Qual é o bairro mais esquerdista do Rio de Janeiro? Qual é o bairro mais direitista?

As mais recentes eleições ocorridas na cidade do Rio de Janeiro forneceram um laboratório interessante. Na eleição presidencial de 2014, a candidata Dilma Rousseff, apoiada por partidos de esquerda, teve desempenho melhor em bairros de baixa renda, localizados principalmente na Zona Norte e na Zona Oeste, e o candidato Aécio Neves, apoiado por partidos de direita, teve desempenho melhor em bairros de alta renda, localizados principalmente na Zona Sul. Na eleição municipal de 2016, a situação se inverteu. O candidato Marcelo Freixo, apoiado por partidos de esquerda, teve desempenho melhor em bairros de alta renda, localizados principalmente na Zona Sul, e o candidato Marcelo Crivella, apoiado por partidos de direita, teve desempenho melhor em bairros de baixa renda, principalmente nas Zonas Norte e Oeste. Em apenas dois anos, a polarização ideologia/renda mudou muito. É possível mencionar também que a eleição de 2014 teve resultados por zona eleitoral bem parecidos com a eleição de 2010, que também foi disputada entre Dilma e um candidato do PSDB, e a eleição de 2016 teve resultados por zona eleitoral bem parecidos com a eleição de 2012, que tinha Marcelo Freixo e Eduardo Paes, apoiado por Marcelo Crivella. Neste parágrafo, quando foram mencionadas as eleições de 2010, 2014 e 2016, estava se falando do segundo turno, para efeito de simplificação. Já a eleição de 2012 teve turno único.

Como as eleições de 2010 e 2014, e as de 2012 e 2016 foram muito parecidas, este texto trabalhará apenas com os resultados das eleições de 2014 e 2016, considerando apenas os votos válidos obtidos pelos candidatos no segundo turno. Como foi dito no primeiro parágrafo, a polarização ideologia/renda foi em 2016 oposta da que foi em 2014. Por causa disso, em geral, nas zonas eleitorais em que Dilma 2014 teve desempenho melhor, Crivella 2016 teve desempenho melhor. Nas zonas eleitorais em que Aécio 2014 teve desempenho melhor, Freixo 2016 teve desempenho melhor. Mas a relação não foi completamente linear. Em algumas zonas, tanto Dilma 2014 quanto Freixo 2016 foram bem. Em outras zonas, tanto Aécio quanto Crivella foram bem. Com duas polarizações tão distintas, é possível calcular o quanto esquerdista é cada zona eleitoral do município do Rio de Janeiro, através da média entre o percentual de votos válidos da Dilma em 2014 e do Freixo em 2016. Calculadas as médias, é possível fazer o ranking da zona mais esquerdista, que é a que tem maior média entre Dilma 2014 e Freixo 2016, para a mais direitista, que é a que tem a menor média entre Dilma 2014 e Freixo 2016. O ranking pode ser visto na tabela a seguir.

