O que dizer no elevador sobre assuntos quentes do momento?

Uma das principais finalidades de jornais virtuais como Trincheiras e Voyager e de páginas no Facebook como Anarcomixugos e Meu Professor de História é transmitir conteúdo ao público geral. Grande parte deste conteúdo transmitido pelos veículos mencionados consiste em rebater mitos, lendas, equívocos e confusões difundidos por militantes virtuais de direita e por colunistas de direita presentes na mídia empresarial brasileira. Os criadores do Trincheiras, Voyager, Anarcomixugos e Meu Professor de História perceberam que o que é publicado na Internet forma opinião, mesmo que o conteúdo publicado seja o mais absurdo possível. Por isso, não é possível desprezar a Internet como meio de debate político. Mas normalmente, os jornais virtuais mencionados e até mesmo as páginas mencionadas publicam textos razoavelmente longos, cujas ideias demoram para fixar na cabeça das pessoas.

Por isso, este texto se dedica a mostrar ideias resumidas sobre vários assuntos muito debatidos nas redes sociais. Muitas dessas ideias resumidas são versões curtas de textos publicados na Trincheiras e na Voyager. Como estão escritas em poucas palavras, estas ideias são fáceis de entender, memorizar e até mesmo responder rapidamente para pessoas que perguntam sobre esses temas dentro de um elevador. Houve tentativa de fazer com que as ideias pudessem ser apresentadas no curto tempo em que o elevador* se desloca rumo ao andar de destino.

Junto com cada texto pequeno, tem um link para textos maiores com explicações mais detalhadas.

É livre a confecção de memes com os textos pequenos, desde que eles não sejam modificados sem prévia autorização.

 

* o elevador foi só um dos muitos exemplos de momentos em que encontramos pessoas por tempo curto. Também pode ser corredor, mesa de refeição, fila, sala de espera, entorno da cafeteira ou do bebedouro…

 

Afastamento da Dilma

 

Por que você fala que o impedimento da Dilma foi um golpe? O impedimento não está na Constituição?

 

A Constituição prevê a possibilidade de impedimento de ocupantes de cargos públicos em caso de crimes de responsabilidade, há uma lei bastante ampla e vaga sobre crimes de responsabilidade. Mas mesmo que exista base legal, que Dilma tenha feito algumas coisas que podem ser enquadradas como crime de responsabilidade, e olha que alguns juristas questionam até isso, é muito óbvio que os principais mobilizadores a favor do impedimento da Dilma estavam cagando para esses tais “crimes de responsabilidade”. Basta ver os discursos deles, que sempre relacionavam a derrubada da Dilma com “a necessidade de fazer as reformas”. A motivação do impedimento da Dilma foi claramente impor um governo que implementasse a agenda de candidatos derrotados nas eleições, que implementasse uma agenda que jamais seria aprovada pelas urnas. A derrubada da Dilma pode ser considerada um golpe parlamentar porque o legislativo fez algo que não deveria existir no Brasil, que tem um sistema presidencialista: dar um voto de desconfiança e trocar o chefe do executivo. Podemos fazer analogias. Sabemos que a lei proíbe pais e mães darem bebida alcoólica para adolescentes, mas muitos bons pais e mães de família fazem isso. Vamos supor que em uma cidade, um desafeto de um juiz é flagrado pelo vizinho dando cerveja para seus filhos adolescentes. Aí o juiz resolve condenar (talvez até o juiz dê uma cervejinha para seus filhos adolescentes). Fica óbvio que a motivação da condenação é vingança e não cumprir a lei, mesmo que esta lei exista. Outra analogia. No serviço púbico, um chefe odeia um servidor. Aí ele resolve transferi-lo para uma repartição localizada em uma região bem rural, longe de grandes centros urbanos. A transferência, mesmo teoricamente legal, pode ser contestada na Justiça caso se comprove a motivação de vingança.

http://www.trincheiras.com.br/2016/04/a-falta-de-legitimidade-de-um-governo-michel-temer/

 

 

Mas e o Collor em 1992, também foi golpe?

 

Mais ou menos. Também a denúncia do crime de responsabilidade foi muito fraca, também o verdadeiro “crime de responsabilidade” foi a economia ruim e a popularidade baixa, também o legislativo se comportou como se tivesse dando um voto de desconfiança do parlamentarismo, mas teve duas diferenças fundamentais. A primeira é que não houve grande ruptura no governo Itamar Franco em comparação com o governo Collor. Michel Temer foi colocado no lugar da Dilma, para fazer um governo igual seria o do Aécio se ele tivesse sido eleito, mas o Itamar não foi colocado no lugar do Collor para fazer um governo igual seria o do Lula. A segunda é que Itamar Franco, diferente de Michel Temer, se comportou como um vice-presidente deve se comportar e ficou sentado aguardando sua vez, não fez corpo a corpo pelos votos na Câmara a favor do impedimento.

http://www.trincheiras.com.br/2016/09/545-milhoes-de-votos-de-2014-e-372-milhoes-de-votos-de-1993-foram-jogados-no-lixo/

 

 

Mas o que aconteceu no Brasil em 2016 não foi bem diferente do que aconteceu no Chile em 1973, quando um governo foi derrubado à força e foi instalado um regime autoritário logo a seguir?

 

Sim, foram acontecimentos diferentes. Mas tanto terremoto 4 na Escala Richter, quanto terremoto 9 nesta escala são chamados de terremoto.

 

 

Mas se a Dilma tivesse continuado o Brasil não teria caído em um buraco ainda mais profundo?

 

Se fosse assim, isso seria bastante benéfico para a antiga oposição de direita, composta por PSDB e DEM, que nesse caso ganharam com muita facilidade as eleições de 2018. Mas se esses dois partidos não quiseram esperar até 2018, muito provavelmente não acreditam com convicção nesta hipótese. Apenas defendem esta hipótese de boca pra fora porque é mais conveniente.

http://www.trincheiras.com.br/2016/12/indicios-de-que-o-impeachment-comecou-a-ser-combinado-em-2013/

 

 

Economia

 

 

Uma das principais medidas do governo que assumiu depois do afastamento da Dilma foi uma emenda constitucional estabelecendo que a despesa da União não pode ser maior do que a atual nos próximos 20 anos. Isto não é necessário para equilibrar as contas, que estão em desequilíbrio?

