As duas explicações opostas e equivocadas para o resultado da eleição municipal do Rio de 2016

Depois do resultado do segundo turno da eleição para prefeito do Rio de Janeiro de 2016, em que Marcelo Crivella derrotou Marcelo Freixo por 59,4% a 40,6%, surgiram dentro da esquerda duas explicações opostas para a derrota por larga margem do candidato do PSOL. Alguns petistas consideraram que Freixo perdeu por grande diferença porque quis se afastar demais do PT. Alguns negrianos consideraram que Freixo perdeu por grande diferença porque quis se aproximar demais do PT. As duas explicações são opostas e ambas são falsas. Coloquei “alguns” em ambos os casos, porque nem todos de cada grupo pensaram da maneira descrita.

            Os petistas que relacionam à derrota de Freixo com seu afastamento do PT dizem que o candidato do PSOL, mesmo recebendo apoio declarado do PT e do PCdoB, preferiu evitar relacionar sua imagem com a imagem de líderes do PT e do PCdoB, e por isso ele teria tido um desempenho muito fraco nas Zonas Norte e Oeste, onde o Lula e a Dilma já receberam elevada votação. Um blog chegou até a usar mapas coloridos mostrando que Freixo ganhou a maioria das zonas que Aécio ganhou e que Crivella ganhou a maioria das zonas que Dilma ganhou (já discuti o problema da falácia ecológica com estes mapas no texto com link aqui). Quem defende esta versão considera que Lula tem muito apelo entre a população mais pobre, e que se Marcelo Freixo tivesse associado a sua imagem com a do Lula, ele poderia ter tido mais votos entre os mais pobres, que foi o segmento onde o candidato do PSOL teve desempenho pior.

Problemas desta versão: em 2016, o PT sofreu grandes derrotas no Brasil inteiro, mesmo entre a população mais pobre. O PCdoB teve algumas vitórias no interior do Maranhão por influência do governador, e não muito mais do que isso. A periferia da cidade de São Paulo, que dava grandes votações para Lula e Dilma, e que foi a grande responsável pela eleição de Fernando Haddad em 2012, rejeitou fortemente o prefeito que disputava a reeleição em 2016. O ABC paulista, que já foi uma fortaleza eleitoral do PT, viu o partido minguar em 2016. A candidata Alice Portugal, em Salvador, e o candidato Raul Pont, em Porto Alegre, fizeram campanhas fortemente vinculadas à imagem da Dilma e terminaram com um desempenho muito ruim. O candidato Alexandre Khalil, em Belo Horizonte, recusou publicamente um apoio do PCdoB no segundo turno. Se a vinculação da imagem com o Lula e com a Dilma rendesse apoio entre os pobres, a candidata do PCdoB no Rio de Janeiro Jandira Feghali, que fez uma campanha fortemente associada com as imagens de Lula e Dilma, teria tido um excelente desempenho entre os eleitores pobres. Não foi isso o que aconteceu. Ela terminou o primeiro turno com 3%, tendo desempenho muito ruim tanto entre os mais ricos, quanto entre os mais pobres.

Se em 2016 estava ruim para o PT até mesmo em lugares onde este partido já foi muito forte, pior seria no Rio de Janeiro, onde o partido nunca foi muito forte. Lula e Dilma já tiveram votação grande no segundo turno de eleições presidenciais, principalmente entre a população mais pobre, mas em eleições locais, o PT e seu aliado PCdoB habitualmente não têm grande expressão. O último prefeito de esquerda do Rio de Janeiro foi Saturnino Braga, que governou pelo PDT entre 1986 e 1988.

Alguns falam que “Freixo só tem voto na Zona Sul”. É verdade que é lá onde o candidato do PSOL tem melhor desempenho, mas ele, no primeiro turno de 2016, superou a candidata do PCdoB também na Zona Norte e na Zona Oeste. Parte dessa diferença pode ter decorrido da transferência de voto útil na reta final. Mas é importante lembrar que Freixo no primeiro turno de 2012 teve votação melhor do que Jandira Feghali em 2004 e 2008, Jorge Bittar em 2004 e Alessandro Molon em 2008 inclusive em áreas de baixa renda da cidade. Mesma comparação pode ser feita com Vladimir Palmeira e Lindberg Farias, que disputaram os governos estaduais em 2006 e 2014 respectivamente. Marcelo Freixo é o político de esquerda que tem melhor desempenho em eleições locais para o Poder Executivo no Rio de Janeiro desde o fim do período em que Benedita da Silva era competitiva.

Quando passou para o segundo turno, Marcelo Freixo recebeu o apoio do PT e do PCdoB da Jandira Feghali, e da Rede do Alessandro Molon. Declarou naquele momento que pretendia fazer uma campanha sobre assuntos locais, e que, portanto, não tinha interesse em fazer campanha junto com Lula e Marina Silva. Não se interessou pela presença de lideranças do PT e do PCdoB na televisão e em eventos públicos. O máximo que fez foi uma caminhada com o Eduardo Suplicy na Cinelândia. O vereador Reimont foi dos poucos nomes do PT que foram mostrados no comício na Lapa.

Marcelo Crivella votou a favor do impedimento da Dilma. Os deputados federais do PSOL votaram contra. Marcelo Freixo participou de atos públicos contra. Mesmo assim, não quis transformar o segundo turno em um plebiscito sobre o assunto. Até porque percebeu, pelo resultado do primeiro turno em outros municípios, que sua posição era a que tinha a maior probabilidade de perder.

