Comparando Ciro Gomes e Marina Silva

Ciro Gomes e Marina Silva são dois possíveis candidatos para a eleição presidencial de 2018 (ou 2017?). Existe grande diferença entre ambos. Ciro é desenvolvimentista. Marina atualmente pode ser descrita como eco-liberal. Ciro foi grande incentivador da transposição do Rio São Francisco. Marina foi contra. Porém, há semelhanças entre ambos. Os dois foram ministros de Lula. Os dois disputam o mesmo eleitorado: aquele que já votou no PT, acha que o PT já deu o que tinha que dar, mas deseja uma alternativa que não seja nem pela direita, nem pela extrema-esquerda. Quem já tentou alcançar este público foram Cristóvam Buarque, Eduardo Campos e Eduardo Jorge, que acabaram se perdendo quando aceitaram passivamente o papel de linha auxiliar do PSDB.

Marina Silva tem um passado mais esquerdista do que Ciro Gomes. A política acreana foi seringalista do tempo do Chico Mendes, iniciou sua carreira política no PT. Foi senadora, foi ministra do Meio Ambiente de Lula, depois saiu do governo Lula, saiu do PT, saiu da esquerda, candidatou-se a presidente em 2010 pelo PV, em 2014 pelo PSB, e depois fundou a REDE. O político cearense iniciou sua carreira política no PDS, partido sucessor da Arena. Posteriormente, passou pelo PSDB, onde foi grande aliado de Tasso Jereissati. Foi governador do Ceará e Ministro da Fazenda, exercendo este cargo no tempo do lame duck do Itamar. Depois passou pelo PPS, depois pelo PSB, depois pelo PROS, e agora está no PDT.

Mas passado é passado e presente é presente. Atualmente, Ciro Gomes está à esquerda de Marina Silva. O programa de Ciro Gomes não é muito esquerdista. É simplesmente o novo desenvolvimentismo do Bresser Pereira. Um programa diferente tanto daquele implantado por Collor, Itamar, Fernando Henrique e Temer, quanto daquele implantado por Lula e Dilma. Tanto os governos neoliberais, quanto os governos petistas, permitiram a sobrevalorização da moeda brasileira. Os primeiros por consideraram que o livre mercado é o melhor regulador do câmbio, os segundos por verem o real forte como um meio para aumentar o poder de compra das classes mais baixas. A consequência disso foi que a indústria de transformação, que já teve participação de mais de 30% do PIB brasileiro nos anos 1980, passasse a ter participação em torno de 10% atualmente. Ciro Gomes pretende manter o real mais desvalorizado, para facilitar a reindustrialização. Ele também pretende diminuir os juros. Seu programa não é muito esquerdista porque para evitar que moeda estrangeira mais cara e juros mais baixos aumentem a inflação, serão necessárias políticas fiscal e salarial mais austera. Obviamente ele procura falar pouco dessa necessidade, para não espantar apoios de esquerda. Com mais dificuldade para redistribuir renda através do aumento da despesa pública, Ciro Gomes pretende redistribuir renda através do aumento da progressividade do sistema tributário, uma política desejada pela esquerda. A Marina Silva, por sua vez, tem um programa econômico mais liberal. Seu principal guru em economia é Eduardo Gianetti. Na campanha de 2014, defendeu a independência do Banco Central, algo que nem Aécio fez.

