Como a Escola Austríaca de Economia pode involuntariamente ajudar a esquerda

Nos mais recentes anos, houve um crescente interesse no Brasil pela Escola Austríaca de Economia (no resto do texto será chamada de EAE). Este fenômeno foi mais marcante nas redes sociais, em debates de leigos, do que na academia. O motivo não é muito difícil de entender. Houve um surto de direitismo na opinião pública brasileira, porque a raiva com o petê se transformou em raiva com tudo que tem a ver com esquerda, aí tudo que passou a ser associado com anti-esquerda ganhou evidência, e isto inclui a EAE. Enquanto isso, geralmente quem é de esquerda tem repulsa à EAE. Mas a EAE pode ter efeitos colaterais benéficos para a esquerda.

A EAE é uma escola de pensamento econômico que não pertence ao mainstream. No pensamento econômico, o mainstream é composto pelos neoclássicos. Por isso, os neoclássicos também são chamados de ortodoxos. Enxergam o sistema econômico como um sistema composto por agentes racionais que tentam maximizar seu bem-estar em um mundo onde os recursos são escassos. Para empresas, isto significa maximizar lucro, dadas as vendas e os preços dos insumos. Para consumidores, isto significa maximizar a satisfação (chamada de utilidade) proveniente dos bens de consumo, dado sua renda e o preço dos bens. A interação entre estes agentes gera um equilíbrio, que pode ser descrito através de sistemas de equações matemáticas. Os neoclássicos consideram que existe incerteza, que pode ser medida por cálculo probabilístico. Os neoclássicos formalizam seu pensamento em linguagem matemática bastante sofisticada. Na macroeconomia, os neoclássicos têm algumas divergências entre eles, se dividem em monetaristas, novos clássicos e novos keynesianos (quem quiser saber mais sobre esta divisão pode ler este texto), mas a microeconomia que serve como base para todos é semelhante.

A economia é a mais conservadora das ciências sociais, e os economistas do mainstream são em sua maioria conservadores, mas nem todos são (notáveis exceções são Joseph Stiglitz e Paul Krugman) e nem é necessário ser (quem quiser saber mais pode ler este texto). Os esquerdistas, em geral, preferem escolas heterodoxas como a marxista e a pós-keynesiana (no resto do texto será chamada de EPK), que são escolas à esquerda do mainstream. A EAE, por sua vez, é uma escola heterodoxa à direita do mainstream. A defesa da não intervenção do Estado na economia feita pela EAE é mais forte do que a feita pelos ortodoxos. Os journals mais bem classificados e os departamentos de economia das universidades mais conhecidas do mundo são dominados por economistas ortodoxos. Tanto o marxismo, quanto a EPK, quanto a EAE dominam um ou outro departamento menos conhecido, tem um ou outro acadêmico nos departamentos mais conhecidos e tem journals em posições não muito elevadas nos rankings. Os marxistas e os pós-keynesianos são mais importantes em partidos de esquerda do que nas universidades. Os austríacos são mais importantes em fundações ultraconservadoras mantidas por milionários do que nas universidades.

A EAE é tão antiga quanto a escola neoclássica. Ambas surgiram por volta de 1870. Ambas foram uma resposta ao pensamento clássico, de Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx, que considerava que o valor de uma mercadoria é a quantidade de trabalho que existe nela e que enxergava a economia através das classes sociais. Tanto neoclássicos quanto austríacos mudaram o foco das classes sociais para os indivíduos e ambos deixaram de considerar o valor da mercadoria como o trabalho que existe nela e passaram a considerar a satisfação que a mercadoria causa ao consumidor (a utilidade) como seu valor. Os primeiros economistas da EAE foram Carl Menger e Böhm von Bawerk. No século XX, os maiores expoentes da EAE foram Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Os economistas “austríacos” não necessariamente têm que ter nacionalidade austríaca. Murray Rothbard e Israel Kirzner foram dois importantes “austríacos” nascidos nos Estados Unidos.