 

É bastante desonesto dizer que tem que fixar o quanto se deve gastar em 2035 para equilibrar as contas da União em 2017. Nenhum outro país fez isso. A intenção dos apoiadores desta emenda não é equilibrar as contas, e sim diminuir o tamanho do Estado de Bem Estar Social nos próximos 20 anos. Não se trata de diminuir as despesas para simplesmente torná-las igual à receita, e sim diminuir tanto a despesa, quanto a receita no longo prazo. Se o PIB crescer a uma média de 3% ao ano nos próximos 20 anos, a despesa da União recuará de 20% para 12% do PIB. Será uma grande catástrofe congelar a despesa atual em saúde, uma vez que a população está envelhecendo. Como em situações normais uma medida dessas jamais teria apoio popular, aproveita-se uma situação de pânico com a atual crise econômica. Além disso, esta emenda é antidemocrática. O tamanho da despesa da União em 2032 deveria ser decidida pelo presidente da República e pelo Congresso eleitos em 2030, e não pelo Congresso eleito em 2014.

http://www.trincheiras.com.br/2016/10/refutando-os-argumentos-mais-frequentemente-utilizados-pelos-defensores-da-pec-241/

http://www.trincheiras.com.br/2016/10/coletanea-de-textos-contra-a-pec-241/

 

 

O ranking de liberdade econômica da Heritage Foundation mostra que entre os países de economia mais liberal do mundo estão os países mais desenvolvidos do mundo e entre os países de economia menos liberal do mundo estão os países menos desenvolvidos do mundo. Entre os países de economia mais liberal do mundo estão até mesmo os países escandinavos, dos quais os esquerdistas falam tão bem. Não seria um indício de que é melhor ter uma economia liberal?

 

Este argumento é horrível por dois motivos. O primeiro motivo é que correlação não quer dizer causalidade. É possível que os países com economia liberal sejam mais desenvolvidos porque o desenvolvimento propiciou a possibilidade de liberalizar a economia e não porque a liberalização da economia possibilitou o desenvolvimento. O economista sul coreano Ha Joon Chang mostrou que os países desenvolvidos primeiro atingiram o desenvolvimento, depois liberalizaram suas economias, e que isto vale inclusive para seu próprio país. O segundo motivo é que o ranking é viesado. Os países mais desenvolvidos estão no topo do ranking porque, em muitos critérios, o ranking mede o quanto os países são desenvolvidos, e não o quanto os países têm economia liberal. Corrupção baixa e bom funcionamento da administração pública são critérios deste ranking. Quesitos como carga tributária tem peso baixo, e por isso os países nórdicos podem estar no topo deste ranking mesmo tendo elevada carga tributária.

http://www.trincheiras.com.br/2016/07/a-falacia-do-indice-de-liberdade-economica-da-heritage-foundation/

 

 

Um economista precisa ser conservador para ser sério? Não existe algo parecido com os Institutos de Economia da Unicamp e da UFRJ fora do Brasil. Lá fora, quase todos os economistas são ortodoxos.

 

Existem alguns economistas heterodoxos espalhados em algumas universidades do mundo inteiro, embora eles sejam minoria. Mas ser minoria não é um demérito. Muitas vezes, as ciências evoluem quando se descobre que aquilo que uma minoria de cientistas defendia passa a ser visto como verdadeiro pela maioria. Isto vale bastante para a ciência econômica. Muito do que é aceito economia ortodoxa surgiu de contribuições de heterodoxos, como o modelo de concorrência imperfeita, o efeito da política fiscal no produto no curto prazo. E a divisão entre ortodoxia e heterodoxia não é a mesma coisa do que a divisão entre direita e esquerda. Joseph Stiglitz e Paul Krugman são ortodoxos, Ludwig von Mises era heterodoxo. No Brasil, os centros de pensamento econômico heterodoxo atraem esquerdistas, e por isso, os ortodoxos brasileiros são muito conservadores. Mas os economistas ortodoxos fora do Brasil, em geral, não são tão conservadores quanto os brasileiros. Por fim, quem diz que economista precisa ser conservador para ser sério costuma dizer que existem provas científicas de que distribuição atrapalha o crescimento, e os não conservadores não seriam sérios por negar isso. Bom, mesmo que fosse verdade que existissem provas científicas de que distribuição atrapalha crescimento, não existem provas científicas de que crescimento é sempre mais importante do que distribuição. E por fim: economistas clássicos como John Stuart Mill, Leon Walras, Alfred Marshall, e Paul Douglas (o da função de Cobb Douglas) não eram ideologicamente conservadores se tomado como referência o período em que viveram.

http://www.trincheiras.com.br/2015/10/e-necessario-ser-de-direita-para-ser-um-bom-economista/

 

 

Para fazer um ajuste fiscal, é possível apenas cortar gastos, uma vez que os brasileiros já pagam tanto imposto que não tem onde aumentar?

 

Não. Os pobres e a classe média pagam elevados impostos no Brasil. Mas os ricos pagam pouco imposto. O sistema tributário brasileiro é composto em sua maior parte por impostos sobre consumo, que pesam mais no bolso dos mais pobres, porque consomem maior parcela da renda. Os impostos sobre renda e propriedade, que pesam mais no bolso dos ricos, são bastante modestos no Brasil. O Brasil é o único país do mundo além da Estônia que não tributa dividendos. A alíquota marginal máxima do imposto de renda de pessoa física no Brasil, de 27,5%, é uma das mais baixas do mundo. Na maioria dos países civilizados, esta alíquota passa de 40%. A alíquota máxima do imposto de herança no Brasil, de 4%, é ridícula. O imposto sobre grandes fortunas foi estabelecido pela Constituição de 1988 e até hoje aguarda regulamentação. E mesmo sobre a afirmativa de que pagamos muitos impostos, é necessário um pouco de cautela. A carga tributária no Brasil aproxima-se de 40%, é maior do que a de países com PIB per capita semelhante ao nosso. Mas nenhum país que tem um sistema público universal gratuito de saúde, previdência pública universal e universidades públicas gratuitas tem carga tributária muito menor do que essa.

http://www.trincheiras.com.br/2016/01/entendendo-como-a-carga-tributaria-no-brasil-pesa-mais-no-bolso-do-pobre-e-rico-paga-pouco-imposto/

 

 

Vocês falam mal de capitalistas, mas os capitalistas não trabalham até mais do que os trabalhadores?

 

Administrar uma empresa é muito mais estressante do que simplesmente ser um empregado assalariado. Capitalista não é quem administra a empresa, é quem é dono de parte ou de todo o capital desta empresa e recebe parte do lucro por causa disso. O administrador da empresa é um trabalhador. Um capitalista pode também administrar a empresa, mas neste caso ele está acumulando funções, não é o fato dele administrar a empresa que faz dele um capitalista

 

 

Li em uma revista de negócios que teve um país que implementou uma agenda econômica defendida por partidos de direita, chamada de neoliberal pelos esquerdistas, e a economia desse país está indo muito bem.

