Deveria haver uma campanha contra o negacionismo do fato de que Hitler era de extrema-direita

No dia 4 dezembro de 2015, eu publiquei neste site um texto explicando porque o Hitler era de extrema-direita sim. Quem estiver dúvidas, clique no link e leia aquele texto. Não é necessário repetir aqui os argumentos. O objetivo deste texto de agora é outro: é explicar porque é necessário organizar uma campanha contra o negacionismo do fato de que Hitler era de extrema-direita.

Quando começaram a aparecer na Internet os mitos de que “Hitler era de esquerda” ou que “Hitler era complexo demais para ser enquadrado no espectro esquerda/direita”, a primeira reação de alguns foi pensar que afirmativas tão irrealistas ficariam restritas a um grupo pequeno de fanáticos, que acham que tudo que está dentro de “direita” tem necessariamente que ser bom, então tudo que não é bom tem que ser de esquerda, ou, ao menos, excluído da definição de direita. Mas neste tempo de pós-verdade, esses mitos se difundiram. Conheço várias pessoas que conhecem adolescentes que realmente acreditam que Hitler era de esquerda. O texto que eu escrevi em dezembro de 2015 gerou vários comentários indignados, alguns aparentando ser de pessoas que leram apenas o título, e não o texto inteiro. Colunistas “libertários” que apareceram na imprensa nas décadas de 2000 e 2010 ajudaram a difundir o mito. Talvez, a existência de pessoas com pouca erudição combinada com a capacidade da Internet de difundir textos, inclusive textos curtos voltados para pessoas de pouca erudição, que não leem textos longos, colaborou para a criação deste ambiente de pós-verdade. Toda a argumentação de que Hitler era de esquerda é feita através de cherry-picking e não resistem a quem leu um pouco mais sobre a história do nacional-socialismo e sobre a história da definição esquerda/direita na política.

(Uma pequena ressalva: não precisa de rede social para existir “pós-verdade”. Não existia Internet no tempo do Hitler, e mesmo assim foram difundidas as “pós-verdades” de que a Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial porque foi traída pelos judeus e que a teoria da raça ariana era ciência séria). Agora vamos voltar ao assunto principal deste texto.

Alguns poderiam falar: “tudo bem, Hitler era de extrema-direita, mas qual a relevância de ficar discutindo essas coisas 71 anos depois dele ter se suicidado, sendo que o mundo atual está cheio de tantas desgraças?”. A resposta é que algumas desgraças atuais se propagam com mais facilidade quando existe a percepção de que Hitler era de esquerda. O mito de que Hitler era de esquerda é útil para uma agenda política. Qual agenda política? A de justificar autoritarismos de direita mais brandos do que o nazi-fascismo. Utiliza-se aqui a palavra justificar, mas também podem ser utilizadas as palavras defender, relativizar, passar pano.

Como assim? Vamos por partes.

Há dois grupos que defendem o mito de que Hitler era esquerdista (ou pelo menos não-direitista).

  1. O dos “libertários” mais grosseiros, que acham que esquerda é “mais estado” e que direita é “menos estado”, e aí consideram que até a ditadura militar brasileira foi de esquerda porque tinha intervenção estatal, que Jair Bolsonaro é de centro, que anarquismo é de direita e que a única ditadura de direita que já existiu foi a de Pinochet
  2. O dos conservadores mais espertos, que não apenas reconhecem que as ditaduras de direita que não são nazifascistas são realmente de direita, como defendem estas ditaduras.

O primeiro grupo é tão ginasiano que assusta pouco. O segundo é bem mais perigoso. Este grupo tem uma linha de argumentação baseada em dois mitos: no de que o nazifascismo era de esquerda e no de que o nazifascismo pode ser nivelado com o stalinismo (link para o texto em que discuti isso). Dessa forma, este grupo argumenta que as ditaduras totalitárias, que são o nazifascismo e o stalinismo, são de esquerda, e que as ditaduras de direita são apenas autoritárias. Este grupo argumenta ainda que os autoritarismos de direita são um mal menor (será que pelo menos reconhecem que são um mal?) que foram necessários para evitar um mal maior que são os totalitarismos de esquerda. Justificam a deposição de João Goulart, Salvador Allende, Manuel Zelaya e a tentativa de deposição de Hugo Chávez dizendo que “Hitler também foi eleito”. É uma analogia completamente nonsense, mas que é utilizada com o propósito de defender o autoritarismo de direita. É verdade que Hugo Chávez teve algumas práticas autoritárias, mas não chegaram nem um pouco perto das de Hitler. A esquizofrenia de dizer que “Hitler era de esquerda”, mas defender outros autoritarismos de direita, pode levar até a exaltar o generalíssimo Francisco Franco, que chegou ao poder na Espanha com a ajuda de Hitler, se manteve no poder mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, e se alinhou ao bloco capitalista na Guerra Fria. Exemplos mais evidentes desta linha de argumentação nós encontramos nos guias politicamente incorretos do Leandro Narloch, que apresentam os argumentos do “Hitler era de esquerda” e passam pano nas ditaduras militares da América do Sul.