Observando que o PT teve um desempenho pífio no Brasil inteiro nas eleições municipais de 2016, e que no Rio de Janeiro o PT é habitualmente fraco em eleições locais, é possível concluir que vincular demais a própria imagem com o PT mais subtrairia do que adicionaria votos. Por causa disso, Marcelo Freixo não quis ostensivamente se colocar ao lado do PT. Ainda assim, esteve mais próximo do PT em 2016 do que na sua primeira candidatura em 2012, quando o PT e o PCdoB estavam com Eduardo Paes. E foi mais enfático ao considerar o impedimento da Dilma um golpe do que Fernando Haddad, do partido da presidenta golpeada.

Por causa dessa aproximação entre Freixo e PT, mesmo que não ostensiva, os negrianos deram uma explicação oposta. Os negrianos, que são a turma do Idelber Avelar, do Raphael Tsavkko e do Giuseppe Cocco, são um estranho tipo de esquerda que almoça com black bloc e janta com comentarista tucano da Globo. Sua maior influência está nas redes sociais. Eles pensam que a causa da derrota foi o que eles consideram aproximação exagerada entre Freixo e PT. Para este grupo, a campanha de Marcelo Freixo deveria utilizar a onda anti-PT ao seu favor, explorando o longo período em que Marcelo Crivella foi aliado do PT, explorando o fato do Crivella ter sido Ministro da Pesca da Dilma, e o fato do PSOL nunca ter participado de governos do PT.

Esta explicação oposta também não se sustenta muito quando se observam resultados no Brasil inteiro. A Rede, que tem a simpatia dos negrianos, e é uma tentativa de representar algumas bandeiras progressistas, mas longe do PT, só conseguiu eleger prefeito em Macapá, um prefeito reeleito que havia sido eleito pela primeira vez no PSOL. Fora isso, a Rede teve desempenho pior do que o PSOL, e em algumas cidades, desempenho pior até mesmo do que o Partido Novo. Também é importante lembrar que Luciana Genro e Babá são políticos do PSOL, que diferente de Marcelo Freixo, batem forte no PT, e nem por isso contam com a simpatia de antipetistas.

Eleitores geralmente associam símbolos. Não adianta dizer que o Crivella participou do governo Dilma e o PSOL não, que o Crivella habitualmente fazia campanha junto com o PT e o PSOL não, porque entre Freixo e Crivella, o Marcelo que estava simbolicamente associado à Dilma era o Freixo, e não é campanha de marketing que faria mudar isso. Era inevitável que a impopularidade da Dilma contaminasse mais o Freixo do que o Crivella. PT e PSOL são partidos apoiados por sindicatos e movimentos sociais, defendem um grande papel do Estado na economia e têm ideologia igualitarista. Não adianta um querer brigar com o outro, que ainda assim um vai ser sempre associado ao outro. Por muito tempo, o PT foi símbolo de esquerda no Brasil. É óbvio que o desgaste do PT seria um desgaste de toda a esquerda. Não adianta falar “eu sou esquerda, mas não sou PT”, porque nem isso salva. Nem mesmo a Marta, que se candidatou pelo PMDB e deu flores para a Janaína Pascoal, escapou ilesa da onda anti-PT.

Uma vez que não adianta bater forte no PT, que naquele contexto, nem assim um candidato de esquerda ganharia grande apoio, foi melhor mesmo não ter arrumado treta dentro da esquerda. Assim evita perder o pequeno apoio do qual já dispõe. A razoável proximidade entre Freixo e PT garantiu a ele o apoio do que restou de máquina do PT, que inclui centrais sindicais e alguns periódicos.

Freixo declinou do primeiro turno de 2012 para o primeiro turno de 2016. Teve 914.082 votos em 2012, e 553.424 em 2016. Nesse meio de tempo, apareceu na campanha de Dilma no segundo turno em 2014. Como em 2012 ele estava mais distante do PT, e conseguiu ter apoio de alguns eleitores moderadamente antipetistas naquele ano, posicionamentos pró-PT que ele teve posteriormente pode ter afastado alguns eleitores. Porém, em agosto de 2016, não era possível Freixo entrar em uma máquina do tempo e rever estes posicionamentos.

Tanto petistas, quanto negrianos apoiaram Freixo no segundo turno, mas quando ele perdeu com larga margem, os dois grupos praticaram o Schadenfreude. Houve um grande clima de “não falei?”, semelhante ao que acontece quando um brasileiro vê a Seleção Canarinho ser eliminada da Copa do Mundo depois que o técnico não convocou seus jogadores favoritos. Petistas disseram “não falei que não ia dar certo se distanciar do PT?”. Negrianos disseram “não falei que não ia dar certo se aproximar do PT?”. Apesar de serem opostos, tanto petistas quanto negrianos podem ter um gostinho de satisfação com o Crivella. Petistas, porque o político do PRB foi aliado do PT por muito tempo. Negrianos, porque o político do PRB é criticado pela esquerda convencional por ser pentecostal assim como a Marina Silva, e os negrianos gostam dela.

Petistas e negrianos se prejudicam quando fazem “análises” não muito realistas, mas adocicadas para suas próprias posições políticas. É óbvio que na ação o militante não é isento, pois é militante quem tem um lado na política. Mas para fazer análise, é necessário ser isento sim, pois a melhor maneira de interferir na realidade é conhecendo bem a realidade, mesmo que ela seja dura. Este texto não está criticando opiniões, e sim leituras distorcidas da realidade. Seria plenamente respeitável se um petista dissesse “admito que Freixo poderia até perder por uma diferença maior que aquela que realmente se verificou, mas como ele já ia perder mesmo, poderia ter feito a campanha no segundo turno mais próxima do PT e do PCdoB, pois a unidade das forças de esquerda é importante no longo prazo, em um momento tão difícil em que vivemos”. O mesmo ocorreria se um negriano dissesse “admito que se afastar do PT e vincular Crivella ao PT não traria ganho eleitoral de curto prazo, mas construir uma esquerda independente do PT é importante para o longo prazo”. O que este texto critica é quem diz que Freixo poderia ganhar se tivesse se aproximado mais ou tivesse se afastado mais do PT, pois isto seria wishful thinking.