Zona Abrangência Dilma 2014 Freixo 2016 média
8 CACHAMBI ENGENHO NOVO JACARÉ MARIA DA GRAÇA ROCHA 64.7% 62.9% 63.8%
164 BAIRRO DE FÁTIMA CATUMBI SANTA TERESA 59.3% 58.7% 59.0%
163 CATETE GLÓRIA LAPA 46.7% 62.5% 54.6%
204 CENTRO CIDADE NOVA SANTO CRISTO 54.0% 55.0% 54.5%
1 CENTRO PAQUETÁ SAUDE 60.7% 46.5% 53.6%
229 CATUMBI ESTÁCIO RIO COMPRIDO 57.0% 48.8% 52.9%
193 BENFICA MANGUEIRA TRIAGEM 71.7% 33.7% 52.7%
16 COSME VELHO LARANJEIRAS 38.3% 67.1% 52.7%
19 ANDARAÍ MARACANÃ VILA ISABEL 47.7% 57.3% 52.5%
213 ENGENHO NOVO RIACHUELO ROCHA SÃO FRANCISCO XAVIER 51.3% 53.7% 52.5%
121 OLARIA 59.8% 43.5% 51.6%
208 ABOLIÇÃO ENGENHO DE DENTRO PILARES 56.5% 46.6% 51.6%
211 GÁVEA ROCINHA SÃO CONRADO VIDIGAL 54.8% 47.7% 51.3%
169 BONSUCESSO DEL CASTILHO HIGIENÓPOLIS INHAUMA 62.2% 39.1% 50.7%
12 CASCADURA MADUREIRA OSWALDO CRUZ 56.3% 45.0% 50.6%
20 ENGENHO DE DENTRO MEIER TODOS OS SANTOS 45.1% 56.1% 50.6%
160 OLARIA RAMOS 56.1% 44.8% 50.5%
161 BONSUCESSO RAMOS 66.1% 34.8% 50.4%
2 CAJU SÃO CRISTÓVÃO 59.4% 41.4% 50.4%
118 CAVALCANTI ENGENHEIRO LEAL MADUREIRA TOMÁS COELHO VAZ LOBO 61.6% 39.1% 50.3%
21 BONSUCESSO INHAUMA RAMOS TOMÁS COELHO 68.0% 32.6% 50.3%
189 BRÁS DE PINA PENHA CIRCULAR VILA DA PENHA 56.5% 44.1% 50.3%
207 CASCADURA CAVALCANTI QUINTINO BOCAIÚVA TOMÁS COELHO 53.2% 47.4% 50.3%
11 BRÁS DE PINA OLARIA PENHA PENHA CIRCULAR 50.9% 49.6% 50.2%
168 ENGENHO DA RAINHA INHAUMA 59.6% 40.3% 49.9%
215 CACHAMBI DEL CASTILHO ENGENHO NOVO MARIA DA GRAÇA MEIER 45.8% 54.0% 49.9%
173 GRAJAÚ VILA ISABEL 39.6% 60.1% 49.9%
4 BOTAFOGO HUMAITA 36.3% 63.3% 49.8%
216 CACHAMBI DEL CASTILHO ENGENHO DE DENTRO MEIER TODOS OS SANTOS 47.8% 51.8% 49.8%
188 PENHA 65.5% 34.0% 49.8%
214 ENGENHO NOVO LINS DE VASCONCELOS MEIER 45.2% 54.2% 49.7%
170 ANDARAÍ TIJUCA VILA ISABEL 40.6% 58.8% 49.7%
177 BRÁS DE PINA CORDOVIL PARADA DE LUCAS VILA DA PENHA VISTA ALEGRE 52.9% 45.9% 49.4%
6 TIJUCA 38.9% 59.9% 49.4%
14 ENCANTADO ENGENHO DE DENTRO PIEDADE 49.8% 48.9% 49.3%
228 MARACANÃ TIJUCA 36.7% 61.9% 49.3%
162 BRÁS DE PINA CORDOVIL PARADA DE LUCAS 63.0% 35.6% 49.3%
10 CASCADURA ENCANTADO PIEDADE QUINTINO BOCAIÚVA ÁGUA SANTA 53.0% 45.4% 49.2%
190 IRAJÁ VICENTE DE CARVALHO VILA DA PENHA VILA KOSMOS 50.1% 48.3% 49.2%
218 IRAJÁ MADUREIRA ROCHA MIRANDA TURIAÇÚ VAZ LOBO 56.5% 41.3% 48.9%
176 JARDIM AMÉRICA PARADA DE LUCAS VIGÁRIO GERAL 59.8% 37.7% 48.7%
209 CASCADURA MADUREIRA OSWALDO CRUZ 52.8% 44.3% 48.6%
171 TIJUCA 44.8% 52.3% 48.5%
217 BENTO RIBEIRO HONÓRIO GURGEL MARECHAL HERMES OSWALDO CRUZ 55.6% 41.4% 48.5%
219 COELHO NETO COLÉGIO HONÓRIO GURGEL ROCHA MIRANDA 59.2% 37.2% 48.2%
166 BOTAFOGO URCA 33.6% 61.3% 47.5%
3 FLAMENGO 32.8% 61.8% 47.3%
22 COLÉGIO IRAJÁ VILA DA PENHA 52.8% 41.6% 47.2%
179 ANIL CIDADE DE DEUS GARDENIA AZUL PECHINCHA RIO DAS PEDRAS 52.9% 40.1% 46.5%
7 TIJUCA 33.7% 59.3% 46.5%
117 CACUIA COCOTÁ RIBEIRA ZUMBI 47.6% 45.3% 46.4%
220 ACARI BARROS FILHO COSTA BARROS PAVUNA 64.8% 27.7% 46.3%
23 DEODORO GUADALUPE 59.1% 33.0% 46.1%
230 BANGU JARDIM BANGU VILA KENNEDY 64.0% 28.0% 46.0%
232 PADRE MIGUEL 59.1% 32.0% 45.5%
234 REALENGO 57.3% 33.6% 45.5%
15 BENTO RIBEIRO MARECHAL HERMES VILA MILITAR 49.4% 41.0% 45.2%
124 BANGU PADRE MIGUEL 53.3% 37.1% 45.2%
175 ACARI IRAJÁ PARQUE COLÚMBIA PAVUNA 61.1% 28.9% 45.0%
24 BANGU SENADOR CAMARÁ 62.6% 27.1% 44.8%
180 TANQUE TAQUARA 48.0% 41.5% 44.8%
231 BANGU PADRE MIGUEL REALENGO 56.5% 33.0% 44.7%
212 JARDIM BOTÂNICO LAGOA 29.2% 60.1% 44.7%
237 AUGUSTO VASCONCELOS SANTÍSSIMO SENADOR CAMARÁ 61.0% 28.3% 44.6%
5 COPACABANA LEME 33.8% 55.4% 44.6%
235 MAGALHÃES BASTOS REALENGO 55.0% 34.2% 44.6%
236 BANGU SENADOR CAMARÁ 55.4% 33.7% 44.6%
191 BANCÁRIOS DENDE FREGUESIA (ILHA DO GOVERNADOR) GUARABU MONERÓ 47.5% 41.4% 44.5%
167 ANCHIETA COSTA BARROS PAVUNA RICARDO DE ALBUQUERQUE 59.7% 28.6% 44.2%
13 FREGUESIA JPA 38.9% 48.9% 43.9%
233 PADRE MIGUEL REALENGO 55.1% 32.1% 43.6%
210 BENTO RIBEIRO CAMPO DOS AFONSOS JARDIM SULACAP VILA VALQUEIRE 42.0% 44.5% 43.2%
25 GUARATIBA NOVA SEPETIBA PEDRA DE GUARATIBA SANTA CRUZ SEPETIBA 57.8% 28.3% 43.0%
246 CAMPO GRANDE COSMOS INHOAÍBA PACIENCIA SANTA CRUZ 62.1% 23.9% 43.0%
182 CURICICA TAQUARA 48.3% 37.3% 42.8%
205 COPACABANA COPACABANA 31.4% 54.1% 42.8%
125 SANTA CRUZ 61.4% 24.1% 42.8%
192 FUNDÃO GALEÃO JARDIM GUANABARA PORTUGUESA TUBIACANGA 40.2% 45.3% 42.7%
122 CAMPO GRANDE SANTÍSSIMO SENADOR VASCONCELOS 55.1% 30.0% 42.5%
240 SANTA CRUZ 59.8% 25.3% 42.5%
252 COPACABANA IPANEMA LAGOA 32.0% 52.9% 42.5%
206 COPACABANA 32.0% 52.7% 42.4%
238 BANGU SENADOR CAMARÁ 57.4% 26.9% 42.1%
244 CAMPO GRANDE 51.7% 32.4% 42.1%
123 ANCHIETA DEODORO RICARDO DE ALBUQUERQUE 55.2% 28.8% 42.0%
245 CAMPO GRANDE INHOAÍBA 56.3% 26.8% 41.6%
120 CAMPO GRANDE SENADOR VASCONCELOS 53.2% 29.9% 41.6%
242 AFONSO VIZEU BENJAMIM DUMONT CAMPO GRANDE CANTAGALO INHOAÍBA 54.5% 27.9% 41.2%
241 COSMOS PACIENCIA SANTA CRUZ 59.9% 22.2% 41.0%
18 COPACABANA 27.8% 52.4% 40.1%
17 GÁVEA LEBLON 24.0% 50.3% 37.1%
165 IPANEMA 21.6% 47.8% 34.7%
9 BARRA CAMORIM RECREIO VARGEM GRANDE VARGEM PEQUENA 26.5% 39.1% 32.8%
119 ALTO DA BOA VISTA BARRA ITANHANGÁ 21.3% 39.6% 30.5%

