As duas explicações opostas e equivocadas para o resultado da eleição municipal do Rio de 2016

Depois do resultado do segundo turno da eleição para prefeito do Rio de Janeiro de 2016, em que Marcelo Crivella derrotou Marcelo Freixo por 59,4% a 40,6%, surgiram dentro da esquerda duas explicações opostas para a derrota por larga margem do candidato do PSOL. Alguns petistas consideraram que Freixo perdeu por grande diferença porque quis se afastar demais do PT. Alguns negrianos consideraram que Freixo perdeu por grande diferença porque quis se aproximar demais do PT. As duas explicações são opostas e ambas são falsas. Coloquei “alguns” em ambos os casos, porque nem todos de cada grupo pensaram da maneira descrita.

            Os petistas que relacionam à derrota de Freixo com seu afastamento do PT dizem que o candidato do PSOL, mesmo recebendo apoio declarado do PT e do PCdoB, preferiu evitar relacionar sua imagem com a imagem de líderes do PT e do PCdoB, e por isso ele teria tido um desempenho muito fraco nas Zonas Norte e Oeste, onde o Lula e a Dilma já receberam elevada votação. Um blog chegou até a usar mapas coloridos mostrando que Freixo ganhou a maioria das zonas que Aécio ganhou e que Crivella ganhou a maioria das zonas que Dilma ganhou (já discuti o problema da falácia ecológica com estes mapas no texto com link aqui). Quem defende esta versão considera que Lula tem muito apelo entre a população mais pobre, e que se Marcelo Freixo tivesse associado a sua imagem com a do Lula, ele poderia ter tido mais votos entre os mais pobres, que foi o segmento onde o candidato do PSOL teve desempenho pior.

Problemas desta versão: em 2016, o PT sofreu grandes derrotas no Brasil inteiro, mesmo entre a população mais pobre. O PCdoB teve algumas vitórias no interior do Maranhão por influência do governador, e não muito mais do que isso. A periferia da cidade de São Paulo, que dava grandes votações para Lula e Dilma, e que foi a grande responsável pela eleição de Fernando Haddad em 2012, rejeitou fortemente o prefeito que disputava a reeleição em 2016. O ABC paulista, que já foi uma fortaleza eleitoral do PT, viu o partido minguar em 2016. A candidata Alice Portugal, em Salvador, e o candidato Raul Pont, em Porto Alegre, fizeram campanhas fortemente vinculadas à imagem da Dilma e terminaram com um desempenho muito ruim. O candidato Alexandre Khalil, em Belo Horizonte, recusou publicamente um apoio do PCdoB no segundo turno. Se a vinculação da imagem com o Lula e com a Dilma rendesse apoio entre os pobres, a candidata do PCdoB no Rio de Janeiro Jandira Feghali, que fez uma campanha fortemente associada com as imagens de Lula e Dilma, teria tido um excelente desempenho entre os eleitores pobres. Não foi isso o que aconteceu. Ela terminou o primeiro turno com 3%, tendo desempenho muito ruim tanto entre os mais ricos, quanto entre os mais pobres.

Se em 2016 estava ruim para o PT até mesmo em lugares onde este partido já foi muito forte, pior seria no Rio de Janeiro, onde o partido nunca foi muito forte. Lula e Dilma já tiveram votação grande no segundo turno de eleições presidenciais, principalmente entre a população mais pobre, mas em eleições locais, o PT e seu aliado PCdoB habitualmente não têm grande expressão. O último prefeito de esquerda do Rio de Janeiro foi Saturnino Braga, que governou pelo PDT entre 1986 e 1988.