Dizer que o nacional-socialismo e o fascismo eram de esquerda e que eram equivalentes ao stalinismo, e que os regimes militares eram apenas autoritários que serviram para evitar os regimes totalitários, é criar um maniqueísmo em que a ditadura de esquerda é a ditadura ruim e que a ditadura de direita é a ditadura boa, e que é aceitável acabar com a liberdade para defender a liberdade. É possível que os conservadores mais espertos que propagam a tese de que o “Hitler era de esquerda” saibam que trata-se apenas de um mito, mas um mito politicamente conveniente.

O nazifascismo faz parte do passado. As ditaduras militares da América do Sul, embora mais recentes, também são parte do passado. Mas existe uma escalada autoritária contra a esquerda no Brasil atualmente (link para texto meu sobre o assunto), que incluiu até mesmo a prisão de Guilherme Boulos nesta semana, e a difusão da ideia de que o autoritarismo de direita é o autoritarismo bom contribui com a aceitação deste tipo de autoritarismo. Embora as ditaduras militares da América do Sul sejam parte do passado, a disputa pela memória destas ditaduras fazem parte do presente, e o mito de que a ditadura de direita é sempre o mal menor auxilia um dos lados na disputa da memória.

Quanto aos liberais (no sentido não norte-americano) que se incomodam em ter o mesmo rótulo “direita” que um regime que não defendia o mínimo de intervenção do Estado na economia, e por isso gostam de negar que Hitler era de direita, a solução pode ser mais simples: aceitar que o nacional-socialismo e o fascismo eram de direita e colocar o liberalismo como centro. A origem da definição esquerda/direita não é a polarização entre “mais estado” e “menos estado”. Esta solução aparece na Alemanha, onde a classificação no nacional-socialismo como extrema-direita não está sob questionamento. A imprensa chama os carecas neonazistas de “rechtsradikale” e ninguém questiona. Os liberais do FDP são classificados como centro. A tese de que o nacional-socialismo era de direita, que apareceu com bastante força nas redes sociais de brasileiros, foi ventilada inicialmente por movimentos ultraconservadores dos Estados Unidos. Se os liberais brasileiros realmente tivessem compromisso com autonomia do indivíduo, o liberalismo deles poderia ser considerado de centro. Mas parece que para os liberais brasileiros, a defesa da não intervenção do Estado só serve na hora de atacar políticas igualitaristas. Os “liberais” do Movimento Brasil Livre já defenderam a censura à atividade docente que é o Escola Sem Partido. Fora da economia, os liberais brasileiros não são liberais. E mesmo na economia, a defesa do liberalismo é bem seletiva. Alguns “liberais” do Movimento Brasil Livre torceram pela vitória de Donald Trump. Portanto, não há problema em colocar esses liberais na direita, junto com nacional-socialistas e fascistas, que também eram anticomunistas truculentos (óbvio que MBL e fascistas não são idênticos, mas não é errado dar o rótulo de direita para ambos).

O negacionismo do fato de que Hitler era de extrema-direita não é o único negacionismo envolvendo o ditador. O outro negacionismo, difundido por outras pessoas, é o de que o Holocausto nunca existiu. Contra este negacionismo já há um combate mais forte, até porque este é bem pior. Mas já estava na hora de quem não gosta de falsificações do passado em nome de agendas políticas presentes, e não gosta dessas agendas políticas presentes, começarem a iniciar uma campanha de combate à afirmativa de que Hitler não era de direita. Há algumas iniciativas isoladas, como o texto que eu escrevi neste site no dia 4 de dezembro de 2015, alguns textos escritos em outros blogs, e alguns memes satíricos publicados por páginas de esquerda no Facebook. Mas é necessária uma campanha mais organizada e profissional, considerando o mal que esta falsificação da História causa.

