Um balanço das eleições municipais de 2016, com maior destaque para o Rio de Janeiro

Os partidos de esquerda sofreram estrondosa derrota nas eleições municipais de 2016. Por isso, é importante fazer análises. É ótimo que várias pessoas façam análises, para que uma análise ajude a melhorar a outra. Na política não somos imparciais, nós temos posicionamentos. Mas as análises devem ser feitas de forma mais imparcial possível, mas fornecer diagnósticos adequados para a ação. Um diagnóstico errado depois de um fracasso pode sugerir ações erradas, e abrir caminho para um novo fracasso mais para frente. Um bom exemplo disso é a seleção brasileira de futebol. Depois que deu vexame na Copa do Mundo de 2006, o diagnóstico que estava na ponta da língua do jornalismo esportivo era o de que houve farra demais. Isto ajudou na decisão de contratar Dunga, o xerifão, para colocar ordem na casa. Na Copa do Mundo de 2010, houve outro vexame. Aí, o diagnóstico na ponta da língua do jornalismo esportivo era o de que o time jogava fechado demais e que os brasileiros tinham que redescobrir a vocação de jogar aberto. Bom, em 2014, o Brasil entrou aberto contra a Alemanha e aí… Lição aprendida de tudo isso, é que diagnósticos ruins podem ser o caminho do próximo fracasso.

Sobre a eleição municipal do Rio de Janeiro, são possíveis duas explicações muito ruins sobre a vitória de Marcelo Crivella sobre Marcelo Freixo por margem de 19 pontos no segundo turno. Uma explicação é oposta da outra, mas ambas são irrealistas e são feitas não por quem quer ser fiel à realidade, mas por quem quer vender seu peixe.

Uma destas explicações diz que Marcelo Freixo poderia ter tido um desempenho melhor se tivesse feito uma campanha no segundo turno em parceria com o Lula. Quem diz isso usa como argumento o fato de Freixo ter tido desempenho melhor nas zonas eleitorais onde Aécio teve desempenho melhor em 2014, e Crivella ter tido desempenho melhor nas zonas onde Dilma teve desempenho melhor em 2014. Esta explicação é completamente fora da realidade, porque desconsidera os resultados pífios que o PT teve no Brasil inteiro em 2016, inclusive onde Dilma foi bem em 2014. Nem o Lula fazendo campanha na periferia de São Paulo ajudou a evitar que Haddad tivesse um desempenho pífio. Se a ligação com Lula, Dilma, PT e PCdoB ajudasse, Jandira Feghali teria sido eleita prefeita do Rio de Janeiro. E um cuidado muito grande deve ser tomado ao fazer a correlação das zonas entre 2014 e 2016: a falácia ecológica deve ser evitada. A falácia ecológica consiste em inferir a indivíduos características dos grupos aos quais eles pertencem. Não é só porque Freixo foi bem onde Aécio foi bem, e Crivella foi bem onde Dilma foi bem que quem votou no Aécio votou no Freixo e quem votou na Dilma votou no Crivella. É perfeitamente possível que a maioria das pessoas que votou no Aécio tenha votado no Crivella, que a maioria das pessoas que votou na Dilma tenha votado no Freixo, mas que um número suficiente de habitantes das zonas eleitorais de maior renda votando no Aécio e no Freixo e de habitantes das zonas eleitorais de menor renda votando na Dilma e no Crivella tenha causado essa correlação. Além disso, deve ser lembrado que a soma de votos de Marcelo Freixo, Jandira Feghali e Alessandro Molon no primeiro turno foi de 23%. Para ser competitivo, era inevitável disputar o voto de quem votou em Índio da Costa e Carlos Osório no primeiro turno. E como Freixo teve 40,6% no segundo turno, verifica-se que ele realmente conseguiu muitos votos de quem não votou em candidatos de esquerda no primeiro turno. Em um texto escrito logo depois do segundo turno, Jandira Feghali criticou o fato de Marcelo Freixo ser uma esquerda sem povo. Porém, é preciso lembrar que ela também é uma esquerda sem povo. Mesmo no tempo em que Lula era popular, e Lula e Dilma tinham muitos votos da população de baixa renda do Rio de Janeiro, mesmo sendo aliada de Lula e Dilma, Jandira não conseguia ter esse apoio da quem votava no Lula e na Dilma para presidente. Tanto em 2004, quanto em 2008, sua votação na disputa pela prefeitura foi pífia. Por outro lado, deve ser repudiada a acusação grosseira que alguns apoiadores de Freixo fizeram no primeiro turno de que a candidatura de Jandira tinha o propósito de ajudar o Pedro Paulo.

