A Geração X da política brasileira

O Brasil ainda é dominado por políticos velhos. Os principais políticos brasileiros atuais tiveram carreira marcada pela ditadura militar (1964-1985), ou lutando a favor, ou lutando contra. Nem sempre foi assim, tanto no Brasil, quanto no exterior. Fernando Collor de Melo nasceu em 1949 e foi eleito presidente do Brasil em 1989. John Kennedy nasceu em 1917 e foi eleito presidente dos Estados Unidos em 1960. É como se o presidente do Brasil a ser eleito em 2018 tivesse nascido em 1975 ou 1978. Não há qualquer nome nascido nestas datas com possibilidade de vencer a eleição presidencial brasileira no ano que vem. Pela data em que estamos atualmente, seria perfeitamente possível existir políticos que estavam de fraldas ou que nem haviam nascido quando ocorreu o AI-5 (1968), a chegada do homem à Lua e Woodstock (1969). Mas no Brasil eles são muito raros.

Os mais jovens políticos importantes que existem no Brasil são aqueles nascidos ao longo da década de 1960. Este grupo inclui Aécio Neves, Eduardo Campos, Eduardo Paes, Renato Casagrande, Cid Gomes, Fernando Haddad e Marcelo Freixo. O grupo é ideologicamente heterogêneo, mas sem extremos. Aécio e Casagrande estão mais à direita mas nem tanto, Campos, Paes e Cid estão mais ao centro, Haddad e Freixo estão mais à esquerda mas nem tanto. Mas ainda assim, por pertencerem a uma mesma geração, compartilham algumas características. Eram crianças durante o auge da ditadura militar, chegaram à vida adulta já quase no fim da Guerra Fria.

O que os caracteriza é a figura do político gerente. Enxergam fazer política como fazer boa gestão. Não têm grandes projetos de sociedade. Não querem instalar uma ditadura, destruir uma ditadura, criar um grande Estado de Bem Estar Social, destruir um grande Estado de Bem Estar Social, fazer limpeza étnica, combater a limpeza étnica, acabar com discriminações históricas, criar uma sociedade sem classes, lutar pela independência de uma nação. Não querem convencer a sociedade sobre o que é melhor para a sociedade. Partem do princípio de que o que a sociedade quer já está decidido, que é consumir mais e ter bons serviços públicos sem pagar muitos impostos, e aí o que eles consideram como a missão deles no mundo é atender o que a sociedade quer com maior eficiência possível.

Grande parte desta geração de políticos gosta de parcerias com o setor privado e introdução de métodos de gestão do setor privado no setor público. Alguns associam isso com neoliberalismo, mas este neoliberalismo é mais brando. Mesmo quem está mais à direita no grupo mencionado, que é o Aécio Neves, não entra na defesa “heroica” do “liberalismo” igual Marget Thatcher e Ronald Reagan, que diziam respectivamente que “não existe sociedade, apenas indivíduos” ou que “o governo não é a solução para os problemas, e sim o problema”. Aécio Neves gostava de passar a imagem de um político “não ideológico”, tratando seu gerencialismo como uma necessidade técnica. Quando era governador de Minas Gerais, era conveniente ter boa relação com Lula e Fernando Pimentel, e ele teve. Chegou até a comparecer em evento das “empresas mais admiradas” da Carta Capital. Adotou um discurso fortemente de direita recentemente, mas não como cachorro abanando o rabo, e sim como o cachorro sendo abanado pelo rabo. O discurso conservador que Aécio adotou foi uma tentativa de surfar na onda conservadora de opinião pública, onda esta que não foi gerada por ele. Durante muito tempo, as críticas que Aécio fazia aos políticos de esquerda não mencionavam “ideologia ruim”, e sim má gestão e corrupção (bom, mas aí…).

