Comparando Ciro Gomes e Marina Silva

Ciro Gomes e Marina Silva são dois possíveis candidatos para a eleição presidencial de 2018 (ou 2017?). Existe grande diferença entre ambos. Ciro é desenvolvimentista. Marina atualmente pode ser descrita como eco-liberal. Ciro foi grande incentivador da transposição do Rio São Francisco. Marina foi contra. Porém, há semelhanças entre ambos. Os dois foram ministros de Lula. Os dois disputam o mesmo eleitorado: aquele que já votou no PT, acha que o PT já deu o que tinha que dar, mas deseja uma alternativa que não seja nem pela direita, nem pela extrema-esquerda. Quem já tentou alcançar este público foram Cristóvam Buarque, Eduardo Campos e Eduardo Jorge, que acabaram se perdendo quando aceitaram passivamente o papel de linha auxiliar do PSDB.

Marina Silva tem um passado mais esquerdista do que Ciro Gomes. A política acreana foi seringalista do tempo do Chico Mendes, iniciou sua carreira política no PT. Foi senadora, foi ministra do Meio Ambiente de Lula, depois saiu do governo Lula, saiu do PT, saiu da esquerda, candidatou-se a presidente em 2010 pelo PV, em 2014 pelo PSB, e depois fundou a REDE. O político cearense iniciou sua carreira política no PDS, partido sucessor da Arena. Posteriormente, passou pelo PSDB, onde foi grande aliado de Tasso Jereissati. Foi governador do Ceará e Ministro da Fazenda, exercendo este cargo no tempo do lame duck do Itamar. Depois passou pelo PPS, depois pelo PSB, depois pelo PROS, e agora está no PDT.

Mas passado é passado e presente é presente. Atualmente, Ciro Gomes está à esquerda de Marina Silva. O programa de Ciro Gomes não é muito esquerdista. É simplesmente o novo desenvolvimentismo do Bresser Pereira. Um programa diferente tanto daquele implantado por Collor, Itamar, Fernando Henrique e Temer, quanto daquele implantado por Lula e Dilma. Tanto os governos neoliberais, quanto os governos petistas, permitiram a sobrevalorização da moeda brasileira. Os primeiros por consideraram que o livre mercado é o melhor regulador do câmbio, os segundos por verem o real forte como um meio para aumentar o poder de compra das classes mais baixas. A consequência disso foi que a indústria de transformação, que já teve participação de mais de 30% do PIB brasileiro nos anos 1980, passasse a ter participação em torno de 10% atualmente. Ciro Gomes pretende manter o real mais desvalorizado, para facilitar a reindustrialização. Ele também pretende diminuir os juros. Seu programa não é muito esquerdista porque para evitar que moeda estrangeira mais cara e juros mais baixos aumentem a inflação, serão necessárias políticas fiscal e salarial mais austera. Obviamente ele procura falar pouco dessa necessidade, para não espantar apoios de esquerda. Com mais dificuldade para redistribuir renda através do aumento da despesa pública, Ciro Gomes pretende redistribuir renda através do aumento da progressividade do sistema tributário, uma política desejada pela esquerda. A Marina Silva, por sua vez, tem um programa econômico mais liberal. Seu principal guru em economia é Eduardo Gianetti. Na campanha de 2014, defendeu a independência do Banco Central, algo que nem Aécio fez.

Apesar de seu programa não ser muito de esquerda, Ciro Gomes busca consistentemente uma base de apoio sólida dentro da esquerda. Por isso, apoiou duas vezes a eleição da Dilma, se posicionou veementemente contra seu impedimento, faz duras críticas a Eduardo Cunha, Michel Temer e políticos do PSDB, faz duras críticas ao MBL, elogia Guilherme Boulos e Jean Wyllys. Seu perfil no Facebook “Time Ciro Gomes” passa uma imagem de que ele é mais de esquerda do que realmente é. Enquanto isso, Marina Silva parece biruta de aeroporto. Tentou alguns apoios de esquerda na eleição presidencial de 2010. Apoiou alguns candidatos de esquerda nas eleições municipais de 2012. Posicionou-se à direita na eleição presidencial de 2014. Defendeu uma agenda econômica liberal, apoiou Aécio Neves no segundo turno. Quando fundou a REDE, recebeu nomes de esquerda, como Luiz Eduardo Soares, Randolfe Rodriguez e Alessandro Molon. Ao longo de 2015, não apoiou o impeachment, apoiou apenas a cassação da chapa e realização de nova eleição presidencial. Com o derretimento do PT, parecia que Marina Silva estava disposta a retornar para a esquerda e disputar com Ciro Gomes o espaço vazio deixado pelo PT. Eis que perto da votação do impeachment no plenário, Marina Silva, diferente da maioria de seu partido, decide apoiar o impeachment. Por diferenças de pensamento com a Marina sobre a política brasileira atual, Luiz Eduardo Soares deixou a REDE. Recentemente, Marina Silva defendeu as reformas previdenciária e trabalhista, sinalizando disposição de atrair um eleitorado mais direitista. Talvez este posicionamento tenha ocorrido porque Lula recuperou nas pesquisas e o PSDB teve desgaste de nomes importantes, além do desgaste de ser cabeça do governo Temer.