O texto que eu escrevi foi o mais lido neste pouco mais de um ano de Trincheiras. Teve até agora visita de 17.621 IPs diferentes. E um número recorde de comentários. Ou seja, há um número muito grande de pessoas não muito informadas, mas que têm interesse no assunto.

hitler extrema direita total leitores 2017

Historiadores profissionais poderiam escrever um livro acessível para o público leigo explicando porque o Hitler era de extrema-direita sim, e porque os argumentos dos negacionistas são falaciosos. Poderiam ser criados ciclos de palestras em universidades para abordar o assunto. Poderia ser criada uma página no Facebook sobre a história de Hitler e do nacional-socialismo, incluindo muitos textos sobre o apoio de conservadores e a oposição de social-democratas e comunistas à formação do governo em 1933, a proximidade do regime de Hitler com grandes empresários, as privatizações nazistas, as manifestações de simpatia pelos nazistas que ultraconservadores de países que mais tarde seriam Aliados tinham, a perseguição aos comunistas, a rivalidade entre o Terceiro Reich e a União Soviética que já existia entre 1933 e 1939, o apoio dos nazistas aos franquistas na Guerra Civil Espanhola. Autores que pregam o mito de que Hitler era de esquerda deveriam ser boicotados em convites para seminários, mesmo que seminários sejam sobre outros assuntos. Também devem ser combatidas todas as tentativas de proibir a venda do Mein Kampf. Ler direto na fonte é muito bom. A leitura é uma ótima vacina contra a ignorância histórica.

Alguns poderiam perguntar se esta campanha proposta não pregaria apenas para os já convertidos. Não necessariamente. É certo que alguns não serão atingidos, porque QUEREM acreditar no que é mais conveniente. Mas pessoas sem grande comprometimento com um ou outro lado na política poderiam ser vacinadas contra a desinformação. Seria importante, antes de iniciar a campanha, fazer uma pesquisa em colégios e universidades, perguntando para estudantes se eles acham que o Hitler era de esquerda ou de direita, e observando os resultados.

Às vezes, podemos ficar até constrangidos em perceber que é necessário se mexer para defender o óbvio. Mas quando a negação do óbvio é útil para agendas políticas nefastas, se mobilizar para defender o óbvio é obrigação.

 

Observações:

1)      Este texto foi sobre como mentiras são úteis para agendas políticas nefastas. Mentiras também podem ser úteis para boas agendas políticas. Mas mesmo assim não devem ser utilizadas, pois é difícil defender que uma agenda é boa quando são necessárias mentiras para defende-la. Por exemplo, a percepção de que o acidente que matou Teori Zavascki ontem foi uma sabotagem pode ser útil para combater o retrocesso social em que vive o Brasil atualmente. Mas nem por isso vou defender sem provas que a queda do avião foi provocada. Não sei se foi acidente ou se foi provocado. É necessário esperar as investigações.

2)      A bolsa subiu depois do acidente de ontem com Teori Zavascki. A bolsa subiu quando o governo Hitler foi formado em janeiro de 1933.

3)      Não duvido que os “liberais” de Campinas que propagam a tese do “Hitler era de esquerda” tenham votado no Jonas Donizette, do Partido Socialista Brasileiro

4)      Hitler não era de esquerda, Stálin não era de direita, os políticos do PT envolvidos em escândalos de corrupção não são de direita. Da mesma forma em que critiquei quem acha que tudo que está na direita só pode ser coisa boa, o mesmo vale para quem acha que tudo que está na esquerda só pode ser coisa boa

hitler color

O que é a Terceira Esquerda e quais são seus desafios

Este texto define como Primeira Esquerda no Brasil os dois partidos de esquerda que apoiaram os governos Lula e Dilma, que são o PT e o PCdoB, assim como as organizações e os movimentos aliados destes partidos, e os intelectuais que apoiam estes partidos. Este texto define como Segunda Esquerda no Brasil os partidos de esquerda que fizeram oposição de esquerda aos governos Lula e Dilma, que são o PSOL, o PSTU e o PCB, assim como as organizações e os movimentos aliados destes partidos, os intelectuais que apoiam estes partidos e qualquer um que seja de esquerda mas não apoiou os governos Lula e Dilma por não considera-los de esquerda. Há subdivisões dentro destas duas esquerdas, que não vem ao caso para este texto.

Além destas duas esquerdas, vem crescendo uma Terceira Esquerda no Brasil. Trata-se daquela que considera que o Brasil precisa de forças de esquerda, mas que as já consolidadas não estão conseguindo cumprir seu papel. A primeira por ter muitos integrantes relacionados com graves escândalos de corrupção e por outros motivos também. A segunda por ter muitos integrantes que apresentam uma visão muito infantil de política e de economia. Não se trata de afirmar que todo comunista é infantil e que todo social-democrata é amadurecido. Não defendo esta ideia. Além disso, também tem social-democrata infantil na Segunda Esquerda. A infantilidade de grande parte da Segunda Esquerda consiste em falar como se orçamentos fossem ilimitados e todas as alianças fossem condenáveis.