Então se não adiantaria nem se aproximar mais, nem se afastar mais do PT, o que Freixo poderia ter feito para ganhar aquele segundo turno? Resposta muito simples: nada. A esquerda sofreu derrotas no Brasil inteiro em 2016. Ainda assim, no Rio de Janeiro, um candidato de esquerda teve o melhor desempenho em eleição municipal desde 1992. Não havia muitos caminhos para ter ido mais longe. Os 1.163.662 votos que Freixo teve no segundo turno incluíram eleitores de extrema-esquerda que habitualmente votam no PSOL, petistas que compreenderam que o contexto não permitia maior aproximação do PT, e antipetistas moderados que escolheram Freixo como um mal menor, apesar da associação com o PT.

Além do contexto desfavorável à esquerda em 2016, é importante mencionar algumas fraquezas do PSOL, que não podem ser simplesmente eliminadas em apenas três meses de campanha, e que não serão resolvidas nem com aproximação, nem com distanciamento do PT. O PSOL foi um partido que por muito tempo se preocupou em ser “puro” e não em ser grande. Foi um partido de alguns setores organizados da sociedade (não considero “organizados” um defeito), e não do povão. Tem um discurso que não encontra muito respaldo fora das humanas das universidades públicas. O PSOL se contentou por muito tempo em fazer campanhas para o Executivo com o objetivo apenas de puxar o debate para a esquerda e de ajudar eleger alguns quadros para o Legislativo. Suas lideranças de destaque deram bastante ênfase à bandeiras como legalização do aborto, legalização de drogas leves, políticas para a comunidade LGBT, bandeiras importantes, mas que uma grande parcela da população brasileira não apoia. Quando surgiu a necessidade de disputar para valer uma eleição majoritária, não estava muito preparado. Outro problema do PSOL é a insistência no discurso pela ética na política, pelo combate à corrupção. Isto deve ser obrigação, e não bandeira partidária. Além disso, o PSOL tem problema com o lugar de fala sobre esta questão, pois muitas de suas principais lideranças se alinham com o PT em muitos momentos. Eu não considero errado o PSOL apoiar PT em segundo turno, a opção pelo que considera menos ruim não faz o PSOL culpado pelos atos ilícitos cometidos por políticos do PT, mas fica complicado se mostrar como o campeão da caça aos malfeitores.

E por que é tão importante discutir as causas do resultado da eleição municipal de 2016? Porque podem ser aprendidas lições para as eleições seguintes. Por causa da crise nacional do PT e por causa do longo período em que o PT fez parte das administrações estadual e municipal do PMDB no Rio de Janeiro, o PSOL acabou se tornando a maior força de esquerda no estado. O tamanho exige maiores responsabilidades. Vencer as duas maiores máfias da política fluminense, que são o peemedebismo e o pentecostalismo (crítica não à fé religiosa e sim à exploração política da religião), e conquistar o estado do Rio de Janeiro ou a prefeitura da capital não é tarefa fácil. Continuar se contentando em ter apenas “vitórias morais” ao estilo Cláudio Coutinho é continuar deixando o estado e o município do Rio de Janeiro na mão do PMDB ou dos pentecostais. É necessário conquistar o apoio de setores diferentes da sociedade. Se Tarcísio Motta ou Marcelo Freixo desejarem vencer uma eleição para o Executivo, não poderão se contentar em fazer campanha apenas para alguns nichos de esquerda. Um grande arco de apoios poderia incluir tanto o petismo, quando setores menos conservadores do tucanismo. E para isso, seria importante manter bom diálogo com ambos, mas não se posicionar completamente a favor com um dos grupos para não afastar completamente o outro.

 eleiçaõ 2016 rio

Links para outros textos que escrevi sobre o assunto

Análise que escrevi logo depois do resultado

Discussão sobre a geografia eleitoral da cidade do Rio de Janeiro em 2014 e 2016

Sobre o posicionamento político do Pirula

Quem está lendo este texto muito provavelmente sabe quem é o Pirula. Ele é um professor de Paleontologia da USP, que criou um canal de Youtube para divulgar as ciências naturais de forma didática para o público leigo, ficou pop, passou a discutir outros assuntos além das ciências naturais, e atualmente tem 122 mil seguidores no Facebook. Faz um ótimo trabalho, em um país onde a educação é tão ruim e a divulgação científica para leigos é tão rara.

Em um vídeo em que ele explicou seu posicionamento no espectro político esquerda/direita, ele se declarou “nem de esquerda, nem de direita”, disse que não concorda com a existência desses rótulos, e falou que quem é de esquerda o considera de direita e que quem é de direita o considera de esquerda. Transmitiu, sem dizer explicitamente, a ideia de que as pessoas que se definem como de esquerda ou de direita seriam mais burras do que as pessoas que se consideram “nem de esquerda, nem de direita”. Uma ideia equivocada.

Muitas pessoas de esquerda têm o hábito de dizer que “quem diz que não é nem de esquerda nem de direita, quem diz que essa divisão não existe, é de direita”. Muitos realmente são. Principalmente no tempo em que falar “direita” era mais feio do que falar “esquerda”. Mas não é possível dizer que 100% realmente seja. Eu, mesmo me considerando bem mais esquerdista do que o Pirula, considero-o levemente de esquerda. Isto foi aliás, o que o Political Compass mostrou, quando o paleontólogo fez o teste e mostrou no mencionado vídeo.