Apesar de seu programa não ser muito de esquerda, Ciro Gomes busca consistentemente uma base de apoio sólida dentro da esquerda. Por isso, apoiou duas vezes a eleição da Dilma, se posicionou veementemente contra seu impedimento, faz duras críticas a Eduardo Cunha, Michel Temer e políticos do PSDB, faz duras críticas ao MBL, elogia Guilherme Boulos e Jean Wyllys. Seu perfil no Facebook “Time Ciro Gomes” passa uma imagem de que ele é mais de esquerda do que realmente é. Enquanto isso, Marina Silva parece biruta de aeroporto. Tentou alguns apoios de esquerda na eleição presidencial de 2010. Apoiou alguns candidatos de esquerda nas eleições municipais de 2012. Posicionou-se à direita na eleição presidencial de 2014. Defendeu uma agenda econômica liberal, apoiou Aécio Neves no segundo turno. Quando fundou a REDE, recebeu nomes de esquerda, como Luiz Eduardo Soares, Randolfe Rodriguez e Alessandro Molon. Ao longo de 2015, não apoiou o impeachment, apoiou apenas a cassação da chapa e realização de nova eleição presidencial. Com o derretimento do PT, parecia que Marina Silva estava disposta a retornar para a esquerda e disputar com Ciro Gomes o espaço vazio deixado pelo PT. Eis que perto da votação do impeachment no plenário, Marina Silva, diferente da maioria de seu partido, decide apoiar o impeachment. Por diferenças de pensamento com a Marina sobre a política brasileira atual, Luiz Eduardo Soares deixou a REDE. Recentemente, Marina Silva defendeu as reformas previdenciária e trabalhista, sinalizando disposição de atrair um eleitorado mais direitista. Talvez este posicionamento tenha ocorrido porque Lula recuperou nas pesquisas e o PSDB teve desgaste de nomes importantes, além do desgaste de ser cabeça do governo Temer.

Ciro está à esquerda de Marina, mas ambos estão à direita do PT e à esquerda do bloco PMDB/PSDB/DEM. E por isso enfrentam o mesmo problema: a elevada polarização entre o PT e o anti-PT não deixa espaço para posições intermediárias. Na intensa polarização entre coxinhas e mortadelas, quem tenta não ser coxinha nem mortadela é chamado de mortadela por coxinhas e de coxinha por mortadelas. O PDT do Ciro Gomes teve algumas vitórias nas eleições municipais de 2016 no Ceará, incluindo a capital do estado, porque Ciro é uma grande força local. Mas a REDE da Marina teve um grande fiasco, ficando com menos de 1% na maioria das cidades, elegendo pouquíssimos vereadores no Brasil inteiro, e elegendo prefeito apenas em Macapá, onde o prefeito reeleito havia ganhado pelo PSOL em 2012. A Marta, que havia concorrido à prefeita de São Paulo pelo PMDB mas carregava a possibilidade de contar com pessoas que já trabalharam com ela nos tempos de PT, teve um desempenho pífio. No cenário de elevada polarização, é mais fácil uma terceira força na política brasileira estar à esquerda do PT/PCdoB ou à direita do PMDB/PSDB/DEM do que entre ambos. Jair Bolsonaro já tem dois dígitos nas pesquisas. O PSOL, no ano passado, conseguiu eleger uma razoável quantidade de vereadores e teve bom desempenho em várias cidades grandes. Isto porque o PSOL não pretende ser uma alternativa às coxinhas e mortadelas, e sim uma outra marca de mortadela.

A analogia do carrinho de sorvete na praia diz que da mesma forma que em uma praia com dois carrinhos de sorvete, os dois tenderão a se posicionar um ao lado do outro no meio da praia para ter maior clientela, em uma eleição, em uma eleição, os candidatos tenderão a se posicionar mais ao centro para ter mais chance de vencer. Esta analogia não está funcionando mais, nem no Brasil, nem no resto do mundo.

Percebendo que o cenário político brasileiro não comporta mais posições intermediárias, Ciro Gomes tenta passar uma imagem de ser mais de esquerda do que realmente é. Sabendo que a polarização entre PT e anti-PT não gera espaço para quem tenta ser meio termo, Ciro Gomes não pretende ser candidato em 2018 se Lula for. Caso Lula não seja candidato, Ciro quer ser candidato com apoio do PT. Ele deseja que Fernando Haddad seja seu vice. Ainda assim, é possível que no cenário sem candidatura de Lula, Ciro tenha mais dificuldades do que no Lula teria no cenário sem candidatura de Ciro. Muitos entusiastas de Lula não seriam grandes entusiastas de Ciro. Poderiam votar no Ciro, mas sem fazer militância. Por outro lado, Ciro herdaria a rejeição a Lula. Vimos nas eleições municipais de 2016 que a grande rejeição ao PT se espalhou até mesmo para candidatos que não têm o número 13. Marcelo Freixo herdou o apoio do PT mas também herdou a rejeição ao PT. Marta, mesmo dando flores para Janaína Pascoal, não escapou ilesa da rejeição ao PT.

