A Geração X da política brasileira

O Brasil ainda é dominado por políticos velhos. Os principais políticos brasileiros atuais tiveram carreira marcada pela ditadura militar (1964-1985), ou lutando a favor, ou lutando contra. Nem sempre foi assim, tanto no Brasil, quanto no exterior. Fernando Collor de Melo nasceu em 1949 e foi eleito presidente do Brasil em 1989. John Kennedy nasceu em 1917 e foi eleito presidente dos Estados Unidos em 1960. É como se o presidente do Brasil a ser eleito em 2018 tivesse nascido em 1975 ou 1978. Não há qualquer nome nascido nestas datas com possibilidade de vencer a eleição presidencial brasileira no ano que vem. Pela data em que estamos atualmente, seria perfeitamente possível existir políticos que estavam de fraldas ou que nem haviam nascido quando ocorreu o AI-5 (1968), a chegada do homem à Lua e Woodstock (1969). Mas no Brasil eles são muito raros.

Os mais jovens políticos importantes que existem no Brasil são aqueles nascidos ao longo da década de 1960. Este grupo inclui Aécio Neves, Eduardo Campos, Eduardo Paes, Renato Casagrande, Cid Gomes, Fernando Haddad e Marcelo Freixo. O grupo é ideologicamente heterogêneo, mas sem extremos. Aécio e Casagrande estão mais à direita mas nem tanto, Campos, Paes e Cid estão mais ao centro, Haddad e Freixo estão mais à esquerda mas nem tanto. Mas ainda assim, por pertencerem a uma mesma geração, compartilham algumas características. Eram crianças durante o auge da ditadura militar, chegaram à vida adulta já quase no fim da Guerra Fria.

O que os caracteriza é a figura do político gerente. Enxergam fazer política como fazer boa gestão. Não têm grandes projetos de sociedade. Não querem instalar uma ditadura, destruir uma ditadura, criar um grande Estado de Bem Estar Social, destruir um grande Estado de Bem Estar Social, fazer limpeza étnica, combater a limpeza étnica, acabar com discriminações históricas, criar uma sociedade sem classes, lutar pela independência de uma nação. Não querem convencer a sociedade sobre o que é melhor para a sociedade. Partem do princípio de que o que a sociedade quer já está decidido, que é consumir mais e ter bons serviços públicos sem pagar muitos impostos, e aí o que eles consideram como a missão deles no mundo é atender o que a sociedade quer com maior eficiência possível.

Grande parte desta geração de políticos gosta de parcerias com o setor privado e introdução de métodos de gestão do setor privado no setor público. Alguns associam isso com neoliberalismo, mas este neoliberalismo é mais brando. Mesmo quem está mais à direita no grupo mencionado, que é o Aécio Neves, não entra na defesa “heroica” do “liberalismo” igual Marget Thatcher e Ronald Reagan, que diziam respectivamente que “não existe sociedade, apenas indivíduos” ou que “o governo não é a solução para os problemas, e sim o problema”. Aécio Neves gostava de passar a imagem de um político “não ideológico”, tratando seu gerencialismo como uma necessidade técnica. Quando era governador de Minas Gerais, era conveniente ter boa relação com Lula e Fernando Pimentel, e ele teve. Chegou até a comparecer em evento das “empresas mais admiradas” da Carta Capital. Adotou um discurso fortemente de direita recentemente, mas não como cachorro abanando o rabo, e sim como o cachorro sendo abanado pelo rabo. O discurso conservador que Aécio adotou foi uma tentativa de surfar na onda conservadora de opinião pública, onda esta que não foi gerada por ele. Durante muito tempo, as críticas que Aécio fazia aos políticos de esquerda não mencionavam “ideologia ruim”, e sim má gestão e corrupção (bom, mas aí…).

Mesmo Fernando Haddad, que está à esquerda, não é uma esquerda tradicional. Quando foi ministro da educação, chamou empresários e Cláudio Moura de Castro para conversar. Ajudou na consolidação do Ideb como indicador de desempenho escolar, uma típica prática gerencialista. Foi amigo da Neca Setúbal, aquela que tomou paulada da campanha da Dilma de 2014. Como prefeito de São Paulo, não viu problemas em utilizar Organizações Sociais para a saúde. Diferencia-se da maioria dos demais por não ser o estereótipo do tecnocrata frio. Enxerga bastante relevância nos mecanismos de democracia direta e na cultura popular.

