Discutindo a frase “A CLASSE MÉDIA É FASCISTA!” da Marilena Chauí

Durante um evento público, a professora de Filosofia Marilena Chauí, disse a frase “A CLASSE MÉDIA É FASCISTA!”. Muito provavelmente, quem está lendo este texto tomou conhecimento deste fato. Houve um contexto dentro do qual a frase foi falada, mas nenhum contexto elimina uma frase. Ela disse “A CLASSE MÉDIA É FASCISTA!”. Então vamos discutir esta frase.

A primeira pergunta é: foi conveniente ela ter falado esta frase? Esta pergunta é a de resposta mais fácil. A resposta é NÃO. É de notório conhecimento que Marilena Chauí é identificada com o PT. A circulação da frase via Internet através do Youtube ajuda a aumentar a já enorme tensão entre grande parte da classe média e o PT. Até mesmo aquele cidadão medioclassista que antes não ligava para política, passa a ter repulsa pelo PT por causa da frase. Mesmo com a frase tendo sido pronunciada dentro de um contexto, com a intenção de dizer que uma parte da classe média tem características que podem ser comparadas com movimentos fascistas, o destaque para a frase ajuda a fomentar a imagem do PT como um partido que odeia a classe média. Por causa desta imagem, o PT, durante as campanhas eleitorais, teve que gastar uma fortuna em marketing para passar outra imagem para a classe média. Marketing financiado por bancos e empreiteiras. O PT pode ter tido discursos contra o quase topo da pirâmide social brasileira, mas durante muitos anos de seu governo, teve relação muito boa com o topo da pirâmide social brasileira. Neste ótimo texto, Cynara Menezes discutiu esta questão. Além disso, é importante mencionar que houve um esforço dos governos Lula e Dilma para fazer agrados à classe média e desfazer a imagem de partido inimigo da classe média. Entre estes agrados, estão as reformas estéticas dos aeroportos, o Ciência Sem Fronteiras e o projeto do trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. Uma simples frase destrói muito da tentativa de melhorar a imagem.

Esquerda não tem que ser hostil à ideia de classe média. O que a esquerda quer é justamente substituir uma sociedade de ricos e pobres por uma sociedade de classe média. Nas primárias democratas de 2016, Bernie Sanders falou muito sobre defender a classe média. O maior adversário da esquerda deveria ser os ricos, aqueles que no Brasil pagam impostos baixos.

A segunda pergunta é um pouco mais complicada. Esta pergunta é: a frase de Marilena Chauí é verdadeira? A resposta é NÃO. Mas é um NÃO, MAS…, e não simplesmente um NÃO. Começando pelo óbvio: a Marilena Chauí é de classe média, a maioria de seus alunos é de classe média. Embora quase todos os participantes de movimentos reacionários como as Marchas da Família de 1964 e as Marchas dos Patos Amarelos de 2015/2016 tenham sido de classe média, a maioria dos participantes de muitos movimentos progressistas na história do Brasil também foram de classe média. Isto inclui a Marcha dos 100 mil de 1968, os movimentos pela Anistia, as Diretas-Já e até mesmo os “não vai ter golpe” e os “Fora Temer” de 2015/2016. O mesmo pode ser dito das Paradas Gay, das Marchas da Maconha e das Marchas das Vadias. O autor deste texto pertence à classe média. Foi na classe média que Marcelo Freixo teve melhor desempenho nas eleições municipais do Rio de Janeiro de 2012 e 2016. Importante destacar também que um dos poucos jogadores de futebol brasileiros que tiveram ideias de esquerda foi também um dos poucos jogadores de futebol brasileiro que não nasceram na pobreza: foi o Doutor Sócrates. E mesmo quem não vota em partidos de esquerda, não gosta de ideias de esquerda, não necessariamente tem características fascistas.

Bom, feitas as ressalvas, vamos à discussão daquilo que é pertinente no que a Marilena Chauí falou. Embora não seja verdadeira a afirmação “a classe média é fascista”, dizer isso não é um absurdo igual dizer “a capital do Mato Grosso é Belo Horizonte”. Há algumas características de muitos membros da classe média brasileira que justificam a comparação com o fascismo.

O discurso dos fascistas consistia em apontar o dedo para o aquilo que seriam ameaça à nação. O discurso de parte da classe média brasileira também é assim. Os fascistas viam comunistas e judeus como ameaça. Os membros descritos da classe média brasileira enxergam como ameaça defensores de direitos humanos, beneficiários de programas sociais de transferência de renda, militantes de movimentos de minorias (a chamada “patrulha do politicamente correto”) e militantes de movimentos sociais em geral. A nação que essa parte da classe média enxerga como ameaçada não é o Brasil, e sim a classe média brasileira, vista como uma própria nação.

Muitas destas pessoas descritas gostam de lamentar que “o PT divide o Brasil entre nós e eles”. Mas são estas pessoas as que mais dividem o Brasil entre “nós e eles”. O “nós”, “cidadãos de bem que trabalhamos”, e o “eles”, que inclui os beneficiários do Bolsa Família, os estudantes cotistas, os sem teto,  os sem terra. Importante destacar também que as pessoas que mais reclamam de que “patrulha do politicamente correto” está fazendo todo mundo ficar ofendido com facilidade geralmente ficam ofendidas com muita facilidade, por outras coisas.

