Deveria haver uma campanha contra o negacionismo do fato de que Hitler era de extrema-direita

No dia 4 dezembro de 2015, eu publiquei neste site um texto explicando porque o Hitler era de extrema-direita sim. Quem estiver dúvidas, clique no link e leia aquele texto. Não é necessário repetir aqui os argumentos. O objetivo deste texto de agora é outro: é explicar porque é necessário organizar uma campanha contra o negacionismo do fato de que Hitler era de extrema-direita.

Quando começaram a aparecer na Internet os mitos de que “Hitler era de esquerda” ou que “Hitler era complexo demais para ser enquadrado no espectro esquerda/direita”, a primeira reação de alguns foi pensar que afirmativas tão irrealistas ficariam restritas a um grupo pequeno de fanáticos, que acham que tudo que está dentro de “direita” tem necessariamente que ser bom, então tudo que não é bom tem que ser de esquerda, ou, ao menos, excluído da definição de direita. Mas neste tempo de pós-verdade, esses mitos se difundiram. Conheço várias pessoas que conhecem adolescentes que realmente acreditam que Hitler era de esquerda. O texto que eu escrevi em dezembro de 2015 gerou vários comentários indignados, alguns aparentando ser de pessoas que leram apenas o título, e não o texto inteiro. Colunistas “libertários” que apareceram na imprensa nas décadas de 2000 e 2010 ajudaram a difundir o mito. Talvez, a existência de pessoas com pouca erudição combinada com a capacidade da Internet de difundir textos, inclusive textos curtos voltados para pessoas de pouca erudição, que não leem textos longos, colaborou para a criação deste ambiente de pós-verdade. Toda a argumentação de que Hitler era de esquerda é feita através de cherry-picking e não resistem a quem leu um pouco mais sobre a história do nacional-socialismo e sobre a história da definição esquerda/direita na política.

(Uma pequena ressalva: não precisa de rede social para existir “pós-verdade”. Não existia Internet no tempo do Hitler, e mesmo assim foram difundidas as “pós-verdades” de que a Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial porque foi traída pelos judeus e que a teoria da raça ariana era ciência séria). Agora vamos voltar ao assunto principal deste texto.

Alguns poderiam falar: “tudo bem, Hitler era de extrema-direita, mas qual a relevância de ficar discutindo essas coisas 71 anos depois dele ter se suicidado, sendo que o mundo atual está cheio de tantas desgraças?”. A resposta é que algumas desgraças atuais se propagam com mais facilidade quando existe a percepção de que Hitler era de esquerda. O mito de que Hitler era de esquerda é útil para uma agenda política. Qual agenda política? A de justificar autoritarismos de direita mais brandos do que o nazi-fascismo. Utiliza-se aqui a palavra justificar, mas também podem ser utilizadas as palavras defender, relativizar, passar pano.

Como assim? Vamos por partes.

Há dois grupos que defendem o mito de que Hitler era esquerdista (ou pelo menos não-direitista).

  1. O dos “libertários” mais grosseiros, que acham que esquerda é “mais estado” e que direita é “menos estado”, e aí consideram que até a ditadura militar brasileira foi de esquerda porque tinha intervenção estatal, que Jair Bolsonaro é de centro, que anarquismo é de direita e que a única ditadura de direita que já existiu foi a de Pinochet
  2. O dos conservadores mais espertos, que não apenas reconhecem que as ditaduras de direita que não são nazifascistas são realmente de direita, como defendem estas ditaduras.

