Como hackear o sistema político brasileiro nas eleições de 2018

James Connolly do Santa

Boa parte das tragédias que vimos de 2015 pra cá, entre outros motivos, pode ter sua origem traçada no fato de que a direita brasileira soube se aproveitar de uma situação em grande medida vantajosa. O impeachment e as reformas não seriam possíveis se não houvesse um PT burro o suficiente para negligenciar a importância de uma base sólida no legislativo e na sociedade, e confiar em “mercenários”; e um PSDEMB blindado pela mídia e pelo Judiciário, e bastante ladino para reconhecer e fazer uso de um núcleo insatisfeito com a aliança com o PT dentro do PMDB. Este, por sua vez, soube se utilizar do centrão fisiológico de sempre (o “PMDB fora do PMDB”) e de elementos da extrema direita que angariaram visibilidade e votos nas eleições de 2014. Deu no que deu.

Para 2018, considerando que tenhamos uma eleição nesta data, é possível reverter boa parte dos estragos que o grupo que atualmente está no poder fez neste período. O solo está fértil e arado pra isso: é a profunda impopularidade de seus principais atores e de suas políticas, rejeitadas por pelo menos 70% da população nas sondagens mais otimistas para a atual camarilha. Mas para isso é preciso fazer tudo certo, e não tenho certeza de que os principais caciques da esquerda institucional brasileira estariam dispostos a fazer isso. Seguem minhas sugestões do que se pode fazer:

 – Foco no legislativo: ficou claro, após o impeachment, que quem tem o Executivo não tem nada. O verdadeiro objetivo da esquerda e associados (como por exemplo os trabalhistas verdadeiros) deve ser o de ocupar pelo menos 45% da Câmara dos Deputados, se não quiser que nenhum absurdo enviado por qualquer governo conservador passe. Por mais conservador que um presidente seja, ele vai precisar negociar se quiser que a mínima legislação ordinária passe ou não seja vetada;

– O fim do sectarismo: o grande objetivo deve ser o de evitar que essas reformas passem, então uma espécie de “pacto de não-agressão” deve ser estabelecido entre o grupo que gravita em torno do PT e a oposição institucional de esquerda. E porque não ceder espaço até mesmo pra notórios desconhecidos nas Assembleias Legislativas, por exemplo? Afinal, no frigir dos ovos ambos vão votar mais ou menos do mesmo jeito contra iniciativas antipopulares e pró-população. É possível ser feito um acordo mínimo sobre até onde vai a parceria, deixando a crítica livre a partir de determinado ponto. Em determinados estados, como o RJ, por exemplo, o PSOL tem mais chances de eleger deputados do que o PT e seus aliados. O inverso se aplica a, digamos, SP. Uma análise fria e racional de cada estado deveria definir em quem os esforços deveriam ser centrados; – A escolha das apostas: a análise de cenário nos estados depende necessariamente da força local que cada grupo político possui em cada região. Voltando para os dois maiores colégios eleitorais: quem tem mais chances de conseguir votação massiva no RJ, Freixo ou Benedita (com a vantagem de que o psolista manteria sua proteção contra tentativas de assassinato da milícia)? E em SP, quem teria mais votos, Lula ou Safatle?

– O uso dos medalhões: aqui reside o ponto mais polêmico de minha sugestão. É inegável que gente como Lula, Marina ou Ciro possuem plenas capacidades de vencer uma eleição primária. Mas de que adianta esse pessoal ganhar se não tem base no Congresso? Qualquer um, até Marina com seus “notáveis”, estará sujeito a tomar um impeachment nas fuças se entregar o legislativo ao fisiologismo. E verdade seja dita, as figuras citadas são maiores que seus respectivos partidos e não possuem grandes nomes nos estados, onde poderiam levar 4, 5 cadeiras de uma tacada só. Então, para ter sucesso nessa tática, talvez seja preciso cortar na carne e ceder as candidaturas majoritárias a nobres desconhecidos (ma non troppo) e engordar as bancadas estaduais em Brasília. Por mim, Marina poderia se candidatar no AC (ou em SP, onde abocanharia uma boa quantidade de tilelismo urbano), Lula poderia se candidatar em SP (ou em PE, onde provavelmente levaria 80% da bancada estadual) e Ciro poderia se candidatar no CE. Tudo isso poderia estar inserido em uma ampla campanha, suprapartidária e suprachapa, chamada “Ajude a barrar quem ferra os trabalhadores”. Ela teria o mesmo teor da campanha (https://www.tactical2017.com/) que, supostamente, teria ajudado os trabalhistas a ter uma de suas maiores votações nos últimos anos nas eleições inglesas deste ano. Ela identificava qual candidato de oposição tinha mais chance de vencer uma eleição em cada distrito eleitoral e recomendava voto por lá. Fizeram uma tabela com as opções e a disponibilizaram no Google Docs, recebendo atualizações diárias. Tal medida seria de grande ajuda aqui no Brasil.

hackeando voto

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