A economia tem sim alguns almoços grátis

Muitos já devem ter visto a seguinte situação: sindicatos e movimentos sociais fazem reinvindicações, que podem ser maiores salários, aumento de vagas nas escolas e nas creches, aumento de recursos para assentamentos, construção de moradias populares, redução da tarifa do transporte público. Aí aparecem os “liberais” criticando “esses esquerdopatas não entendem de economia, não existe almoço grátis”. O “não existe almoço grátis” dito pelos “liberais” sempre vem acompanhado da afirmação implícita ou explícita de que “eu sou inteligente, meus opositores são burros”. Uma parte desta crítica é válida. Ao fazer reinvindicações, movimentos poderiam dar mais atenção à questão de onde poderia vir os recursos para atender essas reinvindicações. Caso contrário, estarão jogando água no moinho de quem fala que só os “liberais” que dizem que “não existe almoço grátis” entendem de economia. Mas a verdade é que apesar de muitas vezes realmente não existir almoço grátis, a economia tem sim alguns exemplos de almoço grátis. Este texto tratará deste assunto.

A expressão There ain’t no such think as a free lunch (não existe almoço grátis) apareceu em artigos de economia nos Estados Unidos nas décadas de 1930 e 1940. A ideia por trás da expressão é que bens têm custo para ser produzidos e que se o usuário não está pagando diretamente por eles, está pagando indiretamente, ou outra pessoa está pagando. O exemplo de que não existe “____ grátis” poderia ter sido qualquer outro. Não existe par de sapatos grátis, não existe livro grátis. Mas o almoço foi escolhido como exemplo porque a expressão “free lunch” ficou popularizada nos saloons do Velho Oeste dos Estados Unidos, que ofereciam almoço grátis para clientes que consumissem bebidas. Na verdade, o almoço não era grátis porque o custo da comida já estava incluído no preço da bebida. A expressão There ain’t no such think as a free lunch tornou-se mais difundida ainda com Milton Friedman, na década de 1970. Esta expressão não se aplica apenas para a economia. Nas ciências naturais, para falar da Lei de Lavousier, também é possível dizer que não existe almoço grátis. https://en.wikipedia.org/wiki/There_ain%27t_no_such_thing_as_a_free_lunch

Uma lição básica de Economia é o gráfico de possibilidades de produção, que pode ser visto abaixo. Para simplificar, este gráfico mostra uma economia que produz apenas dois bens, o Bem A e o Bem B. Como os meios de produção são limitados, não é possível produzir uma quantidade ilimitada dos dois bens. É possível produzir apenas combinações de quantidades de cada um dos bens que estão dentro da área cinza. A curva que delimita esta área contém os pontos de eficiência da economia, ou seja, as maiores combinações que podem ser produzidas. Quando a economia está em um ponto de eficiência, por exemplo o X, não é possível produzir mais A sem produzir menos B, não é possível produzir mais B sem produzir menos A. Neste caso, vale a regra do “não existe almoço grátis”. Mas nem sempre a economia está no X. É possível que a economia esteja no ponto Y, por exemplo, onde é possível aumentar tanto A quanto B, ou seja, onde existem alguns almoços grátis. Vamos a alguns exemplos da vida real.

dois bens A e B

Normalmente, quando o governo quer aumentar a despesa em um determinado programa, ele só pode fazer isso ou diminuindo despesas em outras áreas, ou aumentando impostos, ou se endividando. É o ponto do “não existe almoço grátis”. Mas nem sempre a economia está neste ponto. Existem situações onde há muitos trabalhadores desempregados, muitas fábricas ociosas, muitas lojas vendendo menos do que poderiam. Nesta situação, existem possíveis almoços grátis. O governo pode fazer um programa de obras públicas. Este programa emprega os trabalhadores que antes estavam desempregados. Os trabalhadores poderão fazer compras. Por causa disso, as fábricas poderão produzir mais, e, desta forma, contratar novos trabalhadores. Estes trabalhadores também passarão a comprar, e assim por diante. Toda esta renda gerada ajuda a aumentar a arrecadação do governo. Desta forma, é possível fazer o programa de obras públicas sem ter que aumentar impostos nem aumentar o endividamento do governo. O melhor exemplo disso foi a recuperação dos Estados Unidos da Grande Depressão da década de 1930, com o New Deal de Franklin Roosevelt. O pacote de Obama de 2009, para combater a crise de 2008, teve propósito semelhante.