O primeiro grupo é tão ginasiano que assusta pouco. O segundo é bem mais perigoso. Este grupo tem uma linha de argumentação baseada em dois mitos: no de que o nazifascismo era de esquerda e no de que o nazifascismo pode ser nivelado com o stalinismo (link para o texto em que discuti isso). Dessa forma, este grupo argumenta que as ditaduras totalitárias, que são o nazifascismo e o stalinismo, são de esquerda, e que as ditaduras de direita são apenas autoritárias. Este grupo argumenta ainda que os autoritarismos de direita são um mal menor (será que pelo menos reconhecem que são um mal?) que foram necessários para evitar um mal maior que são os totalitarismos de esquerda. Justificam a deposição de João Goulart, Salvador Allende, Manuel Zelaya e a tentativa de deposição de Hugo Chávez dizendo que “Hitler também foi eleito”. É uma analogia completamente nonsense, mas que é utilizada com o propósito de defender o autoritarismo de direita. É verdade que Hugo Chávez teve algumas práticas autoritárias, mas não chegaram nem um pouco perto das de Hitler. A esquizofrenia de dizer que “Hitler era de esquerda”, mas defender outros autoritarismos de direita, pode levar até a exaltar o generalíssimo Francisco Franco, que chegou ao poder na Espanha com a ajuda de Hitler, se manteve no poder mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, e se alinhou ao bloco capitalista na Guerra Fria. Exemplos mais evidentes desta linha de argumentação nós encontramos nos guias politicamente incorretos do Leandro Narloch, que apresentam os argumentos do “Hitler era de esquerda” e passam pano nas ditaduras militares da América do Sul.

Dizer que o nacional-socialismo e o fascismo eram de esquerda e que eram equivalentes ao stalinismo, e que os regimes militares eram apenas autoritários que serviram para evitar os regimes totalitários, é criar um maniqueísmo em que a ditadura de esquerda é a ditadura ruim e que a ditadura de direita é a ditadura boa, e que é aceitável acabar com a liberdade para defender a liberdade. É possível que os conservadores mais espertos que propagam a tese de que o “Hitler era de esquerda” saibam que trata-se apenas de um mito, mas um mito politicamente conveniente.

O nazifascismo faz parte do passado. As ditaduras militares da América do Sul, embora mais recentes, também são parte do passado. Mas existe uma escalada autoritária contra a esquerda no Brasil atualmente (link para texto meu sobre o assunto), que incluiu até mesmo a prisão de Guilherme Boulos nesta semana, e a difusão da ideia de que o autoritarismo de direita é o autoritarismo bom contribui com a aceitação deste tipo de autoritarismo. Embora as ditaduras militares da América do Sul sejam parte do passado, a disputa pela memória destas ditaduras fazem parte do presente, e o mito de que a ditadura de direita é sempre o mal menor auxilia um dos lados na disputa da memória.

Quanto aos liberais (no sentido não norte-americano) que se incomodam em ter o mesmo rótulo “direita” que um regime que não defendia o mínimo de intervenção do Estado na economia, e por isso gostam de negar que Hitler era de direita, a solução pode ser mais simples: aceitar que o nacional-socialismo e o fascismo eram de direita e colocar o liberalismo como centro. A origem da definição esquerda/direita não é a polarização entre “mais estado” e “menos estado”. Esta solução aparece na Alemanha, onde a classificação no nacional-socialismo como extrema-direita não está sob questionamento. A imprensa chama os carecas neonazistas de “rechtsradikale” e ninguém questiona. Os liberais do FDP são classificados como centro. A tese de que o nacional-socialismo era de direita, que apareceu com bastante força nas redes sociais de brasileiros, foi ventilada inicialmente por movimentos ultraconservadores dos Estados Unidos. Se os liberais brasileiros realmente tivessem compromisso com autonomia do indivíduo, o liberalismo deles poderia ser considerado de centro. Mas parece que para os liberais brasileiros, a defesa da não intervenção do Estado só serve na hora de atacar políticas igualitaristas. Os “liberais” do Movimento Brasil Livre já defenderam a censura à atividade docente que é o Escola Sem Partido. Fora da economia, os liberais brasileiros não são liberais. E mesmo na economia, a defesa do liberalismo é bem seletiva. Alguns “liberais” do Movimento Brasil Livre torceram pela vitória de Donald Trump. Portanto, não há problema em colocar esses liberais na direita, junto com nacional-socialistas e fascistas, que também eram anticomunistas truculentos (óbvio que MBL e fascistas não são idênticos, mas não é errado dar o rótulo de direita para ambos).

