O libertarianismo é menos ruim do que o conservadorismo tradicional?

Os libertarians são um mal menor se comparados com os conservadores tradicionais? A resposta desta pergunta é não. Os libertarians não são nem mesmo tão ruins quanto os conservadores tradicionais. São piores. E por que algumas pessoas de esquerda no Brasil pensam que os libertarians são um mal menor em comparação com os conservadores tradicionais? Porque há uma confusão sobre o uso da palavra libertarian.

Este texto utiliza a palavra libertarian, em Inglês, para mostrar sua origem norte americana. No resto do mundo, a palavra liberal é utilizada para denominar quem defende o Estado mínimo, e a palavra libertário já foi utilizada para denominar anarquistas. Nos Estados Unidos, a palavra liberal é aplicada para a esquerda, restando a palavra libertário para denominar quem defende o Estado mínimo. As maiores referências dos libertarians são Milton Friedman, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Murray Rothbard, Ayn Rand (embora ela rejeitasse o rótulo), Lew Rockwell, o Cato Institute e o Mises Institute.

Alguns brasileiros sabem que libertarian é o que nós chamamos de liberal, mas não têm noção do radicalismo dos libertarians. Os brasileiros de esquerda que pensam erroneamente que libertarians são menos ruins do que conservadores tradicionais pensam que os libertarians são os “liberais no mau e no bom sentido”. Eles pensam que os libertarians são aqueles que “concordam com a direita nas questões econômicas e com a esquerda nas questões sociais”, que defendem o liberalismo na economia e visões progressistas sobre sexo, orientação sexual, direitos humanos e drogas. Pensam que ser libertarian é defender o que o Bill Clinton, o Tony Blair, o Fernando Henrique Cardoso, o Emmanuel Macron, o Banco Mundial, a Economist e a Miriam Leitão defendem. Estes sim são menos ruins do que conservadores tradicionais.

Mas o libertarianismo não trata disso. Em primeiro lugar, o “liberalismo” em economia dos libertarians é muito mais radical do que o “liberalismo” em economia presente nos defensores do neoliberalismo e da Terceira Via. Os neoliberais e os defensores da Terceira Via defendem privatizações, livre comércio, livre fluxo de capitais, rejeitam políticas crédito seletivo do BNDES, mas aceitam o Estado na educação, na saúde e nos programas sociais focalizados, e não questionam que a moeda deve ser emitida pelo Banco Central, apenas defendem um Banco Central independente do governo. Os libertarians rejeitam o Estado até em papéis mais básicos. Milton Friedman, ídolo dos libertarians, chegou a sugerir a substituição das escolas públicas por vouchers para as famílias de baixa renda pagarem escolas particulares. Libertarians, em geral, rejeitam o modesto Obamacare para a saúde, por considera-lo contrário à liberdade de escolha, e rejeitam também as leis anti fumo. Libertarians são contrários a leis trabalhistas, rejeitam o salário mínimo e são contra as restrições ao trabalho infantil. Inspirados na Escola Austríaca (leia mais sobre a Escola Austríaca clicando aqui), muitos libertários defendem que a moeda não deve ser emitida por um Banco Central, e sim por bancos privados. Libertarians defendem ainda um livre mercado de órgãos humanos e um livre mercado de crianças para adoção. A versão mais radicalizada dos libertarians, que são os anarco-capitalistas (conhecidos como ancaps), defende até mesmo a existência de uma justiça privada.

Em segundo lugar, os libertarians não são progressistas nas questões sociais. Eles simplesmente consideram que o Estado não deve interferir nestas questões. Eles não consideram que o Estado deve realizar casamentos homossexuais. Eles consideram simplesmente que o Estado não deve realizar casamentos, nem homo, nem heterossexuais. Os libertarians consideram que o Estado não deve reprimir a homossexualidade, mas também consideram que o Estado não deve ter programas para promover a tolerância. Neste e em outros casos, os libertarians se alinham a ultraconservadores em questões sociais. Por exemplo, libertarians consideram que restaurantes, por serem de propriedade privada, podem ter lugares reservados para brancos e para negros, se esta for a preferência do dono. Para os libertarians, quem não gosta deste tipo de divisão deve simplesmente procurar um restaurante onde esta divisão não existe. O Political Compass ajudou a criar esta confusão, misturando progressismo em questões sociais com não intervencionismo, colocando tudo nos quadrantes de baixo do gráfico.