Acredito que até agora ninguém discutiu esta possibilidade, mas se Lula for candidato e Ciro insistir em ser candidato, uma aliança Ciro/PSOL poderia trazer benefícios para ambos. Poderia ser pensada a possibilidade de uma chapa Ciro Gomes presidente, Chico Alencar (ou Marcelo Freixo) vice. O campo democrático e popular já não tem mais tanta popularidade no Brasil. Talvez seja melhor ser representado por duas do que por três candidaturas. Pode ser estranho um acordo de quem está à direita com quem está à esquerda do PT. Mas também teria sua lógica. O PT não polariza apenas no espectro político geral, mas também polariza dentro da própria esquerda. Tem gente dentro da esquerda que gosta muito do PT, mas também tem gente dentro da esquerda que não quer mais o PT. Toleraria tanto quem está mais, quanto quem está menos à esquerda. Chico Alencar ou Marcelo Freixo de vice na chapa de Ciro poderiam diminuir a resistência de grande parte da esquerda da Região Sudeste ao Ciro. Em compensação, o PDT poderia fornecer seu tempo de televisão para as candidaturas do PSOL para governador e senador do Rio de Janeiro. Apesar dessas vantagens para ambos, haveria também restrições em ambos. Ciro Gomes provavelmente vai querer buscar apoio entre empresários, e por isso não ia querer algum vice muito esquerdista. Uma aliança deste tipo não seria muito bem aceita por muita gente dentro do PSOL, que saiu do PT justamente por não concordar com a política de alianças. É possível ainda que tenha gente dentro do PSOL que considera Ciro pior do que Marina. Ou seja, é praticamente impossível que esta aliança aconteça.

Se tanto Lula, quanto Ciro Gomes, quanto Chico Alencar saírem candidatos, é muito provável que Ciro Gomes receba menos votos do que Chico Alencar na Região Sudeste.

Como foi dito no primeiro parágrafo, Ciro Gomes e Marina Silva têm posições muito diferentes, mas disputam um eleitorado semelhante. Por causa destes dois motivos, há uma grande possibilidade de haver uma guerra entre simpatizantes de ambos nas redes sociais até 2018. O Time Ciro Gomes já faz algumas críticas à Marina de vez em quando. Os negrianos brasileiro, que são um braço de apoio à Marina que algumas pessoas consideram de esquerda, não gostam de Ciro. Um deles já postou até mesmo um texto do Spotniks criticando o político do PDT.

capas ciro e marina

Frente independente – um caminho possível para a esquerda brasileira (1)