 

Devemos ter olhar crítico aos países garoto propaganda utilizados por este tipo de publicação. Em primeiro lugar, temos que questionar “a economia desse país está indo bem para quem?”. A renda pode estar crescendo, mas de forma concentrada. O desemprego aberto pode estar baixo, mas às custas de muito emprego precário. Em segundo lugar, a matéria da revista pode ter feito um cherry-picking. Pode ter selecionado apenas as políticas que o país em questão implementou e a revista defende, mas esse país pode ter também implementado políticas que a revista não defende, e estas a matéria pode ter ignorado. Em terceiro lugar, talvez o contra-argumento mais importante, em um mundo onde existe uma economia global e política feita por estados nacionais soberanos, existe um caso típico de Dilema dos Prisioneiros da Teoria dos Jogos. Se um país isoladamente adotar políticas conservadoras, vai se beneficiar disso, mas se todos imitarem, ninguém sairá beneficiado. Quando um país diminui impostos, ele atrai capitais. Quando um país diminui a proteção aos trabalhadores, ele consegue exportar mercadorias mais baratas. Mas se todos os países imitam, o efeito é anulado. No imediato pós segunda guerra mundial, na era Bretton Woods, todos os países desenvolvidos implementaram juntos políticas que hoje seriam consideradas de esquerda, e tiveram excelente desempenho da economia no período.

http://www.trincheiras.com.br/2016/02/sobre-aquela-historia-dos-paises-que-fizeram-politicas-conservadoras-e-estao-bem/

http://voyager1.net/economia/a-suecia-e-seu-desenvolvimentismo-a-estrategia-que-rechacou-a-ideia-de-estado-minimo/

 

 

As universidades públicas brasileiras são gratuitas, mas só filho de rico estuda nelas. Não é hipócrita quem defende melhor distribuição de renda no Brasil defender a gratuidade das universidades?

 

As universidades estaduais paulistas continuam tendo um perfil elitizado de estudantes, embora também haja filhos de pessoas de baixa renda, as universidades federais já não têm mais perfil elitizado. Muitas vezes, quem defende a cobrança não defende políticas de ação afirmativa. A introdução da cobrança poderia ser uma barreira adicional ao ingresso de estudantes de baixa renda, uma vez que eles dependeriam de crédito e já iniciariam sua vida profissional com dívida. E sobre a questão distributiva, que tal pensar antes em fazer uma reforma tributária progressiva e acabar com os supersalários dos Poderes Judiciário e Legislativo?

http://www.trincheiras.com.br/2016/06/os-neoliberais-e-o-efeito-distributivo/

 

 

 

Educação

 

 

E sobre o Escola Sem Partido (ESP)? O movimento não tem uma reinvindicação justa ao defender que escola é lugar de ensinar e não de fazer doutrinação partidária?

 

De fato, escola não é lugar onde professores devem incentivar alunos a preferir este ou aquele partido, esta ou aquela orientação política. Por isso, algumas pessoas ingênuas podem ter visão simpática ao ESP. Mas na verdade, a verdadeira intenção do movimento não é essa. O ESP é apoiado por comentaristas e políticos de direita que falam mal apenas de doutrinação esquerdista, dando a entender que eles seriam simpáticos à doutrinação direitista. Por isso, opositores do ESP ironicamente chamam o movimento de Escola do Meu Partido. Além disso, em disciplinas que não são Exatas, como História e Geografia, é inevitável que professores selecionem temas e autores conforme sua visão de mundo. Utilizar obras de historiadores e geógrafos esquerdistas para preparar aulas não é fazer doutrinação. Não existe uma maneira objetiva de ensinar História e Geografia. Para piorar, o ESP inclui conservadores religiosos que desejam remover das aulas de ciências naturais teorias que entram em choque com religiões, mesmo que essas teorias sejam plenamente aceitas pela comunidade científica. O grande exemplo é a Teoria da Evolução. O ESP quer proibir ensinar coisas para os alunos que entrem em choque com o que os alunos aprendem dos pais. Mas se não fosse para ensinar coisas diferentes que os alunos aprendem dos pais, não haveria a necessidade de existir escolas. Em resumo, o Escola Sem Partido é uma tentativa de introduzir censura e obscurantismo na atividade docente.

http://www.trincheiras.com.br/2016/04/o-escola-hahaha-sem-partido-e-a-censura-a-atividade-docente/

 

 

As faculdades de ciências humanas das universidades públicas brasileiras são dominadas por marxistas?

 

Não. E se realmente fossem, o questionamento deveria ser: por que candidatos anti marxistas a docente seriam tão incompetentes para passar no concurso? Se você responder que os concursos nas humanas das universidades públicas brasileiras seriam viesados, eu pergunto: se os concursos são viesados, por que os anti marxistas não estão demonstrando todo o brilhante conhecimento deles em universidades no exterior? As faculdades de ciências humanas das universidades públicas brasileiras não são dominadas por marxistas, e se fossem, você deveria cobrar os anti marxistas, e não os marxistas.

 

 

Quem não aceita o ensino do design inteligente nas aulas de ciências não está sendo tão intolerante quanto quem deseja proibir o ensino da teoria da evolução. Qual é o problema dos estudantes aprenderem duas visões e terem a oportunidade de fazer um juízo próprio?

 

O que deve ser ensinado nas aulas de ciências nas escolas é o conhecimento consolidado pela comunidade científica. Os biólogos, em sua esmagadora maioria, defendem a teoria da evolução. Os portadores do diploma de química e biologia que defendem o criacionismo não conseguem publicar artigos em revistas acadêmicas especializadas. Não faltam evidências de que a teoria da evolução é verdadeira. Esta teoria só encontra muita rejeição porque contradiz livros sagrados religiosos. Vamos pensar nas outras ciências: devemos dar espaço igual para quem quer ensinar que 2+2=4 e para quem quer ensinar que 2+2=22? Devemos dar espaço igual para quem quer ensinar que o Império Romano existiu e para quem quer ensinar que o Império Romano não existiu?

https://www.youtube.com/watch?v=k3GmM7bgKx4&list=PLet1ZJ4fv0cpIz9c29WIU3MUyTr5DwixR

 

 

O Brasil tem uma educação horrível. Sempre ocupa as últimas posições do PISA. A causa disso seria o excesso de ideologia de esquerda que dificulta a introdução de boas práticas que são aquelas introduzidas nas empresas privadas?

 

O que você entende por “boas práticas que são aquelas introduzidas nas empresas privadas”? Remuneração por desempenho? Muitos estados e municípios já fazem remuneração variável dos professores por desempenho de acordo com resultados dos estudantes em avaliações externas há mais de dez anos, e até agora os resultados não apareceram. A Finlândia tem um dos melhores sistemas educacionais do mundo com um modelo completamente público, sem gestão de escolas por empresas, e sem remuneração dos professores por desempenho.

http://www.trincheiras.com.br/2017/05/a-guerra-politica-de-trincheiras-na-educacao-brasileira/

 

 

 

História

 

 

O período do Império foi um período de grande prosperidade para o Brasil?