Mesmo Fernando Haddad, que está à esquerda, não é uma esquerda tradicional. Quando foi ministro da educação, chamou empresários e Cláudio Moura de Castro para conversar. Ajudou na consolidação do Ideb como indicador de desempenho escolar, uma típica prática gerencialista. Foi amigo da Neca Setúbal, aquela que tomou paulada da campanha da Dilma de 2014. Como prefeito de São Paulo, não viu problemas em utilizar Organizações Sociais para a saúde. Diferencia-se da maioria dos demais por não ser o estereótipo do tecnocrata frio. Enxerga bastante relevância nos mecanismos de democracia direta e na cultura popular.

Marcelo Freixo é o mais diferente dos demais mencionados. Assim como Fernando Haddad, valoriza a democracia direta e a cultura popular. Diferente de todos os outros mencionados, nunca teve experiência de Poder Executivo. Perdeu nas duas vezes em que concorreu. Diferente até mesmo de Haddad, não é entusiasta das Organizações Sociais. Mas ainda assim, carrega algumas características de sua geração. Não é um revolucionário 1917. Não ataca o capital como um todo (até porque estava concorrendo só a prefeito) e sim o capital que obtém benefícios indevidos do poder público, algo que líderes de qualquer orientação ideológica poderiam fazer. Ganhou evidência na política ao combater as milícias, mal que poderia ser reconhecido por líderes de qualquer orientação ideológica (embora a campanha de seu adversário no ano passado tenha defendido as milícias). Durante a campanha no segundo turno em 2016, Marcelo Freixo falou em nomear secretários com base em competência, e não em indicação política.

Uma característica em comum a Aécio Neves, Eduardo Campos, Eduardo Paes, Renato Casagrande, Cid Gomes, Fernando Haddad e Marcelo Freixo é que eles não são grandes oradores. Eles não dominam a arte de falar gritado para grandes plateias, de agitar os braços e levantar o punho. Se tentarem fazer isso, fica parecendo forçado. Sentem-se mais à vontade em palestras do que em discursos. Não há discursos memoráveis deles. Isso é um dos principais diferenciais entre políticos gerentes e políticos heróis, grupo este que inclui líderes mais velhos, como Lula, Brizola, Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Lenin, Stalin, Hitler, Mussolini, Churchill, Roosevelt, Mao, Fidel, Kennedy, Luther King, Reagan, Thatcher, Mandela e muitos outros. Óbvio que muitos destes não são nem um pouco “heróis” para nós, mas foram “heróis” para muita gente durante determinado período.

Um exemplo internacional da geração de políticos gerentes é o candidato francês Emmanuel Macron, provável vencedor da eleição presidencial de 2017. Ele nasceu em 1977, algo não imaginável para candidatos brasileiros de 2018, conforme mencionado no início do texto. Um indício de que a política brasileira renovou pouco, é que dois integrantes desta geração “jovem” de nascidos nos anos 1960 (Aécio Neves e Eduardo Campos) são netos de políticos famosos (Tancredo Neves e Miguel Arraes). Cid Gomes é um típico político gerente enquanto que seu irmão mais velho, que talvez concorra a presidente em 2018, se parece mais com políticos dos antigos.

Por fim, um esclarecimento sobre os nomes das gerações. Nos Estados Unidos, a Geração X é oficialmente reconhecida como aquela que inclui nascidos entre 1965 e 1980. É precedida pela Geração Baby Boomer, que vai de 1946 a 1964. A Geração Baby Boomer foi a que surgiu com o baby boom do imediato pós-Segunda Guerra Mundial. Porém, alguns consideram que a Geração Baby Boomer pode compreender nascidos entre 1942 e 1960. Isto porque os nascidos durante os anos finais da Segunda Guerra Mundial nada lembram do acontecimento e se parecem muito com os nascidos no imediato pós-guerra. Enquanto isso, mesmo os nascidos na primeira metade da década de 1960 já podem ser considerados integrantes da Geração X.

geração x políticos

Comentários