Por James Connolly do Santa

Eu não preciso dizer a vocês que a política brasileira está vivendo seu crepúsculo dos deuses. As
principais lideranças político-partidárias do país foram abatidas, e nos mesmos escândalos de
corrupção (em especial nas propinas da JBS e da Odebrecht). Se caciques do PMDB e do PSDB
foram implicados, Lula e algumas eminências pardas do PT também, e não há sinal de que irão sair
ilesos também. No entanto, os elementos agregadores do futuro ainda estão em construção, e nem
sempre sinalizam algo de bom: Dória e Bolsonaro tentam agitar a direita brasileira, mas falta ao
primeiro resultados concretos e ao segundo inteligência, e a ambos falta empatia e compreensão
com a população mais humilde e marginalizada. Marina Silva não tem mais o mesmo charme de
outrora, tendo em vista que levanta nos ricos desconfiança de que irá levar a cabo suas reformas e
nos pobres levanta desconfiança de que irá efetivamente proteger seus direitos, e a Rede ainda não
decidiu o que quer ser, além de uma grande tenda mais ou menos libertária.
O Psol ainda precisa gastar sola de sapato e língua nas periferias, deixar ocupar-se mais pela favela,
campo e precariado, e construir um programa econômico mais consistente antes de se constituir em
uma alternativa séria para o país. Ciro se mostra como uma alternativa por sua boquirrotisse,
conseguiu um programa econômico que não é necessariamente progressista (em alguns pontos é
francamente de direita) e tem passados (o mais recente é o de governador do Ceará) a lhe
assombrarem. Finalmente, existem os aventureiros que são incensados aqui e ali, mas que possuem
como projeto algo que vai pouco além do “consertar o Brasil”, se tanto.
No entanto, existem pessoas dentro dos partidos de esquerda e movimentos sociais, e mesmo fora
deles (eu diria que a grande maioria está nesta situação) que não gostariam de ficar à mercê dos
acontecimentos, que gostariam de discutir a crise das lideranças, e que estão atualmente sem espaço
para fazer qualquer coisa. Seja por não saber como articular um movimento, ou mesmo por não
saber que podem fazer tal coisa, estas pessoas hoje em dia se veem órfãs, quando não descambam
para o niilismo e a desesperança. Tal realidade precisa mudar, caso queiramos ter um futuro, e eu
penso que posso apontar um dos caminhos alternativos. Notem bem: estou elocubrando aqui como
faria em uma mesa de bar ou assistindo um jogo do meu querido Santa Cruz Futebol Clube, o
tricolor do Arruda. Não estou dizendo que é pra fazer as coisas desse jeito, mas ficaria feliz se
alguém tomasse esse rumo.
Eu visualizo o surgimento de Círculos de Estudos e Atividades, onde o propósito seria, bem,
estudos e atividades relacionadas a tudo aquilo que se encontre no campo do progressimo. Estes
círculos poderiam constituir-se em nível de bairro, município, estado e nacionalmente, e ainda de
forma temática, ou ainda virtualmente. Quem conheceu a Raiz vai ver ecos de sua organização aqui,
e não por acaso, já que eu já fui parte atuante dela. A organização nestes círculos é uma das coisas
boas que ela gerou, e de forma alguma é responsável por sua degeneração (algo que poderemos
tratar em outra ocasião). É democrática e comporta ampliação com facilidade.
Estes círculos teriam como responsabilidade a discussão ampla e democrática de alternativas para
problemas locais, regionais e nacionais. Nenhuma proposta, no entanto, deve deixar de lado o
escrutínio da população onde o círculo está inserida, que fará o juízo final de sua aplicabilidade e
evita que se “viaje demais”. As propostas deveriam comportar o seu versionamento, tanto para
prover uma contínua atualização bem como recuperação das ideias anteriores para reanálise – e
autocrítica por eventuais bobagens ditas anteriormente.
Por envolver a população, é imprescindível que tais círculos realizem um amplo trabalho de
divulgação de suas ideias. Seja pelos meios tradicionais (jornais, panfletos, reuniões públicas), seja
utilizando novas mídias, é importantíssimo que as ideias saiam da torre de marfim e cheguem a
todos. Também por isso, os círculos deverão priorizar o contato com as populações da periferia, os
trabalhadores urbanos precários, as comunidades rurais e tradicionais e as pequenas cidades do
interior.
O objetivo seria criar uma frente progressista nacional e independente, de caráter suprapartidário,
que admitiria a entrada de membros filiados a partidos ou não, embora imagine que um mínimo de
identidade com as pautas das mais diferentes esquerdas seja necessário para o bom funcionamento.
Tal frente não impediria os membros de se filiarem a partidos políticos ou outros movimentos
(incluso aqui as federações anarquistas), mas se reservaria o direito de endossar candidaturas que
tenham identidade com suas propostas, levadas à frente por seus filiados ou não.
Ao mesmo tempo, esta frente também poderia realizar atividades de militância clássicas, como a
participação em protestos e atos públicos, greves, pressão junto a parlamentares, etc. Promoveria
palestras e reuniões periódicas em espaços públicos abertos à comunidade, como escolas, praças,
centros comunitários, associações de moradores, etc. Ofereceria oficinas e cursos com o intuito de
oferecer medidas de autonomia econômica e social. Apoiaria medidas de autogestão, como
cooperativas populares de produção, fábricas ocupadas, bem como de apoio, como por exemplo a
manutenção de uma banca de aconselhamento jurídico para presos injustos, políticos e de
consciência.
Até aqui tudo bem, mas eu tenho consciência das broncas que tal iniciativa enfrentaria, que são
assunto pro próximo texto.