Nos Estados Unidos, a proporção de homens brancos não hispânicos entre os conservadores tradicionais é maior do que na população como um todo. Entre os libertarians, a proporção de homens brancos não hispânicos é ainda maior do que entre os conservadores tradicionais (há um texto sobre isso que você pode ler clicando aqui). Provável motivo: é natural que quem pertence a algum grupo oprimido seja mais favorável a uma maior ação do Estado para combater a opressão. É mais fácil ser contra qualquer tipo de ação do Estado quando não pertencemos a grupos oprimidos. Para piorar, é possível encontrar racistas entre os libertarians. O libertarianismo não é uma ideologia racista, mas é atraente para os racistas, por defender o direito de discriminar. Ron Paul, um dos mais importantes líderes libertarians dos Estados Unidos, permitiu a publicação de várias newsletters em seu nome, com conteúdo racista e homofóbico.

Vimos então que os libertarianismo não tem “a parte boa e a parte ruim”. O libertarianismo é somente a “parte ruim”. Não é possível dizer que “os libertarians são de direita em economia, mas são legalzinhos quando tratam de liberdades individuais”. Vimos que muitas dessas “liberdades individuais” defendidas pelos libertarians consistem em defender o direito de ser racista e homofóbico. Sim, os libertarians defendem a legalização da maconha, e foi um progresso a maior parte da esquerda ter passado a defender a legalização da maconha. Mas não é só por causa de um item em comum que vamos passar a considerar que os libertarians são o mal menor. Os conservadores tradicionais são menos ruins do que os libertarians, pois ao menos têm alguma ideia de solidariedade com os menos favorecidos, derivada muitas vezes das grandes religiões tradicionais. Os democratas cristãos europeus, que podem ser considerados conservadores tradicionais, aceitam uma rede de proteção social. Dentro da direita, os libertarians só não são piores do que os fascistas.

Muitas vezes associamos ideias anti-ciência com religiões e dessa forma associamos com conservadores tradicionais. Mas muitos libertarians gostam do negacionismo do aquecimento global e também se opõem ao financiamento público de atividades de pesquisa. E gostam da Escola Austríaca de Economia, aquela que não liga para o teste de falseabilidade.

ronpaul confederate

Max Weber e a Jaula de Aço do Capitalismo Moderno

Um das facetas mais interessantes a cerca do sociólogo de Munique é o seu pessimismo cultural referente às mudanças pelas quais a Alemanha e o mundo estavam vivendo no final do século XIX e início do século XX, conforme é explorado na obra de Michel Lowy, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano (2014).

Por pessimismo cultural (Kulturpessimismus) entende-se como uma desconfiança perante as mudanças causadas pelo capitalismo e pela técnica numa sociedade em acelerada transformação em direção à modernidade. Ele era uma marca da elite acadêmica alemã do período, que sentia-se ameaçada diante da modernização e apontavam para a dissolução da comunidade e dos valores genuínos no labirinto do anonimato, da impessoalidade e da tecnologia, conforme relata Fritz Ringer em O Declínio dos Mandarins Alemães: a comunidade acadêmica alemã (1969).

O pessimismo cultural pode assumir muitas formas, sendo um dos seus mais conhecidos representantes Friedrich Nietzsche, a quem Weber admirava, e estava presente em muitos espectros políticos. Na direita ele assumiu uma preocupação com a decadência das elites e da nação; à esquerda ele tomou forma como uma desconfiança com relação ao mundo burguês, à liberdade, e à racionalidade instrumental e o que elas poderiam trazer para a vida dos trabalhadores e do homem comum.

Sua origem remonta ao surgimento do romantismo, no início do século XIX. Não pode ser tomado como simplesmente uma corrente literária, mas umas das principais formas de sensibilidade moderna diante das consequências do iluminismo e do capitalismo — que começava a se tornar um sistema mundial. Era um protesto contra a nascente sociedade moderna em nome de valores do passado, como a honra a lealdade e a moralidade. Havia a oposição entre Kultur, considerada como uma série de valores éticos, culturais e religiosos e a civilização, tido como o universo da técnica, da impessoalidade, do cálculo e da burocracia. Portanto, nessa visão de mundo temos a oposição irreconciliável entre a comunidade orgânica do passado longínquo e a sociedade moderna fundada no mercado e no contrato social (Lowy, p. 43).

Para compreender o pessimismo cultural de Weber precisamos remontar a sua tese sobre a formação do capitalismo desenvolvida no fundamental A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904), onde apresenta o nascimento do capitalismo como resultado da ação social de determinados grupos sociais, as seitas protestantes do final de idade media e início da era moderna, cuja singularidade cultural se caracterizava por uma visão do trabalho como um meio de adoração a deus. Ascético, disciplinado, desprezando os prazeres mundanos, voltado para a acumulação dividendos e enxergando a riqueza como uma prova da salvação divina, as ceitas protestantes acabaram por dar forma, mesmo que sem a intenção, à ação social do moderno empreendedor capitalista do nosso mundo — calculista, disciplinado e devotado ao trabalho e a acumulação de fortuna.

