Sobre o veganismo

Veganismo é um movimento que prega a não exploração de animais por seres humanos. Isto inclui a rejeição do uso de animais para a alimentação, para o vestuário, para os testes de medicamentos e cosméticos e para o entretenimento. Não podemos confundir veganismo com vegetarianismo. Este é um subitem daquele. Vegetarianismo se refere apenas à alimentação. Vegetarianos são aqueles que não consomem produtos de origem animal na alimentação. Existem ainda os ovo-lacto-vegetarianos, que consomem, além de vegetais, ovo, leite e derivados, mas não consomem carne. Às vezes, os ovo-lacto-vegetarianos são chamados simplesmente de vegetarianos para simplificação. Mas os vegans são vegetarianos estritos, ou seja, não consomem qualquer produto de origem animal. O título deste texto poderia ser “sobre o veganismo militante”, mas “veganismo militante” seria um pleonasmo. O mesmo não valeria para vegetarianismo.

Não sou vegan, não sou vegetariano, adoro um churrasquinho. Mas não sou contra os vegans. Não uso a afirmação que muitos carnivoristas gostam de usar que é “se você quer ser vegan é escolha pessoal sua, mas não vai ficar enchendo o saco dos outros com isso”. Se os vegans consideram anti-ético confinar, abater e consumir animais, não há problemas neles exporem sua visão. Os vegans simplesmente não farão eu ter os mesmos valores que eles, mas se eles quiserem defender esses valores, que defendam. Seria muito estranho alguém dizer “se você acha errado peidar no elevador é escolha pessoal sua, mas não vai ficar enchendo o saco dos outros com isso”. Um argumento ruim que alguns carnivoristas usam é o de que “se um leão come uma gazela, não tem problema eu comer boi e porco”. Nem todos os comportamentos que existem na natureza são aceitáveis para os seres humanos só porque existem na natureza. Se fosse assim, seria perfeitamente aceitável nós mijarmos e cagarmos no chão, uma vez que os outros animais também fazem isso. Eu, como disse anteriormente, não vejo problemas em comer carne, mas não devemos utilizar o argumento da natureza para defender este comportamento.

Há bons motivos para ser vegan. Um deles é o motivo ecológico. Um animal consome durante sua vida uma quantidade de quilos de alimento muito maior do que a quantidade de quilos que ele serve como alimento depois de abatido. Por isso, é necessário produzir muitos grãos para alimentar gado. Para produzir os grãos, muitas vezes é necessário desmatar florestas. Porém, não é necessário ser vegan só por causa disso. É necessário apenas não consumir quantidade exagerada de carne. É importante lembrar também que é possível produzir mais grãos não apenas desmatando, e sim aumentando a produtividade da área. O argumento ecológico também serve para falar da fome. O uso dos grãos para alimentar gado estaria fazendo faltar grãos para pessoas. Porém, o que causa a fome no mundo é a insuficiência de poder aquisitivo que as pessoas muito pobres têm, e não a insuficiência de alimentos. Bom, mas quanto mais vegans existirem no mundo, melhor. Assim, os onívoros (não existem humanos estritamente carnívoros) poderão comer carne com menos culpa, pois os vegans já estão ajudando a economizar o grão do gado. Os vegans (e também os não vegans, que são onívoros) comerão parte dos grãos que seriam utilizados para alimentar bois e porcos, mas como foi dito aqui, animais dão menos quilos de carne do que os quilos de ração que consomem durante a vida.

Apesar de haver muitos argumentos secundários que os defensores do não consumo de produtos de origem animal utilizam, o que diferenciam os vegans dos não vegans é que os primeiros consideram antiético o uso de animais para necessidades humanas e os segundos não.

O defeito de alguns vegans, isso mesmo, só de alguns, é o uso de afirmações inverídicas para convencer outras pessoas a serem vegans. Alguns militantes difundem a informação de que uma alimentação vegetariana é mais saudável do que uma alimentação onívora. Não é isso que a maioria dos médicos, nutricionistas e biólogos pensam. É verdade que o consumo de carne aumenta o risco de alguns tipos de câncer e de doenças cardiovasculares, e que os vegetarianos tendem a ser mais magros, tendem a ter uma dieta mais rica em vitamina-C e em fibras. Ninguém questiona que o consumo exagerado de carne e o consumo de carnes muito gordurosas não é saudável. Mas uma dieta estritamente vegetariana pode ser mais pobre em vitamina B-12, vitamina-D, zinco, ômega 3, ferro e cálcio. Além disso, a proteína animal é mais completa do que a proteína vegetal. Mesmo leigos em ciências biológicas devem ficar muito desconfiados de pesquisas que mostram que em uma determinada amostra de pessoas, os vegetarianos tiveram vida mais longa e menor incidência de algumas doenças do que os onívoros. Correlação não necessariamente indica causalidade. É possível que os vegetarianos sejam pessoas mais preocupadas com alimentação saudável e por isso tenham uma dieta bastante variada, e que os onívoros não tenham preocupação com alimentação saudável e consumam bastante gordura. É possível que vegetarianos tenham renda e instrução maior do que onívoros, e que, por isso, tenham possibilidade maior de organizar uma dieta saudável.

Uma alimentação vegetariana pode ser mais saudável do que uma alimentação onívora. Um consumidor de variados cereais, frutas, verduras, legumes, sementes e nozes será mais saudável do que um consumidor voraz de hambúrguer e bacon. Mas isto não quer dizer que uma alimentação vegetariana seja necessariamente mais saudável do que uma alimentação onívora. Ninguém provou que a adição de quantidades moderadas de carne magra em uma dieta com variados cereais, frutas, verduras, legumes, sementes e nozes piora a qualidade da dieta. Alguns vegetarianos precisam de acompanhamento médico e de suplementos. Sinceramente, que dieta mais saudável é essa que precisa de suplementos e de acompanhamento médico?

Alguns vegans gostam não apenas de eliminar o consumo de alimentos de origem animal, como também eliminar o consumo de substâncias muito artificiais nos vegetais. Preferem consumir vegetais sem conservantes, sem corantes, sem agrotóxicos. Gostariam de produzir os alimentos no próprio quintal. Porém, o simples fato de preferir alimentação natural não justifica uma alimentação estritamente vegetariana. Um quintal pode produzir vegetais sem conservantes, sem corantes e sem agrotóxicos, mas também ter umas galinhas caipiras para o abate. Uma constatação um pouco provocativa é a de que uma carne é mais natural do que um troço de soja que imita carne.

Alguns poucos médicos, nutricionistas e biólogos podem até dizer que uma alimentação estritamente vegetariana é necessariamente mais saudável do que uma alimentação onívora, mas se eles também forem militantes da causa de que confinar e abater animais é anti-ético, é perfeitamente possível que a opinião sobre os efeitos do consumo de carne na saúde já seja contaminada. Da mesma forma que se um médico dissesse que comer carne é muito saudável, eu não confiaria muito neste médico se ele trabalhasse na JBS.

A maior mentira difundida por alguns militantes vegans, com destaque para Gary Yourofsky, é a de que os seres humanos seriam herbívoros por natureza, e isto seria uma forma de argumentar que comer carne não é saudável. Os defensores desta tese falam que os seres humanos, diferente dos leões e dos tigres, não têm instinto de caça, porque têm nojo de sangue e de cheiro de cadáver e porque se no meio do mato estiverem com fome, prefeririam pegar frutas das árvores a matar animais com as próprias mãos para comer a carne crua. Bom, mas muitos humanos, incluindo eu, adoram um cheiro de churrasco, mesmo quando este cheiro vem de longe. Se a ausência de possibilidade de consumir um determinado alimento sem o uso do fogo fosse motivo para nunca consumir este alimento, ninguém deveria consumir feijão. Além disso, os seres humanos pré-históricos já comiam carne, mesmo antes de saberem usar o fogo. Os chimpanzés, nossos parentes mais próximos, comem carne. Ao dizerem que existem produtos vegetais que imitam os nutrientes, o sabor e a textura da carne, vegans já assumem que muitos seres humanos sentem fome por carne. Os defensores da tese do “ser humano naturalmente herbívoro” ainda falam de intestinos longos, dentes molares e ausência de garras para defender esta tese. Porém, na natureza, há muitos outros animais com intestinos longos, dentes molares e ausência de garras, que também comem carne.