Por este ranking, a zona mais esquerdista do Rio de Janeiro é a zona 8, que engloba Cachambi, Engenho Novo, Jacaré, Maria da Graça e Rocha, bairros localizados na Zona Norte. Nesta zona, Dilma 2014 e Freixo 2016 tiveram mais de 60% dos votos válidos. Em segundo lugar ficou a zona 164, que engloba Bairro de Fátima, Catumbi e Santa Teresa, localizados no centro. Em terceiro lugar ficou a zona 163, na divisa entre centro e Zona Sul, que engloba Catete, Glória e Lapa. A zona mais direitista é a zona 119, que engloba Barra, Alto da Boa Vista e Itanhangá. A segunda zona mais direitista é a zona 9, que engloba Barra, Camorin, Recreio, Vargem Grande e Vargem Pequena. A terceira zona mais direitista é a zona 165, que tem Ipanema.

O melhor resultado de Freixo 2016 ocorreu na zona 16, que tem Laranjeiras e Cosme Velho. É lá que está localizada a Praça São Salvador, ponto de encontro boêmio que tem muitos eventos de esquerda (e onde a cerveja mais vendida pelos ambulantes é aquela que tem a estrela vermelha no rótulo, hahaha). Naquela zona, Freixo teve 67,1% e Crivella teve 32,9%. Porém, no ranking, esta zona encontra-se apenas em oitavo lugar, porque, em 2014, Aécio teve 61,7% e Dilma teve 38.3%. Quando Dilma ganhou o segundo turno em 2014, houve uma pequena aglomeração de pessoas na Praça São Salvador, sob forte chuva, carregando aquelas bandeiras vermelhas com “Dilma” escrito no estilo letra de mão. Mas eram minoria no bairro. Ainda assim, foi lá onde Dilma teve desempenho menos ruim entre os bairros de alta renda (apesar de não ser o escopo do texto, que trata apenas do Rio de Janeiro, vai aqui uma informação adicional: em bairros com renda parecida com a de Laranjeiras em outras cidades do Centro Sul do Brasil, Dilma não chegou perto de 38%, oscilou entre 15% e 25%).

O pior resultado de Freixo 2016 ocorreu na zona 241, que tem Cosmos, Paciência e Santa Cruz, na Zona Oeste. Lá, Crivella teve 77,8% e Freixo teve 22,2%. Mas esta zona é apenas a sexta mais direitista, porque, em 2014, Dilma teve 59,9% e Aécio teve 40,1%.