O protestante quis ligar-se a deus através de uma ética do trabalho e conseguiu, mas o custo disso foi a criação de uma sociedade que, em vez de prometer a libertação do homem, criou novas formas de servidão. A ascese puritana, conforme ele afirma, que criar o bem mas sempre cria o mal. Em outras palavras, ao se tornar a forma de sociabilidade dominante, perdemos o senso de universalidade e em seu lugar fomos forçados a adotar a especialização extrema, perdendo a liberdade e a capacidade de escolha. O poderoso arcabouço da maquinaria e da técnica moderna, que é a ciência posta a serviço do capital, determina com um poder de coerção nunca antes visto o destino de milhares de homens e mulheres que se transformam em coisas, em bucha para alimentar o canhão do mundo industrial; e talvez só acabará quando a última tonelada de carvão fóssil seja consumida — eis o que é a Jaula de Aço, onipresente, onipotente e inevitável…

O debate diante a destruição do genuíno, do belo, do eterno e sua substituição pelo artificial, pelo número e pelo impessoal era uma das principais pautas de discussão tanto entre a elite acadêmica alemã quanto na sociedade civil. Weber, enquanto atento observador do seu mundo, acompanhou de perto as polêmicas em torno do assunto e foi influenciado por ele. Contudo, nosso autor não se filiou completamente ao pessimismo em sua variante conservadora ou à sua vertente critica, ou socialista. A posição dele era mais ambivalente, de onde nasceu sua original e complexa analise do capitalismo. Ele era liberal, acreditava que o capitalismo era o mais eficaz sistema social já criado e era um nacionalista alemão, defendia um estado forte capaz de liderar o processo de construção nacional. Apesar de ver com desconfiança o processo de modernização da sociedade, ele não via como a volta ao passado de valores pré-modernos ou a utopia e a construção de uma sociedade futura poderiam ser saídas viáveis para o mundo contemporâneo. Sua posição era de um individualismo heroico, influenciado por Friedrich Nietzsche, apegado aos verdadeiros valores de universalidade, especialmente aqueles nascidos durante a Renascença, observa com o um olhar arguto e critico o mundo mudar e ser imerso cada vez mais na Jaula de Aço do capitalismo moderno.

As teses de Weber sobre o capitalismo ainda são extremamente atuais. Enquanto os economistas liberais, bem como todos os outros ideólogos do ortodoxismo vulgar, advogam a retirada das proteções trabalhistas e sociais que os trabalhadores secularmente conquistaram, tudo em nome de uma dinamização da economia, percebemos com o capital se descolou da sociedade. A economia, ao invés de servir à sociedade e àqueles que realmente produzem, os trabalhadores, acabou se tornando uma rainha controlada por rentistas, por altos burocratas, por megaempresários e pelo capital global.

A tudo isso que as elites nacionais e globais chamam eufemisticamente de ajustes e politica de austeridade, nada mais é do que estrangular a sociedade, o homem comum, o trabalhador… Nós é que somos os ajustáveis, os que devem sofrer com a austeridade, a bucha de canhão a serem queimadas e descartadas pelo arsenal do Capital e sua Jaula de Aço.

Weber nunca esteve tão atual. Precisamos meditar que tipo de sociedade queremos, aquela que dá a possibilidade de um desenvolvimento pleno e democrático das virtudes humanas ou esta onde todos estamos aprisionados na Jaula de Aço.

Mesmo para ideias certas, existem argumentos tortos

Muitas vezes outras pessoas têm opiniões diferentes das nossas. Algumas opiniões realmente são absurdas. Outras, são simplesmente diferentes das nossas. Às vezes, pessoas muito queridas nossas têm opiniões bem diferentes sobre alguns assuntos. Às vezes, pessoas com quem concordamos na grande maioria dos assuntos têm opinião diferente das nossas em um ou outro assunto.

Um bom exercício para combater o fanatismo e praticar a tolerância é examinar quais são os argumentos ruins utilizados para defender o que nós defendemos. Existem argumentos ruins para defender ideias opostas às nossas, que nós os reconhecemos facilmente, óbvio, mas também existem argumentos ruins frequentemente utilizados para defender o que nós defendemos. Aí temos que reconhecer estes argumentos para não utilizá-los.

Vamos a alguns exemplos daquilo que eu considero argumentos equivocados para defender o que eu defendo.