Nenhuma causa deve ser defendida com mentiras. Se uma causa precisa de mentiras para ser defendida, isto pode ser um indício de que a causa não é tão boa assim. Militantes vegans que fazem essa opção por motivos éticos, mas que tentam convencer outras pessoas a terem alimentação vegetariana usando os argumentos de “alimentação mais saudável” ou de “ser humano naturalmente herbívoro”, mesmo sabendo que estão dizendo coisas que não são verdadeiras, mas que consideram uma maneira mais fácil de convencer outras pessoas a não consumirem produtos de origem animal, não podem ser considerados grandes exemplos de pessoas éticas. Com saúde não se brinca. Uma postura muito mais ética é dizer: “recomendo não comer carne porque confinar a abater é fazer muito mal aos animais, e também porque isto contribui com o desmatamento, e fazendo esta opção, existe o risco de ter uma dieta mais pobre, mas aí é recomendável consultar um médico ou nutricionista, e comendo vegetais variados é possível ter uma dieta bastante saudável, independentemente do fato de ser mais saudável ou não do que uma dieta com carne”.

Muitos vegans rejeitam o uso de argumentos mentirosos para convencer outras pessoas a aderir a causa. Quando o Pirula fez este e este vídeo criticando os argumentos de Gary Yourofsky, vários vegans escreveram nos comentários que concordam com o Pirula e que não gostam de usar os argumentos do Gary.

Sobre o que não existe qualquer dúvida: se você tiver uma alimentação onívora, a probabilidade de você morrer um dia será de 100%. Se você tiver uma alimentação vegetariana, a probabilidade de você morrer um dia também será de 100%.

Leituras recomendadas

http://www.jamieoliver.com/news-and-features/features/vegan-diet-healthy/

http://www.health.com/health/gallery/0,,20773383,00.html

http://www.webmd.com/diet/features/is-it-better-to-be-a-vegetarian#1

https://authoritynutrition.com/top-5-reasons-why-vegan-diets-are-a-terrible-idea/

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Fidel: “meu escudo é minha moral”

 

Talvez a coisa mais difícil de ser adquirida para si é a autoconsciência daquilo se é perante o mundo material. A ideia não nos molda, mas do contrário, a realidade molda nossas ideias e, assim, quem somos. A propaganda é a arma do negócio: bate no peito muito fácil, mira a lêiser para miragem do consumo daquilo que se não quer e não se precisa. Vendem-nos irrealidades para a massa alienada. A elite tem de domar o rebanho para que ele não se rebele.

A morte de Fidel (último líder revolucionário) mostra que tempos sombrios rondam ao nosso lado. A importância histórica do personagem dentro de determinado contexto é inexorável ao que neandertais reacionários pensam. Como Fidel mesmo disse: “meu escudo é minha moral”.

Chomsky diz que “nos EUA, um em cada seis dólares é gasto em marketing. As pessoas são bombardeadas com propaganda e publicidade todos os dias na televisão, desde a infância. O ideal da vida social é você e seu aparelho de TV”. O imperialismo cria cadelas para resguardarem-se através da ilusão da “liberdade”.

A verdade para esses não importa. Hiroshima e Nagasaki é uma página negra da história da humanidade. Enquanto Fidel “exportou” milhões de médicos e professores para o mundo, o “reino da democracia” – os EUA – a cada dia bota na conta milhões de mortes perpetradas pela “luta contra o autoritarismo”.

Comandante Fidel terá seu nome eternizado na história. Parafraseando Getúlio Vargas em que Fidel Castro saiu da vida para entrar para a história; e esses personagens que difamam-no não terão suas condolências sinceras registradas.

Muito se sabe de um caráter da pessoa numa tragédia. Mas essa manada esquecem que “um revolucionário pode perder tudo: a família, a liberdade, até a vida. Menos a moral”. – Fidel Castro.

 

HASTA LA VICTORIA, SIEMPRE!

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Os destrutivos duelos entre os quebra tijolos e os pós modernos

Eu lembro que quando eu fiz bacharelado, entre 2002 e 2006, e participei do movimento estudantil, os partidos de esquerda e os movimentos de grupos oprimidos étnicos e sexuais, e movimentos de causas pós-1968, eram aliados naturais. Já na década de 2010 apareceram nas redes sociais várias briguinhas entre alguns militantes de grupos oprimidos e de causas pós-1968, e alguns militantes da esquerda tradicional. Brigar não é necessariamente ruim, divergências são naturais na política, e, portanto, expor estas divergências pode ser saudável. O problema são as motivações destas brigas e a postura de alguns participantes. Criam-se futricas nada construtivas.

Nestas brigas, militantes da esquerda tradicional, sejam social democratas, sejam marxistas leninistas, chamam de pós-modernos os militantes dos grupos oprimidos e de causas pós-1968. Estes, por sua vez, chamam de quebra tijolos os militantes da esquerda tradicional. Isto porque um militante da esquerda tradicional, famoso na Internet, hostil aos movimentos pós-1968, apareceu quebrando tijolos, para mostrar que era fortão. Aí o apelido pegou.

Há exageros nos dois lados. Habitualmente, não gosto de dizer esta frase. Já escrevi até mesmo este texto criticando quem usa demais esta frase. Mas neste caso, a frase se aplica muito bem.

É muito positivo que as bandeiras dos movimentos feminista, LGBT, negro, indigenista, ambientalista e pró descriminalização de drogas tenham entrado na pauta da luta por justiça social, se juntando a já mais tradicional luta de classes, luta contra a desigualdade da distribuição de renda. O problema é a postura que alguns militantes desses movimentos vem assumindo nas redes sociais durante a década de 2010. A necessária reinvindicação de maior visibilidade de pessoas que pertencem aos grupos oprimidos nos debates sobre opressão degenerou-se na ideia de que as pessoas que pertencem aos grupos oprimidos devem ser as únicas a terem a palavra no assunto. Há militantes feministas que falam como se o simples fato de ser homem já fosse um defeito. Há militantes do movimento negro que falam como se o simples fato de ser branco já fosse um defeito. Felizmente, não há no movimento LGBT militantes que falam como se o simples fato de ser hétero já fosse um defeito. Considerando que três quartos da população brasileira são compostos por quem é OU homem OU branco OU ambos, vivemos, pela lógica de alguns movimentos, em um país em que três quartos da população são compostos por opressores. O conceito de “lugar de fala”, que é sério, vulgarizou-se a ponto de virar “cala a boca homem” e “cala a boca branco”. Proliferam-se os textões criticando condutas dos homens brancos de esquerda. Não é errado criticar quem é de esquerda, ser de esquerda não é garantia de bom caráter, vimos recentemente no Brasil muitas canalhices praticadas por líderes de esquerda. O problema é que os textões atacam não delitos graves, mas apenas um ou outro comportamento reprovado pelos autores.

As sociedades civilizadas têm código penal, em que as penas são proporcionais à gravidade do crime. Em algumas militâncias de redes sociais, não existe pena proporcional ao crime. Os tribunais das redes sociais estabelecem penas parecidas para declarações explícitas de racismo, machismo e homofobia, e para atitudes que o grupo restrito de militantes consideram ofensivas. Um exemplo disso pode ser verificado na “apropriação cultural”. É um debate razoavelmente recente, que muita gente não conhece. Entre os que conhecem, existem aqueles que consideram que a apropriação cultural é realmente um problema grave, outros consideram que não. Ainda assim, praticantes da apropriação cultural, mesmo quando fazem isso sem querer, podem ser alvo de hostilidades em redes sociais. Um caso emblemático foi o da menina branca que se fantasiou de mãe de santo no carnaval.

Alguns militantes pela descriminalização da maconha não se limitam a levantar as questões de inutilidade da guerra às drogas, de criminalização da pobreza causada por esta guerra e de ineficácia do proibicionismo para a saúde e para a segurança pública. Acabam por exaltar o consumo. A consequência disso é o aumento do preconceito contra o movimento pela descriminalização da maconha, e contra causas progressistas em geral.

Escrever sobre política na Internet deveria ter dois objetivos principais: convencer os indecisos a abraçar a sua causa, e convencer os que já abraçam a causa mas estão passivos a se tornarem ativos. Porém, não é isso que se vê em muitos militantes de grupos oprimidos, descriminalização de drogas leves e meio ambiente. O que se vê muitas vezes é a tentativa simplesmente de lacrar, ou seja, dar show para aqueles que já abraçam a causa e provocar quem não abraça a causa, desestimulando ainda mais estes a abraçarem a causa. Acaba ocorrendo um narcisismo militante, em que o objetivo não é tornar mais forte a luta pela causa, e sim tornar-se uma celebridade entre as pessoas que já defendem a causa.