A escola neoclássica e a EAE têm semelhanças: a ênfase no indivíduo, o valor utilidade, a defesa do livre mercado como melhor forma de alocar recursos. Porém, existem diferenças importantes. Os neoclássicos trabalham com o conceito de equilíbrio. Os austríacos consideram que o sistema econômico está sempre em mudança. Os neoclássicos consideram que a incerteza pode ser descrita por cálculo de probabilidades (exemplo: um empresário tem 50% de probabilidade de ter um lucro de R$100, 25% de probabilidade de ter um lucro de R$150 e 25% de probabilidade de ter um lucro de R$200) e que a informação é uma mercadoria como qualquer outra: gera um retorno, que é a redução da incerteza, mas tem um custo de obtenção. Os austríacos consideram que o mundo é tão incerto que não é possível nem mesmo fazer cálculo de probabilidades, e que a mesma informação não tem o mesmo efeito para todos os agentes econômicos, que é muito subjetivo como cada agente utiliza a informação. (ver mais neste texto). Os neoclássicos formalizam seu pensamento em complexos modelos matemáticos. Por causa da diferente visão sobre equilíbrio e incerteza, os austríacos preferem a descrição de sua teoria em forma verbal à descrição em forma matemática. Apesar disso Hayek se esforçou em formalizar a teoria austríaca em modelos matemáticos. Diferentemente dos neoclássicos, os austríacos não enxergam as empresas como simples compradoras de insumos e vendedoras de produtos. Eles consideram o tempo de produção. Enxergam a economia como um conjunto de atividades que vai da primeira etapa do processamento de matérias-primas até chegar à produção de bens que têm utilidade para consumidores, passando pelos processamentos intermediários. Ou seja, dividem o processo produtivo em etapas. De acordo com a EAE, quando os consumidores decidem poupar mais, a taxa de juros cai e isto incentiva as empresas a produzirem as etapas iniciais. Quando os consumidores decidem poupar menos, a taxa de juros sobe e isto incentiva as empresas a produzirem a etapa final, ou seja, a de bens de consumo. A EAE considera que as crises econômicas ocorrem como um “remédio necessário” para booms supostamente artificiais. Os booms supostamente artificiais ocorrem quando um banco central cria uma taxa de juros artificialmente baixa, os empresários recebem um estímulo para deslocar a produção para as etapas iniciais, e as crises ocorrem quando os empresários descobrem o erro e decidem retornar à produção das etapas finais. Essa transição geraria recessão e desemprego. A intervenção estatal para corrigir o problema acabaria apenas agravando-o (Snowdon & Vane, 2005).

Apesar de ser pouco influente na academia, a EAE atrai conservadores porque é ainda mais anti-intervenção do que a escola neoclássica. Os neoclássicos, em geral, não têm boa visão sobre a intervenção estatal, mas defendem um banco central para administrar a taxa de juros, e reconhecem que alguma intervenção era necessária para combater as crises econômicas ocorridas nos Estados Unidos em 1929-1932, 2001 e 2008-2009. Os neoclássicos consideram apenas que as crises de 1974-1975 e 1980-1982 foram decorrentes de excesso de intervenção, ou seja, uma inflação gerada por políticas do governo que precisou ser corrigida com juros altos. Já os austríacos consideram que até mesmo as crises de 1929-1932, 2001 e 2008-2009 foram causadas por excesso de intervenção, pois mesmo não tendo sido precedidas de inflação elevada, isto é dispensável para os austríacos. A EAE considera que a existência do Fed mantendo os juros artificialmente baixos causou o boom que futuramente gerou a crise corretiva. A EAE defende que não deve existir banco central, que a moeda deve ser emitida por bancos privados.

Em poucas palavras, o “liberalismo” dos austríacos é bem mais forte do que o “liberalismo” dos neoclássicos. Mas este “liberalismo” é apenas econômico. Enquanto que o neoclássico Milton Friedman dizia que “não tinha relação com Pinochet, apenas tinha feito sugestões para a economia”, Friedrich Hayek apoiava abertamente o ditador chileno.

Em relação ao posicionamento sobre a intervenção do Estado na economia, a EPK é o extremo oposto da EAE, apesar de ambas as escolas serem heterodoxas. Entre as escolas ortodoxas, as que menos toleram a intervenção do Estado na economia são, em primeiro lugar, a novo clássica, seguida da monetarista e por fim a novo keynesiana, um pouco mais tolerante. A EPK defende mais a intervenção do Estado na economia do que a novo keynesiana. A EAE se opõe mais à intervenção do Estado na economia do que a novo clássica. A EAE considera que a oscilação da taxa de juros de mercado é um mecanismo eficiente para converter aumento de propensão a poupar em aumento de propensão a investir. Uma taxa de juros criada por agentes públicos criaria distorção.  A EPK tem uma visão completamente diferente sobre a taxa de juros, e considera que é possível existir subconsumo junto com subinvestimento, com desemprego. Nesta situação, a redução da taxa de juros e o aumento do gasto público seriam necessários para aumentar a demanda e reativar a economia.

Apesar disso, a EAE e a EPK são como as duas pontas da letra U. Parecem extremos opostos, mas na verdade não estão tão distantes assim. Podemos fazer uma analogia com a linha 1 do metrô do Rio de Janeiro. As estações Uruguai e General Osório Ipanema são os extremos opostos da linha. Olhando apenas para o mapa da linha, parece que as estações estão realmente muito distantes uma da outra. Mas sobrepondo o mapa da linha ao mapa da cidade do Rio de Janeiro, se percebe que a linha faz um U virado, e que as duas estações não estão tão longe assim. Podemos considerar que a Uruguai é a EPK e a General Osório Ipanema é a EAE (os mais revolucionários poderão querer que a Uruguai seja o marxismo, mas não tem problema, neste caso, podemos considerar que a Saens Peña é a EPK) (ah, e se a EAE é a General Osório Ipanema e a EPK é a Saens Peña, as escolas ortodoxas estariam próximas da Glória, Cinelândia, Carioca e Uruguaiana, e os schumpeterianos estariam no Túnel Rebouças).