Marcelo Freixo é o mais diferente dos demais mencionados. Assim como Fernando Haddad, valoriza a democracia direta e a cultura popular. Diferente de todos os outros mencionados, nunca teve experiência de Poder Executivo. Perdeu nas duas vezes em que concorreu. Diferente até mesmo de Haddad, não é entusiasta das Organizações Sociais. Mas ainda assim, carrega algumas características de sua geração. Não é um revolucionário 1917. Não ataca o capital como um todo (até porque estava concorrendo só a prefeito) e sim o capital que obtém benefícios indevidos do poder público, algo que líderes de qualquer orientação ideológica poderiam fazer. Ganhou evidência na política ao combater as milícias, mal que poderia ser reconhecido por líderes de qualquer orientação ideológica (embora a campanha de seu adversário no ano passado tenha defendido as milícias). Durante a campanha no segundo turno em 2016, Marcelo Freixo falou em nomear secretários com base em competência, e não em indicação política.

Uma característica em comum a Aécio Neves, Eduardo Campos, Eduardo Paes, Renato Casagrande, Cid Gomes, Fernando Haddad e Marcelo Freixo é que eles não são grandes oradores. Eles não dominam a arte de falar gritado para grandes plateias, de agitar os braços e levantar o punho. Se tentarem fazer isso, fica parecendo forçado. Sentem-se mais à vontade em palestras do que em discursos. Não há discursos memoráveis deles. Isso é um dos principais diferenciais entre políticos gerentes e políticos heróis, grupo este que inclui líderes mais velhos, como Lula, Brizola, Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Lenin, Stalin, Hitler, Mussolini, Churchill, Roosevelt, Mao, Fidel, Kennedy, Luther King, Reagan, Thatcher, Mandela e muitos outros. Óbvio que muitos destes não são nem um pouco “heróis” para nós, mas foram “heróis” para muita gente durante determinado período.

Um exemplo internacional da geração de políticos gerentes é o candidato francês Emmanuel Macron, provável vencedor da eleição presidencial de 2017. Ele nasceu em 1977, algo não imaginável para candidatos brasileiros de 2018, conforme mencionado no início do texto. Um indício de que a política brasileira renovou pouco, é que dois integrantes desta geração “jovem” de nascidos nos anos 1960 (Aécio Neves e Eduardo Campos) são netos de políticos famosos (Tancredo Neves e Miguel Arraes). Cid Gomes é um típico político gerente enquanto que seu irmão mais velho, que talvez concorra a presidente em 2018, se parece mais com políticos dos antigos.

Por fim, um esclarecimento sobre os nomes das gerações. Nos Estados Unidos, a Geração X é oficialmente reconhecida como aquela que inclui nascidos entre 1965 e 1980. É precedida pela Geração Baby Boomer, que vai de 1946 a 1964. A Geração Baby Boomer foi a que surgiu com o baby boom do imediato pós-Segunda Guerra Mundial. Porém, alguns consideram que a Geração Baby Boomer pode compreender nascidos entre 1942 e 1960. Isto porque os nascidos durante os anos finais da Segunda Guerra Mundial nada lembram do acontecimento e se parecem muito com os nascidos no imediato pós-guerra. Enquanto isso, mesmo os nascidos na primeira metade da década de 1960 já podem ser considerados integrantes da Geração X.

geração x políticos

A economia tem sim alguns almoços grátis

Muitos já devem ter visto a seguinte situação: sindicatos e movimentos sociais fazem reinvindicações, que podem ser maiores salários, aumento de vagas nas escolas e nas creches, aumento de recursos para assentamentos, construção de moradias populares, redução da tarifa do transporte público. Aí aparecem os “liberais” criticando “esses esquerdopatas não entendem de economia, não existe almoço grátis”. O “não existe almoço grátis” dito pelos “liberais” sempre vem acompanhado da afirmação implícita ou explícita de que “eu sou inteligente, meus opositores são burros”. Uma parte desta crítica é válida. Ao fazer reinvindicações, movimentos poderiam dar mais atenção à questão de onde poderia vir os recursos para atender essas reinvindicações. Caso contrário, estarão jogando água no moinho de quem fala que só os “liberais” que dizem que “não existe almoço grátis” entendem de economia. Mas a verdade é que apesar de muitas vezes realmente não existir almoço grátis, a economia tem sim alguns exemplos de almoço grátis. Este texto tratará deste assunto.