Sou a favor das cotas nas universidades públicas, tanto para estudantes de colégios públicos, quanto para negros e índios. Servem como um paliativo momentâneo para desigualdades do presente. Mas rejeito o argumento da “dívida histórica com as populações negra e indígena”. O direito não reconhece nem mesmo que dívidas de dinheiro passem de pai morto para filho vivo. Haveria uma arbitrariedade muito grande falar que um povo tem dívida com o outro por causa de fatos passados. Há argumentos respeitáveis contra as cotas, como este. Mas também há argumentos ruins. Um deles ocorre quando o branco não pobre critica as cotas alegando defender o branco pobre. Em primeiro lugar, existem cotas para alunos de colégios públicos, que incluem os brancos. Em segundo lugar, tem muito branco não pobre que só se lembra de que os brancos pobres existem na hora de falar mal das cotas.

A argumentação do “branco pobre” consiste em uma pessoa que não pertence a um grupo desfavorecido alegar a defesa de um grupo desfavorecido apenas para parecer mais simpático ao defender seu próprio grupo não desfavorecido, e nunca mostrar solidariedade ao mencionado grupo desfavorecido em outros momentos. Argumentos do tipo “branco pobre” existem até para defender aquilo que eu defendo, e que eu não gostaria que fossem utilizados.

Eu sou contra a criminalização da profissão do sexo. Escrevi aqui os motivos. Mas penso que o argumento do “direito das mulheres pagarem por serviços de trabalhadores sexuais masculinos (putos?)” é muito parecido com o do “branco pobre”, quando emitido por homens que nunca viram uma mulher que pagou por serviços de trabalhadores sexuais masculinos nem um trabalhador sexual masculino. Eu mencionei este argumento no texto linkado e me arrependo disso depois que refleti melhor sobre o assunto.

Eu não concordo com algumas coisas que as feministas radicais (vulgo radfem) defendem, um exemplo disso pode ser visto no parágrafo anterior. Mas acho que quando homem cisgênero heterossexual que diz que “odeia as radfem porque elas são transfóbicas”, os transgêneros nessa argumentação são o “branco pobre” quando quem diz isso habitualmente não liga para transgêneros em outras situações.

Eu sou a favor da legalização da maconha e não vejo qualquer problema em defender abertamente a legalização até mesmo para uso recreativo. Mas quando alguém que não é médico, que habitualmente não tem interesse por assuntos relacionados à medicina, vive postando no Facebook notícias sobre os benefícios do uso medicinal de maconha só porque quer também a legalização para uso recreativo, os doentes que precisam da Cannabis sativa para fins terapêuticos são uma forma de “branco pobre”.

cebolinha maconha

Eu sou a favor da legalização do aborto porque considero que levar uma gravidez adiante deve ser uma escolha, e não uma obrigação, e que interromper o desenvolvimento de um aglomerado de células não é “matar uma pessoa”. Mas vincular a queda da criminalidade nos EUA ao Roe vs Wade, embora cientificamente realmente faça sentido, ajuda dar munição àqueles que relacionam aborto com higienismo social.

Conforme disse, sou a favor da legalização da profissão do sexo, da maconha e do aborto. Muitos defensores destas três legalizações dizem “é impossível proibir, vai existir de qualquer jeito, regulamentando tem menos danos do que tentando proibir”. Quem utiliza o “é impossível proibir, vai existir de qualquer jeito, regulamentando tem menos danos do que tentando proibir” deveria observar que quem defende a “regulamentação” da pedofilia, do trabalho infantil, da violência doméstica e da tortura também utiliza este argumento. Então é melhor que este argumento nunca seja utilizado.

Alguns argumentos, mesmo corretos, são perigosos. Dizer que “maconha é menos prejudicial do que álcool” pode até ser correto, mas dado o momento político ultraconservador no Brasil atual, este argumento pode incentivar mais a criminalização do álcool do que a descriminalização da maconha.

Dizer que “a concessão para o estupro no caso do aborto é uma prova de que a proibição não tem a ver com defesa da vida, e sim com gravidez como punição para quem quis fazer sexo sem desejar a gravidez” pode ser correto, mas dado momento político ultraconservador no Brasil atual, este argumento pode incentivar mais o fim da concessão para o estupro do que a descriminalização do aborto.

