Mesmo para ideias certas, existem argumentos tortos

Muitas vezes outras pessoas têm opiniões diferentes das nossas. Algumas opiniões realmente são absurdas. Outras, são simplesmente diferentes das nossas. Às vezes, pessoas muito queridas nossas têm opiniões bem diferentes sobre alguns assuntos. Às vezes, pessoas com quem concordamos na grande maioria dos assuntos têm opinião diferente das nossas em um ou outro assunto.

Um bom exercício para combater o fanatismo e praticar a tolerância é examinar quais são os argumentos ruins utilizados para defender o que nós defendemos. Existem argumentos ruins para defender ideias opostas às nossas, que nós os reconhecemos facilmente, óbvio, mas também existem argumentos ruins frequentemente utilizados para defender o que nós defendemos. Aí temos que reconhecer estes argumentos para não utilizá-los.

Vamos a alguns exemplos daquilo que eu considero argumentos equivocados para defender o que eu defendo.

Sou a favor das cotas nas universidades públicas, tanto para estudantes de colégios públicos, quanto para negros e índios. Servem como um paliativo momentâneo para desigualdades do presente. Mas rejeito o argumento da “dívida histórica com as populações negra e indígena”. O direito não reconhece nem mesmo que dívidas de dinheiro passem de pai morto para filho vivo. Haveria uma arbitrariedade muito grande falar que um povo tem dívida com o outro por causa de fatos passados. Há argumentos respeitáveis contra as cotas, como este. Mas também há argumentos ruins. Um deles ocorre quando o branco não pobre critica as cotas alegando defender o branco pobre. Em primeiro lugar, existem cotas para alunos de colégios públicos, que incluem os brancos. Em segundo lugar, tem muito branco não pobre que só se lembra de que os brancos pobres existem na hora de falar mal das cotas.

A argumentação do “branco pobre” consiste em uma pessoa que não pertence a um grupo desfavorecido alegar a defesa de um grupo desfavorecido apenas para parecer mais simpático ao defender seu próprio grupo não desfavorecido, e nunca mostrar solidariedade ao mencionado grupo desfavorecido em outros momentos. Argumentos do tipo “branco pobre” existem até para defender aquilo que eu defendo, e que eu não gostaria que fossem utilizados.

Eu sou contra a criminalização da profissão do sexo. Escrevi aqui os motivos. Mas penso que o argumento do “direito das mulheres pagarem por serviços de trabalhadores sexuais masculinos (putos?)” é muito parecido com o do “branco pobre”, quando emitido por homens que nunca viram uma mulher que pagou por serviços de trabalhadores sexuais masculinos nem um trabalhador sexual masculino. Eu mencionei este argumento no texto linkado e me arrependo disso depois que refleti melhor sobre o assunto.

Eu não concordo com algumas coisas que as feministas radicais (vulgo radfem) defendem, um exemplo disso pode ser visto no parágrafo anterior. Mas acho que quando homem cisgênero heterossexual que diz que “odeia as radfem porque elas são transfóbicas”, os transgêneros nessa argumentação são o “branco pobre” quando quem diz isso habitualmente não liga para transgêneros em outras situações.

Eu sou a favor da legalização da maconha e não vejo qualquer problema em defender abertamente a legalização até mesmo para uso recreativo. Mas quando alguém que não é médico, que habitualmente não tem interesse por assuntos relacionados à medicina, vive postando no Facebook notícias sobre os benefícios do uso medicinal de maconha só porque quer também a legalização para uso recreativo, os doentes que precisam da Cannabis sativa para fins terapêuticos são uma forma de “branco pobre”.

cebolinha maconha

Eu sou a favor da legalização do aborto porque considero que levar uma gravidez adiante deve ser uma escolha, e não uma obrigação, e que interromper o desenvolvimento de um aglomerado de células não é “matar uma pessoa”. Mas vincular a queda da criminalidade nos EUA ao Roe vs Wade, embora cientificamente realmente faça sentido, ajuda dar munição àqueles que relacionam aborto com higienismo social.

Conforme disse, sou a favor da legalização da profissão do sexo, da maconha e do aborto. Muitos defensores destas três legalizações dizem “é impossível proibir, vai existir de qualquer jeito, regulamentando tem menos danos do que tentando proibir”. Quem utiliza o “é impossível proibir, vai existir de qualquer jeito, regulamentando tem menos danos do que tentando proibir” deveria observar que quem defende a “regulamentação” da pedofilia, do trabalho infantil, da violência doméstica e da tortura também utiliza este argumento. Então é melhor que este argumento nunca seja utilizado.

