Argumentação do Spotniks: muito cherry-picking e espantalho

O Spotniks é um site liberal. No sentido não norte americano. No sentido nosso mesmo, em que liberal significa estar à direita no espectro político. O Spotniks defende o “Estado mínimo” na economia. Diferente de outros “liberais” brasileiros, que defendem o “Estado mínimo” na economia, mas o Estado máximo para torturar e executar moradores de favela, dificultar a chegada de moradores de favela nas praias, sentar o porrete em qualquer manifestação que não seja aquela dos camisas amarelas, censurar a atividade docente e coibir o aborto e o consumo de drogas, o Spotniks não defende essas coisas. Simplesmente não entra nessas discussões.

Ainda assim há duas características principais da argumentação dos textos do Spotniks que devem ser criticadas aqui: o espantalho e o pega cereja (expressão original em Inglês é cherry-picking). O espantalho consiste em debater não as posições de quem pensa o oposto, mas a caricatura das posições que você mesmo faz de quem pensa o oposto. O pega cereja consiste em selecionar um ou outro fato que sustenta sua posição. É possível defender qualquer posição selecionando um ou outro fato.

Um dos exemplos mais evidentes do uso do espantalho no Spotniks foi o texto criticando os críticos do impeachment. O texto “refutava” argumentos de críticos do impeachment. Mas foram selecionados os piores argumentos para serem refutados. Estes argumentos muito provavelmente foram tirados de falas de pessoas nas ruas e textos panfletários muito ruins. Não foram discutidos os argumentos presentes nas revistas de esquerda mais importantes e nos textos de pensadores mais conceituados que criticaram publicamente o impeachment. Quem ler o Facebook do Luiz Carlos Bresser Pereira, do Renato Janine e da Laura Carvalho não encontrará estes argumentos ruins. O texto “5 ideias de esquerda que jamais fizeram o menor sentido” também usa o mesmo recurso do espantalho. Quem ler textos de autores sérios de esquerda, como Thomas Piketty e Ha Joon Chang, jamais encontrará a defesa dessas cinco ideias de esquerda que jamais fizeram o menor sentido.

A outra prática comum na argumentação do Spotniks, a mais utilizada, é o pega cereja. Isto é possível verificar com maior frequência naqueles textos sobre “o país que implementou as políticas que nós defendemos e prosperou”. Não apenas este site utiliza esta forma de argumentação. Isto é muito comum ver em qualquer revista de business. É possível pegar a cereja tanto para definir o que é um país próspero, quanto para escolher as políticas que o país próspero praticou que mais agradam ao nosso gosto. Um país que prosperou pode ser tanto um país de renda alta, quanto um país que está tendo elevado crescimento da renda. Geralmente, são países diferentes, pois não são os países de renda alta aqueles que têm mais elevado crescimento. Sobre as políticas que cada país aplica, há muitas cerejas para escolher. Não existem países que têm Estado máximo total ou que têm Estado mínimo total. Alguns países têm grande percentual do produto produzido por empresas públicas, mas baixa receita de impostos. Outros países têm o produto praticamente todo produzido por empresas privadas, mas alta receita de impostos. Outros países têm poucas empresas públicas e pouca receita de impostos, mas setor público atuante para fomentar empresas de capital nacional. Aí quem deseja defender o Estado mínimo ou o Estado máximo, basta selecionar o que é conveniente.