Sou contra o negacionismo do aquecimento global, mas dizer que há prova do aquecimento global só porque o dia de hoje está quente é ajudar os negacionistas, pois basta vir um dia frio para eles falarem que não existe o aquecimento global. Centrar a argumentação contra o negacionismo nos “interesses da indústria do petróleo e do agronegócio” é se igualar aos negacionistas que centram a argumentação nos “interesses dos globalistas e dos comunistas”, pois se trata de desqualificar um argumento desqualificando um argumentador. Apesar da discussão do aquecimento global ter implicações políticas, a pesquisa científica pode identificar se existe o impacto do ser humano no aquecimento ou não, portanto, a discussão não pode ser apenas política. Ao que tudo indica, as pesquisas indicam que existe sim o impacto do ser humano no aquecimento.

Não sou vegan, e sei que tese do “corpo humano naturalmente herbívoro”, utilizado por alguns vegans, não tem qualquer respaldo científico (escrevi esse texto sobre o assunto). Mas dizer que os humanos têm tendência a comer carne por causa dos dentes caninos também não tem respaldo científico. E dizer que “os leões comem gazelas, então não tem problema eu comer porco” não é bom, porque a natureza não pode ser utilizada para justificar comportamentos humanos, caso contrário, seria justificável mijar e cagar no chão.

Sou completamente contra o Escola Sem Partido (escrevi esse texto aqui), mas fico preocupado quando alguém usa como argumento o “tudo é ideologia, o que temos que fazer é escolher entre a ideologia do opressor e a ideologia do oprimido” porque este argumento gera um espantalho que dá munição aos defensores do projeto. O Escola Sem Partido deve ser combatido por ser uma tentativa de grupos de direita alegarem uma suposta “doutrinação de esquerda” para imporem uma doutrinação de direita, e para chamarem de “doutrinação de esquerda” aquilo que eles simplesmente não gostam. E defender a liberdade de escolher o que ensinar como um direito absoluto não é o caminho para combater o Escola Sem Partido. Nenhum professor deveria ter o direito de ensinar que o criacionismo é verdadeiro, que o aquecimento global é falso e que somente pessoas religiosas têm moral. Aliás, são coisas que os defensores do Escola Sem Partido gostariam de ensinar.

Sou ateu, mas não me considero mais inteligente e culto por causa disso. Há mais ateus entre pessoas mais escolarizadas e em países com média de escolaridade mais elevada, mas correlação não necessariamente indica causalidade.

Sou contra a emenda constitucional do teto dos gastos não porque eu desprezo responsabilidade fiscal. Eu considero que responsabilidade fiscal é importante, que déficits fiscais devem ser exceção e não a regra. Defender que déficit fiscal é bom sempre é pseudokeynesianismo. Os keynesianos que são economistas profissionais não defendem isso. A sacanagem da emenda do teto é utilizar o medo que a população tem do atual déficit como pretexto para impor um Estado mínimo a longo prazo. A intenção da emenda do teto não é só acabar com a diferença entre despesa pública e receita pública. É diminuir a receita no longo prazo.

Nas eleições mais recentes, eu votei em candidatos do PSOL porque eles defendem muitas coisas que eu defendo também, mas acho dizer que “o PSOL é o único partido que não está mencionado nas delações das propinas da Odebrecht” não é um bom argumento para defender o partido. Ninguém vai querer subornar quem não faz parte de governos. Ética deveria ser obrigação (e muitos partidos não cumprem), e não a principal bandeira de partidos. O debate político não pode ser reduzido a “quem é mais honesto, quem é mais safado”.

caminhos tortos

Como a Escola Austríaca de Economia pode involuntariamente ajudar a esquerda

Nos mais recentes anos, houve um crescente interesse no Brasil pela Escola Austríaca de Economia (no resto do texto será chamada de EAE). Este fenômeno foi mais marcante nas redes sociais, em debates de leigos, do que na academia. O motivo não é muito difícil de entender. Houve um surto de direitismo na opinião pública brasileira, porque a raiva com o petê se transformou em raiva com tudo que tem a ver com esquerda, aí tudo que passou a ser associado com anti-esquerda ganhou evidência, e isto inclui a EAE. Enquanto isso, geralmente quem é de esquerda tem repulsa à EAE. Mas a EAE pode ter efeitos colaterais benéficos para a esquerda.

A EAE é uma escola de pensamento econômico que não pertence ao mainstream. No pensamento econômico, o mainstream é composto pelos neoclássicos. Por isso, os neoclássicos também são chamados de ortodoxos. Enxergam o sistema econômico como um sistema composto por agentes racionais que tentam maximizar seu bem-estar em um mundo onde os recursos são escassos. Para empresas, isto significa maximizar lucro, dadas as vendas e os preços dos insumos. Para consumidores, isto significa maximizar a satisfação (chamada de utilidade) proveniente dos bens de consumo, dado sua renda e o preço dos bens. A interação entre estes agentes gera um equilíbrio, que pode ser descrito através de sistemas de equações matemáticas. Os neoclássicos consideram que existe incerteza, que pode ser medida por cálculo probabilístico. Os neoclássicos formalizam seu pensamento em linguagem matemática bastante sofisticada. Na macroeconomia, os neoclássicos têm algumas divergências entre eles, se dividem em monetaristas, novos clássicos e novos keynesianos (quem quiser saber mais sobre esta divisão pode ler este texto), mas a microeconomia que serve como base para todos é semelhante.