Alguns falam que “Freixo só tem voto na Zona Sul”. É verdade que é lá onde o candidato do PSOL tem melhor desempenho, mas ele, no primeiro turno de 2016, superou a candidata do PCdoB também na Zona Norte e na Zona Oeste. Parte dessa diferença pode ter decorrido da transferência de voto útil na reta final. Mas é importante lembrar que Freixo no primeiro turno de 2012 teve votação melhor do que Jandira Feghali em 2004 e 2008, Jorge Bittar em 2004 e Alessandro Molon em 2008 inclusive em áreas de baixa renda da cidade. Mesma comparação pode ser feita com Vladimir Palmeira e Lindberg Farias, que disputaram os governos estaduais em 2006 e 2014 respectivamente. Marcelo Freixo é o político de esquerda que tem melhor desempenho em eleições locais para o Poder Executivo no Rio de Janeiro desde o fim do período em que Benedita da Silva era competitiva.

Quando passou para o segundo turno, Marcelo Freixo recebeu o apoio do PT e do PCdoB da Jandira Feghali, e da Rede do Alessandro Molon. Declarou naquele momento que pretendia fazer uma campanha sobre assuntos locais, e que, portanto, não tinha interesse em fazer campanha junto com Lula e Marina Silva. Não se interessou pela presença de lideranças do PT e do PCdoB na televisão e em eventos públicos. O máximo que fez foi uma caminhada com o Eduardo Suplicy na Cinelândia. O vereador Reimont foi dos poucos nomes do PT que foram mostrados no comício na Lapa.

Marcelo Crivella votou a favor do impedimento da Dilma. Os deputados federais do PSOL votaram contra. Marcelo Freixo participou de atos públicos contra. Mesmo assim, não quis transformar o segundo turno em um plebiscito sobre o assunto. Até porque percebeu, pelo resultado do primeiro turno em outros municípios, que sua posição era a que tinha a maior probabilidade de perder.

Observando que o PT teve um desempenho pífio no Brasil inteiro nas eleições municipais de 2016, e que no Rio de Janeiro o PT é habitualmente fraco em eleições locais, é possível concluir que vincular demais a própria imagem com o PT mais subtrairia do que adicionaria votos. Por causa disso, Marcelo Freixo não quis ostensivamente se colocar ao lado do PT. Ainda assim, esteve mais próximo do PT em 2016 do que na sua primeira candidatura em 2012, quando o PT e o PCdoB estavam com Eduardo Paes. E foi mais enfático ao considerar o impedimento da Dilma um golpe do que Fernando Haddad, do partido da presidenta golpeada.

Por causa dessa aproximação entre Freixo e PT, mesmo que não ostensiva, os negrianos deram uma explicação oposta. Os negrianos, que são a turma do Idelber Avelar, do Raphael Tsavkko e do Giuseppe Cocco, são um estranho tipo de esquerda que almoça com black bloc e janta com comentarista tucano da Globo. Sua maior influência está nas redes sociais. Eles pensam que a causa da derrota foi o que eles consideram aproximação exagerada entre Freixo e PT. Para este grupo, a campanha de Marcelo Freixo deveria utilizar a onda anti-PT ao seu favor, explorando o longo período em que Marcelo Crivella foi aliado do PT, explorando o fato do Crivella ter sido Ministro da Pesca da Dilma, e o fato do PSOL nunca ter participado de governos do PT.

Esta explicação oposta também não se sustenta muito quando se observam resultados no Brasil inteiro. A Rede, que tem a simpatia dos negrianos, e é uma tentativa de representar algumas bandeiras progressistas, mas longe do PT, só conseguiu eleger prefeito em Macapá, um prefeito reeleito que havia sido eleito pela primeira vez no PSOL. Fora isso, a Rede teve desempenho pior do que o PSOL, e em algumas cidades, desempenho pior até mesmo do que o Partido Novo. Também é importante lembrar que Luciana Genro e Babá são políticos do PSOL, que diferente de Marcelo Freixo, batem forte no PT, e nem por isso contam com a simpatia de antipetistas.