Como já dizia o velho Newton, para toda ação há uma reação. Enxergando os equívocos praticados por alguns militantes de grupos oprimidos, de meio ambiente e de descriminalização de drogas leves, defensores de bandeiras mais tradicionais da esquerda passaram a criticar esses militantes em fóruns de discussão e em páginas do Facebook. Utilizaram o termo “pós-moderno” para denominar todos esses militantes. O problema é que eles repetiram os erros. Também praticam o egocentrismo, o narcisismo militante. Também se preocupam mais em lacrar do que em convencer outras pessoas para a causa. Algumas postagens “anti pós-moderno” de marxistas leninistas e social democratas tradicionais acabam praticando hostilidade generalizada contra os movimentos feminista, LGBT, negro, ambientalista e pró descriminalização de drogas leves, e não apenas contra alguns erros praticados por esses movimentos. Basta trocar “pós-moderno” por “politicamente correto” que os textos destas postagens ficam idênticos aos textos neocon. As críticas que essa esquerda anti pós moderna faz às feministas, aos militantes negros, aos militantes LGBT, aos ambientalistas, aos defensores da legalização da maconha e aos praticantes de ciranda não se difere muito das críticas que Leandro Narloch, Reinaldo Azevedo, Luís Felipe Pondé e Danilo Gentili fazem aos mesmos grupos. Uma das postagens mais absurdas tem a foto de um grupo de partisans da primeira metade do século XX, em cima de uma foto de uma Parada Gay do século XXI, e a frase “houve um tempo em que a esquerda dava tiro, atualmente a esquerda dá a bunda”. Trata-se do uso da defesa de valores tradicionais da esquerda como mero pretexto para passar uma mensagem homofóbica. Essa esquerda anti pós-moderna, que supostamente defende a retomada dos valores da esquerda tradicional, é tão incoerente que algumas vezes debocha de quem gosta do Mujica e idolatra o Putin. O problema destas preferências é que até em questões econômicas o Mujica está à esquerda de Putin, e que o próprio Mujica já disse que legalização do aborto, do casamento gay e da maconha foram lutas secundárias suas.

Com esta postura, os quebra tijolos geram o efeito bumerangue. Podem ter tido a boa intenção de criticar lutas particularistas que ignoram a luta universalista por justiça social. Porém, a postura adotada incentiva o oposto. Uma feminista poderia ter até boa vontade de se juntar à militância de esquerda e ver a luta dela não como a única luta, mas como parte de um conjunto de lutas. Mas quando ela enxerga pessoas identificadas com a esquerda fazendo esculachos misóginos com a luta feminista, ela pode chegar à conclusão de que a esquerda não a representa, e continuar na luta feminista desconectada ou até mesmo hostil a outras lutas progressistas.

Militantes dos movimentos feminista, LGBT, negro, indigenista, ambientalista e pró descriminalização de drogas leves têm reinvindicações bastante justas, e poderiam lutar para que estas reinvindicações estejam sempre na pauta de partidos de esquerda, e movimentos progressistas em geral. Defensores da retomada das bandeiras tradicionais de esquerda, que defendem o não esquecimento da luta de classes e da questão da distribuição de renda, que apontam para os riscos do excesso de particularismo dos movimentos de grupos oprimidos e de causas pós-1968, também têm reinvindicações bastante justas, e poderiam tentar um bom entendimento com os movimentos de causas específicas, para incentivá-los a participar de uma luta universalista por justiça social, e não repetir esculachos neocon contra esses movimentos. Fazer militância política é convencer outras pessoas a aderir à sua causa, e não exaltar as virtudes de quem já é convicto à sua causa e debochar de quem não é. O comportamento de quem discute política não pode ser semelhante ao comportamento de quem discute times de futebol e conjuntos de música.

Atualmente, o maior racha da esquerda em debates em redes sociais é entre os quebra tijolos e os pós-modernos. Entre janeiro de 2003 e abril de 2016, o maior racha era entre os pelegos e os troskos. Os pelegos eram os que apoiavam os governos Lula e Dilma. Os troskos eram os que não apoiavam. Obviamente, os dois nomes eram pejorativos, os pelegos criaram o nome trosko e os troskos criaram o nome pelego. Apesar deste debate ter declinado, depois que o PT não é mais governo, ainda restam resquícios deste debate. E não existe correlação entre a polarização quebra tijolo vs. pós-moderno e a polarização pelego vs. trosko. Existe quebra tijolo pelego, quebra tijolo trosko, pós-moderno pelego e pós-moderno trosko. Dentro destas quatro combinações, existem aqueles que querem fazer um debate decente, e existem aqueles que vivem no egocentrismo e no narcisismo militante.

Com os progressistas estão muito em baixa no Brasil e no mundo atualmente, estes quatro grupos são como fãs de quatro bandas bastante alternativas, com pouquíssimos fãs, debatendo entre si.

Obs: Já havia abordado este assunto antes aqui, neste texto.

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Sobre a tal da prosperidade do Brasil no tempo do Império

Uma grande praga que infesta as comunidades virtuais de História são os monarquistas brasileiros. Além disso, livros sobre a família real habitualmente estão presentes nas listas de mais vendidos. Tudo isto é sintoma desta onda conservadora que está em todos os cantos. Fala-se muito sobre a suposta prosperidade que o Brasil viveu durante o Império. Mas que prosperidade foi esta?

Bom, foi durante o século XIX que o Brasil ficou para trás em PIB per capita em comparação com os Estados Unidos e a Europa Ocidental. Durante o século XX, o Brasil teve uma das maiores taxas de crescimento de PIB per capita do mundo, mas insuficiente para diminuir significativamente o gap com o mundo desenvolvido, que havia se constituído no século XIX. Em geral, a América Latina ficou para trás durante o século XIX. Mas na segunda metade do século XIX, Argentina e México tiveram um processo de desenvolvimento maior do que o do Brasil.

No final do período do Império, o Brasil tinha mais de 70% de analfabetos na população adulta. Enquanto isso, a Argentina já estava iniciando um processo de alfabetização de massas. Em 1822, o Brasil tinha zero universidade. Em 1889, também. As únicas instituições de ensino superior do Brasil no tempo do Império eram algumas faculdades de Direito, de Medicina, e algumas academias militares. A primeira universidade do Brasil foi criada em Manaus, em 1909, já durante a República. Peru e México têm universidades desde o século XVII.

A rede ferroviária construída no Brasil no tempo do Império não passava de um conjunto de estradas que ligavam alguns pontos do interior a alguns pontos do litoral. Enquanto isso, outros países já estavam fazendo redes para interligar o país todo.

Os monarquistas gostam de dizer que a família imperial brasileira era contra a escravidão, que a abolição ao longo de quase todo o período do Império só não foi possível porque os proprietários de terra, que controlavam o Parlamento, eram contra, e que os proprietários escravocratas defenderam a Proclamação da República. Bom, se o imperador realmente era a favor da abolição, ele foi um incompetente, ao ter permitido a escravidão ter durado até o penúltimo ano do império. As repúblicas latino-americanas aboliram a escravidão até a década de 1850. Os Estados Unidos aboliram em 1865. Durante grande parte do período do Império brasileiro, o setor público também foi proprietário de escravos.

Quanto à política, os monarquistas gostam de dizer que o Brasil tinha uma democracia no tempo do Império, uma vez que havia um Parlamento eleito e um primeiro-ministro, e que o Brasil tinha estabilidade política no Império, contrastando com a República, quando ocorreram muitos golpes. Bom, é difícil falar de democracia quando existe voto censitário. Isso ocorria naquele tempo no Brasil e nas monarquias constitucionais da Europa. Além do mais, não é possível falar que o Brasil tinha ao mesmo tempo democracia e estabilidade política. Se assumir que quem mandava era o imperador, não é possível falar que havia democracia. Se assumir que quem mandava era o primeiro-ministro, não é possível falar que havia estabilidade política, pois a duração de cada primeiro-ministro era semelhante à da Itália do século XX. E sim, durante a República ocorreram golpes no Brasil. Alguns deles apoiados por conservadores saudosistas da monarquia. Ouvimos, às vezes, alguns monarquistas dizerem que o povão era a favor da monarquia. Bom, quando o Brasil ficou independente em 1822, o povão não foi consultado para ver se queria a monarquia ou não. A única vez em que o povão foi consultado para ver se desejava a república ou a monarquia ocorreu no plebiscito de 1993, com vitória esmagadora da República.