É muito fácil reconhecer o partido do Pirula. É o Partido da Ciência. Este partido tem algumas tretas com muita gente de esquerda. Mas os conflitos ocorrem principalmente contra grupos de direita, principalmente sobre evolução, aquecimento global e vacinas (embora também existam militantes anti-vacina de esquerda). É natural que o Partido da Ciência esteja levemente à esquerda no espectro político.

Não concordo com a ideia difundida pelo Political Compass de que a divisão esquerda/direita se refere apenas a questões econômicas, como igualdade/desigualdade, papel do Estado, e que para as questões sociais haveria um eixo vertical independente do eixo horizontal esquerda/direita. Questões sociais afetam sim o posicionamento no espectro esquerda/direita. Desde que foi criada a divisão esquerda/direita na época da Revolução Francesa, a defesa do secularismo fez parte das lutas de quem se posicionava à esquerda. Defender o secularismo significa se posicionar mais à esquerda. E o Partido da Ciência é um árduo defensor do secularismo. Algumas teorias científicas entram em choque com religiões tradicionais, portanto, quem defende a ciência defende que religiões não se intrometam no ensino público, uma vez que religiosos querem silenciar essas teorias científicas. A Teoria da Evolução é o exemplo mais conhecido de teoria científica que contradiz livros sagrados.

Aquecimento global não é a área de especialidade de um paleontólogo, mas por ter um conhecimento básico do conjunto de ciências naturais, por saber como se faz ciência e por ser um defensor da comunidade científica, Pirula entrou no debate sobre o tema. Ele rebateu o professor Ricardo Felício, negacionista da interferência humana no aquecimento global, pelo fato do professor ter defendido suas posições de forma nada científica. Sabemos que, em geral, quem defende o negacionismo em relação ao aquecimento global é a indústria de petróleo e o agronegócio, que têm influência muito maior nos partidos de direita do que nos partidos de esquerda.

Pirula tem visões progressistas sobre aborto e direitos dos LGBT. Esta não é necessariamente uma posição de esquerda, mas está relacionada com defesa do secularismo, que está mais relacionado com a esquerda.

Mesmo entrando nas questões de economia, quem defende arduamente a ciência não pode se posicionar muito à direita. Quem defende o progresso da ciência não tem a possibilidade de defender um Estado mínimo. Ciência depende de investimento em pesquisa básica. Tal atividade não tem como objetivo gerar imediatamente novos processos e produtos, e, portanto, não é atrativa para empresas privadas, que têm o lucro como objetivo. O investimento público é necessário. O Pirula chegou a dizer que nos Estados Unidos existe a prática do mecenato, em que empresas privadas investem em pesquisa básica sem esperar o retorno imediato, mas que isso não é suficiente. Pirula ainda chegou a criticar o governador Geraldo Alckmin por ter dito que a Fapesp financia pesquisas inúteis por não gerar novos bens como resultado. Pirula mencionou exemplos de pesquisas no passado que inicialmente eram “inúteis” (usando a produção de novos bens como critério de “utilidade”), mas que depois se tornaram úteis. Pirula também é contra a substituição de escolas públicas por vouchers para pagar escolas privadas, ideia defendida por seu amigo youtuber Daniel Fraga. E obviamente, Pirula se posicionou contra o Escola Sem Partido, até porque o movimento não se restringe a atacar apenas a “doutrinação comunista” como não poupa nem mesmo o conteúdo das ciências naturais que contradizem religiões. Nesta discussão, como era de se esperar, Pirula deu ênfase à parte das ciências naturais.

Embora o vídeo mencionado no início deste texto em que Pirula explica porque é “nem esquerda, nem direita” não seja dos melhores, ele tem alguns bons vídeos até mesmo sobre assuntos que não são da área de especialidade dele. Fez um vídeo bem didático sobre a questão de Israel versus árabes. Seu vídeo sobre ódio de etnia, gênero e orientação sexual e possíveis atitudes equivocadas de movimentos de minorias também foi muito bom. Ao mesmo tempo denunciou o que tem por trás do “anti politicamente correto”, e fez alguns bons alertas sobre como grupos identitaristas. Raramente Pirula discute partidos políticos, mas em um vídeo que ele fez sobre o PT, ele fez várias críticas ao partido que poderiam ter sido feita mais por militantes do PSOL e da REDE do que por militantes do PSDB e do DEM. Embora uma ou outra parte desse vídeo mostra alguma ingenuidade sobre o funcionamento da política.

Em alguns vídeos, Pirula apresentou opiniões contrárias àquelas habitualmente apresentadas por pessoas de esquerda. O paleontólogo é bastante crítico das políticas de inclusão de pessoas de baixa renda nas universidades feitas por governos do PT, como cotas e ampliação de vagas, por considerar que entraram muitos estudantes com dificuldade de aprendizado, o que poderia comprometer a qualidade do ensino. Este é um dos posicionamentos do Partido da Ciência que mais entra em conflito com partidos de esquerda. Pirula não tem rejeição ao veganismo, mas rejeita os argumentos utilizados por Gary Yourofsky, por considera-los desonestos. Muitos vegans são de esquerda e isto poderia provocar um choque. Mas, ao menos, entre os muitos vegans de esquerda que eu conheço, nenhum utiliza os argumentos do Gary Yourofsky.

Pirula começou a publicar vídeos no Youtube por volta de 2010. Os vídeos em que Pirula defendem posições mais parecidas com aquelas que pessoas de esquerda defendem são mais recentes. Pode ter ocorrido o seguinte: foi crescendo uma direita tão chucra ao longo da década de 2010, que tratava coisas que seriam apenas bom senso (que o Pirula defende) como “coisas de esquerda” que acabou induzindo quem defende essas coisas realmente se aproximar da esquerda. Uma direita muito chucra e barulhenta pode acabar empurrando para a esquerda pessoas que simplesmente têm bom senso.