 

A guerra política de trincheiras na educação brasileira

Há uma guerra política pelo controle da educação brasileira, com dois grupos rivais bem entrincheirados. O primeiro grupo é composto por fundações empresariais de apoio à educação, Globo, Abril e Banco Mundial, e o segundo grupo é composto por sindicatos de docentes e acadêmicos da área de Pedagogia. O único ponto de concordância entre ambos os grupos é que a educação brasileira encontra-se em um estado lamentável. Mas o diagnóstico e as soluções propostas são bem diferentes. O primeiro grupo considera que o problema da educação brasileira é um problema de má gestão, e que para resolver, deveriam ser trazidas técnicas de gestão das empresas privadas, e, se possível, deixar a administração das escolas para as empresas privadas. Em suma, um modelo business. Este grupo é entusiasta de avaliações externas padronizadas de larga escala, remuneração variável para os professores de acordo com o desempenho de seus alunos nessas avaliações e material apostilado. Também considera que se o desempenho dos alunos é muito ruim e se os recursos são escassos, o ensino de leitura e matemática deve ser priorizado. Este grupo também valoriza muito a qualificação de mão-de-obra. Enxergam a educação como um meio do país produzir mais e melhores bens e serviços. O segundo grupo considera que os principais problemas são a histórica falta de prioridade dada à educação no Brasil e a baixa qualidade de vida do povo, e que é necessário mais investimento, melhores salários para os professores, maior autonomia para os professores, gestão mais democrática das escolas e melhor infra-estrutura das escolas. Este grupo tende a defender o ensino de artes, de filosofia e sociologia, e considerar todos os conteúdos igualmente importantes. Não costuma a enxergar a educação como um meio de produzir mais e melhores bens e serviços porque já enxerga a instrução como um bem em si.

Não há igualdade entre os dois grupos. O primeiro tem presença muito maior na grande mídia e influencia muito mais governos. Governos do PSDB, PMDB e PSB aderem integralmente à agenda do primeiro grupo. Governos do PT ficam no meio termo. É importante lembrar que Fernando Haddad, quando Ministro da Educação, fez algumas políticas que agradou o segundo grupo, mas também deu importância para o Ideb e sempre manteve contato com empresários ligados à área de educação. Governos do PSOL favoreceriam o segundo grupo, mas, por enquanto, governo do PSOL só teve em Itaocara.

Entre os mentores intelectuais do primeiro grupo, estão Cláudio Moura de Castro e Gustavo Ioschpe. O Cláudio Moura de Castro é aquele do qual nós dizemos “discordo ideologicamente, mas respeito”. O Gustavo Ioschpe, o que dizer dele? É possível dizer que se o Brasil tivesse uma educação de qualidade, Gustavo Ioschpe não seria visto como um dos maiores especialistas em educação do Brasil. Há algumas pessoas deste grupo que tiveram atitudes que nós podemos elogiar. A ex-secretária Cláudia Costin, uma expoente deste grupo, se opôs à emenda constitucional do teto dos gastos, dizendo que isto prejudicaria muito a educação. Como o primeiro grupo está muito relacionado com conservadores, é possível esperar que este grupo defenda o Escola Sem Partido. Mas é preciso destacar que há pessoas sérias neste grupo, que não defendem essa boçalidade.

Se o primeiro conseguisse implementar toda sua pauta, haveria um dirigismo stalinista na educação. Se o segundo grupo conseguisse implementar toda sua pauta, haveria um laissez-faire. Não, não houve confusão, pode parecer paradoxal, mas é isso mesmo. Organizações que defendem um laissez-faire na economia são extremamente dirigistas quando falam de educação. Querem padronizar provas, aulas, currículo e material didático. O papel do professor neste modelo seria de mero repassador de conteúdo. Por sua vez, movimentos e partidos que defendem um papel mais ativo do Estado na economia são menos top-down quando falam de educação.