Há dois textos do Spotniks em que o pega cereja fica bem evidente. Um deles é sobre o Chile, o país favorito dos pega cereja liberais. O texto relaciona as políticas liberais que o país tem com seu desenvolvimento superior se comparado aos demais países da América Latina. Um pegador de cereja que tem orientação política oposta ao do Spotniks poderia mencionar que o Chile já teve controle de capitais, que nunca deixou seu câmbio sobrevalorizar, que manteve parte da exploração do cobre sob controle do Estado, que a alíquota marginal superior do Imposto de Renda é a maior da América Latina, que há fortes movimentos que contestam a previdência individual e a universidade não gratuita. Também é possível lembrar que o Chile elegeu o partido socialista em três das últimas quatro eleições presidenciais. É verdade que o partido socialista manteve algumas políticas liberais, mas se essas políticas liberais iniciadas na era Pinochet foram tão boas, por que os chilenos não preferiram o original? O texto do Spotniks sobre o Chile não é totalmente ruim. Menciona um ponto interessante: lá no Chile, as políticas são continuadas de uma administração para a outra. Mas… enquanto isso no Brasil, governos com ideologia semelhante à do site Spotniks não tem qualquer preocupação em dar continuidade às políticas de governos anteriores. Outra coisa positiva do texto do Spotniks sobre o Chile é que não há apologia ao autoritarismo do regime de Pinochet. O texto segue a linha do “o autoritarismo é ruim, mas as políticas implementadas foram boas”. Porém, há uma ressalva a ser feita: algumas políticas só puderam ser implementadas porque houve o autoritarismo. Dizer que o autoritarismo foi ruim não vai fazer voltar no tempo e devolver a vida aos opositores executados. Por fim, o texto sobre o Chile foi mal organizado. Foi uma lista de dez tópicos, em que se misturaram políticas e resultados de políticas.

O texto da Suécia foi outro exemplo de pega cereja. O objetivo do texto foi mostrar que a Suécia é um país próspero por causa de características liberais de sua economia, e não por causa da social democracia. O texto mostrou entre outras coisas que a Suécia, em um período recente, diminuiu a carga tributária de 53% para 43%. Mas ainda assim, não conseguiu negar que foi perfeitamente possível a Suécia ter crescimento do PIB superior ao da média dos países desenvolvidos mesmo com carga tributária de 43%, número que já gera chiadeira em muitos países. Dizer corretamente que uma carga tributária de 53% realmente provocou desaceleração do crescimento, com o objetivo de defender um Estado mínimo, é igual dizer corretamente que ter o peso do Jô Soares é perigoso para a saúde, com o objetivo de defender erroneamente que todos devem ter o peso da Gisele Bündchen. O texto também mostrou que a Suécia diminuiu o número de funcionários públicos, mas ainda assim a Suécia continua tendo uma participação de funcionários públicos no total da população ocupada maior do que no Brasil. O texto ainda apresenta uma forte idolatração do PIB: o PIB é indicado para medir sucesso e fracasso de tudo. Por fim, o texto fala da política de privatização parcial do ensino: governo apenas financiando, empresas administrando algumas escolas. Detalhe não discutido: os principais partidos suecos querem rever este modelo.

Outro exemplo de pega cereja no Spotniks foi o texto dizendo que a EC do teto dos gastos, aprovado pelo Congresso brasileiro no ano passado, não iria prejudicar o investimento público em saúde. Tanto quem é a favor, quanto quem é contra a PEC do teto dos gastos, tem um dado aqui outro dado ali para defender suas posições. Mas é impossível os defensores da EC do teto dos gastos esconderem o essencial: esta emenda vai, em 20 anos, reduzir a relação despesa da União sobre o PIB dos atuais 20% para 12%. A queda é muito grande. Não tem um desperdício aqui outro desperdício ali que se cortar, pode salvar a saúde. E se não fosse intenção deliberada conter o crescimento da despesa inclusive com saúde, a EC teria deixado a saúde fora do teto.

E por fim, um dos textos mais pega cereja do Spotniks foi um “argumentando” que o PSDB não é um partido de direita, com base em fatos coletados do passado. Sim, o PSDB não nasceu como um partido de direita, e isto é de notório conhecimento. Mas se observarmos o comportamento dos atuais prefeitos e governadores do partido, e também da atual bancada no Congresso, não é possível negar que o PSDB seja atualmente um partido de direita.