Um momento em que muitos perfis de redes sociais passaram a tratar Pirula como esquerdidíssimo foi quando ele fez um vídeo falando das patacoadas do Olavo de Carvalho sobre os “fetos abortados no adoçante da Pepsi”. Pirula se limitou a criticar Olavo de Carvalho por causa deste assunto. Mas para os discípulos, qualquer um que mexeu com o Mestre deles é comunista.

Por fim, considero que Pirula, mesmo não sendo comunista, anarquista, socialista, mesmo não estando ligado a partidos de esquerda, movimentos sociais e sindicatos, mesmo manifestando opiniões negativas sobre estes grupos algumas vezes, mesmo se auto-declarando “nem de esquerda, nem de direita”, pode ser considerado levemente (bem levemente) de esquerda pelo seu progressismo em questões sociais, pela defesa do secularismo, pelas suas críticas ao obscurantismo conservador, pela sua defesa do investimento na ciência.

E temos que lembrar que o público alvo do Pirula é a classe média brasileira, que se deslocou bastante para a direita na década de 2010, e que parecer esquerdista nesses tempos pode pegar mal. Então, é possível até que ele tente passar uma imagem de menos esquerdista para evitar perder público.

Eu tenho nove contatos no Facebook que seguem o Canal do Pirula. Oito deles são de esquerda, um é de direita.

pirula

O que Olavo de Carvalho escreveu sobre integralismo, Franco, Salazar e Mussolini

Quem propaga a tese de que o nacional socialismo seria de esquerda é aquele tipo de direitista rudimentar que acha que tudo que é “de direita” tem que ser necessariamente bom e que por isso é necessário se livrar do filho feio. Trata-se do raciocínio do tipo “minha noiva nunca se atrasa porque se ela se atrasar não será mais minha noiva”. Conforme já foi discutido neste texto (clique no link se desejar ler), há dois tipos de propagadores da tese de que o nacional socialismo seria de esquerda. O primeiro tipo é o que acha que ser de direita significa defender a liberdade, e que portanto nenhuma tirania poderia ser de direita. (um completo desconhecimento da história da divisão esquerda/direita). O segundo tipo é o que gosta de ditaduras “moderadas” de direita e utiliza o “Hitler foi eleito” como desculpa para justificar golpes contra governos de esquerda eleitos pelo povo na América Latina.

Em geral, quem faz parte do segundo tipo tem Olavo de Carvalho como maior referência intelectual, embora quem faz parte do primeiro também pode ter. Olavo de Carvalho nunca falou bem do Hitler (ufa), mas vejam uma coletânea do que ele escreveu sobre integralismo, Franco, Salazar e Mussolini. Todas as citações têm link para o respectivo texto, para evitar reclamações como “você tirou a frase do contexto”.

 

Integralismo

“O integralismo foi um fascismo abrandado e inofensivo, um ultranacionalismo sem racismo, que celebrava a glória de índios, negros e caboclos. Entre os líderes do movimento havia, é verdade, um anti-semita declarado, o excêntrico historiador e cronista Gustavo Barroso, maluco não desprovido de talento, várias vezes presidente da Academia Brasileira. Mas, quando começou para valer a perseguição aos judeus na Alemanha e todos os bem-pensantes do mundo fizeram vistas grossas, foi do chefe supremo do integralismo, Plínio Salgado, que partiu uma das primeiras mensagens de protesto que chegaram à mesa do Führer (e na certa foi direto para o lixo).”

“Os escritos de Plínio hoje nos parecem melosos e de um hiperbolismo delirante. Politicamente, seu único pecado é a completa tolice. Moralmente, são inatacáveis. Ademais, o integralismo era católico – e sob o nazismo os católicos, convém não esquecer, eram o terceiro grupo na lista dos candidatos ao campo de concentração, depois dos judeus e dos politicamente inconvenientes”

“Reale ante os medíocres”, Jornal da Tarde, 21 de dezembro de 2000

http://www.olavodecarvalho.org/semana/reale.htm

Comentário: Muito provavelmente os bem-pensantes do mundo não fizeram vistas grossas, apenas suas mensagens de protesto simplesmente não chegariam à mesa do Führer, e foi engraçado Olavo ter escrito “politicamente inconvenientes” ao invés de “comunistas”

 

Franco

“É notório que o general rebelde obteve ajuda técnica e militar da Itália e da Alemanha, mas sem nada ceder a esses incômodos fornecedores (os únicos de que dispunha), defendendo a soberania do seu país com obstinada teimosia, timbrando em manter a neutralidade espanhola durante a II Guerra contra todas as pressões de Hitler e Mussolini e ainda concedendo abrigo a judeus foragidos, no mínimo como agradecimento à comunidade judaica de Valencia que ajudara a financiar sua rebelião.”

“Umas ditaduras são mais iguais do que as outras: Brasil – Mentira IV”, Diário do Comércio, 27 de abril de 2009

http://www.olavodecarvalho.org/semana/090427dc.html

“Moralmente falando, Francisco Franco, Charles de Gaule ou Humberto Castelo Branco, homens de uma idoneidade pessoal exemplar, foram infinitamente superiores a Fidel Castro ou Che Guevara, assassinos em série de seus próprios amigos, isto para não falar de Mao Dzedong, estuprador compulsivo.”