A economia é a mais conservadora das ciências sociais, e os economistas do mainstream são em sua maioria conservadores, mas nem todos são (notáveis exceções são Joseph Stiglitz e Paul Krugman) e nem é necessário ser (quem quiser saber mais pode ler este texto). Os esquerdistas, em geral, preferem escolas heterodoxas como a marxista e a pós-keynesiana (no resto do texto será chamada de EPK), que são escolas à esquerda do mainstream. A EAE, por sua vez, é uma escola heterodoxa à direita do mainstream. A defesa da não intervenção do Estado na economia feita pela EAE é mais forte do que a feita pelos ortodoxos. Os journals mais bem classificados e os departamentos de economia das universidades mais conhecidas do mundo são dominados por economistas ortodoxos. Tanto o marxismo, quanto a EPK, quanto a EAE dominam um ou outro departamento menos conhecido, tem um ou outro acadêmico nos departamentos mais conhecidos e tem journals em posições não muito elevadas nos rankings. Os marxistas e os pós-keynesianos são mais importantes em partidos de esquerda do que nas universidades. Os austríacos são mais importantes em fundações ultraconservadoras mantidas por milionários do que nas universidades.

A EAE é tão antiga quanto a escola neoclássica. Ambas surgiram por volta de 1870. Ambas foram uma resposta ao pensamento clássico, de Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx, que considerava que o valor de uma mercadoria é a quantidade de trabalho que existe nela e que enxergava a economia através das classes sociais. Tanto neoclássicos quanto austríacos mudaram o foco das classes sociais para os indivíduos e ambos deixaram de considerar o valor da mercadoria como o trabalho que existe nela e passaram a considerar a satisfação que a mercadoria causa ao consumidor (a utilidade) como seu valor. Os primeiros economistas da EAE foram Carl Menger e Böhm von Bawerk. No século XX, os maiores expoentes da EAE foram Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Os economistas “austríacos” não necessariamente têm que ter nacionalidade austríaca. Murray Rothbard e Israel Kirzner foram dois importantes “austríacos” nascidos nos Estados Unidos.

A escola neoclássica e a EAE têm semelhanças: a ênfase no indivíduo, o valor utilidade, a defesa do livre mercado como melhor forma de alocar recursos. Porém, existem diferenças importantes. Os neoclássicos trabalham com o conceito de equilíbrio. Os austríacos consideram que o sistema econômico está sempre em mudança. Os neoclássicos consideram que a incerteza pode ser descrita por cálculo de probabilidades (exemplo: um empresário tem 50% de probabilidade de ter um lucro de R$100, 25% de probabilidade de ter um lucro de R$150 e 25% de probabilidade de ter um lucro de R$200) e que a informação é uma mercadoria como qualquer outra: gera um retorno, que é a redução da incerteza, mas tem um custo de obtenção. Os austríacos consideram que o mundo é tão incerto que não é possível nem mesmo fazer cálculo de probabilidades, e que a mesma informação não tem o mesmo efeito para todos os agentes econômicos, que é muito subjetivo como cada agente utiliza a informação. (ver mais neste texto). Os neoclássicos formalizam seu pensamento em complexos modelos matemáticos. Por causa da diferente visão sobre equilíbrio e incerteza, os austríacos preferem a descrição de sua teoria em forma verbal à descrição em forma matemática. Apesar disso Hayek se esforçou em formalizar a teoria austríaca em modelos matemáticos. Diferentemente dos neoclássicos, os austríacos não enxergam as empresas como simples compradoras de insumos e vendedoras de produtos. Eles consideram o tempo de produção. Enxergam a economia como um conjunto de atividades que vai da primeira etapa do processamento de matérias-primas até chegar à produção de bens que têm utilidade para consumidores, passando pelos processamentos intermediários. Ou seja, dividem o processo produtivo em etapas. De acordo com a EAE, quando os consumidores decidem poupar mais, a taxa de juros cai e isto incentiva as empresas a produzirem as etapas iniciais. Quando os consumidores decidem poupar menos, a taxa de juros sobe e isto incentiva as empresas a produzirem a etapa final, ou seja, a de bens de consumo. A EAE considera que as crises econômicas ocorrem como um “remédio necessário” para booms supostamente artificiais. Os booms supostamente artificiais ocorrem quando um banco central cria uma taxa de juros artificialmente baixa, os empresários recebem um estímulo para deslocar a produção para as etapas iniciais, e as crises ocorrem quando os empresários descobrem o erro e decidem retornar à produção das etapas finais. Essa transição geraria recessão e desemprego. A intervenção estatal para corrigir o problema acabaria apenas agravando-o (Snowdon & Vane, 2005).