Alguns argumentos, mesmo corretos, são perigosos. Dizer que “maconha é menos prejudicial do que álcool” pode até ser correto, mas dado o momento político ultraconservador no Brasil atual, este argumento pode incentivar mais a criminalização do álcool do que a descriminalização da maconha.

Dizer que “a concessão para o estupro no caso do aborto é uma prova de que a proibição não tem a ver com defesa da vida, e sim com gravidez como punição para quem quis fazer sexo sem desejar a gravidez” pode ser correto, mas dado momento político ultraconservador no Brasil atual, este argumento pode incentivar mais o fim da concessão para o estupro do que a descriminalização do aborto.

Sou contra o negacionismo do aquecimento global, mas dizer que há prova do aquecimento global só porque o dia de hoje está quente é ajudar os negacionistas, pois basta vir um dia frio para eles falarem que não existe o aquecimento global. Centrar a argumentação contra o negacionismo nos “interesses da indústria do petróleo e do agronegócio” é se igualar aos negacionistas que centram a argumentação nos “interesses dos globalistas e dos comunistas”, pois se trata de desqualificar um argumento desqualificando um argumentador. Apesar da discussão do aquecimento global ter implicações políticas, a pesquisa científica pode identificar se existe o impacto do ser humano no aquecimento ou não, portanto, a discussão não pode ser apenas política. Ao que tudo indica, as pesquisas indicam que existe sim o impacto do ser humano no aquecimento.

Não sou vegan, e sei que tese do “corpo humano naturalmente herbívoro”, utilizado por alguns vegans, não tem qualquer respaldo científico (escrevi esse texto sobre o assunto). Mas dizer que os humanos têm tendência a comer carne por causa dos dentes caninos também não tem respaldo científico. E dizer que “os leões comem gazelas, então não tem problema eu comer porco” não é bom, porque a natureza não pode ser utilizada para justificar comportamentos humanos, caso contrário, seria justificável mijar e cagar no chão.

Sou completamente contra o Escola Sem Partido (escrevi esse texto aqui), mas fico preocupado quando alguém usa como argumento o “tudo é ideologia, o que temos que fazer é escolher entre a ideologia do opressor e a ideologia do oprimido” porque este argumento gera um espantalho que dá munição aos defensores do projeto. O Escola Sem Partido deve ser combatido por ser uma tentativa de grupos de direita alegarem uma suposta “doutrinação de esquerda” para imporem uma doutrinação de direita, e para chamarem de “doutrinação de esquerda” aquilo que eles simplesmente não gostam. E defender a liberdade de escolher o que ensinar como um direito absoluto não é o caminho para combater o Escola Sem Partido. Nenhum professor deveria ter o direito de ensinar que o criacionismo é verdadeiro, que o aquecimento global é falso e que somente pessoas religiosas têm moral. Aliás, são coisas que os defensores do Escola Sem Partido gostariam de ensinar.

Sou ateu, mas não me considero mais inteligente e culto por causa disso. Há mais ateus entre pessoas mais escolarizadas e em países com média de escolaridade mais elevada, mas correlação não necessariamente indica causalidade.

Sou contra a emenda constitucional do teto dos gastos não porque eu desprezo responsabilidade fiscal. Eu considero que responsabilidade fiscal é importante, que déficits fiscais devem ser exceção e não a regra. Defender que déficit fiscal é bom sempre é pseudokeynesianismo. Os keynesianos que são economistas profissionais não defendem isso. A sacanagem da emenda do teto é utilizar o medo que a população tem do atual déficit como pretexto para impor um Estado mínimo a longo prazo. A intenção da emenda do teto não é só acabar com a diferença entre despesa pública e receita pública. É diminuir a receita no longo prazo.

Nas eleições mais recentes, eu votei em candidatos do PSOL porque eles defendem muitas coisas que eu defendo também, mas acho dizer que “o PSOL é o único partido que não está mencionado nas delações das propinas da Odebrecht” não é um bom argumento para defender o partido. Ninguém vai querer subornar quem não faz parte de governos. Ética deveria ser obrigação (e muitos partidos não cumprem), e não a principal bandeira de partidos. O debate político não pode ser reduzido a “quem é mais honesto, quem é mais safado”.

caminhos tortos

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