Agora, vamos passar deste exemplo macroeconômico para exemplos microeconômicos. Sabemos que salas de cinema têm custos: manutenção, limpeza, adquirir os filmes. Porém, estes custos são fixos. Quando uma sala de cinema não está lotada, o custo gerado por uma pessoa a mais que entra é zero. Por causa disso, empresas que administram salas de cinema poderiam vender ingressos para pessoas de baixa renda pela metade do preço e, se for estudante de baixa renda, pela metade da metade do preço. Esta venda poderia ocorrer se ainda estiverem sobrando lugares dez minutos antes de começar a sessão. Neste caso, as empresas não estariam fazendo caridade. Estariam aproveitando uma oportunidade de aumentar a receita sem aumentar a despesa. A única dificuldade seria ter algum comprovante de que a pessoa é realmente de baixa renda.

Outro exemplo está nas despesas com saúde. Vamos considerar que existem cinco pessoas que por causa de diferentes idades, genes e hábitos de vida, geram diferentes custos com saúde. Adriano gera um custo de 600, Bruna gera um custo de 700, Cláudio gera um custo de 800, Darcy gera um custo de 900 e Ernesto gera um custo de 1000. Um operador de plano de saúde privado sabe que as pessoas geram custos entre 600 e 1000, mas não sabem quem gera qual custo. Como imagina que as pessoas que geram mais custos são aquelas que teriam interesse em ter plano de saúde, cobra 900 pelo plano. Somados, os cinco geram 4000, uma média de 800 por pessoa. O governo pode oferecer os serviços de saúde para as pessoas cobrando 800 de impostos de cada um para financiar estes serviços.

Os resultados dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) são outro exemplo clássico de possíveis almoços grátis. Uma empresa investe em P&D, desenvolve um novo produto, ou um novo processo para produzir um produto já existente, e obtém maior lucro com a venda desse novo produto ou uso desse novo processo. Este lucro maior é resultado do investimento em P&D. Isto é o almoço pago. Mas a nova tecnologia descoberta pode ser utilizada por outras empresas para desenvolver novos processos e novos produtos. Isto é o almoço grátis. Bom, relacionado ao assunto, alguém poderia perguntar sobre propriedade intelectual. Este é o link para o texto que escrevi sobre o assunto.

É óbvio que todos os economistas que falam que “não existe almoço grátis” conhecem bem todos estes exemplos. Eles apenas ignoram por considera-los pouco importantes. Alguns ainda discordam do uso do gasto público para combater o desemprego, ideia mais associada com o Keynes. Não é problema falar que “não existe almoço grátis”, porque em muitas situações realmente não existe. O problema dos economistas “liberais” que adoram repetir o “não existe almoço grátis” é que eles tentam empurrar a preferência ideológica deles por um Estado que gasta pouco e arrecada pouco como uma ideia tecnicamente inquestionável. É verdade que, com exceção do caso da Depressão, o Estado não deve gastar mais do que arrecada, mas é perfeitamente possível o Estado gastar muito e arrecadar muito, ou gastar pouco e arrecadar pouco. Os economistas “liberais” do “não existe almoço grátis” tentam empurrar a ideia do gastar pouco, arrecadar pouco, como uma solução possível.

Quem talvez não conhece os exemplos de que existem alguns almoços grátis na economia são leigos no assunto que adoram repetir lugares comuns “liberais” nas redes sociais. Por isso é importante discutir estes exemplos.

Para concluir, algumas pequenas provocações. Quem gosta de repetir que “não existe almoço grátis” em geral idolatra o João Dória, e bate palmas para as políticas feitas em parcerias com empresas privadas, que não causariam custo para a prefeitura. Eu pensava que justamente quem repete tanto que “não existe almoço grátis” deveria ser mais cético com essas coisas. Quem gosta de repetir que “não existe almoço grátis” também foi a favor da emenda constitucional que congelou a despesa da União para os próximos 20 anos. É de notório conhecimento que os serviços públicos brasileiros são péssimos. Quem acredita que com essa mesma quantidade de dinheiro, nos próximos 20 anos será possível ter serviços públicos bons, parece acreditar em almoço grátis.

free lunch

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