A explicação oposta diz que Marcelo Freixo pagou o preço do PSOL ter se comportado como linha auxiliar do PT. Segundo esta explicação, o fato de Freixo ter apoiado Dilma no segundo turno em 2014 e do PSOL ter considerado que o afastamento da Dilma foi um golpe afastou quem poderia ter votado nele por causa de sua biografia e por considerar muito ruim um líder de igreja pentecostal ser prefeito, mas recusou a apertar 50 por causa do posicionamento do PSOL na política nacional. Muitos dos que defendem esta explicação são simpatizantes da Rede. Este partido tem uma fundadora com ideias conservadoras, mas tem alguns líderes progressistas que desejam ficar mais distantes do PT. Porém, a Rede também teve resultados pífios. Molon, do braço “petista” da Rede, ficou com aproximadamente 1% no Rio de Janeiro. Young, do braço “tucano” da Rede, ficou com aproximadamente 1% em São Paulo. A Rede só elegeu um prefeito que tinha sido eleito pelo PSOL e estava disputando a reeleição. A Marta, senadora que votou a favor do impeachment, se candidatou a prefeita de São Paulo pelo PMDB e teve desempenho muito ruim. O fato do Freixo ter apoiado a Dilma no segundo turno em 2014 não o impediu de ter maioria em zonas eleitorais onde Aécio teve maioria. Como foi dito anteriormente, é muito provável que Freixo tenha tido nestas zonas o voto da minoria que votou na Dilma mais alguns votos de quem votou no Aécio e também de quem votou nulo em 2014. Mas nota-se que Freixo, mesmo com seu posicionamento no segundo turno de 2014, teve alguns votos de eleitores do Aécio. Alguns defensores desta explicação chegaram a sugerir que a campanha de Freixo aproveitasse a baixa popularidade do PT/Lula/Dilma para explorar a ligação de Crivella com o lulismo, que durou bastante tempo. Achar que Freixo poderia ter tido ainda mais votos de eleitores anti-PT é uma ilusão, pois muitos dos eleitores anti-PT são claramente anti-esquerda. E como tanto PT, como PCdoB, como PSOL têm apoio de uma parcela muito pequena da população, criar um grande racha entre quem já tem poucos apoios poderia ser ainda mais destrutivo. Os simpatizantes do PT e do PCdoB são poucos, mas alguns deles colaboraram ativamente na campanha de Freixo no segundo turno, assim como simpatizantes do PSOL colaboraram ativamente na campanha de Dilma no segundo turno de 2014.

Então o que a campanha de Freixo poderia ter feito para ter obtido um resultado melhor? Sinceramente, pouca coisa. Os 40,6% no segundo turno foram um teto que um candidato de esquerda poderia ter tido. O ano de 2016 foi o pior ano para a esquerda brasileira depois da redemocratização. Ainda assim, a esquerda teve o melhor desempenho na eleição para prefeito do Rio de Janeiro desde 1992, quando Benedita da Silva perdeu para César Maia por uma diferença menor. Entre 1996 e 2012, ou não houve segundo turno, ou o segundo turno foi disputado entre dois candidatos não esquerdistas. Tudo bem que a votação de Marcelo Freixo no primeiro e único turno de 2012 foi maior que a votação dele no primeiro turno de 2016. Mas em 2016, a esquerda teve uma soma de 23,22% (Freixo+Jandira+Molon+Garcia). Em 2008, ano em que a popularidade de Lula era alta, a esquerda teve uma soma de 18.48% (Jandira+Molon+Chico Alencar+Paulo Ramos). O segundo turno naquele ano foi disputado entre Paes e Gabeira. Crivella ficou o terceiro, e Jandira, a candidata de esquerda mais bem posicionada ficou em quarto. Em 2004, César Maia foi reeleito no primeiro turno. A soma de Jandira com Bittar não chegou a 15%. Há muito tempo, a esquerda no Rio de Janeiro é fraca. A elevada votação de Lula e Dilma para presidente na cidade não é acompanhada por elevada votação de candidatos esquerdistas locais, aliados ou não de Lula e Dilma. No Rio de Janeiro, o PT local nunca teve força. Quem dominava a esquerda era Brizola do PDT. Depois do declínio do brizolismo, nenhuma força de esquerda ocupou o lugar.