A monarquia não é necessariamente uma forma ruim de governo. Algumas monarquias, como o Japão, o Reino Unido, a Espanha, a Bélgica, a Holanda, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia estão entre os países com maior IDH no mundo. Mas não há relação de causa e efeito nisso. Alguns vizinhos desses países, que são repúblicas, são tão prósperos quanto. E algumas dessas monarquias mencionadas têm políticas que dificilmente seriam defendidas por monarquistas brasileiros, que são bastante conservadores.

Há países bastante desenvolvidos com monarquia. Mas não é o caso do Brasil do século XIX.

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As Três Mudanças Socioculturais do Nosso Tempo

A partir do fim do século XX, uma série de mudanças na maneira como percebemos o mundo criaram novos desafios para a politica convencional e para as instituições liberais. Tais metamorfoses estão se radicalizando no século XXI tornando claro que a democracia formal/representativa e o estado nacional são incapazes de lidar com elas sem uma profunda reforma.

Segundo Elisa Reis, no texto A Sociologia Política e os Processos Macro-Históricos As mudanças de que falo estão ocorrendo na esfera da relação do homem com o meio ambiente, outra é referente à solidariedade aos estados nacionais e, por fim, as que tangem aos valores da igualdade, desigualdade e diferença.

Em períodos pré-modernos a humanidade tinha uma visão de que a natureza era algo a ser temido. O advento da era pós-tradicional mudou essa concepção para a ideia que o mundo natural deveria ser dominado. A grande devastação ambiental causada pela ação humana e os traumas decorrentes disso mudaram essa visão. A partir da década de noventa e com o fim da guerra fria, a pauta da catástrofe ambiental substituiu a da destruição nuclear. Agora tem-se consciência de quão necessário é preservar a natureza sob o risco de colocar a espécie humana e toda vida na terra em risco.

Temos também a mudança na esfera da conformação dos estados nacionais; se, com o seu surgimento, a noção dominante era uma solidariedade diluída no pertencimento a uma comunidade nacional e no mercado com o compartilhamento de interesses entre quem vende e quem compra, nas últimas décadas do século XX vimos surgir um terceiro tipo de solidariedade vindos diretamente da sociedade civil organizada em prol dos mais variados interesses; como exemplo temos movimentos sociais ativos no processo de redemocratização da América Latina que exigiam reparos e antídotos contra o estado autoritário e contra as consequências da modernização conservadora.

O terceiro tipo de mudança diz respeito aos valores de igualdade, desigualdade e diferença. Os estados nacionais erigiram seu amálgama ideológico tendo a autoridade, lealdade e igualdade como eixo principal. A consequência foi que o diferente foi classificado como desigual, incapaz fazer parte da comunidade nacional e gozar de cidadania. Assim, identidades milenares e seculares acabaram sendo ofuscadas pelo estado nacional, resultando em genocídio étnico e segregação. Hoje, o reconhecimento da diferença é um argumento legítimo e como condição essencial para reivindicar a igualdade e a cidadania. Em vez de reprimir a igualdade, o reconhecimento da diferença e seu direito a cidadania tem se tornado importante para sustentá-la.

Tais mudanças, que estão cada vez mais fortes conforme avançamos no século XXI, tem chacoalhado as formas institucionalizadas de fazer politica. Se a democracia liberal e seu modelo de estado não são suficientes para lidar com estas novas demandas, a solução está na implantação de formas participativas e deliberativas de politica, aumentando os fóruns de consulta e discussão de politicas públicas. Precisamos, como defendia Floresta Fernandes, efetuar o planejamento democrático, aproximando os de baixo da politica e, assim, democratizar a democracia.

Ao contrário do dizem os conservadores, estas mudanças não é resultado de uma crise moral do homem, mas de mudanças criadas pelo próprio tempo histórico e pelas consequências inesperadas de milhares de agentes e centenas de instituições que, interagindo entre si, criam mudanças inesperadas no tecido social.

Em outras palavras, a modernidade, com sua imperfeição e seu ímpeto progressista, qual trem desgovernado que não podemos segurar, é o criador desta e de outras grandes metamorfoses sociocuturais que ainda estão por vir.

Elas vieram para ficar, para o bem ou para mal.

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Eleição nos EUA: o que as pesquisas indicam, faltando dois dias

Hoje é 6 de novembro de 2016. Faltam apenas dois dias para a eleição para presidente dos Estados Unidos. Muitos eleitores já votaram antecipadamente. Mas muitos votarão na próxima terça-feira.

Como são muitas pesquisas, é melhor não utilizar o resultado individual de cada uma, mas sempre fazer uma média das oito pesquisas mais recentes. Este número é grande porque tem dia que tem quatro ou mais pesquisas, e também porque é importante evitar ruídos causados por uma ou outra pesquisa que tem resultados disparatados. De acordo com a média das oito últimas pesquisas nacionais, temos Hillary Clinton com 44,4%, Donald Trump com 42,1%, Gary Johnson com 5,0% e Jill Stein com 1,9%. O gráfico a seguir mostra a evolução da média das últimas oito pesquisas durante o outono do Hemisfério Norte.

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Percebemos que Hillary abriu vantagem durante o mês de outubro, que chegou a ser de oito pontos, durante o período dos debates, e agora a corrida ficou mais disputada, pois observamos uma margem média de apenas dois pontos. O vencedor da eleição é incerto. Alguns comentaristas atribuem o estreitamento da vantagem de Hillary aos escândalos dos e-mails. Mas podemos ver que o declínio de Hillary neste início de novembro em relação a meados de outubro é insignificante. O estreitamento aconteceu porque Donald cresceu. Chegou a ter 38% em alguns momentos, agora tem 42%. Enquanto isso, Gary Johnson diminuiu. Chegou a ter 8%, agora tem 5%. É possível que a votação de Gary Johnson seja ainda menor do que aquela que as pesquisas estão indicando, porque na hora do vamos ver, alguns eleitores podem decidir votar em quem realmente está concorrendo.

Para verificar a situação nos estados, foi feita uma média das últimas três pesquisas em cada estado. Como as pesquisas estaduais são mais raras, não foi possível utilizar um número maior. Em alguns poucos estados, não há três pesquisas recentes (feitas a partir de outubro), então, foi utilizado o resultado da pesquisa mais recente. Mas os estados em que não há três pesquisas recentes são aqueles em que o vencedor já é previsível, que a margem esperada é muito grande para uma ou para o outro.

O mapa a seguir mostra a situação nos estados. Em vermelho escuro estão aqueles em que Donald Trump lidera com mais de 10 pontos. Em vermelho claro estão aqueles em que Donald Trump lidera entre 2,5 e 10 pontos. Em cinza, estão aqueles em que nenhum candidato lidera com mais de 2,5 pontos. Em azul claro estão aqueles em que Hillary Clinton lidera entre 2,5 e 10 pontos. Em azul escuro estão aqueles em que Hillary Clinton lidera com mais de 10 pontos.

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São necessários 270 dos 538 votos no Colégio Eleitoral para ser eleito. Os estados em que Hillary Clinton  lidera com mais de 2,5 (pintados em azul claro ou escuro) somam 269 votos. Os estados em que Donald Trump lidera com mais de 2,5 (pintados em vermelho claro ou escuro) somam 218 votos. Os estados em que nenhum lidera com mais de 2,5 (pintados em cinza) somam 51 votos.

Chegamos a uma situação curiosa. Se Donald Trump ganhar os quatro estados pintados em cinza (Alasca, New Hampshire, North Carolina e Florida), haverá um empate de 269 votos para cada um no Colégio Eleitoral, e aí o Congresso decidirá o novo presidente. Como espera-se que os republicanos mantenham a maioria, o eleito no caso seria Donald Trump.

O mapa está bem melhor para Trump do que estava na última vez que eu tinha postado neste site os resultados das pesquisas, há duas semanas.

Por causa do nosso horário de verão, a maioria dos brasileiros está três horas na frente da Costa Leste e seis horas na frente da Costa Oeste. É comum as urnas fecharem às 19 horas no horário local. Portanto, nós poderemos saber os primeiros números da apuração a partir das 22 horas. Quando as urnas fecham em cada estado, as redes de televisão divulgam o resultado da pesquisa boca de urna. Se a pesquisa indicar uma vantagem confortável para um dos candidatos, as redes de televisão consideram que o estado já tem vencedor e já adicionam os votos correspondentes do estado no Colégio Eleitoral para o candidato. Se a pesquisa boca de urna indicar um resultado apertado, espera-se a apuração (too close to call).