“Causas sagradas”, Diário do Comércio, 17 de janeiro de 2012

http://www.olavodecarvalho.org/semana/120117dc.html

Comentário: Por que o exemplarmente idôneo e moral Generalíssimo só recebeu ajuda da Itália e da Alemanha? Talvez por afinidade ideológica com Hitler e Mussolini, não é mesmo? E por que um país destruído em uma guerra civil entraria em outra grande guerra logo depois? Por que o Generalíssimo seria burro em além de tudo entrar no lado que iria perder? Ainda houve voluntários espanhóis para ajudar os nazistas na União Soviética

 

Salazar

“Não tenho a menor dúvida de que Antonio de Oliveira Salazar foi um homem honesto e um grande administrador. Mas o salazarismo foi infectado da mesma ambição de controle burocrático total que é característica do movimento revolucionário.”

Bruno Garschagen entrevista Olavo de Carvalho, janeiro de 2008

http://www.olavodecarvalho.org/textos/0801entrevista.html

Comentário: Comovente, o Professor Doutor era honesto e grande administrador mas se tinha algum defeito o defeito só poderia ser porque foi infectado pelo “movimento revolucionário”

 

Mussolini

“Mussolini, no começo, era de fato o único antinazista entre os governantes europeus, os quais, isolando-o, acabaram por forçá-lo a mudar de lado, o que acabou por destrui-lo. Também é fato que ele nunca foi anti-semita, mas isso não o absolve do patente racismo antinegro que o impediu de enxergar que a invasão da Abissínia era tão injusta e imoral quanto a da Áustria.”

Postagem no Facebook, 1 de setembro de 2016

“Até Mussolini saiu do governo quando a monarquia mandou. Mas o PT não sai nem quando o povo inteiro manda.”

Postagem no Facebook, 14 de novembro de 2015

Na maior parte das nações onde imperou, o fascismo tendeu antes a um autoritarismo brando, que não só limitava o uso da violência aos seus inimigos armados mais perigosos, mas tolerava a coexistência com poderes hostis e concorrentes. Na própria Itália de Mussolini o governo fascista aceitou a concorrência da monarquia e da Igreja – o que já basta, na análise muito pertinente de Hannah Arendt, para excluí-lo da categoria de “totalitarismo”.

“Mentira temível”, 8 de agosto de 2008

http://www.olavodecarvalho.org/semana/080808dc.html

Comentário: O líder italiano obedecia um rei. Que democrata!

 

Ditaduras anticomunistas em geral

“Vocês já notaram que SÓ nos países católicos foi possível oferecer uma resistência séria ao comunismo? Espanha, Portugal, Itália, Hungria, Polônia, México, Filipinas, o próprio Brasil, mostraram que Antônio Gramsci tinha razão ao declarar que o principal inimigo do comunismo não era o capitalismo e sim a Igreja Católica. O Brasil só se tornou vulnerável ao comunismo quando a Igreja no nosso país se corrompeu e grande parte da população perdeu a fé. Ou expulsamos os traidores de dentro da Igreja, ou será impossível salvar o Brasil.”

Postagem no Facebook, 18 de setembro de 2013

Comentário: Os Estados Unidos e os países do norte da Europa, de maioria protestante, foram as democracias liberais mais estáveis e tiveram partidos comunistas minúsculos. Muitos países do sul, do leste da Europa e da América Latina, de maioria católica, tiveram grandes partidos comunistas e também ditaduras anticomunistas. Parece que o auto-intitulado filósofo prefere as ditaduras anticomunistas às democracias liberais.

 

 

Lendo tudo isso, é possível perceber a grande ginástica argumentativa que é exigida para manter o raciocínio de que tudo o que é de direita é bom, e que tudo que é ruim tem que ser necessariamente de esquerda. É um contorcionismo retórico muito grande ao mesmo tempo considerar que o nacional socialismo era de esquerda e ter como referência intelectual um “pensador” que defende virtudes de líderes e movimentos nacionalistas anticomunistas que existiram na mesma época do nacional-socialismo e que tiveram colaboração.

É dura a vida de quem odeia a esquerda, fala que Hitler era de esquerda, mas que concorda com quem exalta o Generalíssimo Francisco Franco, aquele que chegou ao poder com a ajuda da Legião Condor do esquerdista Hitler.

pedrinho

O que teve no XXII Encontro Nacional de Economia Política

Foi realizado na Unicamp entre os dias 30 de maio e 2 de junho de 2017 o XXII Encontro Nacional de Economia Política (ENEP), promovido pela Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP). A SEP é uma “sociedade civil sem fins lucrativos, que tem por objetivo primordial garantir um espaço ampliado de discussão a todas as correntes teóricas e áreas de trabalho que entendam a economia como uma ciência inescapavelmente social e que, por isso, tenham na crítica ao mainstream seu elemento comum”. http://www.sep.org.br/ Predomina na SEP a visão marxista, embora também haja espaço para outras correntes heterodoxas, como a pós-keynesiana, a estruturalista e a institucionalista.

Desde que foi criada na década de 1990, a SEP promove anualmente o ENEP. A cada ano, uma faculdade de economia sedia o evento. Em 2017, assim como já aconteceu em 2005, o evento ocorreu no Instituto de Economia da Unicamp. É neste instituto que o evento está mais “em casa”, pois é onde existe a maior quantidade de professores que divergem do mainstream do pensamento econômico. O encontro é composto por sessões ordinárias, em que há mesas onde mestrandos, doutorandos e professores apresentam artigos, e por painéis, onde convidados ilustres discutem assuntos do momento.