Além disso, o PT e o PCdoB do Rio de Janeiro quase sumiram quando ocuparam secretarias e órgãos da administração indireta dos governos estadual e municipal do PMDB. Com este vazio deixado na centro-esquerda do Rio de Janeiro, o PSOL se moveu para ocupa-lo, abandonando as posições de extrema-esquerda que o PSOL defende em outros estados. Chico Alencar, Jean Wyllys, Tarcísio Motta e Marcelo Freixo se tornaram fortes lideranças. O PSOL conseguiu eleger seis vereadores em 2016, obtendo a segunda bancada da Câmara, menor apenas que a do PMDB. Porém, há um problema: o PSOL ainda tem grande dificuldade de alcançar as classes mais baixas. Marcelo Freixo conseguiu ter mais de 20% dos votos em todas as zonas eleitorais da cidade, mas ainda assim onde ele não conseguiu passar dos 30% foi em zonas de baixa renda.

É fato: o PSOL tem dificuldade de virar um partido de massas. Esta última campanha do Freixo deu um passo à frente, mas ainda há um longo caminho a percorrer. O discurso do PSOL do Rio de Janeiro é um discurso muito humanas de universidade pública. Ainda existe dificuldade de encontrar um discurso mais compreensível fora deste nicho. Normalmente, partidos radicais não têm apoio das massas. Mas o PSOL do Rio de Janeiro não é radical. O problema é outro. A esmagadora maioria dos discursos e textos de lideranças do PSOL carioca é sobre racismo, machismo, homofobia, transfobia, violência policial e política de drogas. São temas muito importantes, são temas que devem continuar a ser abordados, são temas que impactam na vida de pessoas mais pobres, mas não são os únicos problemas do Brasil. Além disso, a maneira através da qual estes temas são abordados pode afastar pessoas mais pobres. A abordagem destes temas precisa ser mais didática e menos chocante. Para se tornar um partido grande, o PSOL não pode repetir os muitos defeitos do PT, mas precisa reproduzir do PT uma qualidade que este partido tinha no seu período de auge: a capacidade de penetrar nas classes mais baixas mesmo tendo alguns quadros defendendo políticas pró-LGBT e legalização do aborto, temas que não são bem aceitos por algumas pessoas pobres.

É injusto comparar o PSOL do Rio de Janeiro a um partido verde, o PSOL do Rio de Janeiro é aliado de sindicatos, do movimento dos sem terra, do movimento dos sem teto. Mas a base leal que pertence às classes mais baixas está apenas em pessoas que militam em movimentos. Diferente do PT, que no tempo do auge, teve apoio do povão, mesmo daquele que não era organizado.

Uma ideia que as pessoas de esquerda devem evitar é a defesa do puro espontaneísmo: aquela visão de que as pessoas pobres têm uma sabedoria oculta superior, e que esquerdistas da parcela letrada da classe média que querem mudar os valores das pessoas pobres seriam arrogantes e elitistas. Pobres podem estar errados sim, esquerdistas da parcela letrada da classe média podem querer mudar os valores dos pobres sim. O que precisa ser repensada é a forma de comunicação. Da mesma forma que acadêmicos de esquerda que disputam a opinião das massas são intelectuais, os pastores evangélicos também são. Autores clássicos da esquerda, como Marx, Lenin e Gramsci nunca defenderam o espontaneísmo.

Um assunto próximo a este é do “preconceito da elite intelectual de esquerda contra os evangélicos”. Nenhum indivíduo deve ser odiado por causa da religião que segue. Mas apontar os perigos que as igrejas evangélicas pentecostais representam para o Brasil não é preconceito. É observar a realidade. Diferente da igreja católica e das igrejas protestantes convencionais, as igrejas evangélicas pentecostais têm planos de conquistar cada vez mais poder através do dinheiro e cada vez mais dinheiro através do poder. Discursos de lideranças pentecostais são extremamente intolerantes com quem não segue sua religião. Há limites para a tolerância. Quem quer ser tolerado precisa saber ser tolerante. Projetos de lei defendidos por parlamentares pentecostais atacam o ensino de ciências, a saúde da mulher. Políticos e intelectuais de esquerda devem se esforçar para entender como os pentecostais conseguiram tanto apoio das classes mais baixas para orientar ações para disputar este apoio, não para considerar que está tudo bem.