Como a disputa será muito apertada, espera-se que no Brasil, quem quiser ir para a cama já sabendo o vencedor, vai ter que ir para a cama de madrugada. Como estão na Costa Leste, New Hampshire, North Carolina e Florida estarão entre os primeiros a serem apurados, e darão dica sobre o vencedor. Porém, a Florida é muito populosa, e, portanto, a apuração é lenta.

 

Estados onde Donald Trump lidera com mais de 10 pontos: Alabama, Arkansas, Idaho. Indiana. Kansas, Kentucky, Louisiana, Missouri, Nebraska, North Dakota, Oklahoma, South Dakota, Tennessee, Texas, West Virginia, Wyoming

Estados onde Donald Trump lidera entre 2,5 e 10 pontos: Arizona, Georgia, Iowa, Mississippi, Nevada, Ohio, South Carolina, Utah

Estados em que nenhum lidera com mais de 2,5 pontos: Alaska, Florida, New Hampshire, North Carolina

Estados onde Hillary Clinton lidera entre 2,5 e 10 pontos: Colorado, Maine, Michigan, Minnesota, New Mexico, Oregon, Pennsylvania, Virginia, Wisconsin

Estados onde Hillary Clinton lidera com mais de 10 pontos: California, Connecticut, Delaware, DC, Hawaii, Illinois, Maryland, Massachusetts, New Jersey, New York, Rhode Island, Vermont, Washington

 

Sobre os quatro grandes oligopólios de mídia no Brasil

No texto que eu escrevi sobre os moderate heroes, que são aqueles que pensam que sempre a opinião do meio é a mais inteligente, eu mencionei que um dos perigos dessa forma de pensar ocorre na discussão sobre as grandes empresas de mídia no Brasil. Há sites de esquerda que dizem que essas grandes empresas de mídia são de direita, há sites de direita que dizem que essas grandes empresas de mídia são de esquerda. A visão moderate hero, portanto, seria a de que as grandes empresas de mídia no Brasil seriam imparciais ou seriam de centro. Esta visão seria equivocada. Trata-se de uma situação onde existem duas opiniões apaixonadas opostas, onde uma está certa, a outra está errada, e a do meio também está errada.

Este texto não vai abordar todas as grandes empresas de mídia no Brasil, mas apenas as quatro mais importantes para a formação de opinião. As Organizações Globo, da família Marinho, que incluem o canal aberto da Globo, as retransmissoras locais, a Globonews, o jornal O Globo, o portal G1, a revista Época e a rádio CBN; o Grupo Abril, da família Civita, que inclui as revistas Veja e Exame; o Estado, da família Mesquita; e a Folha, da família Frias.

Pela biografia das famílias desses oligopólios, é possível concluir que a orientação política deles pende para a direita. Estes quatro grupos, pelo menos em algum momento, apoiaram o regime militar. Os editoriais dos jornais destes grupos explicitam seu posicionamento político. Atualmente, estes grupos participam ativamente do Instituto Millenium.

Mas nem sempre este posicionamento foi tão fechado e monolítico. Houve uma maior abertura política dentro destes grupos de mídia nas décadas de 1980 e 1990. É importante lembrar que Wanderley Guilherme dos Santos, Maria Rita Kehl, Luís Felipe de Alencastro, Maria Aquino, Paulo Moreira Leite e Franklin Martins já foram colunistas de periódicos destes oligopólios. Porém, ocorreu um retrocesso em meados da década de 2000. A partir deste período, estes quatro grandes grupos se tornaram um departamento de relações públicas do PSDB. Não é que a mídia dos Marinho/Civita/Mesquita/Frias é a favor do PSDB. Na verdade, esta mídia é um partido próprio, um Tea Party brasileiro. É o PSDB que é a favor da mídia dos Marinho/Civita/Mesquita/Frias. Se o PSDB um dia der algum sinal de “recaída” para a social-democracia (algo que certamente não fará em breve), este Tea Party brasileiro será contra.

A Folha é um pouco diferente dos demais. Tem colunistas de esquerda como Jânio de Freitas, Laura Carvalho, Guilherme Boulos, Vladimir Safatle e Gregório Duvivier. Publica de vez em quando algumas denúncias contra políticos do PSDB. Mas ainda assim, as posições defendidas nos editoriais são semelhantes às dos três outros grandes grupos de mídia. E causa preocupação a perda de participação da Folha no jornal Valor Econômico, que passará a pertencer apenas à Globo. Provavelmente, haverá perda de pluralidade.

Millor dizia que “imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Diante do governo Temer e de governos estaduais e municipais de partidos da base aliada, o que se vê, portanto, não é imprensa, e sim armazém de secos e molhados. Alguns atritos com o governo Temer aparecem quando há alguns atritos do PSDB com o governo Temer. E agora neste governo Temer, os quatro grandes oligopólios de mídia recebem generosas verbas de publicidade, mais do que já recebiam durante o governo Dilma.

Percebemos como estes grandes oligopólios de mídia se comportam como departamentos de relações públicas do PSDB quando percebemos grandes semelhanças das colunas e dos editoriais com os discursos dos políticos do PSDB e com as propagandas eleitorais deste partido. Frequentemente, encontramos a expressão “projeto de poder do PT”. Ou a afirmação de que “o PT divide o Brasil em nós e eles”. Quem faz esta afirmação não percebe que ao fazê-la, já está também criando uma divisão entre nós e eles. Colunistas desses grupos de mídia frequentemente apontam o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como lindo e maravilhoso, ignorando as muitas crises econômicas e a crise energética que ocorreram em seu governo. Verifica-se também os dois pesos e as duas medidas na cobertura da Satiagraha e da Lava Jato. Na Satiagraha, prevaleceu o garantismo, em parceria com Gilmar Mendes. Na Lava Jato, prevaleceu o punitivismo. Importante lembrar: a Satiagraha ocorreu em 2008. O principal alvo era o Daniel Dantas. Sua irmã Verônica, teve uma empresa em paraíso fiscal em parceria com a filha de José Serra, também chamada Verônica. José Serra seria candidato a presidente do Brasil em 2010.

Não apenas a parte de opinião, mas a hierarquização das notícias mostra o partidarismo da mídia dos Marinho/Civita/Mesquita/Frias. Na campanha eleitoral de 2010, foi dado um destaque desproporcional a sua importância ao fato de petistas terem um dossiê contra José Serra que continha algumas violações de sigilo de imposto de renda. Ora, quem não sabia que em campanhas eleitorais os candidatos têm equipes para encontrar informações negativas sobre adversários provavelmente vai deixar de comemorar o Natal ao descobrir que Papai Noel não existe. Porém, o partidarismo neste episódio foi inútil. Serviu apenas para reforçar as convicções de quem já iria votar no José Serra. Durante o período em que o assunto dossiê esteve em maior destaque na mídia, a intenção de voto no Serra oscilou para baixo. Alguns eleitores indecisos podem ter pensado não “esses petistas são uns desgraçados porque fazem dossiê” e sim “o que será que tinha naquele dossiê?”.

As reportagens produzidas pelas empresas dos Marinho/Civita/Mesquita/Frias contam com as aspas dos especialistas de sempre. Os especialistas de sempre são aquelas figuras bem conhecidas de quem lê jornais, revistas e sites, são do meio acadêmico, têm opiniões semelhantes às dos donos das empresas de mídia, e essas empresas sempre recorre a estes especialistas para mostrar respaldo de suas opiniões no meio acadêmico. Um alien que só conhece o Brasil através de Globo/Abril/Estado/Folha provavelmente pensará que Raul Veloso é o único brasileiro que entende de finanças públicas, que Fábio Giambiagi é o único brasileiro que entende de previdência, que Amadeo e Pastore são os únicos brasileiros que entendem de mercado de trabalho, que Cláudio Moura de Castro e Gustavo Ioschpe são os únicos brasileiros que entendem de educação, que Demétrio Magnolli continua sendo geógrafo, e não ativista político de direita, que Marco Antônio Villa continua sendo historiador, e não ativista político de direita, que Denis Lehrer Rosenfield continua sendo filósofo, e não ativista político de direita, e que Bolívar Lamounier continua sendo cientista político, e não ativista político de direita.