 

Não. Foi no século XIX que o Brasil mais ficou para trás em PIB per capita em comparação com Estados Unidos e Europa Ocidental. No final do século XIX, Argentina e México já começaram a deslanchar mais do que o Brasil. Embora monarquistas gostem de dizer que a família real era contra a escravidão, o mínimo que podemos dizer é que o imperador foi incompetente, uma vez que as repúblicas de língua espanhola das Américas aboliram a escravidão no máximo até a década de 1850. Peru e México já tinham universidades desde o século XVII, o Brasil foi ter sua primeira universidade em 1920, já no tempo da república. A Argentina iniciou uma política de alfabetização em massa no final do século XIX. O mesmo não ocorreu com o Brasil.

http://www.trincheiras.com.br/2016/11/sobre-a-tal-da-prosperidade-do-brasil-no-tempo-do-imperio/

 

O nome do partido do Hitler era Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, a bandeira tinha cor vermelha e sua política econômica tinha intervencionismo estatal. Por que este partido é considerado de extrema-direita?

 

Hitler chegou ao poder em 1933 com o apoio não apenas do Partido Nacional Socialista como também dos demais partidos de direita, com apoio do ex-kaiser, com apoio dos mercados financeiros, e com a oposição dos social democratas e dos comunistas. Se os nacional socialistas foram de esquerda, por que um partido de esquerda teria apoio de todos os partidos de direita e do capital e teria rejeição dos partidos de esquerda? Já no poder, Hitler apoiou Franco na Guerra Civil Espanhola contra um governo esquerdista, o mesmo Franco que é elogiado por escritores conservadores incluindo gurus intelectuais daqueles que dizem que o nazismo era de esquerda. Na Segunda Guerra Mundial, os nazistas tiveram muito mais interesse em enfrentar a União Soviética do que enfrentar os aliados ocidentais. Os nazistas praticaram políticas keynesianas para recuperar a economia alemã, mas keynesianismo não é incompatível com direita. A divisão esquerda/direita surgiu na Revolução Francesa e nunca teve a ver com disputa entre mais ou menos intervenção do Estado na economia, e sim com disputa entre igualitarismo e hierarquia. O intervencionismo nazista congelou salários e aumentou lucros. Os nazistas realizaram até mesmo privatizações. O Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães surgiu logo depois da Primeira Guerra Mundial. Sempre teve ideias anti-marxistas, sempre condenou a luta de classes e nunca defendeu a coletivização de todos os meios de produção. Mas como não defendia o liberalismo econômico e fazia críticas a capitalistas, usou o nome “socialista”, o que era comum na Alemanha daquele tempo. Vários partidos da República de Weimar tinham “social”, “socialista” ou “popular” no nome. Pegava bem naquele tempo. A crítica dos nacional socialistas aos capitalistas foram bastante abrandadas depois de 1933, quando os nacional socialistas receberam apoio de capitalistas. Nome nunca quis dizer muita coisa. Vários partidos brasileiros surgidos nos anos 1980 tinham “social”, “socialista” e “trabalhista” no nome, e nem por isso foram de esquerda.

http://www.trincheiras.com.br/2015/12/hitler-era-de-extrema-direita-sim/

http://www.trincheiras.com.br/2017/01/deveria-haver-uma-campanha-contra-o-negacionismo-do-fato-de-que-hitler-era-de-extrema-direita/

http://voyager1.net/filosofia/o-nazifascismo-e-de-direita-uma-abordagem-filosofica/

http://voyager1.net/historia/pare-de-achar-que-liberalismo-e-fascismo-sao-opostos/

 

 

Muito se fala nas atrocidades cometidas por Hitler. Mas e o Stalin? Ele não é meio esquecido?

 

Não é possível nivelar Hitler e Stálin. O ditador soviético foi responsável pela execução e pelas mortes em cárcere de muitos opositores do seu regime, e também de meros suspeitos de serem opositores, o que já é horrível. O ditador austríaco/alemão foi responsável pelo genocídio planejado de etnias, matando pessoas simplesmente por serem dessas etnias, incluindo crianças. Os campos nazistas eram fábricas de morte, com o uso de câmaras de gás. Nos campos do Gulag morreram muitas pessoas de fome, frio, doenças e exaustão, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando faltavam bens para todos, mas o Gulag não foi planejado para a morte. Muitos ficaram presos por um tempo e foram libertados depois de ter cumprido pena. Importante também comparar a ocupação alemã da URSS de 1941 a 1944 com a ocupação soviética do leste alemão de 1945 a 1949.

http://www.trincheiras.com.br/2016/03/stalin-nao-foi-pior-do-que-hitler-nem-mesmo-equivalente/

 

 

 

Típicas perguntas sobre esquerda e direita

 

 

Muita gente era de esquerda quando jovem e muda para a direita depois que envelhece. Tem até aquela frase que diz que “quem tem menos de 30 e não é de esquerda não tem coração, quem tem mais de 30 e ainda é de esquerda não tem cérebro”. Mudar para a direita não é sinal de amadurecimento?

 

Não. Existem políticos e intelectuais que se deslocaram para a direita quando envelheceram, mas também existem políticos e intelectuais que se deslocaram para a esquerda quando envelheceram. Observar só o primeiro caso é fazer cherry-picking. Há inúmeros exemplos do segundo caso. Na política brasileira, Teotônio Vilela e Ciro Gomes foram exemplos notórios de deslocamento para a esquerda. Podemos lembrar ainda que Dom Helder Câmara e Santiago Dantas foram integralistas quando jovens. Plínio de Arruda Sampaio começou sua carreira política como um democrata-cristão, foi um dos fundadores do PT sendo uma das vozes mais moderadas deste partido, e perto do seu falecimento, era uma das vozes mais radicais do PSOL. Fora do Brasil, podemos ver como grandes exemplos o ex-presidente socialista francês François Mitterrand, que militou na extrema-direita na década de 1930. O progressista Papa Francisco era o conservador Cardeal Bergoglio, que ficou em silêncio durante a ditadura militar na Argentina. Hillary Clinton, quando ainda estava no high school em 1964, apoiou o candidato ultraconservador Barry Goldwater. A senadora democrata Elizabeth Warren, da ala esquerda do partido e possível presidenciável em 2020, foi republicana até 1996. Importantes líderes democratas sulistas como Lyndon Johnson, Jimmy Carter, Bill Clinton e Al Gore eram bem mais conservadores quando jovens do que quando velhos. Os economistas John Kenneth Galbraith e Paul Krugman se esquerdizaram bastante depois de velhos. E muitos jovens esquerdistas que viram direitistas não fazem essa mudança necessariamente por causa de amadurecimento. Muitas vezes, tratam-se de filhos de famílias ricas que têm a fase rebelde e depois “o bom filho à casa retorna”.

http://www.trincheiras.com.br/2016/06/quem-andou-para-a-esquerda-quando-ficou-mais-experiente/

 

 

Vinte anos atrás, era raro alguém se declarar abertamente de direita no Brasil. Nesse meio de tempo, surgiu uma geração de escritores de direita, como Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Luís Felipe Pondé, Danilo Gentili e Leandro Narloch. A direita aprendeu novamente a ir para as ruas, como vimos nos protestos dos camisas amarelas. Não é saudável para a democracia ter uma direita que vende livros e que ocupa as ruas?