A expressão There ain’t no such think as a free lunch (não existe almoço grátis) apareceu em artigos de economia nos Estados Unidos nas décadas de 1930 e 1940. A ideia por trás da expressão é que bens têm custo para ser produzidos e que se o usuário não está pagando diretamente por eles, está pagando indiretamente, ou outra pessoa está pagando. O exemplo de que não existe “____ grátis” poderia ter sido qualquer outro. Não existe par de sapatos grátis, não existe livro grátis. Mas o almoço foi escolhido como exemplo porque a expressão “free lunch” ficou popularizada nos saloons do Velho Oeste dos Estados Unidos, que ofereciam almoço grátis para clientes que consumissem bebidas. Na verdade, o almoço não era grátis porque o custo da comida já estava incluído no preço da bebida. A expressão There ain’t no such think as a free lunch tornou-se mais difundida ainda com Milton Friedman, na década de 1970. Esta expressão não se aplica apenas para a economia. Nas ciências naturais, para falar da Lei de Lavousier, também é possível dizer que não existe almoço grátis. https://en.wikipedia.org/wiki/There_ain%27t_no_such_thing_as_a_free_lunch

Uma lição básica de Economia é o gráfico de possibilidades de produção, que pode ser visto abaixo. Para simplificar, este gráfico mostra uma economia que produz apenas dois bens, o Bem A e o Bem B. Como os meios de produção são limitados, não é possível produzir uma quantidade ilimitada dos dois bens. É possível produzir apenas combinações de quantidades de cada um dos bens que estão dentro da área cinza. A curva que delimita esta área contém os pontos de eficiência da economia, ou seja, as maiores combinações que podem ser produzidas. Quando a economia está em um ponto de eficiência, por exemplo o X, não é possível produzir mais A sem produzir menos B, não é possível produzir mais B sem produzir menos A. Neste caso, vale a regra do “não existe almoço grátis”. Mas nem sempre a economia está no X. É possível que a economia esteja no ponto Y, por exemplo, onde é possível aumentar tanto A quanto B, ou seja, onde existem alguns almoços grátis. Vamos a alguns exemplos da vida real.

dois bens A e B

Normalmente, quando o governo quer aumentar a despesa em um determinado programa, ele só pode fazer isso ou diminuindo despesas em outras áreas, ou aumentando impostos, ou se endividando. É o ponto do “não existe almoço grátis”. Mas nem sempre a economia está neste ponto. Existem situações onde há muitos trabalhadores desempregados, muitas fábricas ociosas, muitas lojas vendendo menos do que poderiam. Nesta situação, existem possíveis almoços grátis. O governo pode fazer um programa de obras públicas. Este programa emprega os trabalhadores que antes estavam desempregados. Os trabalhadores poderão fazer compras. Por causa disso, as fábricas poderão produzir mais, e, desta forma, contratar novos trabalhadores. Estes trabalhadores também passarão a comprar, e assim por diante. Toda esta renda gerada ajuda a aumentar a arrecadação do governo. Desta forma, é possível fazer o programa de obras públicas sem ter que aumentar impostos nem aumentar o endividamento do governo. O melhor exemplo disso foi a recuperação dos Estados Unidos da Grande Depressão da década de 1930, com o New Deal de Franklin Roosevelt. O pacote de Obama de 2009, para combater a crise de 2008, teve propósito semelhante.

Agora, vamos passar deste exemplo macroeconômico para exemplos microeconômicos. Sabemos que salas de cinema têm custos: manutenção, limpeza, adquirir os filmes. Porém, estes custos são fixos. Quando uma sala de cinema não está lotada, o custo gerado por uma pessoa a mais que entra é zero. Por causa disso, empresas que administram salas de cinema poderiam vender ingressos para pessoas de baixa renda pela metade do preço e, se for estudante de baixa renda, pela metade da metade do preço. Esta venda poderia ocorrer se ainda estiverem sobrando lugares dez minutos antes de começar a sessão. Neste caso, as empresas não estariam fazendo caridade. Estariam aproveitando uma oportunidade de aumentar a receita sem aumentar a despesa. A única dificuldade seria ter algum comprovante de que a pessoa é realmente de baixa renda.

