Sobre o posicionamento político do Pirula

Quem está lendo este texto muito provavelmente sabe quem é o Pirula. Ele é um professor de Paleontologia da USP, que criou um canal de Youtube para divulgar as ciências naturais de forma didática para o público leigo, ficou pop, passou a discutir outros assuntos além das ciências naturais, e atualmente tem 122 mil seguidores no Facebook. Faz um ótimo trabalho, em um país onde a educação é tão ruim e a divulgação científica para leigos é tão rara.

Em um vídeo em que ele explicou seu posicionamento no espectro político esquerda/direita, ele se declarou “nem de esquerda, nem de direita”, disse que não concorda com a existência desses rótulos, e falou que quem é de esquerda o considera de direita e que quem é de direita o considera de esquerda. Transmitiu, sem dizer explicitamente, a ideia de que as pessoas que se definem como de esquerda ou de direita seriam mais burras do que as pessoas que se consideram “nem de esquerda, nem de direita”. Uma ideia equivocada.

Muitas pessoas de esquerda têm o hábito de dizer que “quem diz que não é nem de esquerda nem de direita, quem diz que essa divisão não existe, é de direita”. Muitos realmente são. Principalmente no tempo em que falar “direita” era mais feio do que falar “esquerda”. Mas não é possível dizer que 100% realmente seja. Eu, mesmo me considerando bem mais esquerdista do que o Pirula, considero-o levemente de esquerda. Isto foi aliás, o que o Political Compass mostrou, quando o paleontólogo fez o teste e mostrou no mencionado vídeo.

É muito fácil reconhecer o partido do Pirula. É o Partido da Ciência. Este partido tem algumas tretas com muita gente de esquerda. Mas os conflitos ocorrem principalmente contra grupos de direita, principalmente sobre evolução, aquecimento global e vacinas (embora também existam militantes anti-vacina de esquerda). É natural que o Partido da Ciência esteja levemente à esquerda no espectro político.

Não concordo com a ideia difundida pelo Political Compass de que a divisão esquerda/direita se refere apenas a questões econômicas, como igualdade/desigualdade, papel do Estado, e que para as questões sociais haveria um eixo vertical independente do eixo horizontal esquerda/direita. Questões sociais afetam sim o posicionamento no espectro esquerda/direita. Desde que foi criada a divisão esquerda/direita na época da Revolução Francesa, a defesa do secularismo fez parte das lutas de quem se posicionava à esquerda. Defender o secularismo significa se posicionar mais à esquerda. E o Partido da Ciência é um árduo defensor do secularismo. Algumas teorias científicas entram em choque com religiões tradicionais, portanto, quem defende a ciência defende que religiões não se intrometam no ensino público, uma vez que religiosos querem silenciar essas teorias científicas. A Teoria da Evolução é o exemplo mais conhecido de teoria científica que contradiz livros sagrados.

Aquecimento global não é a área de especialidade de um paleontólogo, mas por ter um conhecimento básico do conjunto de ciências naturais, por saber como se faz ciência e por ser um defensor da comunidade científica, Pirula entrou no debate sobre o tema. Ele rebateu o professor Ricardo Felício, negacionista da interferência humana no aquecimento global, pelo fato do professor ter defendido suas posições de forma nada científica. Sabemos que, em geral, quem defende o negacionismo em relação ao aquecimento global é a indústria de petróleo e o agronegócio, que têm influência muito maior nos partidos de direita do que nos partidos de esquerda.

Pirula tem visões progressistas sobre aborto e direitos dos LGBT. Esta não é necessariamente uma posição de esquerda, mas está relacionada com defesa do secularismo, que está mais relacionado com a esquerda.

Mesmo entrando nas questões de economia, quem defende arduamente a ciência não pode se posicionar muito à direita. Quem defende o progresso da ciência não tem a possibilidade de defender um Estado mínimo. Ciência depende de investimento em pesquisa básica. Tal atividade não tem como objetivo gerar imediatamente novos processos e produtos, e, portanto, não é atrativa para empresas privadas, que têm o lucro como objetivo. O investimento público é necessário. O Pirula chegou a dizer que nos Estados Unidos existe a prática do mecenato, em que empresas privadas investem em pesquisa básica sem esperar o retorno imediato, mas que isso não é suficiente. Pirula ainda chegou a criticar o governador Geraldo Alckmin por ter dito que a Fapesp financia pesquisas inúteis por não gerar novos bens como resultado. Pirula mencionou exemplos de pesquisas no passado que inicialmente eram “inúteis” (usando a produção de novos bens como critério de “utilidade”), mas que depois se tornaram úteis. Pirula também é contra a substituição de escolas públicas por vouchers para pagar escolas privadas, ideia defendida por seu amigo youtuber Daniel Fraga. E obviamente, Pirula se posicionou contra o Escola Sem Partido, até porque o movimento não se restringe a atacar apenas a “doutrinação comunista” como não poupa nem mesmo o conteúdo das ciências naturais que contradizem religiões. Nesta discussão, como era de se esperar, Pirula deu ênfase à parte das ciências naturais.