Quem são as maiores vítimas da partidarização dos quatro grandes oligopólios de mídia? O PT? Os demais partidos de esquerda? Não. As maiores vítimas são a democracia brasileira, os cidadãos que querem ser bem informados, a qualidade da informação. O PT até que soube usar a seu favor a partidarização dos quatro grandes oligopólios de mídia. Há uma rede de sites pró PT formados por jornalistas que antes faziam parte dos oligopólios de mídia. Diferente de Globo/Abril/Estado/Folha, estes sites assumem ser partidários e voltados para o público que procuram opinião. Porém, alguns destes sites também tiveram algumas posições que merecem ser criticadas. Houve um site destes que criticou o Joaquim Barbosa pelo fato dele ter esposa branca. Ás vezes vemos alguns destes sites desconfiarem que o Ibope e o Datafolha estão subestimando a votação do PT. Muitas vezes, estes dois institutos acabam subestimando a direita. Quando ao resultado da votação do impeachment no plenário da Câmara de Deputados, os oligopólios de mídia acertaram mais do que os sites favoráveis ao PT.

Todos já ouviram na infância a fábula do mentiroso. Aquela que diz que havia um menino que sempre mentia. Um dia ele disse uma verdade, ninguém acreditou nele por causa de sua fama, e o resultado foi trágico. O mesmo vale para a mídia Globo/Abril/Estado/Folha. Essa mídia exerce um partidarismo tão forte pró-PSDB, que mesmo em algumas vezes em que notícias favoráveis ao PSDB e contrárias ao PT são verdadeiras, haverá um pequeno público leitor de sites pró-PT que não acreditará nessas notícias. Algumas vezes, sites pró-PT consideram que determinado escândalo de corrupção envolvendo políticos do PT é equivalente a algum escândalo de corrupção envolvendo políticos do PSDB. Estes sites criticam os quatro grandes oligopólios de mídia por não dar cobertura do mesmo tamanho aos diferentes escândalos, por dar mais espaço ao escândalo envolvendo o PT. A mídia Globo/Abril/Estado/Folha algumas vezes pode alegar que os escândalos não são equivalentes e não merecem o mesmo tamanho de cobertura porque há diferença de dinheiro envolvido, de quantidade de provas… Essa mídia pode até estar certa em alguns casos. Mas como no geral apresenta um grande partidarismo pró-PSDB, haverá o pequeno grupo de leitores dos sites pró-PT que não acreditará.

De acordo com a narrativa petista, a AP 470 teve como objetivo eliminar o maior partido de esquerda do Brasil, para viabilizar a chegada da direita ao poder, que dificilmente ocorreria em situações normais. Não gosto desta narrativa porque parece defesa da impunidade de políticos que fizeram coisas erradas pelo “bem maior”. Mas alguns órgãos de mídia, ao fazer pressão para que o julgamento ocorresse em período de campanha eleitoral, forneceram combustível para esta narrativa. O fato de Merval Pereira, colunista com orientação ideológica claramente definida, ter escrito o livro sobre o julgamento, também forneceu combustível para esta narrativa.

Quando colunistas ou mesmo donos destes quatro grandes oligopólios de mídia resolvem refutar a afirmativa de que eles são departamento de relações públicas do PSDB, a maneira através da qual eles fazem isso contribui mais para confirmar a afirmativa do que para refutar.

Há consequências muito ruins para a democracia quando existe a percepção generalizada de que a mídia que transmite notícias não é confiável. Mas como a mídia que transmite notícias realmente não é confiável, infelizmente é necessário que exista essa percepção. Como consequência da descrença na grande mídia, existe a abertura de grande espaço para picaretagens. Sites de esquerda críticos da grande mídia não são isentos de picaretagem. É importante lembrar também que existem sites de direita, páginas de direita no Facebook que também criticam a grande mídia brasileira e que mostram “coisas que a mídia não mostra”. Difundem aberrações como a de que todas as famílias de presidiários recebem auxílio-reclusão, que as vacinas foram causadoras da microcefalia, que a Dilma ganhou porque as urnas eletrônicas estavam violadas, que o aquecimento global é uma invenção esquerdista. Apesar da grande mídia brasileira pender para a direita, essas aberrações não apareceram na grande mídia e sim em sites e páginas de direita de acham que a grande mídia é de esquerda.

É uma ingenuidade achar que existem muitas pessoas de direita somente porque a grande mídia é de direita. Pessoas de direita existiriam de qualquer maneira, e existe um público, com poder de consumir produtos que fazem publicidade, que quer conteúdo de direita. Pablo Ortellado mostrou um estudo interessante, que mostra que o número de matérias da grande mídia sobre a Lava Jato não declinou depois da votação do impeachment no plenário da Câmara no dia 17 de abril, mas o número de compartilhamentos no Facebook de matérias sobre a Lava Jato depois deste dia caiu bruscamente. Isto mostra que não é só a grande mídia que quer instrumentalizar o combate à corrupção no Brasil com o objetivo único de ter um governo de direita, e que os leitores da mídia seriam simplesmente manipulados coitados. Na verdade, uma grande parcela da população brasileira deseja deliberadamente instrumentalizar o combate à corrupção no Brasil com o objetivo único de ter um governo de direita.

Antes de concluir, é importante lembrar que este posicionamento ideológico da grande mídia não se restringe ao Brasil. É certo que no Brasil isto é mais acentuado. Basta ver a diferença de posicionamento entre a grande mídia brasileira e a grande mídia estrangeira sobre o impeachment da Dilma. Isto pode ser visto já em 2009, com a diferença de cobertura sobre a deposição de Zelaya em Honduras. A grande mídia de primeiro mundo teve uma visão bem mais crítica do que a grande mídia brasileira e hondurenha. Ainda assim, no mundo todo, para fornecer notícias é preciso ter muito dinheiro, afinal, o custo não é pequeno, e, portanto, quem fornece notícias tem orientação ideológica de quem tem muito dinheiro. Quem não tem dinheiro, como os criadores deste site que você está lendo neste exato momento, só pode produzir opinião.

O que fazer? Censura? Nem fodendo! Todos os governos devem ser fiscalizados, incluindo os governos progressistas. Mas governos que não tem orientação ideológica semelhante à das grandes empresas de mídia poderiam ser menos generosos com verbas de publicidade. Além disso, uma lei anti-oligopólio semelhante a dos Estados Unidos poderia ser pensada para o Brasil. É um absurdo que as Organizações Globo seja um grupo que tenha canal de televisão aberta, canais de televisão por assinatura, comercialização de pacotes de televisão por assinatura, portal de notícias de Internet, estação de rádio, jornais, revistas, estúdio de cinema, gravadora e editora de livros escolares. Este grupo empresarial poderia ser compulsoriamente repartido em três ou até mais.

Organizações de extrema-direita, alegando que existe doutrinação esquerdista nas escolas (o que não é verdade), querem criar o Escola Sem Partido, para estabelecer censura na atividade docente. O criador do movimento argumenta que professor não deveria ter liberdade de expressão porque sua audiência é cativa, ou seja, jovens são obrigados a ir para a escola. Baseado neste argumento, organizações de esquerda, alegando que existe doutrinação direitista na imprensa (o que é verdade), poderiam tentar criar o Imprensa Sem Partido. Assim como a escola, os jornais, os sites e os canais de televisão que transmitem notícias têm audiência cativa. É necessário estar bem informado para conseguir emprego e sobreviver. Eu gosto de sites alternativos e de perfis alternativos nas redes sociais que criticam a grande mídia porque eu gosto de diversidade de opinião. Eu inclusive colaboro com um site alternativo de opinião, este que você está lendo agora. Mas mesmo sendo muito crítico, não tenho como escapar da grande mídia para saber as notícias.

É óbvio, não sugiro a criação de um Imprensa Sem Partido para não dar legitimidade a um Escola Sem Partido. Nenhuma forma de censura deve ser aceita. Mas poderiam ser pensadas leis para obrigar quem fornece notícias a fornecer opiniões diversas, não apenas as dos donos dos veículos.

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Um balanço das eleições municipais de 2016, com maior destaque para o Rio de Janeiro

Os partidos de esquerda sofreram estrondosa derrota nas eleições municipais de 2016. Por isso, é importante fazer análises. É ótimo que várias pessoas façam análises, para que uma análise ajude a melhorar a outra. Na política não somos imparciais, nós temos posicionamentos. Mas as análises devem ser feitas de forma mais imparcial possível, mas fornecer diagnósticos adequados para a ação. Um diagnóstico errado depois de um fracasso pode sugerir ações erradas, e abrir caminho para um novo fracasso mais para frente. Um bom exemplo disso é a seleção brasileira de futebol. Depois que deu vexame na Copa do Mundo de 2006, o diagnóstico que estava na ponta da língua do jornalismo esportivo era o de que houve farra demais. Isto ajudou na decisão de contratar Dunga, o xerifão, para colocar ordem na casa. Na Copa do Mundo de 2010, houve outro vexame. Aí, o diagnóstico na ponta da língua do jornalismo esportivo era o de que o time jogava fechado demais e que os brasileiros tinham que redescobrir a vocação de jogar aberto. Bom, em 2014, o Brasil entrou aberto contra a Alemanha e aí… Lição aprendida de tudo isso, é que diagnósticos ruins podem ser o caminho do próximo fracasso.

