O libertarianismo é menos ruim do que o conservadorismo tradicional?

Os libertarians são um mal menor se comparados com os conservadores tradicionais? A resposta desta pergunta é não. Os libertarians não são nem mesmo tão ruins quanto os conservadores tradicionais. São piores. E por que algumas pessoas de esquerda no Brasil pensam que os libertarians são um mal menor em comparação com os conservadores tradicionais? Porque há uma confusão sobre o uso da palavra libertarian.

Este texto utiliza a palavra libertarian, em Inglês, para mostrar sua origem norte americana. No resto do mundo, a palavra liberal é utilizada para denominar quem defende o Estado mínimo, e a palavra libertário já foi utilizada para denominar anarquistas. Nos Estados Unidos, a palavra liberal é aplicada para a esquerda, restando a palavra libertário para denominar quem defende o Estado mínimo. As maiores referências dos libertarians são Milton Friedman, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Murray Rothbard, Ayn Rand (embora ela rejeitasse o rótulo), Lew Rockwell, o Cato Institute e o Mises Institute.

Alguns brasileiros sabem que libertarian é o que nós chamamos de liberal, mas não têm noção do radicalismo dos libertarians. Os brasileiros de esquerda que pensam erroneamente que libertarians são menos ruins do que conservadores tradicionais pensam que os libertarians são os “liberais no mau e no bom sentido”. Eles pensam que os libertarians são aqueles que “concordam com a direita nas questões econômicas e com a esquerda nas questões sociais”, que defendem o liberalismo na economia e visões progressistas sobre sexo, orientação sexual, direitos humanos e drogas. Pensam que ser libertarian é defender o que o Bill Clinton, o Tony Blair, o Fernando Henrique Cardoso, o Emmanuel Macron, o Banco Mundial, a Economist e a Miriam Leitão defendem. Estes sim são menos ruins do que conservadores tradicionais.

Mas o libertarianismo não trata disso. Em primeiro lugar, o “liberalismo” em economia dos libertarians é muito mais radical do que o “liberalismo” em economia presente nos defensores do neoliberalismo e da Terceira Via. Os neoliberais e os defensores da Terceira Via defendem privatizações, livre comércio, livre fluxo de capitais, rejeitam políticas crédito seletivo do BNDES, mas aceitam o Estado na educação, na saúde e nos programas sociais focalizados, e não questionam que a moeda deve ser emitida pelo Banco Central, apenas defendem um Banco Central independente do governo. Os libertarians rejeitam o Estado até em papéis mais básicos. Milton Friedman, ídolo dos libertarians, chegou a sugerir a substituição das escolas públicas por vouchers para as famílias de baixa renda pagarem escolas particulares. Libertarians, em geral, rejeitam o modesto Obamacare para a saúde, por considera-lo contrário à liberdade de escolha, e rejeitam também as leis anti fumo. Libertarians são contrários a leis trabalhistas, rejeitam o salário mínimo e são contra as restrições ao trabalho infantil. Inspirados na Escola Austríaca (leia mais sobre a Escola Austríaca clicando aqui), muitos libertários defendem que a moeda não deve ser emitida por um Banco Central, e sim por bancos privados. Libertarians defendem ainda um livre mercado de órgãos humanos e um livre mercado de crianças para adoção. A versão mais radicalizada dos libertarians, que são os anarco-capitalistas (conhecidos como ancaps), defende até mesmo a existência de uma justiça privada.

Em segundo lugar, os libertarians não são progressistas nas questões sociais. Eles simplesmente consideram que o Estado não deve interferir nestas questões. Eles não consideram que o Estado deve realizar casamentos homossexuais. Eles consideram simplesmente que o Estado não deve realizar casamentos, nem homo, nem heterossexuais. Os libertarians consideram que o Estado não deve reprimir a homossexualidade, mas também consideram que o Estado não deve ter programas para promover a tolerância. Neste e em outros casos, os libertarians se alinham a ultraconservadores em questões sociais. Por exemplo, libertarians consideram que restaurantes, por serem de propriedade privada, podem ter lugares reservados para brancos e para negros, se esta for a preferência do dono. Para os libertarians, quem não gosta deste tipo de divisão deve simplesmente procurar um restaurante onde esta divisão não existe. O Political Compass ajudou a criar esta confusão, misturando progressismo em questões sociais com não intervencionismo, colocando tudo nos quadrantes de baixo do gráfico.

Nos Estados Unidos, a proporção de homens brancos não hispânicos entre os conservadores tradicionais é maior do que na população como um todo. Entre os libertarians, a proporção de homens brancos não hispânicos é ainda maior do que entre os conservadores tradicionais (há um texto sobre isso que você pode ler clicando aqui). Provável motivo: é natural que quem pertence a algum grupo oprimido seja mais favorável a uma maior ação do Estado para combater a opressão. É mais fácil ser contra qualquer tipo de ação do Estado quando não pertencemos a grupos oprimidos. Para piorar, é possível encontrar racistas entre os libertarians. O libertarianismo não é uma ideologia racista, mas é atraente para os racistas, por defender o direito de discriminar. Ron Paul, um dos mais importantes líderes libertarians dos Estados Unidos, permitiu a publicação de várias newsletters em seu nome, com conteúdo racista e homofóbico.

Vimos então que os libertarianismo não tem “a parte boa e a parte ruim”. O libertarianismo é somente a “parte ruim”. Não é possível dizer que “os libertarians são de direita em economia, mas são legalzinhos quando tratam de liberdades individuais”. Vimos que muitas dessas “liberdades individuais” defendidas pelos libertarians consistem em defender o direito de ser racista e homofóbico. Sim, os libertarians defendem a legalização da maconha, e foi um progresso a maior parte da esquerda ter passado a defender a legalização da maconha. Mas não é só por causa de um item em comum que vamos passar a considerar que os libertarians são o mal menor. Os conservadores tradicionais são menos ruins do que os libertarians, pois ao menos têm alguma ideia de solidariedade com os menos favorecidos, derivada muitas vezes das grandes religiões tradicionais. Os democratas cristãos europeus, que podem ser considerados conservadores tradicionais, aceitam uma rede de proteção social. Dentro da direita, os libertarians só não são piores do que os fascistas.

Muitas vezes associamos ideias anti-ciência com religiões e dessa forma associamos com conservadores tradicionais. Mas muitos libertarians gostam do negacionismo do aquecimento global e também se opõem ao financiamento público de atividades de pesquisa. E gostam da Escola Austríaca de Economia, aquela que não liga para o teste de falseabilidade.

ronpaul confederate

Comentários