A partir do fato de que Crivella 2016 teve melhor desempenho em muitas zonas onde Dilma 2014 teve melhor desempenho, e Freixo 2016 teve melhor desempenho em muitas zonas onde Aécio 2014 teve melhor desempenho, e chegar à conclusão de que quem votou na Dilma 2014 votou no Crivella 2016 e que quem votou no Aécio 2014 votou no Freixo 2016 seria uma falácia ecológica, que consiste em atribuir erroneamente características aos indivíduos a partir de características dos grupos aos quais eles pertencem. É perfeitamente possível que a maioria das pessoas que votaram na Dilma 2014 votaram no Freixo 2016, e que a maioria das pessoas que votaram no Aécio 2014 votaram no Crivella 2016. Basta haver um número suficiente de pessoas nos bairros mais ricos que votaram no Aécio 2014 e no Freixo 2016, e nos bairros mais pobres que votaram na Dilma 2014 e no Crivella 2016, para aparecer a polarização oposta. A figura a seguir resume este argumento.

bairros rio voto 2014 2016

Como não houve pesquisas em que se cruzaram os votos da eleição de 2014 com a de 2016, não é possível tirar conclusões. Mas o fato de que muitos políticos e celebridades que apoiaram Dilma 2014 apoiaram Freixo 2016 e muitos políticos e celebridades que apoiaram Aécio 2014 apoiaram Crivella 2016 fornece indícios de que a situação descrita pelo parágrafo anterior e apresentada na figura aconteceu. Também é importante considerar que tanto a eleição de 2014, quanto a de 2016, teve muitos brancos, nulos e abstenções. É possível que muitos eleitores tenham escolhidos candidatos só em 2014, e muitos eleitores tenham escolhido candidatos só em 2016.

Foi dito anteriormente que apesar de ter ocorrido correlação negativa entre a votação de Dilma 2014 e Freixo 2016, esta correlação não foi tão linear assim. O gráfico a seguir mostra a dispersão das zonas eleitorais do Rio de Janeiro entre a votação de Dilma 2014 e Freixo 2016.

dispersão freixo dilma trincheiras

Verifica-se a correlação negativa, mas verifica-se que esta correlação não é linear. É interessante notar que nas zonas eleitorais de alta renda, que estão circuladas em vermelho no gráfico, a situação se inverte. Há uma correlação positiva entre o desempenho de Dilma 2014 e o desempenho de Freixo 2016. As zonas de alta renda são as que Dilma 2014 teve desempenho pior e Freixo 2016 teve desempenho melhor. Porém, onde Dilma 2014 teve o pior desempenho no município, Freixo 2016 não teve desempenho tão bom, ainda que tenha tido melhor desempenho do que aquele que obteve na maioria das zonas eleitorais pobres. Isto ocorreu notadamente na Barra e Ipanema. Onde Freixo 2016 teve o melhor desempenho no município, Dilma 2014 teve desempenho pior do que a média no município, mas ainda um desempenho melhor do que nas demais zonas de alta renda. Isto ocorreu notadamente em Laranjeiras, Cosme Velho, Flamengo e Botafogo.

Infelizmente não é fácil coletar dados de renda sobre bairros. Além disso, as zonas eleitorais picotam os bairros, dificultando medir a renda média de cada zona. Mas o diferencial de renda de alguns bairros do Rio de Janeiro é de notório conhecimento (sim, seria necessária uma pesquisa mais detalhada para fazer disso um paper para ser publicado em um journal, mas para este jornal virtual é o suficiente). Portanto, é possível chegar a algumas conclusões. A relação entre renda e votação do Aécio 2014 é quase que perfeitamente linear. Ele teve pior desempenho em zonas que englobam bairros muito pobres da Zona Norte, como Bonsucesso, Ramos, Mangueira e Penha, depois teve desempenho um pouco menos ruim em zonas que englobam os grandes bairros da Zona Oeste, como Bangu, Campo Grande, Santa Cruz, menos pobres do que os mencionados da Zona Norte, teve desempenho razoavelmente bom em Botafogo, Flamengo e Laranjeiras, que são de alta renda, mas não os de mais alta renda do Rio de Janeiro, e por fim teve o melhor desempenho nas zonas de renda mais alta, que englobam Barra, Ipanema e Leblon. Freixo 2016, por sua vez, também teve votação que cresceu com a renda, mas a relação foi muito menos linear. Seu pior desempenho foi na Zona Oeste (Bangu, Campo Grande e Santa Cruz), onde ele esteve na faixa dos 20%. Nos mencionados lugares muito pobres da Zona Norte, ele esteve na faixa dos 30%. Seu melhor desempenho ocorreu em bairros de alta renda da Zona Sul, como Botafogo, Flamengo e Laranjeiras, que ainda não são os bairros de mais alta renda da cidade. Nestes lugares, ele passou dos 60%. As zonas que englobam o topo da renda na cidade, incluindo Barra e Ipanema, foram as únicas zonas de alta renda onde Crivella venceu, ainda que com diferença não tão grande quanto a que ele venceu nas zonas pobres. A figura a seguir mostra um esboço do que foi explicado aqui por palavras.

renda aécio freixo

Curiosidade: o bairro da Cachambi, localizado na zona mais esquerdista do ranking apresentado neste texto, foi coincidentemente o bairro onde Luís Carlos Prestes e Olga Benario se esconderam em 1935

bairros esquerda direita rio

Argumentação do Spotniks: muito cherry-picking e espantalho

O Spotniks é um site liberal. No sentido não norte americano. No sentido nosso mesmo, em que liberal significa estar à direita no espectro político. O Spotniks defende o “Estado mínimo” na economia. Diferente de outros “liberais” brasileiros, que defendem o “Estado mínimo” na economia, mas o Estado máximo para torturar e executar moradores de favela, dificultar a chegada de moradores de favela nas praias, sentar o porrete em qualquer manifestação que não seja aquela dos camisas amarelas, censurar a atividade docente e coibir o aborto e o consumo de drogas, o Spotniks não defende essas coisas. Simplesmente não entra nessas discussões.