Apesar de ser pouco influente na academia, a EAE atrai conservadores porque é ainda mais anti-intervenção do que a escola neoclássica. Os neoclássicos, em geral, não têm boa visão sobre a intervenção estatal, mas defendem um banco central para administrar a taxa de juros, e reconhecem que alguma intervenção era necessária para combater as crises econômicas ocorridas nos Estados Unidos em 1929-1932, 2001 e 2008-2009. Os neoclássicos consideram apenas que as crises de 1974-1975 e 1980-1982 foram decorrentes de excesso de intervenção, ou seja, uma inflação gerada por políticas do governo que precisou ser corrigida com juros altos. Já os austríacos consideram que até mesmo as crises de 1929-1932, 2001 e 2008-2009 foram causadas por excesso de intervenção, pois mesmo não tendo sido precedidas de inflação elevada, isto é dispensável para os austríacos. A EAE considera que a existência do Fed mantendo os juros artificialmente baixos causou o boom que futuramente gerou a crise corretiva. A EAE defende que não deve existir banco central, que a moeda deve ser emitida por bancos privados.

Em poucas palavras, o “liberalismo” dos austríacos é bem mais forte do que o “liberalismo” dos neoclássicos. Mas este “liberalismo” é apenas econômico. Enquanto que o neoclássico Milton Friedman dizia que “não tinha relação com Pinochet, apenas tinha feito sugestões para a economia”, Friedrich Hayek apoiava abertamente o ditador chileno.

Em relação ao posicionamento sobre a intervenção do Estado na economia, a EPK é o extremo oposto da EAE, apesar de ambas as escolas serem heterodoxas. Entre as escolas ortodoxas, as que menos toleram a intervenção do Estado na economia são, em primeiro lugar, a novo clássica, seguida da monetarista e por fim a novo keynesiana, um pouco mais tolerante. A EPK defende mais a intervenção do Estado na economia do que a novo keynesiana. A EAE se opõe mais à intervenção do Estado na economia do que a novo clássica. A EAE considera que a oscilação da taxa de juros de mercado é um mecanismo eficiente para converter aumento de propensão a poupar em aumento de propensão a investir. Uma taxa de juros criada por agentes públicos criaria distorção.  A EPK tem uma visão completamente diferente sobre a taxa de juros, e considera que é possível existir subconsumo junto com subinvestimento, com desemprego. Nesta situação, a redução da taxa de juros e o aumento do gasto público seriam necessários para aumentar a demanda e reativar a economia.

Apesar disso, a EAE e a EPK são como as duas pontas da letra U. Parecem extremos opostos, mas na verdade não estão tão distantes assim. Podemos fazer uma analogia com a linha 1 do metrô do Rio de Janeiro. As estações Uruguai e General Osório Ipanema são os extremos opostos da linha. Olhando apenas para o mapa da linha, parece que as estações estão realmente muito distantes uma da outra. Mas sobrepondo o mapa da linha ao mapa da cidade do Rio de Janeiro, se percebe que a linha faz um U virado, e que as duas estações não estão tão longe assim. Podemos considerar que a Uruguai é a EPK e a General Osório Ipanema é a EAE (os mais revolucionários poderão querer que a Uruguai seja o marxismo, mas não tem problema, neste caso, podemos considerar que a Saens Peña é a EPK) (ah, e se a EAE é a General Osório Ipanema e a EPK é a Saens Peña, as escolas ortodoxas estariam próximas da Glória, Cinelândia, Carioca e Uruguaiana, e os schumpeterianos estariam no Túnel Rebouças).