Outro fator que pode ter prejudicado o Freixo é a imagem ruim que muitas pessoas têm de defensores de direitos humanos. Em parte, isto ocorre por causa da visão equivocada de muitas pessoas que toleram tortura, execuções. Mas isto também ocorre porque há algumas pessoas barulhentas identificadas como “de esquerda” que passam pano em criminosos, que debocham de cidadãos preocupados com a criminalidade. Isto gera revolta em quem já passou pela experiência de um assalto a mão armada, ou de perder um parente por causa de criminalidade. Aí, defensores sérios dos direitos humanos, como Marcelo Freixo e Luís Eduardo Soares, mesmo não aderindo a este discurso, acabam pagando o pato. Devemos lutar contra tortura, contra execuções, contra condições sub-humanas de presídios, contra prisões arbitrárias, mas devemos nos opor a quem insinua que ricos merecem viver sob o risco de ser assaltados. Esse tipo de discurso acaba contribuindo para aumentar o ódio a quem defende direitos humanos. E não é entre os mais ricos que está este maior ódio. Basta ver onde o Freixo perdeu mais feio…

Um debate que pode ser visto no Facebook logo depois da apuração foi sobre supostas hostilidades que eleitores de classe média do Freixo escreveram contra eleitores pobres contra o Crivella. Na minha timeline do Facebook, só vi gente reclamando dos eleitores de classe média do Freixo que estariam escrevendo hostilidades contra eleitores pobres do Crivella, mas não vi qualquer eleitor de classe média do Freixo escrevendo hostilidades contra eleitores pobres do Crivella. O que eu vi e muito foi, em 2014, eleitores de classe média do Aécio chamando eleitor pobre da Dilma de ignorante, vagabundo e beneficiário do Bolsa Família.

Fora do Rio de Janeiro, o PSOL disputou o segundo turno apenas em Sorocaba e em Belém. Perdeu nestas duas cidades também. Obteve duas prefeituras no Rio Grande do Norte. Tirando isso, se manteve como um partido pequeno. O PT obteve derrotas avassaladoras no Brasil inteiro, incluindo São Paulo, no prefeito Haddad, que era (e provavelmente ainda seja) uma das grandes esperanças de renovação do partido. Haddad teve um dos melhores resultados da história do PT nas zonas eleitorais de alta renda da cidade, ficando atrás apenas de Marta 2000 e Lula 2002, mas sofreu um tsunami na periferia, que no passado já foi uma área de forte apoio ao PT. O PCdoB ganhou em Aracaju e em alguns municípios pequenos do Maranhão, e não muito mais do que isso. O desempenho da esquerda no primeiro turno não foi muito melhor no Rio de Janeiro do que em outras cidades. Seja no Rio de Janeiro, seja em São Paulo, seja em Campinas, seja em Porto Alegre, a esquerda teve aproximadamente 20% no primeiro turno. No Rio de Janeiro, foi possível um candidato chegar ao segundo turno porque houve concentração dos votos de esquerda em um único candidato, feito através do voto útil de quem poderia ter votado na Jandira ou no Molon, enquanto que a direita se fragmentou em vários candidatos. Em Porto Alegre os votos de esquerda se dividiram entre Raul Pont e Luciana Genro. Em São Paulo e em Campinas, um candidato apoiado por partidos de direita conseguiu vencer já no primeiro turno.

O trio dos municípios economicamente mais importantes do Brasil será governado por pessoas respectivamente da televisão, da religião e do futebol. Curitiba terá um prefeito que tem nojo de pobre. Porto Alegre terá um prefeito que defende o fim da Justiça do Trabalho. No campo progressista, além de Flávio Dino, o único que se saiu bem foi Ciro Gomes, que apoiou o atual prefeito de Fortaleza que obteve a reeleição. O PDT ainda teve alguns ganhos no interior do Ceará. Ciro Gomes pode ser um nome forte para a corrida presidencial de 2018.

Com tantos resultados ruins, torna-se difícil o PT, o PCdoB e o PSOL tentarem um colocar a culpa no outro. Seria melhor que cada um dos partidos de esquerda começasse avaliando seus próprios defeitos. Podemos criticar a indignação seletiva da população, que puniu severamente o PT por causa dos escândalos de corrupção descobertos pela Lava Jato e por causa da crise econômica, mas deixou ileso o PMDB fora do Rio de Janeiro. Os eleitores preferiram ex-aliados conservadores de Lula e Dilma a lideranças de esquerda que nunca fizeram parte desses governos.

De qualquer maneira, muito da derrota dos partidos de esquerda se deve aos próprios partidos. O ano de 2018 está chegando. Se a conjuntura política do Brasil não mudar até lá, o PT perderá quase todos os seus senadores, que foram eleitos em 2010, e não em 2014. Hora de se mexer.

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