, a disputa ocorre entre Trump e um candidato independente.

O Colégio Eleitoral tem 538 delegados. Para ser eleito, é necessário ter 270. Os estados em que Donald Trump tem vantagem superior a 10 pontos somam 81 delegados. Os estados em que Donald Trump tem vantagem entre 2,5 e 10 pontos somam 99 delegados. Ou seja, os estados em que Donald Trump é favorito somam 180 delegados. Os estados em que Hillary Clinton tem vantagem superior a 10 pontos somam 197 delegados. Os estados em que Hillary Clinton tem vantagem entre 2,5 e 10 pontos somam 91 delegados. Ou seja, os estados em que Hillary Clinton é favorita somam 288 delegados, o suficiente para ganhar a eleição. Mesmo que Donald Trump vença todos os estados em cinza, que somam 70 delegados, Hillary ainda precisa perder alguns estados em azul claro para ser derrotada.

Alguns poderiam perguntar: como é possível os dois principais candidatos estarem quase empatados nas pesquisas nacionais, e mesmo assim Hillary Clinton estar em posição bem mais favorável na simulação do Colégio Eleitoral? É que nos estados em que Trump lidera, a liderança é bem mais folgada.

O mapa eleitoral de 2016 previsto pelas pesquisas é razoavelmente parecido com o das quatro mais recentes eleições, que são as duas vencidas por George W. Bush e as duas vencidas por Barack Obama. O mapa a seguir resume as últimas quatro eleições. Os estados em vermelho escuro são aqueles em que os republicanos ganharam as quatro. Os estados em vermelho claro são aqueles em que os republicanos ganharam três e perderam uma. Os estados em azul escuro são aqueles em que os democratas ganharam as quatro. Os estados em azul claro são aqueles em que os democratas ganharam três e perderam uma. Os estados em cinza são aqueles em que cada partido ganhou duas vezes. Nestes estados em cinza, tanto Bush, quanto Obama ganharam as duas vezes.

mapa-p-2000-2004-2008-2012

Comparando os dois mapas, é possível verificar que Flórida e Ohio foram e continuarão sendo estados muito competitivos. Por outro lado, algumas tendências podem fazer o mapa de 2016 ser levemente diferente dos anteriores. Recentemente, os democratas foram claramente vencedores no norte e na costa oeste, e os republicanos foram claramente vencedores no sul e no oeste interiorano. Agora, Hillary pode ser competitiva em alguns estados no sul e no oeste interiorano onde há elevada população de minorias étnicas e onde há crescente população de universitários. E Trump pode ser competitivo em alguns estados do norte onde há elevada população branca sem escolaridade superior. É quase certo que Hillary vença na Virginia, estado que era republicano, depois passou a ser pêndulo, e depois parece que vai ser claramente democrata no futuro. Hillary ainda tem grande probabilidade de ganhar a Carolina do Norte, estado em que os republicanos ganharam três nas últimas quatro eleições. É quase certo que Hillary vença no Novo México, ela é favorita no Colorado, disputa Nevada, e até o Arizona está em seu radar. Se Hillary ganhar com margem folgada o voto popular nacional, pode até levar a Geórgia, embora seja pouco provável. Por outro lado, Donald Trump é favorito em Iowa, estado onde os democratas ganharam três das últimas quatro eleições. O estado de Ohio, que habitualmente vota no vencedor, pode ser vencido por Trump mesmo se ele perder a eleição nacional. Trump ainda tem alguma chance na Pensilvânia. Michigan, Wisconsin e Minnesota, estados em que os democratas ganharam nas últimas quatro eleições.

Como foi dito anteriormente, houve até agora 40 eleições presidenciais norte americanas disputadas entre democratas e republicanos. A primeira dessas ocorreu em 1856. A tabela a seguir resume um pouco este histórico:

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Foram 16 eleições de assento aberto, como a atual de 2016, e 24 eleições em que o presidente disputava a reeleição. Na maioria das eleições de assento aberto, o candidato do partido do presidente perdeu. Por outro lado, na maioria das eleições em que o presidente disputava a reeleição, ele ganhou. Portanto, existe a maior propensão do eleitorado em manter um partido na Casa Branca quando o presidente disputa a reeleição e trocar de partido quando não há disputa de reeleição. Isto foi mais claramente perceptível desde o fim da Segunda Guerra Mundial, onde houve uma regularidade quase perfeita dos dois grandes partidos se alternarem de oito em oito anos. Isto só foi quebrado em 1980, quando o republicano Ronald Reagan derrotou Jimmy Carter, que disputava a reeleição, e em 1988, quando o republicano George Bush derrotou o democrata Michael Dukakis mesmo depois de oito anos de Reagan.

De 1856 a 2012, ocorreram 23 vitórias republicanas e 17 vitórias democratas. Os democratas venceram apenas quatro eleições de assento aberto: James Buchanan em 1856, Grover Cleveland em 1888, John Kennedy em 1960 e Barack Obama em 2008. Se Hillary ganhar, será a quinta vez. Por outro lado, os republicanos venceram 12 eleições de assento aberto.

Observando todo este histórico, é possível dizer que Trump ganhará se esta eleição seguir as tendências habituais. Mas, sinceramente, qual a relevância disto? Pouca. Não é só porque aconteceu mais vezes no passado que tem que acontecer agora.

 

Anexo: Lista dos estados com o desempenho dos candidatos previstos pelas pesquisas

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