Sobre a tal da prosperidade do Brasil no tempo do Império

Uma grande praga que infesta as comunidades virtuais de História são os monarquistas brasileiros. Além disso, livros sobre a família real habitualmente estão presentes nas listas de mais vendidos. Tudo isto é sintoma desta onda conservadora que está em todos os cantos. Fala-se muito sobre a suposta prosperidade que o Brasil viveu durante o Império. Mas que prosperidade foi esta?

Bom, foi durante o século XIX que o Brasil ficou para trás em PIB per capita em comparação com os Estados Unidos e a Europa Ocidental. Durante o século XX, o Brasil teve uma das maiores taxas de crescimento de PIB per capita do mundo, mas insuficiente para diminuir significativamente o gap com o mundo desenvolvido, que havia se constituído no século XIX. Em geral, a América Latina ficou para trás durante o século XIX. Mas na segunda metade do século XIX, Argentina e México tiveram um processo de desenvolvimento maior do que o do Brasil.

No final do período do Império, o Brasil tinha mais de 70% de analfabetos na população adulta. Enquanto isso, a Argentina já estava iniciando um processo de alfabetização de massas. Em 1822, o Brasil tinha zero universidade. Em 1889, também. As únicas instituições de ensino superior do Brasil no tempo do Império eram algumas faculdades de Direito, de Medicina, e algumas academias militares. A primeira universidade do Brasil foi criada em Manaus, em 1909, já durante a República. Peru e México têm universidades desde o século XVII.

A rede ferroviária construída no Brasil no tempo do Império não passava de um conjunto de estradas que ligavam alguns pontos do interior a alguns pontos do litoral. Enquanto isso, outros países já estavam fazendo redes para interligar o país todo.

Os monarquistas gostam de dizer que a família imperial brasileira era contra a escravidão, que a abolição ao longo de quase todo o período do Império só não foi possível porque os proprietários de terra, que controlavam o Parlamento, eram contra, e que os proprietários escravocratas defenderam a Proclamação da República. Bom, se o imperador realmente era a favor da abolição, ele foi um incompetente, ao ter permitido a escravidão ter durado até o penúltimo ano do império. As repúblicas latino-americanas aboliram a escravidão até a década de 1850. Os Estados Unidos aboliram em 1865. Durante grande parte do período do Império brasileiro, o setor público também foi proprietário de escravos.

Quanto à política, os monarquistas gostam de dizer que o Brasil tinha uma democracia no tempo do Império, uma vez que havia um Parlamento eleito e um primeiro-ministro, e que o Brasil tinha estabilidade política no Império, contrastando com a República, quando ocorreram muitos golpes. Bom, é difícil falar de democracia quando existe voto censitário. Isso ocorria naquele tempo no Brasil e nas monarquias constitucionais da Europa. Além do mais, não é possível falar que o Brasil tinha ao mesmo tempo democracia e estabilidade política. Se assumir que quem mandava era o imperador, não é possível falar que havia democracia. Se assumir que quem mandava era o primeiro-ministro, não é possível falar que havia estabilidade política, pois a duração de cada primeiro-ministro era semelhante à da Itália do século XX. E sim, durante a República ocorreram golpes no Brasil. Alguns deles apoiados por conservadores saudosistas da monarquia. Ouvimos, às vezes, alguns monarquistas dizerem que o povão era a favor da monarquia. Bom, quando o Brasil ficou independente em 1822, o povão não foi consultado para ver se queria a monarquia ou não. A única vez em que o povão foi consultado para ver se desejava a república ou a monarquia ocorreu no plebiscito de 1993, com vitória esmagadora da República.

A monarquia não é necessariamente uma forma ruim de governo. Algumas monarquias, como o Japão, o Reino Unido, a Espanha, a Bélgica, a Holanda, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia estão entre os países com maior IDH no mundo. Mas não há relação de causa e efeito nisso. Alguns vizinhos desses países, que são repúblicas, são tão prósperos quanto. E algumas dessas monarquias mencionadas têm políticas que dificilmente seriam defendidas por monarquistas brasileiros, que são bastante conservadores.

Há países bastante desenvolvidos com monarquia. Mas não é o caso do Brasil do século XIX.

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