O tema principal do XXII ENEP foi óbvio, dado o contexto político e econômico em que vivemos atualmente. Foi sobre a restauração neoliberal que está ocorrendo na América Latina. A descrição oficial foi a seguinte:

“A conjuntura atual da economia mundial recoloca o neoliberalismo como a resposta que o capitalismo constrói para a saída de sua própria crise. Esta conjuntura já explicitada no plano mundial se exacerba no atual momento tanto para a América Latina como para a economia brasileira. A Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) convida pesquisadores, acadêmicos, profissionais, estudantes e demais interessados para participar do XXII Encontro Nacional de Economia Política (XXII ENEP) para refletir criticamente sobre essa conjuntura. O tema deste ano, “Restauração Neoliberal e as Alternativas na Periferia em Tempos de Crise do Capitalismo”, tem esse objetivo, e será tratado por diferentes temáticas cobrindo os tópicos do ajuste fiscal, das reformas estruturais, privatizações e seus impactos sobre os direitos sociais, perspectivas socioeconômicas, e momento político de nossa sociedade.” http://www.sep.org.br/

Conforme nós sabemos, houve o esgotamento dos governos progressistas e uma guinada à direita em grande parte da América Latina. Há um ressurgimento do neoliberalismo como ideologia dominante e como orientação das políticas. Os assuntos discutidos no XXII ENEP em muitas sessões e em muitos painéis foram a crise dos governos progressistas, discutindo-se causas diferentes daquelas apontadas pela mídia comercial, as políticas neoliberais que os novos governos vem implementando, possíveis alternativas a essas políticas e as possibilidades de construir forças políticas para reagir à restauração neoliberal.

Sobre o Brasil, foi falado em muitas mesas que os governos Lula e Dilma (2003-2016) tentaram fazer políticas em que todos sairiam ganhando, aumentando o consumo dos pobres sem atacar as causas estruturais da elevada concentração de renda e riqueza existente no país. Houve aumento do salário mínimo, aumento de recursos aplicados em programas sociais, aumento de crédito, mas a estrutura tributária foi mantida baseada na predominância dos impostos sobre consumo, em detrimento dos impostos sobre renda e patrimônio, e o tripé macroeconômico foi preservado. Não houve reforma política para diminuir o poder econômico nas eleições nem houve reforma dos meios de comunicação para desoligopolizar as empresas de mídia. O projeto do governo Temer, que chegou ao poder com o golpe parlamentar de 2016, é desmantelar o Estado de Bem Estar Social criado pela Constituição de 1988. Sobre quais políticas alternativas ao neoliberalismo e sobre como criar um ambiente político para reverter o quadro atual, havia entre os apresentadores mais dúvidas do que certezas.

O Painel I teve os professores Pedro Paulo Zaluth Bastos (Unicamp) e Vanessa Petrelli Correa (UFU) falando sobre a restauração neoliberal e as alternativas de política econômica. O Painel II teve Julio Gambina (Sepla, Argentina) e Antonio Elias (Sepla, Uruguai) falando sobre os limites e o esgotamento dos governos progressistas na América Latina. O Painel III teve os professores Plínio Arruda Sampaio Jr. e Leda Paulani falando dos enfrentamentos das políticas de ajuste.

Houve várias mesas de sessões ordinárias. Eu vi algumas. Entre os artigos apresentados que destaco estão “A nova gestão pública como forma de controle do capital financeiro sobre o Estado no capitalismo contemporâneo” de Diogo Santos (UFMG), que rebateu a ideia de que a nova gestão pública seria ideologicamente neutra e que seria uma necessidade. “A guerra de todos contra todos: a crise brasileira”, escrito por diversos autores da UFRJ, UFBA e UFRGS discutiu a crise política brasileira de 2013 a 2017 tentando analisar as motivações e comportamentos de diversos agentes, enfatizando o fato de que os responsáveis pela Operação Lava Jato são defensores de um “liberalismo difuso”, mas não desejam desestabilizar apenas os partidos vistos como antiliberais, e sim todo o sistema político. “Lucratividade e distribuição: a origem econômica da crise política brasileira” de Adalmir Marquetti (PUC-RS), Cecília Hoff (PUC-RS) e Alessandro Miebach (PUC-SP) e “Unsustaintability in wage-led growth regimes: the case of the Brazilian economy in the 2000s” de Felipe Figueiredo Câmara abordaram os limites das políticas dos governos Lula e Dilma de elevar os salários de base. O artigo “A política social e os limites do experimento desenvolvimentista: o período 2003-2016″ de Eduardo Fagnani (Unicamp) e André Calixtre (IPEA) tratou da construção do Estado de Bem Estar Social brasileiro a partir da Constituição de 1988, e enfocou o período dos governos do PT, mostrando o que teve de continuidade em relação à era neoliberal, o que houve de tentativa de mudança, as falhas e as atuais ameaças ao Estado de Bem Estar Social, com o atual governo. “The limits of income redistribution and growth in Brazil, 1992-2013” de Pedro Mendes Loureiro (SOAS, University of London) tratou da evolução do comportamento da renda de diversas classes sociais brasileiras no período mencionado, mostrou como houve uma desconcentração de renda entre assalariados, mas a renda do capital permaneceu intocada, e como não foi possível manter por um período prolongado uma redistribuição de renda com base apenas em aumento de salários de base. “O novo debate sobre cobrança de mensalidades nas universidades federais brasileiras” de Fernando Pereira (ICSA) e Wolfgang Lenk (UFU) refutou os argumentos mais utilizados pelos defensores da cobrança nas universidades federais, mostrando que as famílias dos estudantes das federais não são mais muito mais ricas do que a média da população brasileira, e que a cobrança não é consenso fora do Brasil.