Sobre a eleição municipal do Rio de Janeiro, são possíveis duas explicações muito ruins sobre a vitória de Marcelo Crivella sobre Marcelo Freixo por margem de 19 pontos no segundo turno. Uma explicação é oposta da outra, mas ambas são irrealistas e são feitas não por quem quer ser fiel à realidade, mas por quem quer vender seu peixe.

Uma destas explicações diz que Marcelo Freixo poderia ter tido um desempenho melhor se tivesse feito uma campanha no segundo turno em parceria com o Lula. Quem diz isso usa como argumento o fato de Freixo ter tido desempenho melhor nas zonas eleitorais onde Aécio teve desempenho melhor em 2014, e Crivella ter tido desempenho melhor nas zonas onde Dilma teve desempenho melhor em 2014. Esta explicação é completamente fora da realidade, porque desconsidera os resultados pífios que o PT teve no Brasil inteiro em 2016, inclusive onde Dilma foi bem em 2014. Nem o Lula fazendo campanha na periferia de São Paulo ajudou a evitar que Haddad tivesse um desempenho pífio. Se a ligação com Lula, Dilma, PT e PCdoB ajudasse, Jandira Feghali teria sido eleita prefeita do Rio de Janeiro. E um cuidado muito grande deve ser tomado ao fazer a correlação das zonas entre 2014 e 2016: a falácia ecológica deve ser evitada. A falácia ecológica consiste em inferir a indivíduos características dos grupos aos quais eles pertencem. Não é só porque Freixo foi bem onde Aécio foi bem, e Crivella foi bem onde Dilma foi bem que quem votou no Aécio votou no Freixo e quem votou na Dilma votou no Crivella. É perfeitamente possível que a maioria das pessoas que votou no Aécio tenha votado no Crivella, que a maioria das pessoas que votou na Dilma tenha votado no Freixo, mas que um número suficiente de habitantes das zonas eleitorais de maior renda votando no Aécio e no Freixo e de habitantes das zonas eleitorais de menor renda votando na Dilma e no Crivella tenha causado essa correlação. Além disso, deve ser lembrado que a soma de votos de Marcelo Freixo, Jandira Feghali e Alessandro Molon no primeiro turno foi de 23%. Para ser competitivo, era inevitável disputar o voto de quem votou em Índio da Costa e Carlos Osório no primeiro turno. E como Freixo teve 40,6% no segundo turno, verifica-se que ele realmente conseguiu muitos votos de quem não votou em candidatos de esquerda no primeiro turno. Em um texto escrito logo depois do segundo turno, Jandira Feghali criticou o fato de Marcelo Freixo ser uma esquerda sem povo. Porém, é preciso lembrar que ela também é uma esquerda sem povo. Mesmo no tempo em que Lula era popular, e Lula e Dilma tinham muitos votos da população de baixa renda do Rio de Janeiro, mesmo sendo aliada de Lula e Dilma, Jandira não conseguia ter esse apoio da quem votava no Lula e na Dilma para presidente. Tanto em 2004, quanto em 2008, sua votação na disputa pela prefeitura foi pífia. Por outro lado, deve ser repudiada a acusação grosseira que alguns apoiadores de Freixo fizeram no primeiro turno de que a candidatura de Jandira tinha o propósito de ajudar o Pedro Paulo.

A explicação oposta diz que Marcelo Freixo pagou o preço do PSOL ter se comportado como linha auxiliar do PT. Segundo esta explicação, o fato de Freixo ter apoiado Dilma no segundo turno em 2014 e do PSOL ter considerado que o afastamento da Dilma foi um golpe afastou quem poderia ter votado nele por causa de sua biografia e por considerar muito ruim um líder de igreja pentecostal ser prefeito, mas recusou a apertar 50 por causa do posicionamento do PSOL na política nacional. Muitos dos que defendem esta explicação são simpatizantes da Rede. Este partido tem uma fundadora com ideias conservadoras, mas tem alguns líderes progressistas que desejam ficar mais distantes do PT. Porém, a Rede também teve resultados pífios. Molon, do braço “petista” da Rede, ficou com aproximadamente 1% no Rio de Janeiro. Young, do braço “tucano” da Rede, ficou com aproximadamente 1% em São Paulo. A Rede só elegeu um prefeito que tinha sido eleito pelo PSOL e estava disputando a reeleição. A Marta, senadora que votou a favor do impeachment, se candidatou a prefeita de São Paulo pelo PMDB e teve desempenho muito ruim. O fato do Freixo ter apoiado a Dilma no segundo turno em 2014 não o impediu de ter maioria em zonas eleitorais onde Aécio teve maioria. Como foi dito anteriormente, é muito provável que Freixo tenha tido nestas zonas o voto da minoria que votou na Dilma mais alguns votos de quem votou no Aécio e também de quem votou nulo em 2014. Mas nota-se que Freixo, mesmo com seu posicionamento no segundo turno de 2014, teve alguns votos de eleitores do Aécio. Alguns defensores desta explicação chegaram a sugerir que a campanha de Freixo aproveitasse a baixa popularidade do PT/Lula/Dilma para explorar a ligação de Crivella com o lulismo, que durou bastante tempo. Achar que Freixo poderia ter tido ainda mais votos de eleitores anti-PT é uma ilusão, pois muitos dos eleitores anti-PT são claramente anti-esquerda. E como tanto PT, como PCdoB, como PSOL têm apoio de uma parcela muito pequena da população, criar um grande racha entre quem já tem poucos apoios poderia ser ainda mais destrutivo. Os simpatizantes do PT e do PCdoB são poucos, mas alguns deles colaboraram ativamente na campanha de Freixo no segundo turno, assim como simpatizantes do PSOL colaboraram ativamente na campanha de Dilma no segundo turno de 2014.

Então o que a campanha de Freixo poderia ter feito para ter obtido um resultado melhor? Sinceramente, pouca coisa. Os 40,6% no segundo turno foram um teto que um candidato de esquerda poderia ter tido. O ano de 2016 foi o pior ano para a esquerda brasileira depois da redemocratização. Ainda assim, a esquerda teve o melhor desempenho na eleição para prefeito do Rio de Janeiro desde 1992, quando Benedita da Silva perdeu para César Maia por uma diferença menor. Entre 1996 e 2012, ou não houve segundo turno, ou o segundo turno foi disputado entre dois candidatos não esquerdistas. Tudo bem que a votação de Marcelo Freixo no primeiro e único turno de 2012 foi maior que a votação dele no primeiro turno de 2016. Mas em 2016, a esquerda teve uma soma de 23,22% (Freixo+Jandira+Molon+Garcia). Em 2008, ano em que a popularidade de Lula era alta, a esquerda teve uma soma de 18.48% (Jandira+Molon+Chico Alencar+Paulo Ramos). O segundo turno naquele ano foi disputado entre Paes e Gabeira. Crivella ficou o terceiro, e Jandira, a candidata de esquerda mais bem posicionada ficou em quarto. Em 2004, César Maia foi reeleito no primeiro turno. A soma de Jandira com Bittar não chegou a 15%. Há muito tempo, a esquerda no Rio de Janeiro é fraca. A elevada votação de Lula e Dilma para presidente na cidade não é acompanhada por elevada votação de candidatos esquerdistas locais, aliados ou não de Lula e Dilma. No Rio de Janeiro, o PT local nunca teve força. Quem dominava a esquerda era Brizola do PDT. Depois do declínio do brizolismo, nenhuma força de esquerda ocupou o lugar.

Além disso, o PT e o PCdoB do Rio de Janeiro quase sumiram quando ocuparam secretarias e órgãos da administração indireta dos governos estadual e municipal do PMDB. Com este vazio deixado na centro-esquerda do Rio de Janeiro, o PSOL se moveu para ocupa-lo, abandonando as posições de extrema-esquerda que o PSOL defende em outros estados. Chico Alencar, Jean Wyllys, Tarcísio Motta e Marcelo Freixo se tornaram fortes lideranças. O PSOL conseguiu eleger seis vereadores em 2016, obtendo a segunda bancada da Câmara, menor apenas que a do PMDB. Porém, há um problema: o PSOL ainda tem grande dificuldade de alcançar as classes mais baixas. Marcelo Freixo conseguiu ter mais de 20% dos votos em todas as zonas eleitorais da cidade, mas ainda assim onde ele não conseguiu passar dos 30% foi em zonas de baixa renda.