Assim como as duas esquerdas já consolidadas, esta Terceira Esquerda considera que são necessárias forças de esquerda para evitar o maior retrocesso social e político que a Nova República já viu, retrocesso este praticado pelo atual governo não eleito, pelo Congresso mais reacionário que a Nova República já teve, por grandes grupos midiáticos e grandes associações empresariais. Porém, integrantes desta Terceira Esquerda consideram que os problemas mencionados no primeiro parágrafo deste texto fazem com que as duas esquerdas já consolidadas tenham dificuldade de cumprir seu papel. Isto pode ser visto nas eleições municipais de 2016, em que partidos das duas esquerdas perderam feio, enquanto que partidos da base do governo impopular de Temer tiveram grandes vitórias.

Por enquanto, a Terceira Esquerda não é um grupo unificado. É apenas um aglomerado de intelectuais, de ativistas de redes sociais e de movimentos que se posicionam à esquerda no espectro político, mas que têm postura crítica quanto às esquerdas já consolidadas. Podemos falar de Pablo Ortellado, Moysés Pinto Neto, Luiz Eduardo Soares, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Renato Janine Ribeiro, César Benjamin, Márcia Tiburci, Leandro Karnal, Leonardo Sakamoto, Maurício Santoro, Celso de Barros, André Forastieri e alguns movimentos de meio ambiente, direitos humanos e minorias não alinhados com o PT/PCdoB nem com o PSOL/PSTU/PCB. O Sensasionalista, que antes não tinha ideologia definida, está cada vez mais próximo da descrição de Terceira Esquerda. O humorista Gregório Duvivier tem boa relação com o PT e com o PSOL, mas ao não aderir integralmente ao discurso do PT, nem ser de extrema-esquerda, também pode ser considerado um integrante da Terceira Esquerda. A divisão entre as três esquerdas que este texto propõe não é rígida. Alguns dos pensadores citados são admirados também pela primeira e pela segunda esquerda. Se eu estivesse escrevendo este texto dois anos atrás eu ainda incluiria Idelber Avelar, Raphael Tsavkko e Giuseppe Cocco na lista, mas atualmente não é mais possível defini-los nem mesmo como esquerda. Elogiável a atitude de Idelber Avelar de admitir que não mais se identifica como esquerda.

A presença de um ambientalista como Moysés Pinto Neto e um nacionalista desenvolvimentista como César Benjamin mostra a heterogeneidade deste movimento. Em comum, estes pensadores compartilham apenas o fato de estarem à esquerda no espectro político, não se identificarem com o PT, mas também não se identificarem com a oposição de esquerda.

Por enquanto, não há partidos políticos que representam a Terceira Esquerda. As candidaturas presidenciais de Cristóvam Buarque (2006), Marina Silva (2010 e 2014) e Eduardo Jorge (2014) poderiam ter representado esta tendência. O problema é que ficou difícil encontrar o que existe de esquerda em Cristóvam Buarque, Marina Silva e Eduardo Jorge. Estes três políticos estão cada vez mais ideologicamente alinhados com os partidos de direita. Apesar da Marina Silva, a REDE poderia representar a Terceira Esquerda por causa do Alessandro Molon, do Luiz Eduardo Soares e do Randolfe Rodriguez. Mas houve um racha neste jovem partido, que teve reduzida sua ala esquerda. A candidatura de Ciro Gomes em 2018 poderia representar ideias da Terceira Esquerda. Porém, ele é um líder solitário. Alguns parlamentares do seu PDT votaram a favor do impeachment e da PEC do teto dos gastos. Embora adeptos da Terceira Esquerda sejam críticos tanto do PT, quanto do PSOL, eles geralmente gostam de alguns quadros destes dois partidos: Fernando Haddad, Eduardo Suplicy, Marcelo Freixo, Jean Wyllys, Chico Alencar e Luiza Erundina.

Os grupos políticos mais consolidados no Brasil mobilizam seguidores com suas narrativas sobre a história recente do Brasil. A narrativa feita pela direita é a seguinte:

“O período do PT no poder (2003-2016) foram 13 anos perdidos para o Brasil. O PT não tinha um projeto de país, e sim um projeto de poder. Houve corrupção como nunca antes havia ocorrido. Políticos corruptos sempre existiram, mas o PT inovou em fazer da corrupção um modo de governar. Houve um grande aparelhamento de órgãos públicos. A política externa consistiu em apoiar ditaduras. A gestão da economia foi desastrosa. Durante o governo Lula, ainda apareceram alguns bons resultados por causa do efeito das reformas realizadas por Fernando Henrique Cardoso, do boom da economia mundial e da presença de um pouco mais de responsabilidade no primeiro mandato, mas bastou tudo isso passar que o desastre ficou evidente. Lula e Dilma tiveram popularidade alta por um tempo por causa da propaganda enganosa feita por João Santana, dos ataques à imprensa e dos programas sociais que não passam de compra de voto de vagabundo. Mas depois a sociedade brasileira percebeu o engodo, aí os cidadãos de bem que trabalham foram às ruas aos domingos, porque só vagabundo protesta em dia de semana, e finalmente nos livramos do PT”