Ciro está à esquerda de Marina, mas ambos estão à direita do PT e à esquerda do bloco PMDB/PSDB/DEM. E por isso enfrentam o mesmo problema: a elevada polarização entre o PT e o anti-PT não deixa espaço para posições intermediárias. Na intensa polarização entre coxinhas e mortadelas, quem tenta não ser coxinha nem mortadela é chamado de mortadela por coxinhas e de coxinha por mortadelas. O PDT do Ciro Gomes teve algumas vitórias nas eleições municipais de 2016 no Ceará, incluindo a capital do estado, porque Ciro é uma grande força local. Mas a REDE da Marina teve um grande fiasco, ficando com menos de 1% na maioria das cidades, elegendo pouquíssimos vereadores no Brasil inteiro, e elegendo prefeito apenas em Macapá, onde o prefeito reeleito havia ganhado pelo PSOL em 2012. A Marta, que havia concorrido à prefeita de São Paulo pelo PMDB mas carregava a possibilidade de contar com pessoas que já trabalharam com ela nos tempos de PT, teve um desempenho pífio. No cenário de elevada polarização, é mais fácil uma terceira força na política brasileira estar à esquerda do PT/PCdoB ou à direita do PMDB/PSDB/DEM do que entre ambos. Jair Bolsonaro já tem dois dígitos nas pesquisas. O PSOL, no ano passado, conseguiu eleger uma razoável quantidade de vereadores e teve bom desempenho em várias cidades grandes. Isto porque o PSOL não pretende ser uma alternativa às coxinhas e mortadelas, e sim uma outra marca de mortadela.

A analogia do carrinho de sorvete na praia diz que da mesma forma que em uma praia com dois carrinhos de sorvete, os dois tenderão a se posicionar um ao lado do outro no meio da praia para ter maior clientela, em uma eleição, em uma eleição, os candidatos tenderão a se posicionar mais ao centro para ter mais chance de vencer. Esta analogia não está funcionando mais, nem no Brasil, nem no resto do mundo.

Percebendo que o cenário político brasileiro não comporta mais posições intermediárias, Ciro Gomes tenta passar uma imagem de ser mais de esquerda do que realmente é. Sabendo que a polarização entre PT e anti-PT não gera espaço para quem tenta ser meio termo, Ciro Gomes não pretende ser candidato em 2018 se Lula for. Caso Lula não seja candidato, Ciro quer ser candidato com apoio do PT. Ele deseja que Fernando Haddad seja seu vice. Ainda assim, é possível que no cenário sem candidatura de Lula, Ciro tenha mais dificuldades do que no Lula teria no cenário sem candidatura de Ciro. Muitos entusiastas de Lula não seriam grandes entusiastas de Ciro. Poderiam votar no Ciro, mas sem fazer militância. Por outro lado, Ciro herdaria a rejeição a Lula. Vimos nas eleições municipais de 2016 que a grande rejeição ao PT se espalhou até mesmo para candidatos que não têm o número 13. Marcelo Freixo herdou o apoio do PT mas também herdou a rejeição ao PT. Marta, mesmo dando flores para Janaína Pascoal, não escapou ilesa da rejeição ao PT.

Acredito que até agora ninguém discutiu esta possibilidade, mas se Lula for candidato e Ciro insistir em ser candidato, uma aliança Ciro/PSOL poderia trazer benefícios para ambos. Poderia ser pensada a possibilidade de uma chapa Ciro Gomes presidente, Chico Alencar (ou Marcelo Freixo) vice. O campo democrático e popular já não tem mais tanta popularidade no Brasil. Talvez seja melhor ser representado por duas do que por três candidaturas. Pode ser estranho um acordo de quem está à direita com quem está à esquerda do PT. Mas também teria sua lógica. O PT não polariza apenas no espectro político geral, mas também polariza dentro da própria esquerda. Tem gente dentro da esquerda que gosta muito do PT, mas também tem gente dentro da esquerda que não quer mais o PT. Toleraria tanto quem está mais, quanto quem está menos à esquerda. Chico Alencar ou Marcelo Freixo de vice na chapa de Ciro poderiam diminuir a resistência de grande parte da esquerda da Região Sudeste ao Ciro. Em compensação, o PDT poderia fornecer seu tempo de televisão para as candidaturas do PSOL para governador e senador do Rio de Janeiro. Apesar dessas vantagens para ambos, haveria também restrições em ambos. Ciro Gomes provavelmente vai querer buscar apoio entre empresários, e por isso não ia querer algum vice muito esquerdista. Uma aliança deste tipo não seria muito bem aceita por muita gente dentro do PSOL, que saiu do PT justamente por não concordar com a política de alianças. É possível ainda que tenha gente dentro do PSOL que considera Ciro pior do que Marina. Ou seja, é praticamente impossível que esta aliança aconteça.

Se tanto Lula, quanto Ciro Gomes, quanto Chico Alencar saírem candidatos, é muito provável que Ciro Gomes receba menos votos do que Chico Alencar na Região Sudeste.

Como foi dito no primeiro parágrafo, Ciro Gomes e Marina Silva têm posições muito diferentes, mas disputam um eleitorado semelhante. Por causa destes dois motivos, há uma grande possibilidade de haver uma guerra entre simpatizantes de ambos nas redes sociais até 2018. O Time Ciro Gomes já faz algumas críticas à Marina de vez em quando. Os negrianos brasileiro, que são um braço de apoio à Marina que algumas pessoas consideram de esquerda, não gostam de Ciro. Um deles já postou até mesmo um texto do Spotniks criticando o político do PDT.

capas ciro e marina

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