 

É saudável para a democracia pessoas terem direito de escrever, ler livros e ocupar as ruas, independentemente de orientação ideológica, mas ninguém tem obrigação de ficar falando se é saudável esse ou aquele grupo ser ativo. Pergunte para os autores mencionados e para os camisas amarelas se é saudável para a democracia ter uma esquerda que vende livros e que ocupa as ruas.

http://www.trincheiras.com.br/2015/10/o-risco-da-opiniao-do-meio-sobre-olavo-de-carvalho-e-similares/

 

 

Há alguns exageros cometidos por essa nova geração de direita. Mas isto não é natural para grupos que por muito tempo ficam reprimidos, e que na hora que se soltam, extravasam?

 

A analogia do pêndulo pode ser utilizada na política. No pêndulo, quando uma bola fica presa em um dos lados e de repente é solta, esta bola não vai para a posição de repouso, mas vai inicialmente para o lado oposto, oscilando até finalmente encontrar repouso no meio. Um dos exemplos da aplicação da analogia do pêndulo pode ser os movimentos de minorias oprimidas. Mas esta analogia não é válida para a direita brasileira. No Brasil, ninguém foi censurado, preso, torturado e executado por defender ideias de direita. A direita brasileira nunca foi reprimida em qualquer momento da história.

 

 

Gente de esquerda é só gente das humanas?

 

Ser das humanas não é demérito, mas houve e há muitos célebres cientistas naturais favoráveis a posições de esquerda, alguns declaradamente socialistas, outros defensores de ideias progressistas em relação a seu tempo. Podemos incluir Stephen Hawking, Stephen Jay Gould, Richard Levins, Nikola Tesla, Mário Schenberg, Marie Curie, Julius Oppenheimer, Jonas Salk, Carl Sagan e Albert Einstein. E mais: alguns cientistas naturais, apesar de não serem de esquerda, se irritam com fundamentalistas religiosos, normalmente vinculados à direita, que desejam censurar partes do ensino de ciências naturais que contradizem religiões e que pregam a não vacinação.

http://voyager1.net/hiperlistas/10-cientistas-progressistas/

 

 

Eu tenho um colega que é comunista e usa smartphone. Existe alguma incoerência entre o discurso e a prática?

 

Não. Os comunistas não são contra o desenvolvimento tecnológico, são apenas críticos de sistemas econômicos que restringem os benefícios do desenvolvimento tecnológico a poucas pessoas. Não podemos confundir bens com o sistema econômico em que esses foram produzidos. Mesmos bens podem ser produzidos em sistemas diferentes. Se os comunistas não pudessem usar smartphone, quem é contra a escravidão não poderia fazer turismo nas igrejas de Ouro Preto. Ah, e smartphones dependem de satélite, e o país que lançou o primeiro satélite foi a União Soviética. A Terceira Revolução Industrial ocorreu no mundo capitalista, mas começou com pesquisas públicas. Podemos perguntar para quem pergunta sobre o “comunista de smartphone” se defensores do Estado mínimo podem prestar concurso público, se críticos dos sindicatos podem desfrutar de férias, fim de semana e licença maternidade.

http://voyager1.net/politica/esquerda-e-o-iphone/

 

 

A Globo mostra beijo gay em novela, tem atores e autores esquerdistas de novela, tem comentaristas que defendem a legalização da maconha, mostra escândalos de corrupção praticados por políticos de direita. Por que os esquerdistas falam que a Globo é de direita?

 

A Globo, assim como outros grandes oligopólios de mídia no Brasil, como Abril e Folha, são abertos às posições progressistas sobre gênero, homossexualidade, drogas e religião, mas na economia, defendem a pauta das associações empresariais e dos bancos. Apoiam as “reformas” previdenciária e trabalhista e a emenda constitucional do teto das despesas da União. Apoiaram o golpe de 1964. Seus especialistas convidados são os de sempre: Raul Veloso nas finanças públicas, Giambiagi na previdência, Amadeo e Pastore no mercado de trabalho, Cláudio Moura de Castro e Gustavo Ioschpe na educação. Uma vez, o programa do William Waack na Globo News teve uma mesa para discutir “esquerda e direita” cujos convidados foram Reinaldo Azevedo, Luís Felipe Pondé e Bolívar Lamounier. Os oligopólios de mídia no Brasil são muitas vezes bastante críticos da velha direita, das oligarquias regionais, mas durante muito tempo blindaram o PSDB de qualquer crítica mais forte.

http://www.trincheiras.com.br/2016/11/sobre-os-quatro-grandes-oligopolios-de-midia-no-brasil/

http://voyager1.net/historia/posicionamento-politico-da-globo/

 

 

Por que os esquerdistas odeiam tanto os liberais? O que os liberais desejam não é a liberdade?

 

Os auto-denominados “liberais” no Brasil, palavra que tem significado bem diferente nos EUA, defendem a liberdade apenas para o capital. Para as pessoas, nem tanto. Ou são omissos ou são abertamente hostis às liberdades quando agentes do Estado matam moradores de favela ou reprimem com violência qualquer manifestação que não seja aquela dos camisas amarelas. Alguns “liberais” brasileiros fazem alianças com fundamentalistas religiosos para imporem sua pauta, defendem a censura da atividade docente no Escola Sem Partido. Alguns indivíduos auto-denominados liberais no Brasil defendem a legalização da maconha, mas organizações auto-denominadas liberais preferem ser neutras sobre o assunto, para atrair também quem é contra a legalização. Ah, e antes que eu esqueça, propriedade intelectual é um tipo de intervenção estatal na economia que muitos auto-denominados liberais defendem (embora outros não). Em poucas palavras: os auto-denominados “liberais” no Brasil utilizam esta palavra porque parece mais bonita, mas eles são na verdade conservadores.

http://voyager1.net/politica/12-fatos-que-provam-que-os-liberais-brasileiros-sao-na-verdade-conservadores/

 

 

 

Segurança pública

 

 

Por que a esquerda fala tanto em desmilitarização da segurança pública? Isto seria desarmar a polícia? Seria passar a existir somente polícia civil?