O caderno de resumos de todos os artigos apresentados encontra-se no site da SEP. http://www.sep.org.br/ev/xxii-enep/p/programacao

Apesar do XXII ENEP ter sido em sua maior parte sobre a crise econômica e as mudanças políticas na América Latina e mais especificamente no Brasil, destaque também foi dado aos 150 anos da publicação do primeiro volume de “O Capital”, de Karl Marx. Um painel especial com a presença de Michael Heinrich (Universidade de Berlim) e Luiz Gonzaga Belluzzo (Unicamp) abordou a história, a importância que “O Capital” teve nos últimos 150 anos, e as interpretações que é possível ter da obra. É importante lembrar que apenas o primeiro volume do Capital foi publicado quando Marx estava vivo, que o segundo e o terceiro volume foram publicados por Engels a partir dos manuscritos de Marx, que houve poucos esforços de difusão da obra no final do século XIX e na primeira metade do século XX, que foi uma obra muito influente, mas lida integralmente por poucos, e que deu margem a muitas interpretações. Eventos como esse ajudam a aumentar o interesse pela obra.

enep XXII

Frente independente – um caminho possível para a esquerda brasileira (2)

Por James Connolly do Santa

No texto anterior eu falei das delícias de se constituir uma frente progressista independente. É chegada a hora, no entanto, de falar das dores que tal empreitada trará à tona se levarmos a ideia à frente.
Quem assistiu “A Vida de Brian”, clássico da trupe de humor inglesa Monty Python, sabe que uma das especialidades da esquerda é rachar. As diferenças de visão e de prática são um dos principais motivos para o fim da famosa “unidade da esquerda®”. A menor divergência é motivo para que um grupo se separe lançando anátemas um ao outro, e achando que vai conseguir fazer a revolução® sozinho. Eu mesmo já passei por discussões homéricas com meus pares de outros grupos (outras questões, de ordem pessoal, estavam envolvidas no meio, mas não cabe falar delas neste espaço).
Aí vem a pessoa e me diz: “Bicho, tu tá doido? Tu vai querer colocar diferentes grupos de esquerda num mesmo espaço de militância, reflexão e ação? Quero só ver o que tu vai fazer quando o petista xingar o psolista de esquerda-que-a-direita-gosta, quando o cara de movimentos sociais arrotar pro filiado a partido que quem fez 2013 foi ele, quando o stalino disser pro trosko que vai fuzilá-lo e o anarquista chegar baixando o sarrafo nos dois…”
Bem, o fato é que é preciso constatar algumas coisas, e eu venho percebendo isso inclusive com uma certa relutância de minha parte, mas a realidade é uma criatura que pouco se importa com os nossos melindres. A primeira é que ninguém vai fazer mudanças sendo a Frente de Libertação Democrática Popular da Judeia (aquele grupo de um homem só no filme). A segunda é que em algum momento alguém vai terminar discordando de você no meio da ação. A terceira é que é preciso ter consciência de que você é um ser humano, que você erra, e que quando alguém te aponta um erro ela não está, necessariamente, sendo escrota com você e se tornando sua inimiga para sempre.
Nos tais Círculos de Estudos e Atividades, penso que a lógica do racha pode ser hackeada reconhecendo que os seus membros constituintes possuirão liberdade para agir como quiser. Se você quiser gritar “Lylamito” na rua, vá lá, você pode gritar. Você quer criticar a galera que age como o cara da hipótese anterior, vá em frente. Quer colocar essas questões em pauta no seu círculo para votação, beleza. A questão é que não necessariamente estas atitudes serão endossadas pelo pleno, em votação democrática, e que na verdade é melhor que não haja endosso explícito, especialmente fora do período eleitoral, nem críticas que tenham um cunho desrespeitoso, que tenham como intenção apenas diminuir alguém por suas opções ou sair se pavoneando com uma superioridade moral que, no fundo, não serve pra muita coisa.
O que vai dar a liga a esse pessoal é o tal do programa mínimo, sob o qual as atividades dos círculos obrigatoriamente ocorrerão, sem um milímetro pra fora (neste caso, a ação ficaria por conta do indivíduo). É a definição daquilo no qual as pessoas concordam e que possam levar a frente com suficiente conforto. Essas questões normalmente surgem em momentos de discussão coletiva e podem ser facilmente identificadas como pontos de partida, e se escolhe avançar. É um processo longo, mas a identificação dos pontos em comum surge com muito estudo e compartilhamento de ideias, cabendo ao grupo o fomento desta cultura e a coibição de práticas puramente destrutivas. Alguns grupos políticos chamam isso de consenso progressivo.
Os membros dos círculos definem seus programas mínimos e se empenham, com toda energia, em fazê-los avançar. Da mesma forma, é possível que representantes de círculos, em plenárias estaduais e nacionais, definam seus programas mínimos e façam avançá-los. Mas se o pleno de um círculo sinta que a divergência de um ou outro membro à interpretação é inconciliável com suas posições, pode fazer um chamamento a que este faça uma autocrítica ou mesmo que o desligue das
atividades. Por mais que tenhamos boa vontade, nem sempre é possível acolher qualquer coisa em nome de bom-mocismo.
Para que isso ocorra, é preciso um ambiente democrático e atuante. Reuniões periódicas, frequentes e utilizando-se dos recursos que a tecnologia proporciona (videoconferência, fórums, etc.) auxiliam neste sentido. Um periódico, como um blog, uma newsletter eletrônica ou até mesmo um fanzine mimeografado (!), ajudam não só na propagação de ideias para fora como também internamente, em que textos com teses teóricas ou de atuação podem ser compartilhados e fomentar um ambiente de debate respeitoso.
Finalmente, gostaria de deixar um aviso contra o “democratismo”, ou seja, aquela tentativa de tentar definir absolutamente tudo através de uma eleição que pode se mostrar por vezes redundante. Atividades de caráter operacional, como por exemplo comunicação, tesouraria, logística, podem ser muito bem deixadas com membros ou comissões eleitas especificamente para aquele fim. Caso contrário, corre-se o risco de paralisação e perda de dinamismo.

frente independente 2