Ainda assim há duas características principais da argumentação dos textos do Spotniks que devem ser criticadas aqui: o espantalho e o pega cereja (expressão original em Inglês é cherry-picking). O espantalho consiste em debater não as posições de quem pensa o oposto, mas a caricatura das posições que você mesmo faz de quem pensa o oposto. O pega cereja consiste em selecionar um ou outro fato que sustenta sua posição. É possível defender qualquer posição selecionando um ou outro fato.

Um dos exemplos mais evidentes do uso do espantalho no Spotniks foi o texto criticando os críticos do impeachment. O texto “refutava” argumentos de críticos do impeachment. Mas foram selecionados os piores argumentos para serem refutados. Estes argumentos muito provavelmente foram tirados de falas de pessoas nas ruas e textos panfletários muito ruins. Não foram discutidos os argumentos presentes nas revistas de esquerda mais importantes e nos textos de pensadores mais conceituados que criticaram publicamente o impeachment. Quem ler o Facebook do Luiz Carlos Bresser Pereira, do Renato Janine e da Laura Carvalho não encontrará estes argumentos ruins. O texto “5 ideias de esquerda que jamais fizeram o menor sentido” também usa o mesmo recurso do espantalho. Quem ler textos de autores sérios de esquerda, como Thomas Piketty e Ha Joon Chang, jamais encontrará a defesa dessas cinco ideias de esquerda que jamais fizeram o menor sentido.

A outra prática comum na argumentação do Spotniks, a mais utilizada, é o pega cereja. Isto é possível verificar com maior frequência naqueles textos sobre “o país que implementou as políticas que nós defendemos e prosperou”. Não apenas este site utiliza esta forma de argumentação. Isto é muito comum ver em qualquer revista de business. É possível pegar a cereja tanto para definir o que é um país próspero, quanto para escolher as políticas que o país próspero praticou que mais agradam ao nosso gosto. Um país que prosperou pode ser tanto um país de renda alta, quanto um país que está tendo elevado crescimento da renda. Geralmente, são países diferentes, pois não são os países de renda alta aqueles que têm mais elevado crescimento. Sobre as políticas que cada país aplica, há muitas cerejas para escolher. Não existem países que têm Estado máximo total ou que têm Estado mínimo total. Alguns países têm grande percentual do produto produzido por empresas públicas, mas baixa receita de impostos. Outros países têm o produto praticamente todo produzido por empresas privadas, mas alta receita de impostos. Outros países têm poucas empresas públicas e pouca receita de impostos, mas setor público atuante para fomentar empresas de capital nacional. Aí quem deseja defender o Estado mínimo ou o Estado máximo, basta selecionar o que é conveniente.

Há dois textos do Spotniks em que o pega cereja fica bem evidente. Um deles é sobre o Chile, o país favorito dos pega cereja liberais. O texto relaciona as políticas liberais que o país tem com seu desenvolvimento superior se comparado aos demais países da América Latina. Um pegador de cereja que tem orientação política oposta ao do Spotniks poderia mencionar que o Chile já teve controle de capitais, que nunca deixou seu câmbio sobrevalorizar, que manteve parte da exploração do cobre sob controle do Estado, que a alíquota marginal superior do Imposto de Renda é a maior da América Latina, que há fortes movimentos que contestam a previdência individual e a universidade não gratuita. Também é possível lembrar que o Chile elegeu o partido socialista em três das últimas quatro eleições presidenciais. É verdade que o partido socialista manteve algumas políticas liberais, mas se essas políticas liberais iniciadas na era Pinochet foram tão boas, por que os chilenos não preferiram o original? O texto do Spotniks sobre o Chile não é totalmente ruim. Menciona um ponto interessante: lá no Chile, as políticas são continuadas de uma administração para a outra. Mas… enquanto isso no Brasil, governos com ideologia semelhante à do site Spotniks não tem qualquer preocupação em dar continuidade às políticas de governos anteriores. Outra coisa positiva do texto do Spotniks sobre o Chile é que não há apologia ao autoritarismo do regime de Pinochet. O texto segue a linha do “o autoritarismo é ruim, mas as políticas implementadas foram boas”. Porém, há uma ressalva a ser feita: algumas políticas só puderam ser implementadas porque houve o autoritarismo. Dizer que o autoritarismo foi ruim não vai fazer voltar no tempo e devolver a vida aos opositores executados. Por fim, o texto sobre o Chile foi mal organizado. Foi uma lista de dez tópicos, em que se misturaram políticas e resultados de políticas.