 

Desmilitarizar não significa nem desarmar a polícia, nem deixar existir somente a polícia civil do jeito que ela é hoje. É fazer com que cada estado tenha uma polícia única e que esta polícia faça o ciclo completo das atividades, investigação e repressão. Esta polícia seria uma corporação civil. Não haveria polícias civis do jeito que são hoje, estas polícias incorporariam as funções da polícia militar. O Brasil é um dos poucos países do mundo que separa as atividades de polícia e que coloca parte das atividades sob responsabilidade de uma corporação militar. Se o Brasil é um notório fracasso em segurança pública, isto é uma evidência de que o modelo não funciona. Os países mais civilizados só têm polícias civis. Nesses países, militares só fazem defesa nacional. Segurança pública e defesa nacional são atividades diferentes e requerem treinamentos diferentes. No Brasil, a bandeira da desmilitarização da polícia é defendida muito mais pela esquerda porque a direita é chucra. Nos Estados Unidos e no Reino Unido as polícias são civis e nem por isso são países esquerdistas. E sabe quem inventou as polícias militares? A Revolução Francesa.

http://voyager1.net/politica/5-fatos-sobre-a-desmilitarizacao-da-policia/

https://www.youtube.com/watch?v=Jxhu8ctP3hQ

 

 

Quem defende a legalização da maconha é quem gosta de fumar maconha?

 

Não necessariamente. É simplesmente quem percebe que as políticas de extinguir o comércio de maconha através da repressão fracassaram, que essas políticas de repressão premiaram os bandidos ao deixar um comércio lucrativo na mão deles, que fomentaram violência entre gangues e entre gangues e polícia. Melhor controlar do que proibir. Além disso, isto libera a polícia para se dedicar mais a combater crimes que geram vítimas. Holanda, Portugal e Colorado mostraram que polícias para a maconha diferentes de simplesmente reprimir com violência não fizeram aumentar o número de dependentes da droga.

 

elevador vermelho

As duas explicações opostas e equivocadas para o resultado da eleição municipal do Rio de 2016

Depois do resultado do segundo turno da eleição para prefeito do Rio de Janeiro de 2016, em que Marcelo Crivella derrotou Marcelo Freixo por 59,4% a 40,6%, surgiram dentro da esquerda duas explicações opostas para a derrota por larga margem do candidato do PSOL. Alguns petistas consideraram que Freixo perdeu por grande diferença porque quis se afastar demais do PT. Alguns negrianos consideraram que Freixo perdeu por grande diferença porque quis se aproximar demais do PT. As duas explicações são opostas e ambas são falsas. Coloquei “alguns” em ambos os casos, porque nem todos de cada grupo pensaram da maneira descrita.

            Os petistas que relacionam à derrota de Freixo com seu afastamento do PT dizem que o candidato do PSOL, mesmo recebendo apoio declarado do PT e do PCdoB, preferiu evitar relacionar sua imagem com a imagem de líderes do PT e do PCdoB, e por isso ele teria tido um desempenho muito fraco nas Zonas Norte e Oeste, onde o Lula e a Dilma já receberam elevada votação. Um blog chegou até a usar mapas coloridos mostrando que Freixo ganhou a maioria das zonas que Aécio ganhou e que Crivella ganhou a maioria das zonas que Dilma ganhou (já discuti o problema da falácia ecológica com estes mapas no texto com link aqui). Quem defende esta versão considera que Lula tem muito apelo entre a população mais pobre, e que se Marcelo Freixo tivesse associado a sua imagem com a do Lula, ele poderia ter tido mais votos entre os mais pobres, que foi o segmento onde o candidato do PSOL teve desempenho pior.

Problemas desta versão: em 2016, o PT sofreu grandes derrotas no Brasil inteiro, mesmo entre a população mais pobre. O PCdoB teve algumas vitórias no interior do Maranhão por influência do governador, e não muito mais do que isso. A periferia da cidade de São Paulo, que dava grandes votações para Lula e Dilma, e que foi a grande responsável pela eleição de Fernando Haddad em 2012, rejeitou fortemente o prefeito que disputava a reeleição em 2016. O ABC paulista, que já foi uma fortaleza eleitoral do PT, viu o partido minguar em 2016. A candidata Alice Portugal, em Salvador, e o candidato Raul Pont, em Porto Alegre, fizeram campanhas fortemente vinculadas à imagem da Dilma e terminaram com um desempenho muito ruim. O candidato Alexandre Khalil, em Belo Horizonte, recusou publicamente um apoio do PCdoB no segundo turno. Se a vinculação da imagem com o Lula e com a Dilma rendesse apoio entre os pobres, a candidata do PCdoB no Rio de Janeiro Jandira Feghali, que fez uma campanha fortemente associada com as imagens de Lula e Dilma, teria tido um excelente desempenho entre os eleitores pobres. Não foi isso o que aconteceu. Ela terminou o primeiro turno com 3%, tendo desempenho muito ruim tanto entre os mais ricos, quanto entre os mais pobres.

Se em 2016 estava ruim para o PT até mesmo em lugares onde este partido já foi muito forte, pior seria no Rio de Janeiro, onde o partido nunca foi muito forte. Lula e Dilma já tiveram votação grande no segundo turno de eleições presidenciais, principalmente entre a população mais pobre, mas em eleições locais, o PT e seu aliado PCdoB habitualmente não têm grande expressão. O último prefeito de esquerda do Rio de Janeiro foi Saturnino Braga, que governou pelo PDT entre 1986 e 1988.

Alguns falam que “Freixo só tem voto na Zona Sul”. É verdade que é lá onde o candidato do PSOL tem melhor desempenho, mas ele, no primeiro turno de 2016, superou a candidata do PCdoB também na Zona Norte e na Zona Oeste. Parte dessa diferença pode ter decorrido da transferência de voto útil na reta final. Mas é importante lembrar que Freixo no primeiro turno de 2012 teve votação melhor do que Jandira Feghali em 2004 e 2008, Jorge Bittar em 2004 e Alessandro Molon em 2008 inclusive em áreas de baixa renda da cidade. Mesma comparação pode ser feita com Vladimir Palmeira e Lindberg Farias, que disputaram os governos estaduais em 2006 e 2014 respectivamente. Marcelo Freixo é o político de esquerda que tem melhor desempenho em eleições locais para o Poder Executivo no Rio de Janeiro desde o fim do período em que Benedita da Silva era competitiva.

Quando passou para o segundo turno, Marcelo Freixo recebeu o apoio do PT e do PCdoB da Jandira Feghali, e da Rede do Alessandro Molon. Declarou naquele momento que pretendia fazer uma campanha sobre assuntos locais, e que, portanto, não tinha interesse em fazer campanha junto com Lula e Marina Silva. Não se interessou pela presença de lideranças do PT e do PCdoB na televisão e em eventos públicos. O máximo que fez foi uma caminhada com o Eduardo Suplicy na Cinelândia. O vereador Reimont foi dos poucos nomes do PT que foram mostrados no comício na Lapa.

Marcelo Crivella votou a favor do impedimento da Dilma. Os deputados federais do PSOL votaram contra. Marcelo Freixo participou de atos públicos contra. Mesmo assim, não quis transformar o segundo turno em um plebiscito sobre o assunto. Até porque percebeu, pelo resultado do primeiro turno em outros municípios, que sua posição era a que tinha a maior probabilidade de perder.