Assim como Hitler falava da nação alemã como vítima dos traidores judeus, essa parte da classe média gosta de utilizar o discurso do vitimismo. Gosta de se enxergar como a maior vítima do Brasil. É verdade que a classe média brasileira paga uma quantidade muito grande de impostos e mesmo assim precisa pagar por educação e saúde privadas, porque a qualidade destes serviços prestados pelo setor público deixa a desejar. Isto é motivo justo para reclamar, mas não para se colocar como a maior vítima. Os pobres pagam uma quantidade muito grande de impostos e utilizam serviços de educação e saúde muito ruins porque não têm condição de pagar por serviços privados.

Fascistas consideravam a necessidade da violência contra os inimigos. Vemos muita gente de classe média no Brasil defendendo a ideia do “bandido bom é bandido morto”. Atribui aos defensores dos direitos humanos a culpa pela alta criminalidade no Brasil, ignorando que dos 60.000 homicídios que ocorrem todo ano neste país, entre 2.000 e 3.000 são cometidos por policiais. Comemora o assassinato do filho da Tati Quebra Barraco, comemora as mortes de presos nas rebeliões que ocorreram recentemente na Região Norte. Apoia violência policial contra manifestações das quais discorda (leia-se todas menos a dos camisas amarelas).

Algumas pesquisas de opinião mostram que existe mais apoio à violência policial entre os pobres do que entre a classe média. Ainda assim, é menos admissível que pessoas que tiveram mais oportunidade de ter instrução apoiem violência policial.

Outra característica típica do fascismo é o anti-intelectualismo. Muitos brasileiros de classe média desprezam qualquer conhecimento que não é útil para a produção de bens e serviços. Desprezam qualquer conhecimento mais difícil de ser compreendido. Se consideram muito intelectualmente superiores aos pobres ao fazerem piadas sobre seus erros de gramática, mas desprezam a discussão dos sócio linguistas sobre o que é errado e o que não é porque não conseguem ou não querem entender esta discussão. Não leem uma linha do que conhecidos acadêmicos brasileiros escrevem, mas não têm vergonha de sair falando por aí que esses acadêmicos não prestam, porque leram alguma coluna de direita na imprensa dizendo que esses acadêmicos não prestam (exemplo: a faixa “chega de doutrinação comunista, chega de Paulo Freire”). Um subtópico especial neste tema anti-intelectualismo é a discussão sobre legalização da maconha. Não interessa o que pessoas que passam anos pesquisando o tema escrevem, que vai ter gente que nunca vai ler, e que vai eternamente continuar falando que legalização da maconha é papo de maconheiro.

Assim como Hitler e seus seguidores gostavam de hoaxes para defender suas narrativas vitimistas, muitas pessoas de classe média no Brasil também fazem isso. Hitler falava da traição dos judeus ao povo alemão na Primeira Guerra Mundial e da história (falsa) da raça ariana. Os mencionados medioclassistas brasileiros gostam de espalhar hoaxes como aquela sobre o auxílio-reclusão, sobre os haitianos que receberam título de eleitor, sobre as urnas adulteradas que teriam dado a vitória à Dilma, os muitos boatos sobre o Jean Wyllys e a Maria do Rosário. Todas essas hoaxes ajudam a criar a narrativa da classe média como a maior vítima, e por isso muita gente de classe média gostam destas hoaxes.

É a maioria dos brasileiros de classe média que apresentam todas estas mencionadas características? Acredito que não. Mas é fato que todos os brasileiros de classe média conhecem uma quantidade razoável de pessoas que apresentam tais características, seja entre familiares, seja entre colegas e ex-colegas, de estudo e de trabalho. Por isso, existe a percepção de que algumas ideias muito ruins têm grande penetração na classe média brasileira.

Uma discussão que aparece com frequência sempre quando alguém fala “_____ é fascista” é o risco da banalização do fascismo. Muitos pedem uma definição específica sobre o que seria o fascismo. Alguns consideram que apenas o regime de Benito Mussolini era fascista. Outros consideram que os regimes de Benito Mussolini e Adolf Hitler eram fascistas. Outros consideram que os regimes de Benito Mussolini, Adolf Hitler, Dofluss, Francisco Franco e Oliveira Salazar eram fascistas. Outros consideram que qualquer regime autoritário de direita é fascista. O que pode ser dito sobre isso? É que em um trabalho acadêmico, é necessária uma maior precisão para definir o que é fascismo quando se fala de fascismo. Mas em um discurso político, hipérboles (quando não muito escandalosas) são válidas, e, portanto, não é absurdo chamar de fascista quem apresenta algumas semelhanças com quem realmente era fascista.

Resumindo: foi politicamente conveniente a Marilena Chauí ter dito “A CLASSE MÉDIA É FASCISTA!”? Não. A classe média brasileira é fascista? Não, mas muitos de seus integrantes apresentam características típicas do fascismo.

marilena-chaui

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