A avaliação padronizada externa de larga escala, defendida pelo primeiro grupo, aumentaria a transparência das escolas, pois permitiria professores, pais, mães, autoridades e a sociedade em geral verificar se e como os alunos estão aprendendo. O desempenho muito ruim de estados e municípios brasileiros no Ideb e o desempenho muito ruim de países (incluindo o nosso) no Pisa pode fazer a sociedade pensar que é necessário investir mais em educação. Porém, quando as avaliações são utilizadas para definir remuneração variável para os professores, os problemas começam. Na menos ruim das hipóteses, existe o incentivo para preparar os alunos exclusivamente para a avaliação. Na pior das hipóteses, existe o incentivo para a trapaça. A implementação de um programa de remuneração variável com base em resultados de avaliações padronizadas de larga escala pode gerar um mal estar com professores. Como não existe almoço grátis, o dinheiro utilizado para o “prêmio por desempenho” não é um prêmio. É um dinheiro que poderia ser utilizado para aumentar a remuneração fixa. Mesmo não dizendo explicitamente, o gestor que implementa uma política de prêmio transmite a ideia de que a educação está ruim por causa da pouca dedicação dos professores. O professor que convive com escolas caindo aos pedaços, salas super lotadas, alunos indisciplinados, balas perdidas e esgoto a céu aberto não terá boa vontade com gestores que indiretamente culpam seu suposto desleixo pelo fracasso da educação. Se não forem utilizadas para políticas de remuneração variável e sim apenas como uma ferramenta de apoio pedagógico, as avaliações padronizadas poderiam ter mais aceitação de professores.

Geralmente, estados e municípios brasileiros que têm bom desempenho no Ideb e países que têm bom desempenho no Pisa são aqueles que valorizam as avaliações padronizadas. Mas, dããããã, é natural que redes de ensino que valorizam provas tenham sucesso quando o sucesso é medido por provas. Devemos também ter um olhar crítico sobre o “sucesso” que estados e municípios têm logo depois de implementar avaliação padronizada e remuneração variável. Muitas vezes, isto ocorre quando um governador ou prefeito quer colocar a educação como vitrine, aí ele implementa estas políticas junto com muitas outras políticas, como aumento de recursos para melhorar a infra-estrutura das escolas, criação de turmas de reforço e aumento da remuneração fixa dos professores. Aí, o “sucesso” pode ser consequência do pacote completo de políticas, e não especificamente da avaliação padronizada e da remuneração variável.

É importante mencionar Diane Ravitch, secretária assistente de educação durante o governo de George Bush (1989-1993) nos Estados Unidos. Em 2010, ela publicou The Death and Life of the Great American School System, em que demonstrou que não foram bem sucedidas as políticas que ela mesmo ajudou a implementar, como os prêmios vinculados aos resultados de avaliações padronizadas e o apoio público às charter schools. Depois de ter ajudado a implementar, ela rejeitou o modelo de business para a educação.

No Brasil, vemos defensores do modelo business, aquele que o primeiro parágrafo deste texto identificou como “primeiro grupo”, utilizando argumentos muito ruins. É habitual vê-los falando que “não há correlação entre quantidade de recursos investido e salários dos professores com o desempenho das redes de ensino”. Realmente, entre os países desenvolvidos, onde em todos eles os professores recebem salários que no mínimo são razoáveis, realmente não há correlação entre salário e desempenho no Pisa. Mas nos países subdesenvolvidos incluídos no Pisa, com destaque para o nosso, os salários são muito mais baixos e o desempenho é muito pior. É habitual vê-los falando também que enquanto o Distrito Federal tem o maior salários do Brasil e desempenho ruim no Ideb, Santa Catarina, que habitualmente lidera o Ideb, tem salário baixo. Mas é necessário lembrar que o Distrito Federal é todo ele uma área metropolitana, que lá são basicamente os pobres que estudam em escolas públicas, que Santa Catarina não tem uma única cidade muito grande, e que o desempenho de cidades grandes muitas vezes é pior. É comum ainda ver defensores do modelo business culpando os sindicatos de professores por serem corporativistas, e por pensarem apenas no bem estar da categoria e por atrapalharem a implementação do que seriam as boas políticas. Bom, sindicatos são sindicatos, não são fundações. É papel dos sindicatos defender seus associados. “Sindicato corporativista” é um pleonasmo. O corporativismo não é uma atividade criminosa. Integrantes de consultorias que tentam vender seus serviços aos governos, e que dizem que o papel das consultorias é importante, também estão sendo corporativistas.

Quando aparecem os resultados do Brasil no Pisa, horríveis como sempre, muitas vezes vemos na mídia comentaristas defendendo o aprofundamento do modelo business. Mas este modelo já é praticado há mais de dez anos em muitos estados brasileiros, e já deveria ter mostrado resultados. O estado de São Paulo, que tem 22% da população brasileira, implementou a bastante tempo a política de prêmio aos professores por desempenho dos alunos em avaliação padronizada.