Observando que o PT teve um desempenho pífio no Brasil inteiro nas eleições municipais de 2016, e que no Rio de Janeiro o PT é habitualmente fraco em eleições locais, é possível concluir que vincular demais a própria imagem com o PT mais subtrairia do que adicionaria votos. Por causa disso, Marcelo Freixo não quis ostensivamente se colocar ao lado do PT. Ainda assim, esteve mais próximo do PT em 2016 do que na sua primeira candidatura em 2012, quando o PT e o PCdoB estavam com Eduardo Paes. E foi mais enfático ao considerar o impedimento da Dilma um golpe do que Fernando Haddad, do partido da presidenta golpeada.

Por causa dessa aproximação entre Freixo e PT, mesmo que não ostensiva, os negrianos deram uma explicação oposta. Os negrianos, que são a turma do Idelber Avelar, do Raphael Tsavkko e do Giuseppe Cocco, são um estranho tipo de esquerda que almoça com black bloc e janta com comentarista tucano da Globo. Sua maior influência está nas redes sociais. Eles pensam que a causa da derrota foi o que eles consideram aproximação exagerada entre Freixo e PT. Para este grupo, a campanha de Marcelo Freixo deveria utilizar a onda anti-PT ao seu favor, explorando o longo período em que Marcelo Crivella foi aliado do PT, explorando o fato do Crivella ter sido Ministro da Pesca da Dilma, e o fato do PSOL nunca ter participado de governos do PT.

Esta explicação oposta também não se sustenta muito quando se observam resultados no Brasil inteiro. A Rede, que tem a simpatia dos negrianos, e é uma tentativa de representar algumas bandeiras progressistas, mas longe do PT, só conseguiu eleger prefeito em Macapá, um prefeito reeleito que havia sido eleito pela primeira vez no PSOL. Fora isso, a Rede teve desempenho pior do que o PSOL, e em algumas cidades, desempenho pior até mesmo do que o Partido Novo. Também é importante lembrar que Luciana Genro e Babá são políticos do PSOL, que diferente de Marcelo Freixo, batem forte no PT, e nem por isso contam com a simpatia de antipetistas.

Eleitores geralmente associam símbolos. Não adianta dizer que o Crivella participou do governo Dilma e o PSOL não, que o Crivella habitualmente fazia campanha junto com o PT e o PSOL não, porque entre Freixo e Crivella, o Marcelo que estava simbolicamente associado à Dilma era o Freixo, e não é campanha de marketing que faria mudar isso. Era inevitável que a impopularidade da Dilma contaminasse mais o Freixo do que o Crivella. PT e PSOL são partidos apoiados por sindicatos e movimentos sociais, defendem um grande papel do Estado na economia e têm ideologia igualitarista. Não adianta um querer brigar com o outro, que ainda assim um vai ser sempre associado ao outro. Por muito tempo, o PT foi símbolo de esquerda no Brasil. É óbvio que o desgaste do PT seria um desgaste de toda a esquerda. Não adianta falar “eu sou esquerda, mas não sou PT”, porque nem isso salva. Nem mesmo a Marta, que se candidatou pelo PMDB e deu flores para a Janaína Pascoal, escapou ilesa da onda anti-PT.

Uma vez que não adianta bater forte no PT, que naquele contexto, nem assim um candidato de esquerda ganharia grande apoio, foi melhor mesmo não ter arrumado treta dentro da esquerda. Assim evita perder o pequeno apoio do qual já dispõe. A razoável proximidade entre Freixo e PT garantiu a ele o apoio do que restou de máquina do PT, que inclui centrais sindicais e alguns periódicos.

Freixo declinou do primeiro turno de 2012 para o primeiro turno de 2016. Teve 914.082 votos em 2012, e 553.424 em 2016. Nesse meio de tempo, apareceu na campanha de Dilma no segundo turno em 2014. Como em 2012 ele estava mais distante do PT, e conseguiu ter apoio de alguns eleitores moderadamente antipetistas naquele ano, posicionamentos pró-PT que ele teve posteriormente pode ter afastado alguns eleitores. Porém, em agosto de 2016, não era possível Freixo entrar em uma máquina do tempo e rever estes posicionamentos.

Tanto petistas, quanto negrianos apoiaram Freixo no segundo turno, mas quando ele perdeu com larga margem, os dois grupos praticaram o Schadenfreude. Houve um grande clima de “não falei?”, semelhante ao que acontece quando um brasileiro vê a Seleção Canarinho ser eliminada da Copa do Mundo depois que o técnico não convocou seus jogadores favoritos. Petistas disseram “não falei que não ia dar certo se distanciar do PT?”. Negrianos disseram “não falei que não ia dar certo se aproximar do PT?”. Apesar de serem opostos, tanto petistas quanto negrianos podem ter um gostinho de satisfação com o Crivella. Petistas, porque o político do PRB foi aliado do PT por muito tempo. Negrianos, porque o político do PRB é criticado pela esquerda convencional por ser pentecostal assim como a Marina Silva, e os negrianos gostam dela.

Petistas e negrianos se prejudicam quando fazem “análises” não muito realistas, mas adocicadas para suas próprias posições políticas. É óbvio que na ação o militante não é isento, pois é militante quem tem um lado na política. Mas para fazer análise, é necessário ser isento sim, pois a melhor maneira de interferir na realidade é conhecendo bem a realidade, mesmo que ela seja dura. Este texto não está criticando opiniões, e sim leituras distorcidas da realidade. Seria plenamente respeitável se um petista dissesse “admito que Freixo poderia até perder por uma diferença maior que aquela que realmente se verificou, mas como ele já ia perder mesmo, poderia ter feito a campanha no segundo turno mais próxima do PT e do PCdoB, pois a unidade das forças de esquerda é importante no longo prazo, em um momento tão difícil em que vivemos”. O mesmo ocorreria se um negriano dissesse “admito que se afastar do PT e vincular Crivella ao PT não traria ganho eleitoral de curto prazo, mas construir uma esquerda independente do PT é importante para o longo prazo”. O que este texto critica é quem diz que Freixo poderia ganhar se tivesse se aproximado mais ou tivesse se afastado mais do PT, pois isto seria wishful thinking.

Então se não adiantaria nem se aproximar mais, nem se afastar mais do PT, o que Freixo poderia ter feito para ganhar aquele segundo turno? Resposta muito simples: nada. A esquerda sofreu derrotas no Brasil inteiro em 2016. Ainda assim, no Rio de Janeiro, um candidato de esquerda teve o melhor desempenho em eleição municipal desde 1992. Não havia muitos caminhos para ter ido mais longe. Os 1.163.662 votos que Freixo teve no segundo turno incluíram eleitores de extrema-esquerda que habitualmente votam no PSOL, petistas que compreenderam que o contexto não permitia maior aproximação do PT, e antipetistas moderados que escolheram Freixo como um mal menor, apesar da associação com o PT.