O texto da Suécia foi outro exemplo de pega cereja. O objetivo do texto foi mostrar que a Suécia é um país próspero por causa de características liberais de sua economia, e não por causa da social democracia. O texto mostrou entre outras coisas que a Suécia, em um período recente, diminuiu a carga tributária de 53% para 43%. Mas ainda assim, não conseguiu negar que foi perfeitamente possível a Suécia ter crescimento do PIB superior ao da média dos países desenvolvidos mesmo com carga tributária de 43%, número que já gera chiadeira em muitos países. Dizer corretamente que uma carga tributária de 53% realmente provocou desaceleração do crescimento, com o objetivo de defender um Estado mínimo, é igual dizer corretamente que ter o peso do Jô Soares é perigoso para a saúde, com o objetivo de defender erroneamente que todos devem ter o peso da Gisele Bündchen. O texto também mostrou que a Suécia diminuiu o número de funcionários públicos, mas ainda assim a Suécia continua tendo uma participação de funcionários públicos no total da população ocupada maior do que no Brasil. O texto ainda apresenta uma forte idolatração do PIB: o PIB é indicado para medir sucesso e fracasso de tudo. Por fim, o texto fala da política de privatização parcial do ensino: governo apenas financiando, empresas administrando algumas escolas. Detalhe não discutido: os principais partidos suecos querem rever este modelo.

Outro exemplo de pega cereja no Spotniks foi o texto dizendo que a EC do teto dos gastos, aprovado pelo Congresso brasileiro no ano passado, não iria prejudicar o investimento público em saúde. Tanto quem é a favor, quanto quem é contra a PEC do teto dos gastos, tem um dado aqui outro dado ali para defender suas posições. Mas é impossível os defensores da EC do teto dos gastos esconderem o essencial: esta emenda vai, em 20 anos, reduzir a relação despesa da União sobre o PIB dos atuais 20% para 12%. A queda é muito grande. Não tem um desperdício aqui outro desperdício ali que se cortar, pode salvar a saúde. E se não fosse intenção deliberada conter o crescimento da despesa inclusive com saúde, a EC teria deixado a saúde fora do teto.

E por fim, um dos textos mais pega cereja do Spotniks foi um “argumentando” que o PSDB não é um partido de direita, com base em fatos coletados do passado. Sim, o PSDB não nasceu como um partido de direita, e isto é de notório conhecimento. Mas se observarmos o comportamento dos atuais prefeitos e governadores do partido, e também da atual bancada no Congresso, não é possível negar que o PSDB seja atualmente um partido de direita.

Outro texto ruim do Spotniks que precisa ser comentado é aquele sobre o “dá bilhão”, com propostas sobre como diminuir despesas públicas. Fala-se em “cargo de confiança”, não deixando claro se está falando de cargo em comissão (que é de livre provimento) ou função de confiança (que precisa ser preenchida por servidores efetivos). É elogiável o Spotniks criticar o excesso de cargos em comissão (ou estaria falando de funções de confiança?). Mas é preciso lembrar de uma coisa: governos ideologicamente alinhados ao Spotniks são os que mais gostam de cargos em comissão.

O Spotniks, geralmente, é apenas um site liberal em economia, mas não adere à pauta neocon sobre “valores”. Mas ainda assim, o site adotou uma postura neocon em um texto falando dos exageros do politicamente correto. Em primeiro lugar, “politicamente correto” virou um espantalho para os neocon se referirem a tudo que eles não gostam. Em segundo lugar, realmente há exageros praticados por movimentos de minorias, mas os fãs deste site ainda não estão preparados para discutir de forma séria o assunto. Não é difícil imaginar que o público deste site é predominantemente masculino, branco, heterossexual e de classe média, que habitualmente convive com pessoas que também são assim, e não conhece pessoas que militam em movimentos de minorias. Eu sou homem branco heterossexual e de classe média, já cheguei a pensar que algumas coisas que militantes de movimentos de minorias diziam eram exagero, mas depois eu entendi que faziam sentido e que eu não percebia antes porque não tinha experiência de vida para avaliar. Outras, continuei pensando que é exagero. Só é possível dizer que determinado posicionamento adotado por um movimento de minoria é exagerado se realmente ouvir essa posição, e não apenas o espantalho. Muita gente utiliza os exageros dos movimentos como mero pretexto para desqualificar os movimentos como um todo.

O Spotniks também caiu no macarthismo quando relacionou opiniões políticas de artistas de esquerda com recursos da Lei Rouanet. Outro exemplo de pega cereja. Artistas de direita também captam recursos através da Lei Rouanet. Comentaristas de empresas de mídia que recebem generosas verbas de publicidade do governo Temer defendem as reformas propostas por este governo. E a Lei Rouanet, criada pelo governo Collor, geralmente é muito criticada pela esquerda, por dar às empresas privadas o poder de decisão de quais artistas serão beneficiados por renúncias fiscais.