Do segundo grupo, também há posicionamentos que precisam ser criticados. Alguns sindicatos de professores cometem equívoco quando utilizam a palavra de ordem “não à meritocracia” para lutar contra as políticas de remuneração variável. Isto porque meritocracia não se resume à remuneração variável. A admissão de professores por concurso é uma forma de meritocracia. E acredito que ninguém é contra a realização de concursos como forma de admitir professores. “Não à remuneração variável” seria um palavra de ordem bem melhor.

Integrantes do segundo grupo muitas vezes utilizam a Finlândia como exemplo de sucesso em que não há um currículo nacional rígido e que os professores têm bastante autonomia para elaborar seus próprios currículos. Mas é necessário evitar a confusão entre causa e efeito. Na verdade, a autonomia foi introduzida na década de 1990 depois que o país atingiu um patamar de excelência. Até aquele momento, havia sim um controle rígido do currículo (Porter-Magee, 2013).

O segundo grupo está muito relacionado com partidos de esquerda. Em A Vantagem Acadêmica de Cuba, o pesquisador Martin Carnoy (2009) observa que o sistema educacional cubano é o melhor da América Latina. Quer dizer então que os sindicatos brasileiros de professores defendem algo parecido com o modelo cubano, certo? Não é isso que ocorre. Em Cuba, a autonomia dos professores é bem pequena. O governo traça as instruções do que ensinar e como ensinar. No primeiro ciclo do Ensino Fundamental, há muito mais professores generalistas do que professores especialistas. Em geral, os sindicatos brasileiros de professores não defendem isso.

Para concluir, é importante dizer pensar em melhorias para a educação brasileira implica sair das duas trincheiras. E um alerta necessário: independentemente de quem mandar na educação brasileira nos próximos anos, se for o primeiro ou o segundo grupo, a educação brasileira está seriamente comprometida por causa da emenda constitucional do teto dos gastos.

 

Bibliografia

CARNOY, M. A vantagem acadêmica de Cuba. 2009.

PISA 2012 Results. OECD. 2012. http://www.oecd.org/pisa/keyfindings/pisa-2012-results.htm

PORTER-MAGEE, K. Real Lessons from Finland. Advancing educational excelence. 2013. https://edexcellence.net/commentary/education-gadfly-weekly/2013/january-3/real-lessons-from-finland.html

RAVITCH, D. The death and life of the great American school system. 2010. https://www.amazon.com/Death-Great-American-School-System/dp/0465025579

RODRIGUES, C. Pisa em seu devido lugar. Carta Educação. 2014. http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/pisa-em-seu-%E2%80%A8devido-lugar/

guerra educação brasil

Marx e a “natureza humana”

Por Frederico Lambertucci

 

A produção teórica marxiana em muito nos ajuda a pensar as questões ligadas ao sujeito. Pois então vamos lá, inclusive sobre sua “natureza”.

A primeira grande contribuição de Marx, nesse terreno, é enfrentar a ideia de que os seres humanos são indivíduos essencialmente maus, egoístas, mesquinhos, concorrenciais, etc. Na contramão disso, Marx demonstra que “A essência humana’ é o conjunto das relações sociais’. A alma do indivíduo é o nó das relações sociais. Ele terá a alma de sua sociedade, dos nós da sociedade em que ele vive, ou seja, o indivíduo tem, na sua interioridade como ‘alma’, a síntese que reproduz o conjunto social. Por isso a ideia do ser genérico: o ser que, como indivíduo, contém o gênero essencial do seu gênero” (CHASIN).

Nessa linha, Marx também rompe com a falsa oposição entre indivíduo e sociedade, posto que um indivíduo isolado da sociedade seja um homem somente em potência – imaginemos um bebê lançado na selva e que, por um milagre, consiga sobreviver: ele não terá acesso a uma linguagem articulada, sua própria capacidade de entender o seu ambiente e agir sobre ele se aproximará muito mais da forma como outros animais o fazem do que a de indivíduos em sociedade; enfim, ele não terá acesso ao imenso conjunto de conhecimentos acumulados pelo gênero humano. Por outro lado, a sociedade nada mais é do que o conjunto de indivíduos. Portanto, uma sociedade sem indivíduos é uma mera abstração (sem qualquer impacto na realidade).