U escolas economia

Apesar das recomendações de políticas da EAE e da EPK serem opostas, as duas escolas têm algumas semelhanças na forma de estudar o funcionamento da economia. Enquanto os ortodoxos têm uma visão mais estática do funcionamento do sistema econômico, observando as firmas basicamente como compradoras de insumos e vendedoras de produtos, a EAE e a EPK têm uma visão mais dinâmica, observando a produção como algo que leva tempo. A EAE enfoca os diversos estágios da produção, do início do processamento das matérias-primas até a fabricação dos bens de consumo finais. A EPK enfoca a tomada de decisão do empreendedor de investir, com base na taxa de juros e no retorno esperado, a necessidade de elaboração de contratos de compra de insumos e venda de produtos, a possibilidade de inesperados durante o meio do processo de produção. Os ortodoxos enfatizam mais o consumidor para descrever o funcionamento da economia. A EAE e a EPK enfatizam mais o empreendedor. Os ortodoxos, conforme mencionado anteriormente, enxergam a incerteza como um cálculo de probabilidades. A EAE e a EPK trabalham com incerteza que não pode nem ser mensurada por cálculo de probabilidades. Por causa de todas essas diferenças, os ortodoxos são mais propensos a formalizar seu pensamento em linguagem matemática, enquanto que a EAE e a EPK preferem linguagem verbal, embora ambas tenham pensadores que se esforçam em criar alguma formalização matemática.

E quais são as principais críticas feitas à EAE? Paul Krugman considera incoerente a explicação da EAE para os ciclos econômicos. A EAE considera que a causa das recessões é o período de transição em que os empresários deixam de produzir bens de produção e passam a produzir bens de consumo. Paul Krugman disse que se a transição provocasse recessão, quando os empresários mudam da produção dos bens de consumo para os bens de produção, também deveria haver recessão. Mas este é o período em que a EAE diz que existe um boom. Paul Krugman também considera que a falta de formalização matemática deixa o pensamento da EAE obscuro. Paul Krugman tem divergência tanto ideológica, quanto metodológica, em relação à EAE. Paul Krugman pertence ao braço esquerdo do novo keynesianismo, mas ainda assim é um ortodoxo. Trata-se de um debate invertido ao que acostumamos a ver no Brasil. É um ortodoxo de esquerda brigando com heterodoxos de direita.

Milton Friedman, monetarista, portanto, ortodoxo, se alinha ideologicamente com os austríacos na defesa do Estado “mínimo”, e por isso já teve atuação política em conjunto. Mas a forma de fazer ciência é bem diferente. Friedman já chegou a afirmar que a EAE não passa no teste empírico para explicar as flutuações da economia dos Estados Unidos.

A defesa da EAE sobre a dificuldade de passar no teste empírico é que para esta escola de pensamento, é muito difícil testar teorias econômicas usando dados da realidade. Ou seja, a EAE entra em choque com a definição de verdade feita por Karl Popper, a da falseabilidade. Daí é fácil explicar porque a EAE não tem muito espaço dentro do mundo acadêmico.

Os maiores divulgadores da EAE no Brasil foram colunistas que apareceram através da influência de Olavo de Carvalho. Estes colunistas repetem o pensamento produzido por grupos ultraconservadores norte americanos. Alguns destes colunistas também são simpatizantes do negacionismo da evolução e do negacionismo do aquecimento global. Isto não quer dizer que simpatizantes da EAE também sejam simpatizantes do negacionismo da evolução e do negacionismo do aquecimento global, mas sim que essas ideias encontram meios de divulgação semelhantes.

Um país que serve como exemplo oposto ao que a Escola Austríaca de Economia prega é a Áustria. Lá, o setor público corresponde a mais de 40% do PIB, o mercado de trabalho é bem regulamentado, e ainda assim a Áustria, além de ser um país de alta renda, tem uma economia funcionando bem, com crescimento razoável e desemprego baixo. A euroesclerose nunca passou por lá.

Por fim, quem é de esquerda, o que deve pensar sobre a EAE? Deve discordar de suas ideias, mas nunca dizer “isto não é sério” ou “isto é uma merda”. A EAE para a esquerda é como um jogador de futebol do time adversário que amortece uma bola que estava no ar e involuntariamente deixa esta bola boa para chutar. Muitas vezes, conservadores criticam esquerdistas por gostarem de teorias econômicas com pouca formalização matemática e com pouco respaldo do meio acadêmico, como a marxista e a pós-keynesiana. Agora, se os conservadores gostarem da teoria austríaca, eles poderão criticar a teoria marxista e a pós-keynesiana por outros motivos, mas não mais por essas teorias terem pouca matemática e pouca presença na academia.

O Zizek dizia que quando a esquerda se preocupava demais em bater em malucos à direita do establishment, o establishment ficava intocado.

 

Referências

SNOWDON, B.; VANE, H. Modern Macroeconomics, Its Origins, Development and Current State: EE 2005

JESUS HUERTA DE SOTO. The essential diferences between the Austrian and Neoclassical Schools

KRUGMAN, P. Martin and the Austrians: 2010

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