O negacionismo do fato de que Hitler era de extrema-direita não é o único negacionismo envolvendo o ditador. O outro negacionismo, difundido por outras pessoas, é o de que o Holocausto nunca existiu. Contra este negacionismo já há um combate mais forte, até porque este é bem pior. Mas já estava na hora de quem não gosta de falsificações do passado em nome de agendas políticas presentes, e não gosta dessas agendas políticas presentes, começarem a iniciar uma campanha de combate à afirmativa de que Hitler não era de direita. Há algumas iniciativas isoladas, como o texto que eu escrevi neste site no dia 4 de dezembro de 2015, alguns textos escritos em outros blogs, e alguns memes satíricos publicados por páginas de esquerda no Facebook. Mas é necessária uma campanha mais organizada e profissional, considerando o mal que esta falsificação da História causa.

O texto que eu escrevi foi o mais lido neste pouco mais de um ano de Trincheiras. Teve até agora visita de 17.621 IPs diferentes. E um número recorde de comentários. Ou seja, há um número muito grande de pessoas não muito informadas, mas que têm interesse no assunto.

hitler extrema direita total leitores 2017

Historiadores profissionais poderiam escrever um livro acessível para o público leigo explicando porque o Hitler era de extrema-direita sim, e porque os argumentos dos negacionistas são falaciosos. Poderiam ser criados ciclos de palestras em universidades para abordar o assunto. Poderia ser criada uma página no Facebook sobre a história de Hitler e do nacional-socialismo, incluindo muitos textos sobre o apoio de conservadores e a oposição de social-democratas e comunistas à formação do governo em 1933, a proximidade do regime de Hitler com grandes empresários, as privatizações nazistas, as manifestações de simpatia pelos nazistas que ultraconservadores de países que mais tarde seriam Aliados tinham, a perseguição aos comunistas, a rivalidade entre o Terceiro Reich e a União Soviética que já existia entre 1933 e 1939, o apoio dos nazistas aos franquistas na Guerra Civil Espanhola. Autores que pregam o mito de que Hitler era de esquerda deveriam ser boicotados em convites para seminários, mesmo que seminários sejam sobre outros assuntos. Também devem ser combatidas todas as tentativas de proibir a venda do Mein Kampf. Ler direto na fonte é muito bom. A leitura é uma ótima vacina contra a ignorância histórica.

Alguns poderiam perguntar se esta campanha proposta não pregaria apenas para os já convertidos. Não necessariamente. É certo que alguns não serão atingidos, porque QUEREM acreditar no que é mais conveniente. Mas pessoas sem grande comprometimento com um ou outro lado na política poderiam ser vacinadas contra a desinformação. Seria importante, antes de iniciar a campanha, fazer uma pesquisa em colégios e universidades, perguntando para estudantes se eles acham que o Hitler era de esquerda ou de direita, e observando os resultados.

Às vezes, podemos ficar até constrangidos em perceber que é necessário se mexer para defender o óbvio. Mas quando a negação do óbvio é útil para agendas políticas nefastas, se mobilizar para defender o óbvio é obrigação.

 

Observações:

1)      Este texto foi sobre como mentiras são úteis para agendas políticas nefastas. Mentiras também podem ser úteis para boas agendas políticas. Mas mesmo assim não devem ser utilizadas, pois é difícil defender que uma agenda é boa quando são necessárias mentiras para defende-la. Por exemplo, a percepção de que o acidente que matou Teori Zavascki ontem foi uma sabotagem pode ser útil para combater o retrocesso social em que vive o Brasil atualmente. Mas nem por isso vou defender sem provas que a queda do avião foi provocada. Não sei se foi acidente ou se foi provocado. É necessário esperar as investigações.

2)      A bolsa subiu depois do acidente de ontem com Teori Zavascki. A bolsa subiu quando o governo Hitler foi formado em janeiro de 1933.

3)      Não duvido que os “liberais” de Campinas que propagam a tese do “Hitler era de esquerda” tenham votado no Jonas Donizette, do Partido Socialista Brasileiro

4)      Hitler não era de esquerda, Stálin não era de direita, os políticos do PT envolvidos em escândalos de corrupção não são de direita. Da mesma forma em que critiquei quem acha que tudo que está na direita só pode ser coisa boa, o mesmo vale para quem acha que tudo que está na esquerda só pode ser coisa boa

hitler color

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