A narrativa feita pela Primeira Esquerda é a seguinte:

“O período do PT no poder (2003-2016) foi um período de grande inclusão social. Quarenta milhões de brasileiros saíram da pobreza. Muitos filhos de empregadas domésticas tiveram a oportunidade de fazer curso superior. O aumento do salário mínimo e os programas sociais fizeram reduzir a desigualdade na distribuição de renda. Foi possível conciliar crescimento do PIB com redução do peso da dívida pública no PIB. Ainda teve o apoio à agricultura familiar, teve uma política cultural inovadora, teve valorização dos servidores públicos, teve valorização das universidades federais, que no tempo do Paulo Renato não tinham nem papel higiênico. A política externa fez com que o Brasil deixasse de ser um quintal dos Estados Unidos e tivesse uma posição assertiva no cenário internacional. Teve práticas de caixa dois para financiamento de campanhas e compra de votos igual teve em qualquer governo, mas a mídia empresarial oligopolizada usou a indignação seletiva de corrupção para fazer campanha incessante contra o PT. E a classe média ficou inconformada com o fato dos serviços braçais terem ficado mais caros por causa da valorização do salário mínimo. Isto foi intensificado porque o governo valorizou a Polícia Federal, permitindo mais investigações, e os presidentes Lula e Dilma foram bonzinhos demais ao não terem colocado aliados políticos no STF e no MP. Aí a Lava Jato devastou a economia, e analfabetos políticos de classe média usando camisa da CBF contribuíram com o golpe”

A narrativa feita pela Segunda Esquerda é a seguinte:

“O PT no poder (2003-2016) traiu sua história, construída por operários, camponeses, estudantes, servidores públicos, mulheres, negros, LGBTs, e fez um governo voltado para o topo da pirâmide social. Fez a Reforma da Previdência, tirando direito dos servidores, para agradar banqueiros. Praticou política de juros altos, de superávit primário alto, apoiou o agronegócio e se esqueceu da Reforma Agrária, encheu as universidades privadas de dinheiro através do Prouni e se esqueceu das universidades públicas, fez o Minha Casa Minha Vida que beneficiou as empreiteiras e se esqueceu da Reforma Urbana, construiu grandes hidroelétricas na Amazônia, arruinando a floresta, e a vida dos índios e das populações ribeirinhas, foi negligente com o genocídio de índios praticado por ruralistas. Não fez reforma dos meios de comunicação e encheu de verba de publicidade a mídia empresarial. Distribuiu migalhas para os pobres através do Bolsa Família. Confundiu cidadania com consumo. Se aliou a organizações mafiosas como a CBF, o COB, a FIFA e o COI para realizar os grandes eventos esportivos, que só serviram para desperdiçar dinheiro público e remover pobres. Se aliou a lideranças históricas corruptas da direita, incluindo José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Michel Temer, Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Marcelo Crivella, Gilberto Kassab e Eduardo Cunha. Ainda assim, o topo da pirâmide social brasileira achou pouco, e quis voltar a governar sem intermediários. Por isso, houve uma articulação entre a antiga oposição de direita e ex-aliados do Lula e da Dilma para dar o golpe”

Os formadores de opinião que este texto define como Terceira Esquerda consideram as três narrativas muito simplistas. Consideram que todos estão um pouco certos e um pouco errados. Embora consideram que a maior parte da narrativa da direita seja uma grande baboseira, reconhecem que depois do que foi descoberto em 2014/2015, a corrupção existente nos governos do PT foi grave o suficiente a ponto de não poder ser relativizada através de afirmações como “sempre foi assim, todo mundo fez, é que agora está sendo mais investigado”, “era necessário para formar uma maioria no Congresso” ou “o PT não tem apoio ideológico do meio empresarial, por isso tem mais dificuldade de obter financiamento legal de campanha”. O discurso oficial do partido em sempre se colocar como vítima parece indicar que o partido continua defendendo as relativizações. Também consideram que a guinada nacionalista intervencionista da política econômica do primeiro mandato da Dilma não resolveu os problemas que se propunham resolver e ainda criou outros problemas. E que o PT tem meios de comunicação e uma militância muito intolerante com críticos.