U escolas economia

Apesar das recomendações de políticas da EAE e da EPK serem opostas, as duas escolas têm algumas semelhanças na forma de estudar o funcionamento da economia. Enquanto os ortodoxos têm uma visão mais estática do funcionamento do sistema econômico, observando as firmas basicamente como compradoras de insumos e vendedoras de produtos, a EAE e a EPK têm uma visão mais dinâmica, observando a produção como algo que leva tempo. A EAE enfoca os diversos estágios da produção, do início do processamento das matérias-primas até a fabricação dos bens de consumo finais. A EPK enfoca a tomada de decisão do empreendedor de investir, com base na taxa de juros e no retorno esperado, a necessidade de elaboração de contratos de compra de insumos e venda de produtos, a possibilidade de inesperados durante o meio do processo de produção. Os ortodoxos enfatizam mais o consumidor para descrever o funcionamento da economia. A EAE e a EPK enfatizam mais o empreendedor. Os ortodoxos, conforme mencionado anteriormente, enxergam a incerteza como um cálculo de probabilidades. A EAE e a EPK trabalham com incerteza que não pode nem ser mensurada por cálculo de probabilidades. Por causa de todas essas diferenças, os ortodoxos são mais propensos a formalizar seu pensamento em linguagem matemática, enquanto que a EAE e a EPK preferem linguagem verbal, embora ambas tenham pensadores que se esforçam em criar alguma formalização matemática.

E quais são as principais críticas feitas à EAE? Paul Krugman considera incoerente a explicação da EAE para os ciclos econômicos. A EAE considera que a causa das recessões é o período de transição em que os empresários deixam de produzir bens de produção e passam a produzir bens de consumo. Paul Krugman disse que se a transição provocasse recessão, quando os empresários mudam da produção dos bens de consumo para os bens de produção, também deveria haver recessão. Mas este é o período em que a EAE diz que existe um boom. Paul Krugman também considera que a falta de formalização matemática deixa o pensamento da EAE obscuro. Paul Krugman tem divergência tanto ideológica, quanto metodológica, em relação à EAE. Paul Krugman pertence ao braço esquerdo do novo keynesianismo, mas ainda assim é um ortodoxo. Trata-se de um debate invertido ao que acostumamos a ver no Brasil. É um ortodoxo de esquerda brigando com heterodoxos de direita.

Milton Friedman, monetarista, portanto, ortodoxo, se alinha ideologicamente com os austríacos na defesa do Estado “mínimo”, e por isso já teve atuação política em conjunto. Mas a forma de fazer ciência é bem diferente. Friedman já chegou a afirmar que a EAE não passa no teste empírico para explicar as flutuações da economia dos Estados Unidos.

A defesa da EAE sobre a dificuldade de passar no teste empírico é que para esta escola de pensamento, é muito difícil testar teorias econômicas usando dados da realidade. Ou seja, a EAE entra em choque com a definição de verdade feita por Karl Popper, a da falseabilidade. Daí é fácil explicar porque a EAE não tem muito espaço dentro do mundo acadêmico.

Os maiores divulgadores da EAE no Brasil foram colunistas que apareceram através da influência de Olavo de Carvalho. Estes colunistas repetem o pensamento produzido por grupos ultraconservadores norte americanos. Alguns destes colunistas também são simpatizantes do negacionismo da evolução e do negacionismo do aquecimento global. Isto não quer dizer que simpatizantes da EAE também sejam simpatizantes do negacionismo da evolução e do negacionismo do aquecimento global, mas sim que essas ideias encontram meios de divulgação semelhantes.

Um país que serve como exemplo oposto ao que a Escola Austríaca de Economia prega é a Áustria. Lá, o setor público corresponde a mais de 40% do PIB, o mercado de trabalho é bem regulamentado, e ainda assim a Áustria, além de ser um país de alta renda, tem uma economia funcionando bem, com crescimento razoável e desemprego baixo. A euroesclerose nunca passou por lá.

Por fim, quem é de esquerda, o que deve pensar sobre a EAE? Deve discordar de suas ideias, mas nunca dizer “isto não é sério” ou “isto é uma merda”. A EAE para a esquerda é como um jogador de futebol do time adversário que amortece uma bola que estava no ar e involuntariamente deixa esta bola boa para chutar. Muitas vezes, conservadores criticam esquerdistas por gostarem de teorias econômicas com pouca formalização matemática e com pouco respaldo do meio acadêmico, como a marxista e a pós-keynesiana. Agora, se os conservadores gostarem da teoria austríaca, eles poderão criticar a teoria marxista e a pós-keynesiana por outros motivos, mas não mais por essas teorias terem pouca matemática e pouca presença na academia.

O Zizek dizia que quando a esquerda se preocupava demais em bater em malucos à direita do establishment, o establishment ficava intocado.

 

Referências

SNOWDON, B.; VANE, H. Modern Macroeconomics, Its Origins, Development and Current State: EE 2005

JESUS HUERTA DE SOTO. The essential diferences between the Austrian and Neoclassical Schools

KRUGMAN, P. Martin and the Austrians: 2010

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