É fato: o PSOL tem dificuldade de virar um partido de massas. Esta última campanha do Freixo deu um passo à frente, mas ainda há um longo caminho a percorrer. O discurso do PSOL do Rio de Janeiro é um discurso muito humanas de universidade pública. Ainda existe dificuldade de encontrar um discurso mais compreensível fora deste nicho. Normalmente, partidos radicais não têm apoio das massas. Mas o PSOL do Rio de Janeiro não é radical. O problema é outro. A esmagadora maioria dos discursos e textos de lideranças do PSOL carioca é sobre racismo, machismo, homofobia, transfobia, violência policial e política de drogas. São temas muito importantes, são temas que devem continuar a ser abordados, são temas que impactam na vida de pessoas mais pobres, mas não são os únicos problemas do Brasil. Além disso, a maneira através da qual estes temas são abordados pode afastar pessoas mais pobres. A abordagem destes temas precisa ser mais didática e menos chocante. Para se tornar um partido grande, o PSOL não pode repetir os muitos defeitos do PT, mas precisa reproduzir do PT uma qualidade que este partido tinha no seu período de auge: a capacidade de penetrar nas classes mais baixas mesmo tendo alguns quadros defendendo políticas pró-LGBT e legalização do aborto, temas que não são bem aceitos por algumas pessoas pobres.

É injusto comparar o PSOL do Rio de Janeiro a um partido verde, o PSOL do Rio de Janeiro é aliado de sindicatos, do movimento dos sem terra, do movimento dos sem teto. Mas a base leal que pertence às classes mais baixas está apenas em pessoas que militam em movimentos. Diferente do PT, que no tempo do auge, teve apoio do povão, mesmo daquele que não era organizado.

Uma ideia que as pessoas de esquerda devem evitar é a defesa do puro espontaneísmo: aquela visão de que as pessoas pobres têm uma sabedoria oculta superior, e que esquerdistas da parcela letrada da classe média que querem mudar os valores das pessoas pobres seriam arrogantes e elitistas. Pobres podem estar errados sim, esquerdistas da parcela letrada da classe média podem querer mudar os valores dos pobres sim. O que precisa ser repensada é a forma de comunicação. Da mesma forma que acadêmicos de esquerda que disputam a opinião das massas são intelectuais, os pastores evangélicos também são. Autores clássicos da esquerda, como Marx, Lenin e Gramsci nunca defenderam o espontaneísmo.

Um assunto próximo a este é do “preconceito da elite intelectual de esquerda contra os evangélicos”. Nenhum indivíduo deve ser odiado por causa da religião que segue. Mas apontar os perigos que as igrejas evangélicas pentecostais representam para o Brasil não é preconceito. É observar a realidade. Diferente da igreja católica e das igrejas protestantes convencionais, as igrejas evangélicas pentecostais têm planos de conquistar cada vez mais poder através do dinheiro e cada vez mais dinheiro através do poder. Discursos de lideranças pentecostais são extremamente intolerantes com quem não segue sua religião. Há limites para a tolerância. Quem quer ser tolerado precisa saber ser tolerante. Projetos de lei defendidos por parlamentares pentecostais atacam o ensino de ciências, a saúde da mulher. Políticos e intelectuais de esquerda devem se esforçar para entender como os pentecostais conseguiram tanto apoio das classes mais baixas para orientar ações para disputar este apoio, não para considerar que está tudo bem.

Outro fator que pode ter prejudicado o Freixo é a imagem ruim que muitas pessoas têm de defensores de direitos humanos. Em parte, isto ocorre por causa da visão equivocada de muitas pessoas que toleram tortura, execuções. Mas isto também ocorre porque há algumas pessoas barulhentas identificadas como “de esquerda” que passam pano em criminosos, que debocham de cidadãos preocupados com a criminalidade. Isto gera revolta em quem já passou pela experiência de um assalto a mão armada, ou de perder um parente por causa de criminalidade. Aí, defensores sérios dos direitos humanos, como Marcelo Freixo e Luís Eduardo Soares, mesmo não aderindo a este discurso, acabam pagando o pato. Devemos lutar contra tortura, contra execuções, contra condições sub-humanas de presídios, contra prisões arbitrárias, mas devemos nos opor a quem insinua que ricos merecem viver sob o risco de ser assaltados. Esse tipo de discurso acaba contribuindo para aumentar o ódio a quem defende direitos humanos. E não é entre os mais ricos que está este maior ódio. Basta ver onde o Freixo perdeu mais feio…

Um debate que pode ser visto no Facebook logo depois da apuração foi sobre supostas hostilidades que eleitores de classe média do Freixo escreveram contra eleitores pobres contra o Crivella. Na minha timeline do Facebook, só vi gente reclamando dos eleitores de classe média do Freixo que estariam escrevendo hostilidades contra eleitores pobres do Crivella, mas não vi qualquer eleitor de classe média do Freixo escrevendo hostilidades contra eleitores pobres do Crivella. O que eu vi e muito foi, em 2014, eleitores de classe média do Aécio chamando eleitor pobre da Dilma de ignorante, vagabundo e beneficiário do Bolsa Família.

Fora do Rio de Janeiro, o PSOL disputou o segundo turno apenas em Sorocaba e em Belém. Perdeu nestas duas cidades também. Obteve duas prefeituras no Rio Grande do Norte. Tirando isso, se manteve como um partido pequeno. O PT obteve derrotas avassaladoras no Brasil inteiro, incluindo São Paulo, no prefeito Haddad, que era (e provavelmente ainda seja) uma das grandes esperanças de renovação do partido. Haddad teve um dos melhores resultados da história do PT nas zonas eleitorais de alta renda da cidade, ficando atrás apenas de Marta 2000 e Lula 2002, mas sofreu um tsunami na periferia, que no passado já foi uma área de forte apoio ao PT. O PCdoB ganhou em Aracaju e em alguns municípios pequenos do Maranhão, e não muito mais do que isso. O desempenho da esquerda no primeiro turno não foi muito melhor no Rio de Janeiro do que em outras cidades. Seja no Rio de Janeiro, seja em São Paulo, seja em Campinas, seja em Porto Alegre, a esquerda teve aproximadamente 20% no primeiro turno. No Rio de Janeiro, foi possível um candidato chegar ao segundo turno porque houve concentração dos votos de esquerda em um único candidato, feito através do voto útil de quem poderia ter votado na Jandira ou no Molon, enquanto que a direita se fragmentou em vários candidatos. Em Porto Alegre os votos de esquerda se dividiram entre Raul Pont e Luciana Genro. Em São Paulo e em Campinas, um candidato apoiado por partidos de direita conseguiu vencer já no primeiro turno.

O trio dos municípios economicamente mais importantes do Brasil será governado por pessoas respectivamente da televisão, da religião e do futebol. Curitiba terá um prefeito que tem nojo de pobre. Porto Alegre terá um prefeito que defende o fim da Justiça do Trabalho. No campo progressista, além de Flávio Dino, o único que se saiu bem foi Ciro Gomes, que apoiou o atual prefeito de Fortaleza que obteve a reeleição. O PDT ainda teve alguns ganhos no interior do Ceará. Ciro Gomes pode ser um nome forte para a corrida presidencial de 2018.

Com tantos resultados ruins, torna-se difícil o PT, o PCdoB e o PSOL tentarem um colocar a culpa no outro. Seria melhor que cada um dos partidos de esquerda começasse avaliando seus próprios defeitos. Podemos criticar a indignação seletiva da população, que puniu severamente o PT por causa dos escândalos de corrupção descobertos pela Lava Jato e por causa da crise econômica, mas deixou ileso o PMDB fora do Rio de Janeiro. Os eleitores preferiram ex-aliados conservadores de Lula e Dilma a lideranças de esquerda que nunca fizeram parte desses governos.

De qualquer maneira, muito da derrota dos partidos de esquerda se deve aos próprios partidos. O ano de 2018 está chegando. Se a conjuntura política do Brasil não mudar até lá, o PT perderá quase todos os seus senadores, que foram eleitos em 2010, e não em 2014. Hora de se mexer.

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