Embora o vídeo mencionado no início deste texto em que Pirula explica porque é “nem esquerda, nem direita” não seja dos melhores, ele tem alguns bons vídeos até mesmo sobre assuntos que não são da área de especialidade dele. Fez um vídeo bem didático sobre a questão de Israel versus árabes. Seu vídeo sobre ódio de etnia, gênero e orientação sexual e possíveis atitudes equivocadas de movimentos de minorias também foi muito bom. Ao mesmo tempo denunciou o que tem por trás do “anti politicamente correto”, e fez alguns bons alertas sobre como grupos identitaristas. Raramente Pirula discute partidos políticos, mas em um vídeo que ele fez sobre o PT, ele fez várias críticas ao partido que poderiam ter sido feita mais por militantes do PSOL e da REDE do que por militantes do PSDB e do DEM. Embora uma ou outra parte desse vídeo mostra alguma ingenuidade sobre o funcionamento da política.

Em alguns vídeos, Pirula apresentou opiniões contrárias àquelas habitualmente apresentadas por pessoas de esquerda. O paleontólogo é bastante crítico das políticas de inclusão de pessoas de baixa renda nas universidades feitas por governos do PT, como cotas e ampliação de vagas, por considerar que entraram muitos estudantes com dificuldade de aprendizado, o que poderia comprometer a qualidade do ensino. Este é um dos posicionamentos do Partido da Ciência que mais entra em conflito com partidos de esquerda. Pirula não tem rejeição ao veganismo, mas rejeita os argumentos utilizados por Gary Yourofsky, por considera-los desonestos. Muitos vegans são de esquerda e isto poderia provocar um choque. Mas, ao menos, entre os muitos vegans de esquerda que eu conheço, nenhum utiliza os argumentos do Gary Yourofsky.

Pirula começou a publicar vídeos no Youtube por volta de 2010. Os vídeos em que Pirula defendem posições mais parecidas com aquelas que pessoas de esquerda defendem são mais recentes. Pode ter ocorrido o seguinte: foi crescendo uma direita tão chucra ao longo da década de 2010, que tratava coisas que seriam apenas bom senso (que o Pirula defende) como “coisas de esquerda” que acabou induzindo quem defende essas coisas realmente se aproximar da esquerda. Uma direita muito chucra e barulhenta pode acabar empurrando para a esquerda pessoas que simplesmente têm bom senso.

Um momento em que muitos perfis de redes sociais passaram a tratar Pirula como esquerdidíssimo foi quando ele fez um vídeo falando das patacoadas do Olavo de Carvalho sobre os “fetos abortados no adoçante da Pepsi”. Pirula se limitou a criticar Olavo de Carvalho por causa deste assunto. Mas para os discípulos, qualquer um que mexeu com o Mestre deles é comunista.

Por fim, considero que Pirula, mesmo não sendo comunista, anarquista, socialista, mesmo não estando ligado a partidos de esquerda, movimentos sociais e sindicatos, mesmo manifestando opiniões negativas sobre estes grupos algumas vezes, mesmo se auto-declarando “nem de esquerda, nem de direita”, pode ser considerado levemente (bem levemente) de esquerda pelo seu progressismo em questões sociais, pela defesa do secularismo, pelas suas críticas ao obscurantismo conservador, pela sua defesa do investimento na ciência.

E temos que lembrar que o público alvo do Pirula é a classe média brasileira, que se deslocou bastante para a direita na década de 2010, e que parecer esquerdista nesses tempos pode pegar mal. Então, é possível até que ele tente passar uma imagem de menos esquerdista para evitar perder público.

Eu tenho nove contatos no Facebook que seguem o Canal do Pirula. Oito deles são de esquerda, um é de direita.

pirula

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