Assim sendo, nas palavras de Chasin: “O indivíduo (homem) e sociedade (o conjunto dos homens) não são seres distintos, mas são momentos do mesmo ser”. “Na ontologia marxiana não há possibilidade de salvar o indivíduo se a própria sociedade não for salva. Não há possibilidade de salvar a sociedade se não salvarmos os indivíduos”. “Essas duas coisas estão numa interação tal que não é possível pensar na revolução social sem que haja reordenação das individualidades e não é possível pensar na reordenação das individualidades sem que haja reordenação social”. “Portanto, nem anjo, nem demônio, o homem é simplesmente social, e nos contornos desta sociabilidade, que é sua e à qual pertence esse ser ou animal social está naturalmente predisposto a interagir em cooperação com os demais de seu gênero. Virtude e vício, bondade ou maldade, são então avaliáveis pelo metro da efetivação ou desefetivação de atos interativos ou cooperativos; em outros termos, pelo critério da produção e reprodução conjugada da comunidade e da individualidade”.

Contudo, ainda resta uma grande questão: por que Maquiavel, Hobbes, dentre tantos outros, pensavam os seres humanos como essencialmente maus? Ou melhor, por que na nossa cotidianidade os indivíduos realmente apresentam uma série de vícios (egoísmo, mesquinhez, frieza, etc.)?

Isso ocorre posto que, para sobrevivermos numa dinâmica social fundada na escassez e na concorrência (em que, obrigatoriamente, há vencedores e derrotados; e estes pagam as suas derrotas com a própria vida), nós temos que lutar obstinadamente e incansavelmente pela nossa sobrevivência individual, o que significa reproduzir (conscientemente ou inconscientemente) as regras dessa dinâmica social. (“Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhe as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram”.) Portanto, for mesquinho, egoísta, etc. na sociabilidade capitalista nada mais é do que um mero mecanismo de sobrevivência, ou melhor, é a forma por meio da qual podemos garantir a nossa subsistência nessas condições de existência. (Nos termos de Lukács, o capitalismo deforma a nossa subjetividade.)

Assim, “É cristalino que Hobbes simplesmente universaliza o que é próprio à conduta humana no quadro do estado de escassez perfilado no modo de produção capitalista, em que as individualidades estão radicalmente apartadas das condições objetivas do trabalho. Sob esse aspecto toda sua sabedoria se resume como mais tarde virá a acontecer com os economistas clássicos, em “esquecer-se da diferença”, que igualiza e eterniza particularidades, tornando natural o que é produto de um dado modo circunscrito e datado de existência social” (CHASIN).

Dessa forma, fica claro também como toda a teorização e a luta de Marx não se dá contra individualidades, mas sim contra as condições sociais que criam essas individualidades deformadas. Por exemplo, olhando para as condições de existência do proletariado alemão, Marx afirma essa fração social “é, numa palavra, a perda total da humanidade e que, portanto, só pode ganhar a si mesma por um reganho total do homem”. Portanto, não se trata de uma luta contra as individualidades burguesas, mas contra um modo de produção que cria as condições de produção e reprodução de individualidades em condições extremamente favoráveis (burguesas) à custa de outras (muitas) individualidades. Ou seja, trata-se, por um lado, da eliminação de um modo de produção que cria condições de existência radicalmente distintas (ser burguês não é simplesmente ser materialmente mais rico, mas é também ter condições de ser humanamente mais rico – ter melhor acesso ao patrimônio científico, cultural e artístico acumulado pelo gênero humano), enquanto, por outro lado, trata-se da criação de condições para que todos os seres humanos possam viver e se desenvolver de forma plenamente humana.

Aquele que fizer menos força e tiver menos talento será, no padrão médio de uma sociedade comunista, incomparavelmente superior ao dos nossos tempos. Em suma, a eliminação da distinção entre trabalho braçal e intelectual significa que o trabalhador concebido é aquele capaz de se mover em qualquer campo intelectual. Não é que o intelectual de hoje, com todas as suas deficiências, se esvazie da posição de intelectual para adotar a posição rude e brusca dos iletrados. Comunismo não é o universo da igualização por baixo, é a diferenciação aguda por cima. Por isso que socialismo e comunismo não se constroem a partir da pobreza” (CHASIN).

karl marx p&b