E por falar em artistas, o Spotniks não fala apenas de artistas brasileiros e da Lei Rouanet. O Spotniks tenta mostrar que não tem simpatia pelo Donald Trump. Mas ainda assim mostra raivinha contra o discurso da Meryl Streep, que fez críticas ferozes ao presidente dos EUA. Por que será?

Por fim, deve se destacar como são arrogantes os títulos de muitos textos do Spotnkis. Utilizam-se muito expressões como “mentiras em que você acreditou”, ou “coisas que você achava”, ou “coisas que você não sabia”. Parece que o Spotniks está trazendo a luz no meio da escuridão. Chega a ser cafona. Muito provavelmente, o leitor habitual deste site não acreditava nas “mentiras”, não achava certo as coisas que o site acha que são erradas. O Spotniks não está trazendo ideias inéditas. Tudo que este site defende pode ser visto diariamente no Valor Econômico, na Exame, na Veja, na Época, na Isto É, na Isto É Dinheiro, na Globo News e na CBN.

O Spotniks não é um fenômeno isolado. Virou um modismo entre jovens brasileiros de classe média ser liberais em economia e razoavelmente progressista em outros assuntos (ou pelo menos indiferente a esses assuntos), ser o que os norte americanos chamam de “fiscal conservative, social liberal”. Esses jovens gostam bastante da revista Economist, do programa Manhattan Connection. Se sentem mais chiques. Talvez o modismo não seja tão novo. No século XVIII, filhos de senhores de escravos que iam estudar na Europa adquiriam ideias liberais.

Apesar de todas as críticas, o Spotniks transmite uma lição importante para a esquerda: mexa o traseiro gordo. É preciso saber se comunicar de forma didática com os leigos. Não adianta gastar horas pregando apenas para os já convertidos e perdendo tempo em discussões internas.

figura spotniks

As notícias falsas como arma política da extrema-direita

Recentemente, um levantamento feito pela Associação de Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP) divulgou os dez sites brasileiros que mais transmitem informações falsas. Dentro desta lista, havia uma grande participação de sites conservadores. O que não é surpresa. Não há simetria entre esquerda e direita na produção e na divulgação de informações falsas. A direita, mais especificamente a extrema-direita, supera com grande diferença na produção de informações falsas, que também podem ser conhecidas como boatos, fakes, hoaxes e lendas urbanas. Não, não estou dizendo que ser de esquerda é ter uma carteirinha de santidade. Muitos líderes e militantes de esquerda fazem muitas coisas ruins. Mas divulgar informações falsas raramente é uma delas.

A hoax como arma política existe bem antes do Facebook. Aliás, existe bem antes da Internet. Uma hoax clássica no Brasil foi o Plano Cohen, “descoberto” em 1937, que se tratava de um plano de comunistas com sobrenome judeu tomarem o poder. Este plano serviu para Getúlio Vargas iniciar o Estado Novo. Na década de 1950, quando a direita passou a ser opositora do Getúlio Vargas, o jornal A Tribuna da Imprensa apresentava “notícias” sobre ligações entre Vargas e Perón, sendo muitas destas notícias apenas rumores. Na eleição presidencial de 1989, circularam rumores de que Lula obrigaria as famílias a abrigarem moradores de rua em suas residências.

A Internet, porém, teve importância para ampliar esta prática. Durante a eleição presidencial de 2010, foram amplamente divulgadas em correntes de email e em redes sociais informações falsas sobre o auxílio reclusão, que diziam que todas as famílias tinham o direito a este auxílio (o que não é verdade) e que apresentavam valores bem maiores do que aqueles que realmente são pagos. A ficha falsa da Dilma no DOPS, do tempo em que ela era guerrilheira, também foi amplamente divulgada. Durante a campanha eleitoral de 2014, circularam boatos de que o PT havia dado título de eleitor para 50 mil haitianos votarem na Dilma. Logo depois da eleição, circularam boatos sobre urnas eletrônicas adulteradas que teriam sido úteis para a reeleição da Dilma. Em 2015, apareceram notícias sobre uma suposta descoberta de que a microcefalia seria causada por vacinas mal conservadas, e não pelo zika. Este foi um boato de direita não necessariamente para atingir o governo Dilma, mas para fomentar campanhas anti-vacina, campanhas estas que têm um ou outro apoio de esquerda, mas geralmente são apoiados por grupos de direita, principalmente religiosos.

Dois políticos brasileiros de esquerda que são os mais frequentes alvos de boatos são a ex-ministra Maria do Rosário e o deputado Jean Wyllys. Maria do Rosário já foi acusada de ter recebido a assassina Suzanne von Richtoffen. Há uma lista enorme de boatos envolvendo Jean Wyllys, que pode ser encontrada clicando aqui. Entre estes boatos, estão o de que ele quer regulamentar o casamento entre humanos e animais, e o de que ele defendeu a pedofilia. Durante a eleição para prefeito do Rio de Janeiro em 2016, circularam boatos de que Jean Wyllys seria o secretário de educação em uma eventual administração de Marcelo Freixo. Aliás, houve outros boatos naquela eleição. Houve até mesmo um áudio com uma imitação da voz de Marcelo Freixo insultando taxistas.