Os identificados como Terceira Esquerda concordam com a Primeira Esquerda em reconhecer alguns avanços sociais do governo Lula e a importância da política externa. Concordam com a Segunda Esquerda na crítica à negligência à Reforma Agrária, Reforma Urbana e Reforma Tributária Progressiva, na crítica à política de hidrelétricas na Amazônia, na crítica aos grandes eventos esportivos e nas alianças, na crítica à supervalorização do consumismo, mas não endossam a ideia de que a política de superávit primário foi ruim, que os únicos defeitos dos governos do PT foram não ter sido suficientemente de esquerda e que toda aliança é ruim.

Este movimento de opinião, descrito neste texto como Terceira Esquerda, encontra algumas dificuldades. Uma delas é transformar em ações práticas esta visão mais complexa de mundo que alega ter em comparação com a direita e com as duas esquerdas consolidadas. As três narrativas apresentadas podem ser simplistas e equivocadas em muitos pontos, mas a simplicidade ajuda a mobilizar pessoas. A Terceira Esquerda ainda não conseguiu construir uma narrativa que mobilize. Quanto alguns de seus integrantes tentaram, cometeram o mesmo erro de serem fantasiosos demais para defender seu lado. Tentaram descrever os protestos de 2013 como protestos que defendiam suas causas. Mas quem mais mobilizou em 2013 foram as duas esquerdas consolidadas e a direita.

A Terceira Esquerda ainda é apenas um movimento de opinião presente em pessoas da classe média urbana escolarizada. Não tem penetração nas classes mais baixas. Seus líderes são pensadores dispersos cuja maior articulação por enquanto é um dar like no texto do outro no Facebook. Por enquanto não há um movimento organizado, nem mesmo uma revista que unifique esta tendência. Ideias desta tendência podem ser encontradas com mais facilidade na Piauí e no Instituto Humanitas Unisinos. A revista Carta Capital, apesar de ser da Primeira Esquerda, com espaço para integrantes da Segunda Esquerda, também tem textos que podem ser identificados como ligados à Terceira Esquerda.

Embora não todos, grande parte dos integrantes da Terceira Esquerda estão relacionados apenas com meio ambiente, direitos humanos e minorias. Apesar de serem temas muito relevantes, não são suficientes em um país de renda média como o Brasil. Aliás, até em países de renda alta a esquerda vem tomando pau por ser identificada só com isso.

As opiniões da Terceira Esquerda têm espaço reduzido na opinião pública brasileira porque em um ambiente de grande polarização, há pouco espaço para meios termos. Alguns integrantes da Terceira Esquerda já receberam o apelido pejorativo de “isentões”.

Integrantes da Terceira Esquerda cobram autocrítica das duas outras esquerdas, mas também deveriam fazer sua própria autocrítica. Apontam a incapacidade dos partidos de esquerda mobilizarem pessoas, demonstrando que as manifestações vermelhas tiveram número muito inferior de pessoas em comparação com as manifestações amarelas. Mas as manifestações pretas, de esquerda autônoma, com simpatia de integrantes da Terceira Esquerda, geralmente foram ainda menores do que as manifestações vermelhas. O PT, o PCdoB e o PSOL tiveram grandes derrotas nas eleições municipais de 2016, mas a REDE, que conta com a simpatia de alguns integrantes da Terceira Esquerda, teve desempenho pior ainda.

Uma pergunta pertinente para a Terceira Esquerda é: o que fazer? Criar mais um partido fica difícil, pois já há mais de 30 registrados no TSE, o sistema partidário brasileiro já está consolidado, e ainda existe a PEC para reduzir o número de partidos no Congresso Nacional. Mas organizando-se fortemente como um movimento de opinião, seria possível influenciar o rumo das duas esquerdas já consolidadas. É importante lembrar que um movimento de direita, presente na mídia, na Internet e nas associações empresariais, não criou partidos, mas foi muito útil para puxar o PSDB para a direita.

tres esquerdas

Discutindo a frase “A CLASSE MÉDIA É FASCISTA!” da Marilena Chauí

Durante um evento público, a professora de Filosofia Marilena Chauí, disse a frase “A CLASSE MÉDIA É FASCISTA!”. Muito provavelmente, quem está lendo este texto tomou conhecimento deste fato. Houve um contexto dentro do qual a frase foi falada, mas nenhum contexto elimina uma frase. Ela disse “A CLASSE MÉDIA É FASCISTA!”. Então vamos discutir esta frase.