Eleitores geralmente associam símbolos. Não adianta dizer que o Crivella participou do governo Dilma e o PSOL não, que o Crivella habitualmente fazia campanha junto com o PT e o PSOL não, porque entre Freixo e Crivella, o Marcelo que estava simbolicamente associado à Dilma era o Freixo, e não é campanha de marketing que faria mudar isso. Era inevitável que a impopularidade da Dilma contaminasse mais o Freixo do que o Crivella. PT e PSOL são partidos apoiados por sindicatos e movimentos sociais, defendem um grande papel do Estado na economia e têm ideologia igualitarista. Não adianta um querer brigar com o outro, que ainda assim um vai ser sempre associado ao outro. Por muito tempo, o PT foi símbolo de esquerda no Brasil. É óbvio que o desgaste do PT seria um desgaste de toda a esquerda. Não adianta falar “eu sou esquerda, mas não sou PT”, porque nem isso salva. Nem mesmo a Marta, que se candidatou pelo PMDB e deu flores para a Janaína Pascoal, escapou ilesa da onda anti-PT.

Uma vez que não adianta bater forte no PT, que naquele contexto, nem assim um candidato de esquerda ganharia grande apoio, foi melhor mesmo não ter arrumado treta dentro da esquerda. Assim evita perder o pequeno apoio do qual já dispõe. A razoável proximidade entre Freixo e PT garantiu a ele o apoio do que restou de máquina do PT, que inclui centrais sindicais e alguns periódicos.

Freixo declinou do primeiro turno de 2012 para o primeiro turno de 2016. Teve 914.082 votos em 2012, e 553.424 em 2016. Nesse meio de tempo, apareceu na campanha de Dilma no segundo turno em 2014. Como em 2012 ele estava mais distante do PT, e conseguiu ter apoio de alguns eleitores moderadamente antipetistas naquele ano, posicionamentos pró-PT que ele teve posteriormente pode ter afastado alguns eleitores. Porém, em agosto de 2016, não era possível Freixo entrar em uma máquina do tempo e rever estes posicionamentos.

Tanto petistas, quanto negrianos apoiaram Freixo no segundo turno, mas quando ele perdeu com larga margem, os dois grupos praticaram o Schadenfreude. Houve um grande clima de “não falei?”, semelhante ao que acontece quando um brasileiro vê a Seleção Canarinho ser eliminada da Copa do Mundo depois que o técnico não convocou seus jogadores favoritos. Petistas disseram “não falei que não ia dar certo se distanciar do PT?”. Negrianos disseram “não falei que não ia dar certo se aproximar do PT?”. Apesar de serem opostos, tanto petistas quanto negrianos podem ter um gostinho de satisfação com o Crivella. Petistas, porque o político do PRB foi aliado do PT por muito tempo. Negrianos, porque o político do PRB é criticado pela esquerda convencional por ser pentecostal assim como a Marina Silva, e os negrianos gostam dela.

Petistas e negrianos se prejudicam quando fazem “análises” não muito realistas, mas adocicadas para suas próprias posições políticas. É óbvio que na ação o militante não é isento, pois é militante quem tem um lado na política. Mas para fazer análise, é necessário ser isento sim, pois a melhor maneira de interferir na realidade é conhecendo bem a realidade, mesmo que ela seja dura. Este texto não está criticando opiniões, e sim leituras distorcidas da realidade. Seria plenamente respeitável se um petista dissesse “admito que Freixo poderia até perder por uma diferença maior que aquela que realmente se verificou, mas como ele já ia perder mesmo, poderia ter feito a campanha no segundo turno mais próxima do PT e do PCdoB, pois a unidade das forças de esquerda é importante no longo prazo, em um momento tão difícil em que vivemos”. O mesmo ocorreria se um negriano dissesse “admito que se afastar do PT e vincular Crivella ao PT não traria ganho eleitoral de curto prazo, mas construir uma esquerda independente do PT é importante para o longo prazo”. O que este texto critica é quem diz que Freixo poderia ganhar se tivesse se aproximado mais ou tivesse se afastado mais do PT, pois isto seria wishful thinking.