Outro exemplo está nas despesas com saúde. Vamos considerar que existem cinco pessoas que por causa de diferentes idades, genes e hábitos de vida, geram diferentes custos com saúde. Adriano gera um custo de 600, Bruna gera um custo de 700, Cláudio gera um custo de 800, Darcy gera um custo de 900 e Ernesto gera um custo de 1000. Um operador de plano de saúde privado sabe que as pessoas geram custos entre 600 e 1000, mas não sabem quem gera qual custo. Como imagina que as pessoas que geram mais custos são aquelas que teriam interesse em ter plano de saúde, cobra 900 pelo plano. Somados, os cinco geram 4000, uma média de 800 por pessoa. O governo pode oferecer os serviços de saúde para as pessoas cobrando 800 de impostos de cada um para financiar estes serviços.

Os resultados dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) são outro exemplo clássico de possíveis almoços grátis. Uma empresa investe em P&D, desenvolve um novo produto, ou um novo processo para produzir um produto já existente, e obtém maior lucro com a venda desse novo produto ou uso desse novo processo. Este lucro maior é resultado do investimento em P&D. Isto é o almoço pago. Mas a nova tecnologia descoberta pode ser utilizada por outras empresas para desenvolver novos processos e novos produtos. Isto é o almoço grátis. Bom, relacionado ao assunto, alguém poderia perguntar sobre propriedade intelectual. Este é o link para o texto que escrevi sobre o assunto.

É óbvio que todos os economistas que falam que “não existe almoço grátis” conhecem bem todos estes exemplos. Eles apenas ignoram por considera-los pouco importantes. Alguns ainda discordam do uso do gasto público para combater o desemprego, ideia mais associada com o Keynes. Não é problema falar que “não existe almoço grátis”, porque em muitas situações realmente não existe. O problema dos economistas “liberais” que adoram repetir o “não existe almoço grátis” é que eles tentam empurrar a preferência ideológica deles por um Estado que gasta pouco e arrecada pouco como uma ideia tecnicamente inquestionável. É verdade que, com exceção do caso da Depressão, o Estado não deve gastar mais do que arrecada, mas é perfeitamente possível o Estado gastar muito e arrecadar muito, ou gastar pouco e arrecadar pouco. Os economistas “liberais” do “não existe almoço grátis” tentam empurrar a ideia do gastar pouco, arrecadar pouco, como uma solução possível.

Quem talvez não conhece os exemplos de que existem alguns almoços grátis na economia são leigos no assunto que adoram repetir lugares comuns “liberais” nas redes sociais. Por isso é importante discutir estes exemplos.

Para concluir, algumas pequenas provocações. Quem gosta de repetir que “não existe almoço grátis” em geral idolatra o João Dória, e bate palmas para as políticas feitas em parcerias com empresas privadas, que não causariam custo para a prefeitura. Eu pensava que justamente quem repete tanto que “não existe almoço grátis” deveria ser mais cético com essas coisas. Quem gosta de repetir que “não existe almoço grátis” também foi a favor da emenda constitucional que congelou a despesa da União para os próximos 20 anos. É de notório conhecimento que os serviços públicos brasileiros são péssimos. Quem acredita que com essa mesma quantidade de dinheiro, nos próximos 20 anos será possível ter serviços públicos bons, parece acreditar em almoço grátis.

free lunch

Sobre as pessoas cultas de esquerda que acreditam em Astrologia

Decidi escrever um texto sobre o assunto porque para mim pareceu estranho perceber tantas pessoas instruídas, de esquerda, não religiosas, críticas em outros assuntos, levando Astrologia a sério. Não vou tirar liberdade de crença das pessoas, cada um acredita no que quer, mas também cada um fala o que quer sobre o que os outros acreditam. Não pretendo policiar as crenças dos outros. Jamais deixaria de considerar opiniões de uma pessoa em outros assuntos só porque essa pessoa acredita em Astrologia. Mas não vou deixar de discutir crenças.

De acordo com a Astrologia, a posição dos astros no momento em que um ser humano nasce tem poder de fornecer informações sobre sua personalidade, seus relacionamentos e seu futuro. O mais conhecido Astrologia são os signos solares, que são determinados de acordo com a passagem do sol por cada uma das 12 constelações do Zodíaco, de acordo com nossa visão. Para efeitos de arredondamento, cada signo dura um mês. O signo solar de cada pessoa é determinado por sua data de nascimento. Por exemplo, meu signo solar é Câncer, porque eu nasci em um dia 29 de junho. O signo solar determinaria como a pessoa é. Além do signo solar, existe o ascendente, que determinaria como o mundo vê a pessoa. O signo ascendente seria aquele que ascende no horizonte quando a pessoa nasce. É determinado pela data, horário e local de nascimento. Como eu nasci no dia 29 de junho de 1984, às 9h50, em Campinas-SP, meu ascendente é Virgem. O signo lunar é o que determinaria as emoções da pessoa. É calculado através da data, horário e local de nascimento da pessoa. Meu signo lunar, assim como meu signo solar, é Câncer.

