Os destrutivos duelos entre os quebra tijolos e os pós modernos

Eu lembro que quando eu fiz bacharelado, entre 2002 e 2006, e participei do movimento estudantil, os partidos de esquerda e os movimentos de grupos oprimidos étnicos e sexuais, e movimentos de causas pós-1968, eram aliados naturais. Já na década de 2010 apareceram nas redes sociais várias briguinhas entre alguns militantes de grupos oprimidos e de causas pós-1968, e alguns militantes da esquerda tradicional. Brigar não é necessariamente ruim, divergências são naturais na política, e, portanto, expor estas divergências pode ser saudável. O problema são as motivações destas brigas e a postura de alguns participantes. Criam-se futricas nada construtivas.

Nestas brigas, militantes da esquerda tradicional, sejam social democratas, sejam marxistas leninistas, chamam de pós-modernos os militantes dos grupos oprimidos e de causas pós-1968. Estes, por sua vez, chamam de quebra tijolos os militantes da esquerda tradicional. Isto porque um militante da esquerda tradicional, famoso na Internet, hostil aos movimentos pós-1968, apareceu quebrando tijolos, para mostrar que era fortão. Aí o apelido pegou.

Há exageros nos dois lados. Habitualmente, não gosto de dizer esta frase. Já escrevi até mesmo este texto criticando quem usa demais esta frase. Mas neste caso, a frase se aplica muito bem.

É muito positivo que as bandeiras dos movimentos feminista, LGBT, negro, indigenista, ambientalista e pró descriminalização de drogas tenham entrado na pauta da luta por justiça social, se juntando a já mais tradicional luta de classes, luta contra a desigualdade da distribuição de renda. O problema é a postura que alguns militantes desses movimentos vem assumindo nas redes sociais durante a década de 2010. A necessária reinvindicação de maior visibilidade de pessoas que pertencem aos grupos oprimidos nos debates sobre opressão degenerou-se na ideia de que as pessoas que pertencem aos grupos oprimidos devem ser as únicas a terem a palavra no assunto. Há militantes feministas que falam como se o simples fato de ser homem já fosse um defeito. Há militantes do movimento negro que falam como se o simples fato de ser branco já fosse um defeito. Felizmente, não há no movimento LGBT militantes que falam como se o simples fato de ser hétero já fosse um defeito. Considerando que três quartos da população brasileira são compostos por quem é OU homem OU branco OU ambos, vivemos, pela lógica de alguns movimentos, em um país em que três quartos da população são compostos por opressores. O conceito de “lugar de fala”, que é sério, vulgarizou-se a ponto de virar “cala a boca homem” e “cala a boca branco”. Proliferam-se os textões criticando condutas dos homens brancos de esquerda. Não é errado criticar quem é de esquerda, ser de esquerda não é garantia de bom caráter, vimos recentemente no Brasil muitas canalhices praticadas por líderes de esquerda. O problema é que os textões atacam não delitos graves, mas apenas um ou outro comportamento reprovado pelos autores.

As sociedades civilizadas têm código penal, em que as penas são proporcionais à gravidade do crime. Em algumas militâncias de redes sociais, não existe pena proporcional ao crime. Os tribunais das redes sociais estabelecem penas parecidas para declarações explícitas de racismo, machismo e homofobia, e para atitudes que o grupo restrito de militantes consideram ofensivas. Um exemplo disso pode ser verificado na “apropriação cultural”. É um debate razoavelmente recente, que muita gente não conhece. Entre os que conhecem, existem aqueles que consideram que a apropriação cultural é realmente um problema grave, outros consideram que não. Ainda assim, praticantes da apropriação cultural, mesmo quando fazem isso sem querer, podem ser alvo de hostilidades em redes sociais. Um caso emblemático foi o da menina branca que se fantasiou de mãe de santo no carnaval.

Alguns militantes pela descriminalização da maconha não se limitam a levantar as questões de inutilidade da guerra às drogas, de criminalização da pobreza causada por esta guerra e de ineficácia do proibicionismo para a saúde e para a segurança pública. Acabam por exaltar o consumo. A consequência disso é o aumento do preconceito contra o movimento pela descriminalização da maconha, e contra causas progressistas em geral.

Escrever sobre política na Internet deveria ter dois objetivos principais: convencer os indecisos a abraçar a sua causa, e convencer os que já abraçam a causa mas estão passivos a se tornarem ativos. Porém, não é isso que se vê em muitos militantes de grupos oprimidos, descriminalização de drogas leves e meio ambiente. O que se vê muitas vezes é a tentativa simplesmente de lacrar, ou seja, dar show para aqueles que já abraçam a causa e provocar quem não abraça a causa, desestimulando ainda mais estes a abraçarem a causa. Acaba ocorrendo um narcisismo militante, em que o objetivo não é tornar mais forte a luta pela causa, e sim tornar-se uma celebridade entre as pessoas que já defendem a causa.