Então se não adiantaria nem se aproximar mais, nem se afastar mais do PT, o que Freixo poderia ter feito para ganhar aquele segundo turno? Resposta muito simples: nada. A esquerda sofreu derrotas no Brasil inteiro em 2016. Ainda assim, no Rio de Janeiro, um candidato de esquerda teve o melhor desempenho em eleição municipal desde 1992. Não havia muitos caminhos para ter ido mais longe. Os 1.163.662 votos que Freixo teve no segundo turno incluíram eleitores de extrema-esquerda que habitualmente votam no PSOL, petistas que compreenderam que o contexto não permitia maior aproximação do PT, e antipetistas moderados que escolheram Freixo como um mal menor, apesar da associação com o PT.

Além do contexto desfavorável à esquerda em 2016, é importante mencionar algumas fraquezas do PSOL, que não podem ser simplesmente eliminadas em apenas três meses de campanha, e que não serão resolvidas nem com aproximação, nem com distanciamento do PT. O PSOL foi um partido que por muito tempo se preocupou em ser “puro” e não em ser grande. Foi um partido de alguns setores organizados da sociedade (não considero “organizados” um defeito), e não do povão. Tem um discurso que não encontra muito respaldo fora das humanas das universidades públicas. O PSOL se contentou por muito tempo em fazer campanhas para o Executivo com o objetivo apenas de puxar o debate para a esquerda e de ajudar eleger alguns quadros para o Legislativo. Suas lideranças de destaque deram bastante ênfase à bandeiras como legalização do aborto, legalização de drogas leves, políticas para a comunidade LGBT, bandeiras importantes, mas que uma grande parcela da população brasileira não apoia. Quando surgiu a necessidade de disputar para valer uma eleição majoritária, não estava muito preparado. Outro problema do PSOL é a insistência no discurso pela ética na política, pelo combate à corrupção. Isto deve ser obrigação, e não bandeira partidária. Além disso, o PSOL tem problema com o lugar de fala sobre esta questão, pois muitas de suas principais lideranças se alinham com o PT em muitos momentos. Eu não considero errado o PSOL apoiar PT em segundo turno, a opção pelo que considera menos ruim não faz o PSOL culpado pelos atos ilícitos cometidos por políticos do PT, mas fica complicado se mostrar como o campeão da caça aos malfeitores.

E por que é tão importante discutir as causas do resultado da eleição municipal de 2016? Porque podem ser aprendidas lições para as eleições seguintes. Por causa da crise nacional do PT e por causa do longo período em que o PT fez parte das administrações estadual e municipal do PMDB no Rio de Janeiro, o PSOL acabou se tornando a maior força de esquerda no estado. O tamanho exige maiores responsabilidades. Vencer as duas maiores máfias da política fluminense, que são o peemedebismo e o pentecostalismo (crítica não à fé religiosa e sim à exploração política da religião), e conquistar o estado do Rio de Janeiro ou a prefeitura da capital não é tarefa fácil. Continuar se contentando em ter apenas “vitórias morais” ao estilo Cláudio Coutinho é continuar deixando o estado e o município do Rio de Janeiro na mão do PMDB ou dos pentecostais. É necessário conquistar o apoio de setores diferentes da sociedade. Se Tarcísio Motta ou Marcelo Freixo desejarem vencer uma eleição para o Executivo, não poderão se contentar em fazer campanha apenas para alguns nichos de esquerda. Um grande arco de apoios poderia incluir tanto o petismo, quando setores menos conservadores do tucanismo. E para isso, seria importante manter bom diálogo com ambos, mas não se posicionar completamente a favor com um dos grupos para não afastar completamente o outro.

 eleiçaõ 2016 rio

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Análise que escrevi logo depois do resultado

Discussão sobre a geografia eleitoral da cidade do Rio de Janeiro em 2014 e 2016

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