Outro texto ruim do Spotniks que precisa ser comentado é aquele sobre o “dá bilhão”, com propostas sobre como diminuir despesas públicas. Fala-se em “cargo de confiança”, não deixando claro se está falando de cargo em comissão (que é de livre provimento) ou função de confiança (que precisa ser preenchida por servidores efetivos). É elogiável o Spotniks criticar o excesso de cargos em comissão (ou estaria falando de funções de confiança?). Mas é preciso lembrar de uma coisa: governos ideologicamente alinhados ao Spotniks são os que mais gostam de cargos em comissão.

O Spotniks, geralmente, é apenas um site liberal em economia, mas não adere à pauta neocon sobre “valores”. Mas ainda assim, o site adotou uma postura neocon em um texto falando dos exageros do politicamente correto. Em primeiro lugar, “politicamente correto” virou um espantalho para os neocon se referirem a tudo que eles não gostam. Em segundo lugar, realmente há exageros praticados por movimentos de minorias, mas os fãs deste site ainda não estão preparados para discutir de forma séria o assunto. Não é difícil imaginar que o público deste site é predominantemente masculino, branco, heterossexual e de classe média, que habitualmente convive com pessoas que também são assim, e não conhece pessoas que militam em movimentos de minorias. Eu sou homem branco heterossexual e de classe média, já cheguei a pensar que algumas coisas que militantes de movimentos de minorias diziam eram exagero, mas depois eu entendi que faziam sentido e que eu não percebia antes porque não tinha experiência de vida para avaliar. Outras, continuei pensando que é exagero. Só é possível dizer que determinado posicionamento adotado por um movimento de minoria é exagerado se realmente ouvir essa posição, e não apenas o espantalho. Muita gente utiliza os exageros dos movimentos como mero pretexto para desqualificar os movimentos como um todo.

O Spotniks também caiu no macarthismo quando relacionou opiniões políticas de artistas de esquerda com recursos da Lei Rouanet. Outro exemplo de pega cereja. Artistas de direita também captam recursos através da Lei Rouanet. Comentaristas de empresas de mídia que recebem generosas verbas de publicidade do governo Temer defendem as reformas propostas por este governo. E a Lei Rouanet, criada pelo governo Collor, geralmente é muito criticada pela esquerda, por dar às empresas privadas o poder de decisão de quais artistas serão beneficiados por renúncias fiscais.

E por falar em artistas, o Spotniks não fala apenas de artistas brasileiros e da Lei Rouanet. O Spotniks tenta mostrar que não tem simpatia pelo Donald Trump. Mas ainda assim mostra raivinha contra o discurso da Meryl Streep, que fez críticas ferozes ao presidente dos EUA. Por que será?

Por fim, deve se destacar como são arrogantes os títulos de muitos textos do Spotnkis. Utilizam-se muito expressões como “mentiras em que você acreditou”, ou “coisas que você achava”, ou “coisas que você não sabia”. Parece que o Spotniks está trazendo a luz no meio da escuridão. Chega a ser cafona. Muito provavelmente, o leitor habitual deste site não acreditava nas “mentiras”, não achava certo as coisas que o site acha que são erradas. O Spotniks não está trazendo ideias inéditas. Tudo que este site defende pode ser visto diariamente no Valor Econômico, na Exame, na Veja, na Época, na Isto É, na Isto É Dinheiro, na Globo News e na CBN.

O Spotniks não é um fenômeno isolado. Virou um modismo entre jovens brasileiros de classe média ser liberais em economia e razoavelmente progressista em outros assuntos (ou pelo menos indiferente a esses assuntos), ser o que os norte americanos chamam de “fiscal conservative, social liberal”. Esses jovens gostam bastante da revista Economist, do programa Manhattan Connection. Se sentem mais chiques. Talvez o modismo não seja tão novo. No século XVIII, filhos de senhores de escravos que iam estudar na Europa adquiriam ideias liberais.

Apesar de todas as críticas, o Spotniks transmite uma lição importante para a esquerda: mexa o traseiro gordo. É preciso saber se comunicar de forma didática com os leigos. Não adianta gastar horas pregando apenas para os já convertidos e perdendo tempo em discussões internas.

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