Como já dizia o velho Newton, para toda ação há uma reação. Enxergando os equívocos praticados por alguns militantes de grupos oprimidos, de meio ambiente e de descriminalização de drogas leves, defensores de bandeiras mais tradicionais da esquerda passaram a criticar esses militantes em fóruns de discussão e em páginas do Facebook. Utilizaram o termo “pós-moderno” para denominar todos esses militantes. O problema é que eles repetiram os erros. Também praticam o egocentrismo, o narcisismo militante. Também se preocupam mais em lacrar do que em convencer outras pessoas para a causa. Algumas postagens “anti pós-moderno” de marxistas leninistas e social democratas tradicionais acabam praticando hostilidade generalizada contra os movimentos feminista, LGBT, negro, ambientalista e pró descriminalização de drogas leves, e não apenas contra alguns erros praticados por esses movimentos. Basta trocar “pós-moderno” por “politicamente correto” que os textos destas postagens ficam idênticos aos textos neocon. As críticas que essa esquerda anti pós moderna faz às feministas, aos militantes negros, aos militantes LGBT, aos ambientalistas, aos defensores da legalização da maconha e aos praticantes de ciranda não se difere muito das críticas que Leandro Narloch, Reinaldo Azevedo, Luís Felipe Pondé e Danilo Gentili fazem aos mesmos grupos. Uma das postagens mais absurdas tem a foto de um grupo de partisans da primeira metade do século XX, em cima de uma foto de uma Parada Gay do século XXI, e a frase “houve um tempo em que a esquerda dava tiro, atualmente a esquerda dá a bunda”. Trata-se do uso da defesa de valores tradicionais da esquerda como mero pretexto para passar uma mensagem homofóbica. Essa esquerda anti pós-moderna, que supostamente defende a retomada dos valores da esquerda tradicional, é tão incoerente que algumas vezes debocha de quem gosta do Mujica e idolatra o Putin. O problema destas preferências é que até em questões econômicas o Mujica está à esquerda de Putin, e que o próprio Mujica já disse que legalização do aborto, do casamento gay e da maconha foram lutas secundárias suas.

Com esta postura, os quebra tijolos geram o efeito bumerangue. Podem ter tido a boa intenção de criticar lutas particularistas que ignoram a luta universalista por justiça social. Porém, a postura adotada incentiva o oposto. Uma feminista poderia ter até boa vontade de se juntar à militância de esquerda e ver a luta dela não como a única luta, mas como parte de um conjunto de lutas. Mas quando ela enxerga pessoas identificadas com a esquerda fazendo esculachos misóginos com a luta feminista, ela pode chegar à conclusão de que a esquerda não a representa, e continuar na luta feminista desconectada ou até mesmo hostil a outras lutas progressistas.

Militantes dos movimentos feminista, LGBT, negro, indigenista, ambientalista e pró descriminalização de drogas leves têm reinvindicações bastante justas, e poderiam lutar para que estas reinvindicações estejam sempre na pauta de partidos de esquerda, e movimentos progressistas em geral. Defensores da retomada das bandeiras tradicionais de esquerda, que defendem o não esquecimento da luta de classes e da questão da distribuição de renda, que apontam para os riscos do excesso de particularismo dos movimentos de grupos oprimidos e de causas pós-1968, também têm reinvindicações bastante justas, e poderiam tentar um bom entendimento com os movimentos de causas específicas, para incentivá-los a participar de uma luta universalista por justiça social, e não repetir esculachos neocon contra esses movimentos. Fazer militância política é convencer outras pessoas a aderir à sua causa, e não exaltar as virtudes de quem já é convicto à sua causa e debochar de quem não é. O comportamento de quem discute política não pode ser semelhante ao comportamento de quem discute times de futebol e conjuntos de música.

Atualmente, o maior racha da esquerda em debates em redes sociais é entre os quebra tijolos e os pós-modernos. Entre janeiro de 2003 e abril de 2016, o maior racha era entre os pelegos e os troskos. Os pelegos eram os que apoiavam os governos Lula e Dilma. Os troskos eram os que não apoiavam. Obviamente, os dois nomes eram pejorativos, os pelegos criaram o nome trosko e os troskos criaram o nome pelego. Apesar deste debate ter declinado, depois que o PT não é mais governo, ainda restam resquícios deste debate. E não existe correlação entre a polarização quebra tijolo vs. pós-moderno e a polarização pelego vs. trosko. Existe quebra tijolo pelego, quebra tijolo trosko, pós-moderno pelego e pós-moderno trosko. Dentro destas quatro combinações, existem aqueles que querem fazer um debate decente, e existem aqueles que vivem no egocentrismo e no narcisismo militante.

Com os progressistas estão muito em baixa no Brasil e no mundo atualmente, estes quatro grupos são como fãs de quatro bandas bastante alternativas, com pouquíssimos fãs, debatendo entre si.

Obs: Já havia abordado este assunto antes aqui, neste texto.

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