Existe tanto Astrologia chinesa, quanto ocidental, mas a que mais conhecemos, que é a ocidental, teve início na Mesopotâmia muitos anos antes de Cristo, e foi aprimorada pelos gregos. Em um tempo em que o conhecimento humano acumulado era muito mais limitado, fazia algum sentido as pessoas acreditarem no poder de previsão dos astros. A posição de alguns astros realmente tem impacto na Terra. A posição do Sol tem efeito nas estações do ano, a posição da Lua tem efeito nas marés. Era natural que algumas pessoas começassem a imaginar outros efeitos da posição dos Astros no céu na vida na Terra.

A Astrologia surgiu em um tempo em que se pensava que a Terra era um disco chato fixo e que todos os astros giravam em torno da Terra. Com o conhecimento científico que a humanidade tem hoje, verifica-se que a Astrologia não faz sentido. Sabemos hoje que constelações são artificiais, são grupos de estrelas que os olhos humanos enxergam no céu quando estão no Planeta Terra e que formam figuras que os humanos conhecem, mas as estrelas de uma mesma constelação estão bem distantes uma da outra. O efeito gravitacional de planetas sobre a criança nascendo é muito menor que o efeito gravitacional exercido pelo obstetra, porque apesar do obstetra ser muito mais leve que um planeta, ele está bem mais próximo da criança. O efeito de sinais de rádio emitidos pelo Sol e pelos planetas é muito menor do que o efeito de alguma emissora de rádio localizada nas proximidades da maternidade.

Vários testes científicos foram feitos para verificar a validade da Astrologia, e nestes testes, a Astrologia foi reprovada. Um teste famoso publicado na revista Nature nos anos 1980 consistiu em astrólogos escolherem entre três questionários de personalidade, qual deles se aplicava a um determinado mapa astral. A taxa de acerto ficou em um terço, ou seja, igual a se os questionários tivessem sido sorteados. Também houve teste verificando se há mais divórcios em casais formados por horóscopos tidos como incompatíveis, e foi observado que o percentual de divórcio é o mesmo para casais “compatíveis” e “incompatíveis”.

Os textos com os links a seguir explicam mais detalhadamente a história da Astrologia, suas incompatibilidades com a ciência e os mencionados testes.

Verdades inconvenientes sobre Astrologia – Superinteressante

12 perguntas céticas sobre Astrologia – Universo Racionalista

Astrologia não é ciência – ateus net

Pensamentos sobre astrologia – ateus net

Mas então por que tanta gente acredita em Astrologia, incluindo pessoas bastante escolarizadas, com bastante senso crítico para outros assuntos? Podemos pensar em algumas hipóteses.

Muitas pessoas gostam de encontrar correlações. A Astrologia é uma forma de correlação. Mas existem outras correlações em que existem pessoas que acreditam. Tem gente que usa sempre a mesma cueca quando o time para o qual torce joga porque quando usou essa cueca, o time ganhou. Porém, é possível que muitas dessas pessoas que usam “cuecas da sorte” saibam que racionalmente não faz o menor sentido, e que mantém o hábito da “cueca da sorte” apenas como mania.

É possível ainda que o viés de confirmação induza muitas pessoas a levar a Astrologia a sério. As pessoas já estão propensas a acreditar em Astrologia, leem a descrição de seus signos, e aí acabam encontrando algumas descrições realmente verdadeiras porque querem encontrar essas descrições. Se a descrição de seu signo solar não for verdadeira, basta procurar a descrição do ascendente. Se a descrição do ascendente ainda não for verdadeira, basta procurar a descrição do signo lunar. Aí fica fácil encontrar alguma descrição de signo que realmente se aplica à personalidade.