A primeira pergunta é: foi conveniente ela ter falado esta frase? Esta pergunta é a de resposta mais fácil. A resposta é NÃO. É de notório conhecimento que Marilena Chauí é identificada com o PT. A circulação da frase via Internet através do Youtube ajuda a aumentar a já enorme tensão entre grande parte da classe média e o PT. Até mesmo aquele cidadão medioclassista que antes não ligava para política, passa a ter repulsa pelo PT por causa da frase. Mesmo com a frase tendo sido pronunciada dentro de um contexto, com a intenção de dizer que uma parte da classe média tem características que podem ser comparadas com movimentos fascistas, o destaque para a frase ajuda a fomentar a imagem do PT como um partido que odeia a classe média. Por causa desta imagem, o PT, durante as campanhas eleitorais, teve que gastar uma fortuna em marketing para passar outra imagem para a classe média. Marketing financiado por bancos e empreiteiras. O PT pode ter tido discursos contra o quase topo da pirâmide social brasileira, mas durante muitos anos de seu governo, teve relação muito boa com o topo da pirâmide social brasileira. Neste ótimo texto, Cynara Menezes discutiu esta questão. Além disso, é importante mencionar que houve um esforço dos governos Lula e Dilma para fazer agrados à classe média e desfazer a imagem de partido inimigo da classe média. Entre estes agrados, estão as reformas estéticas dos aeroportos, o Ciência Sem Fronteiras e o projeto do trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. Uma simples frase destrói muito da tentativa de melhorar a imagem.

Esquerda não tem que ser hostil à ideia de classe média. O que a esquerda quer é justamente substituir uma sociedade de ricos e pobres por uma sociedade de classe média. Nas primárias democratas de 2016, Bernie Sanders falou muito sobre defender a classe média. O maior adversário da esquerda deveria ser os ricos, aqueles que no Brasil pagam impostos baixos.

A segunda pergunta é um pouco mais complicada. Esta pergunta é: a frase de Marilena Chauí é verdadeira? A resposta é NÃO. Mas é um NÃO, MAS…, e não simplesmente um NÃO. Começando pelo óbvio: a Marilena Chauí é de classe média, a maioria de seus alunos é de classe média. Embora quase todos os participantes de movimentos reacionários como as Marchas da Família de 1964 e as Marchas dos Patos Amarelos de 2015/2016 tenham sido de classe média, a maioria dos participantes de muitos movimentos progressistas na história do Brasil também foram de classe média. Isto inclui a Marcha dos 100 mil de 1968, os movimentos pela Anistia, as Diretas-Já e até mesmo os “não vai ter golpe” e os “Fora Temer” de 2015/2016. O mesmo pode ser dito das Paradas Gay, das Marchas da Maconha e das Marchas das Vadias. O autor deste texto pertence à classe média. Foi na classe média que Marcelo Freixo teve melhor desempenho nas eleições municipais do Rio de Janeiro de 2012 e 2016. Importante destacar também que um dos poucos jogadores de futebol brasileiros que tiveram ideias de esquerda foi também um dos poucos jogadores de futebol brasileiro que não nasceram na pobreza: foi o Doutor Sócrates. E mesmo quem não vota em partidos de esquerda, não gosta de ideias de esquerda, não necessariamente tem características fascistas.

Bom, feitas as ressalvas, vamos à discussão daquilo que é pertinente no que a Marilena Chauí falou. Embora não seja verdadeira a afirmação “a classe média é fascista”, dizer isso não é um absurdo igual dizer “a capital do Mato Grosso é Belo Horizonte”. Há algumas características de muitos membros da classe média brasileira que justificam a comparação com o fascismo.

O discurso dos fascistas consistia em apontar o dedo para o aquilo que seriam ameaça à nação. O discurso de parte da classe média brasileira também é assim. Os fascistas viam comunistas e judeus como ameaça. Os membros descritos da classe média brasileira enxergam como ameaça defensores de direitos humanos, beneficiários de programas sociais de transferência de renda, militantes de movimentos de minorias (a chamada “patrulha do politicamente correto”) e militantes de movimentos sociais em geral. A nação que essa parte da classe média enxerga como ameaçada não é o Brasil, e sim a classe média brasileira, vista como uma própria nação.

Muitas destas pessoas descritas gostam de lamentar que “o PT divide o Brasil entre nós e eles”. Mas são estas pessoas as que mais dividem o Brasil entre “nós e eles”. O “nós”, “cidadãos de bem que trabalhamos”, e o “eles”, que inclui os beneficiários do Bolsa Família, os estudantes cotistas, os sem teto,  os sem terra. Importante destacar também que as pessoas que mais reclamam de que “patrulha do politicamente correto” está fazendo todo mundo ficar ofendido com facilidade geralmente ficam ofendidas com muita facilidade, por outras coisas.