Uma notícia falsa circulada via Internet no ano passado mostrou que os inventores deste tipo de notícia não têm qualquer confiança no senso crítico de seus leitores, que consideram que eles aceitam tudo. A notícia foi a de que uma policial militar evangélica virgem teria sido estuprada e assassinada por meninos de menor. A notícia tinha tantos elementos da pauta conservadora que estava óbvio que se tratava de um fake: exaltação da polícia militar, exaltação da virgindade, exaltação dos evangélicos, redução da maioridade penal e o “cadê as feministas?”. Muito provavelmente que difunde este tipo de notícia também não acredita no conteúdo, apenas acredita que outras pessoas acreditação e acredita que seja útil que outras pessoas acreditem.

A prática não existe só no Brasil. A extrema-direita norte americana é recordista em hoaxes. Entre as farsas, estão a de que Obama nasceu no Quênia, de que Obama é muçulmano, e de que o Planned Parenthood (organização não governamental de saúde da mulher que realiza a muitos abortos legais) vendia partes de fetos.

E a teoria da conspiração da lua, aquela que, através de informações falsas, diz que o ser humano nunca esteve na lua e que tudo foi filmado em estúdio? Seria coisa de simpatizantes da União Soviética, inconformados com o fato dos norte americanos terem chegado antes? Não. Quem difunde a teoria da conspiração da lua são grupos fanáticos religiosos de direita.

Existem farsas difundidas por pessoas de esquerda? Sim, mas a quantidade não chega perto da quantidade de farsas de extrema-direita. No final da década de 1990, vi alguns esquerdistas dizerem que havia um livro escolar de Geografia nos Estados Unidos que mostrava que a Floresta Amazônica não fazia mais parte do território brasileiro, e que se tratava de uma área de preservação controlada pela ONU. Era mentira. Não havia Orkut, Twitter e Facebook naquele tempo, mas esta farsa foi muito difundida em correntes de email. Porém, não se tratava de uma lenda urbana exclusivamente de uso esquerdista. Nacionalistas de direita também colaboraram com a difusão. Mais recentemente, logo depois da votação no plenário da Câmara da PEC do teto dos gastos, alguns amigos meus de esquerda colocaram no Facebook uma foto de deputados de direita segurando uma faixa com a frase “ESTAMOS CONCERTANDO O BRASIL”. O “CONCERTANDO” com C era uma montagem. Na verdade, a faixa estava escrita corretamente mesmo, com o “CONSERTANDO” com S. Mas uma vez revelada a farsa, nenhum desses amigos esquerdistas meus continuaram insistindo.

Como escrevi em um texto para este site, as grandes empresas de mídia no Brasil são de centro-direita, defendem o liberalismo econômico, mas não defendem o conservadorismo patriótico, militarista e religioso. Há tanto sites de esquerda, quanto sites de extrema-direita, que criticam as grandes empresas de mídia no Brasil. Mas apenas os sites de extrema-direita usam a notícia falsa como meio de fazer política. Alguns sites de esquerda utilizam algumas formas criticáveis de argumentação. Quando é noticiado que algum político do PT se envolveu em algum escândalo de corrupção, alguns desses sites lembram de escândalos semelhantes que ocorreram no passado que envolveram políticos adversários do PT. Podemos criticar esses sites por estarem relativizando, passando no pano nos escândalos de políticos do PT. Mas os escândalos que esses sites utilizam para mostrar que “todo mundo fez” não são notícias falsas. São notícias que saíram, embora com menor destaque, na grande mídia. Alguns sites de esquerda costumavam mostrar uma foto de Eduardo Cunha conversando com os ministros do STF para “provar” que o STF estava protegendo Eduardo Cunha. A ideia defendida por ser equivocada. Eduardo Cunha era o presidente da Câmara, e, por causa do seu cargo, é bastante normal conversar com ministros do STF. Mas a foto era verdadeira, não foi montagem, a conversa realmente aconteceu, portanto, não se trata de notícia falsa.

O tema “informações falsas como arma política” é bastante discutido atualmente, principalmente por causa do aumento da importância das redes sociais no debate político. Como foi dito anteriormente, as farsas existem bem antes da Internet, mas a Internet aumentou a potência das farsas. Por causa do aumento de importância do tema, é possível que apareçam “isentões” escrevendo sobre isso, querendo mostrar exemplos de farsas de esquerda e farsas de direita em igual número. Estes “isentões” não seriam isentos, pois sua “isenção” não corresponderia à realidade. A hoax é uma arma muito mais utilizada pela direita.

Se vocês têm colegas, ex-colegas e familiares que insistem em repetir farsas e que vocês sabem que esses aí são pessoas que têm inteligência suficiente para saber que trata de farsas, mas que consideram politicamente conveniente a difusão, saiba que vocês estão perto de pessoas que não são boas. Se vocês vivem perto de gente que insiste em difundir farsas, vocês têm que mandar essa gente tomar no cu.

 

Obs: Se algum leitor acha que fui viesado e injusto e que há mais exemplos de farsas difundidas por meios de comunicação de esquerda, sintam-se livres para entrar em contato comigo e mostrar estes exemplos.

 

Sugestões de sites para se prevenir das notícias falsas: o brasileiro e-farsas e o norte-americano fact-check

pinoquio