Por exemplo, como já afirmei, sou de Câncer com ascendente em Virgem e lua em Câncer. De acordo com este site, a descrição do signo solar de Câncer é: “sua missão é nutrir. Suas principais características são: emotividade, saudosismo, ser maternal, pessimismo, magoar-se facilmente e sensibilidade”. A descrição da ascendente em Virgem é: “praticidade, crítica, sistematização, método, perfeccionismo, timidez, preocupação com limpeza e saúde”. A descrição da lua em Câncer é: “emocionalmente maternal. Necessidade de nutrir e ser nutrida”. Algumas destas descrições se aplicam a minha personalidade, outras não. Mas com tantas descrições, encontrar uma ou outra que se aplica é uma tarefa elementar. Características de outros signos também podem se aplicar a minha personalidade. Este vídeo mostra um teste em que a descrição do signo Capricórnio é distribuída para 20 pessoas, que recebem a informação errada de que a descrição é de seu próprio signo. Algumas dessas pessoas, que não são de Capricórnio, pensam que a descrição que elas leram se aplicam a elas mesmas.

Uma curiosidade: este é o signo solar dos principais pensadores de Economia. Tentem achar alguma regra, alguma semelhança entre pensadores que têm mesmo signo. Marx, Hayek e Samuelson são de Touro…

 

Adam Smith: Gêmeos

David Ricardo: Áries

Karl Marx: Touro

John Stuart Mill: Touro

Leon Walras: Sagitário

Alfred Marshall: Leão

Piero Sraffa: Leão

Joseph Schumpeter: Aquário

John Maynard Keynes: Gêmeos

Joan Robinson: Escorpião

Michal Kalecki: Câncer

Ludwig Von Mises: Libra

Friedrich Hayek: Touro

Raul Prebisch: Áries

Celso Furtado: Leão

Paul Samuelson: Touro

James Tobin: Peixes

Franco Modigliani: Gêmeos

Robert Sollow: Virgem

Milton Friedman: Leão

Edmund Phelps: Leão

Robert Lucas: Virgem

Thomas Sargent: Câncer

Edward Prescott: Capricórnio

Joseph Stiglitz: Aquário

Paul Krugman: Peixes

Greg Mankiw: Aquário

Olivier Blanchard: Capricórnio

David Romer: Peixes

Hal Varian: Peixes

Thomas Piketty: Touro

 

Chega a ser irônico que mesmo que um dos grandes ícones da Astrologia no Brasil tenha sido Olavo de Carvalho, que pessoas céticas não acreditem em Astrologia, muitas pessoas de esquerda que se mostram céticas em outros assuntos realmente levam Astrologia a sério. Pessoas que estão no mesmo lado do espectro político de quem critica muito a bancada evangélica. O personagem do ótimo filme brasileiro “Lua em Sagitário” é comum na vida real.

Não vejo muita diferença entre acreditar na posição dos astros determinando a personalidade e o futuro da pessoa e acreditar na Arca de Noé. Em ambos, fazia até um pouco de sentido acreditar quando o conhecimento acumulado pela humanidade era bem mais limitado, mas atualmente não. Sim, eu sei porque tanta gente que não acredita nem em Astrologia nem na Arca de Noé considerarem pior acreditar na Arca de Noé: muitas pessoas que realmente acreditam na Arca de Noé são machistas e homofóbicas. Embora a crença na Arca de Noé não leve diretamente ao machismo e à homofobia, ser um seguidor muito fundamentalista da religião que trata da Arca de Noé leva ao machismo e à homofobia. A crença no poder dos astros normalmente é inofensiva. Embora possa ser definido como preconceito julgar uma pessoa de acordo com a posição dos astros no céu no dia em que ela nasceu. Já pensaram uma pessoa que leva muito a sério a Astrologia ter o poder de definir equipes que vão fazer um trabalho, e usar os astros como critério para escolher as pessoas?

A Astrologia não é a única das crenças que muitos millennials têm. Os millennials, que são os nascidos nas décadas de 1980 e 1990, são bem menos religiosos do que as gerações anteriores, mas não são muito mais ateus do que as gerações anteriores. É muito comum um millennial ser spiritual but not religious, ou seja, não seguir uma religião tradicional, mas crer em alguma coisa sobrenatural.

Por fim, é necessário fazer uma alerta. Devemos ser críticos em relação a Astrologia, Criacionismo e outras crenças mais, mas não é por isso que devemos ter fé na ciência. Quem não é da área de ciências naturais, ao participar de debates sobre o assunto, deve ler textos de divulgação para o público leigo para se informar e formar opinião, e não simplesmente dizer “ele está certo porque ele tem diploma em ciência”.

olavo de carvalho veja astrologia