Assim como Hitler falava da nação alemã como vítima dos traidores judeus, essa parte da classe média gosta de utilizar o discurso do vitimismo. Gosta de se enxergar como a maior vítima do Brasil. É verdade que a classe média brasileira paga uma quantidade muito grande de impostos e mesmo assim precisa pagar por educação e saúde privadas, porque a qualidade destes serviços prestados pelo setor público deixa a desejar. Isto é motivo justo para reclamar, mas não para se colocar como a maior vítima. Os pobres pagam uma quantidade muito grande de impostos e utilizam serviços de educação e saúde muito ruins porque não têm condição de pagar por serviços privados.

Fascistas consideravam a necessidade da violência contra os inimigos. Vemos muita gente de classe média no Brasil defendendo a ideia do “bandido bom é bandido morto”. Atribui aos defensores dos direitos humanos a culpa pela alta criminalidade no Brasil, ignorando que dos 60.000 homicídios que ocorrem todo ano neste país, entre 2.000 e 3.000 são cometidos por policiais. Comemora o assassinato do filho da Tati Quebra Barraco, comemora as mortes de presos nas rebeliões que ocorreram recentemente na Região Norte. Apoia violência policial contra manifestações das quais discorda (leia-se todas menos a dos camisas amarelas).

Algumas pesquisas de opinião mostram que existe mais apoio à violência policial entre os pobres do que entre a classe média. Ainda assim, é menos admissível que pessoas que tiveram mais oportunidade de ter instrução apoiem violência policial.

Outra característica típica do fascismo é o anti-intelectualismo. Muitos brasileiros de classe média desprezam qualquer conhecimento que não é útil para a produção de bens e serviços. Desprezam qualquer conhecimento mais difícil de ser compreendido. Se consideram muito intelectualmente superiores aos pobres ao fazerem piadas sobre seus erros de gramática, mas desprezam a discussão dos sócio linguistas sobre o que é errado e o que não é porque não conseguem ou não querem entender esta discussão. Não leem uma linha do que conhecidos acadêmicos brasileiros escrevem, mas não têm vergonha de sair falando por aí que esses acadêmicos não prestam, porque leram alguma coluna de direita na imprensa dizendo que esses acadêmicos não prestam (exemplo: a faixa “chega de doutrinação comunista, chega de Paulo Freire”). Um subtópico especial neste tema anti-intelectualismo é a discussão sobre legalização da maconha. Não interessa o que pessoas que passam anos pesquisando o tema escrevem, que vai ter gente que nunca vai ler, e que vai eternamente continuar falando que legalização da maconha é papo de maconheiro.

Assim como Hitler e seus seguidores gostavam de hoaxes para defender suas narrativas vitimistas, muitas pessoas de classe média no Brasil também fazem isso. Hitler falava da traição dos judeus ao povo alemão na Primeira Guerra Mundial e da história (falsa) da raça ariana. Os mencionados medioclassistas brasileiros gostam de espalhar hoaxes como aquela sobre o auxílio-reclusão, sobre os haitianos que receberam título de eleitor, sobre as urnas adulteradas que teriam dado a vitória à Dilma, os muitos boatos sobre o Jean Wyllys e a Maria do Rosário. Todas essas hoaxes ajudam a criar a narrativa da classe média como a maior vítima, e por isso muita gente de classe média gostam destas hoaxes.

É a maioria dos brasileiros de classe média que apresentam todas estas mencionadas características? Acredito que não. Mas é fato que todos os brasileiros de classe média conhecem uma quantidade razoável de pessoas que apresentam tais características, seja entre familiares, seja entre colegas e ex-colegas, de estudo e de trabalho. Por isso, existe a percepção de que algumas ideias muito ruins têm grande penetração na classe média brasileira.

Uma discussão que aparece com frequência sempre quando alguém fala “_____ é fascista” é o risco da banalização do fascismo. Muitos pedem uma definição específica sobre o que seria o fascismo. Alguns consideram que apenas o regime de Benito Mussolini era fascista. Outros consideram que os regimes de Benito Mussolini e Adolf Hitler eram fascistas. Outros consideram que os regimes de Benito Mussolini, Adolf Hitler, Dofluss, Francisco Franco e Oliveira Salazar eram fascistas. Outros consideram que qualquer regime autoritário de direita é fascista. O que pode ser dito sobre isso? É que em um trabalho acadêmico, é necessária uma maior precisão para definir o que é fascismo quando se fala de fascismo. Mas em um discurso político, hipérboles (quando não muito escandalosas) são válidas, e, portanto, não é absurdo chamar de fascista quem apresenta algumas semelhanças com quem realmente era fascista.

Resumindo: foi politicamente conveniente a Marilena Chauí ter dito “A CLASSE MÉDIA É FASCISTA!”? Não. A classe média brasileira é fascista? Não, mas muitos de seus integrantes apresentam características típicas do fascismo.

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