Além do contexto desfavorável à esquerda em 2016, é importante mencionar algumas fraquezas do PSOL, que não podem ser simplesmente eliminadas em apenas três meses de campanha, e que não serão resolvidas nem com aproximação, nem com distanciamento do PT. O PSOL foi um partido que por muito tempo se preocupou em ser “puro” e não em ser grande. Foi um partido de alguns setores organizados da sociedade (não considero “organizados” um defeito), e não do povão. Tem um discurso que não encontra muito respaldo fora das humanas das universidades públicas. O PSOL se contentou por muito tempo em fazer campanhas para o Executivo com o objetivo apenas de puxar o debate para a esquerda e de ajudar eleger alguns quadros para o Legislativo. Suas lideranças de destaque deram bastante ênfase à bandeiras como legalização do aborto, legalização de drogas leves, políticas para a comunidade LGBT, bandeiras importantes, mas que uma grande parcela da população brasileira não apoia. Quando surgiu a necessidade de disputar para valer uma eleição majoritária, não estava muito preparado. Outro problema do PSOL é a insistência no discurso pela ética na política, pelo combate à corrupção. Isto deve ser obrigação, e não bandeira partidária. Além disso, o PSOL tem problema com o lugar de fala sobre esta questão, pois muitas de suas principais lideranças se alinham com o PT em muitos momentos. Eu não considero errado o PSOL apoiar PT em segundo turno, a opção pelo que considera menos ruim não faz o PSOL culpado pelos atos ilícitos cometidos por políticos do PT, mas fica complicado se mostrar como o campeão da caça aos malfeitores.

E por que é tão importante discutir as causas do resultado da eleição municipal de 2016? Porque podem ser aprendidas lições para as eleições seguintes. Por causa da crise nacional do PT e por causa do longo período em que o PT fez parte das administrações estadual e municipal do PMDB no Rio de Janeiro, o PSOL acabou se tornando a maior força de esquerda no estado. O tamanho exige maiores responsabilidades. Vencer as duas maiores máfias da política fluminense, que são o peemedebismo e o pentecostalismo (crítica não à fé religiosa e sim à exploração política da religião), e conquistar o estado do Rio de Janeiro ou a prefeitura da capital não é tarefa fácil. Continuar se contentando em ter apenas “vitórias morais” ao estilo Cláudio Coutinho é continuar deixando o estado e o município do Rio de Janeiro na mão do PMDB ou dos pentecostais. É necessário conquistar o apoio de setores diferentes da sociedade. Se Tarcísio Motta ou Marcelo Freixo desejarem vencer uma eleição para o Executivo, não poderão se contentar em fazer campanha apenas para alguns nichos de esquerda. Um grande arco de apoios poderia incluir tanto o petismo, quando setores menos conservadores do tucanismo. E para isso, seria importante manter bom diálogo com ambos, mas não se posicionar completamente a favor com um dos grupos para não afastar completamente o outro.

 eleiçaõ 2016 rio

Links para outros textos que escrevi sobre o assunto

Análise que escrevi logo depois do resultado

Discussão sobre a geografia eleitoral da cidade do Rio de Janeiro em 2014 e 2016

Sobre o posicionamento político do Pirula

Quem está lendo este texto muito provavelmente sabe quem é o Pirula. Ele é um professor de Paleontologia da USP, que criou um canal de Youtube para divulgar as ciências naturais de forma didática para o público leigo, ficou pop, passou a discutir outros assuntos além das ciências naturais, e atualmente tem 122 mil seguidores no Facebook. Faz um ótimo trabalho, em um país onde a educação é tão ruim e a divulgação científica para leigos é tão rara.

Em um vídeo em que ele explicou seu posicionamento no espectro político esquerda/direita, ele se declarou “nem de esquerda, nem de direita”, disse que não concorda com a existência desses rótulos, e falou que quem é de esquerda o considera de direita e que quem é de direita o considera de esquerda. Transmitiu, sem dizer explicitamente, a ideia de que as pessoas que se definem como de esquerda ou de direita seriam mais burras do que as pessoas que se consideram “nem de esquerda, nem de direita”. Uma ideia equivocada.

Muitas pessoas de esquerda têm o hábito de dizer que “quem diz que não é nem de esquerda nem de direita, quem diz que essa divisão não existe, é de direita”. Muitos realmente são. Principalmente no tempo em que falar “direita” era mais feio do que falar “esquerda”. Mas não é possível dizer que 100% realmente seja. Eu, mesmo me considerando bem mais esquerdista do que o Pirula, considero-o levemente de esquerda. Isto foi aliás, o que o Political Compass mostrou, quando o paleontólogo fez o teste e mostrou no mencionado vídeo.

É muito fácil reconhecer o partido do Pirula. É o Partido da Ciência. Este partido tem algumas tretas com muita gente de esquerda. Mas os conflitos ocorrem principalmente contra grupos de direita, principalmente sobre evolução, aquecimento global e vacinas (embora também existam militantes anti-vacina de esquerda). É natural que o Partido da Ciência esteja levemente à esquerda no espectro político.

Não concordo com a ideia difundida pelo Political Compass de que a divisão esquerda/direita se refere apenas a questões econômicas, como igualdade/desigualdade, papel do Estado, e que para as questões sociais haveria um eixo vertical independente do eixo horizontal esquerda/direita. Questões sociais afetam sim o posicionamento no espectro esquerda/direita. Desde que foi criada a divisão esquerda/direita na época da Revolução Francesa, a defesa do secularismo fez parte das lutas de quem se posicionava à esquerda. Defender o secularismo significa se posicionar mais à esquerda. E o Partido da Ciência é um árduo defensor do secularismo. Algumas teorias científicas entram em choque com religiões tradicionais, portanto, quem defende a ciência defende que religiões não se intrometam no ensino público, uma vez que religiosos querem silenciar essas teorias científicas. A Teoria da Evolução é o exemplo mais conhecido de teoria científica que contradiz livros sagrados.

Aquecimento global não é a área de especialidade de um paleontólogo, mas por ter um conhecimento básico do conjunto de ciências naturais, por saber como se faz ciência e por ser um defensor da comunidade científica, Pirula entrou no debate sobre o tema. Ele rebateu o professor Ricardo Felício, negacionista da interferência humana no aquecimento global, pelo fato do professor ter defendido suas posições de forma nada científica. Sabemos que, em geral, quem defende o negacionismo em relação ao aquecimento global é a indústria de petróleo e o agronegócio, que têm influência muito maior nos partidos de direita do que nos partidos de esquerda.

Pirula tem visões progressistas sobre aborto e direitos dos LGBT. Esta não é necessariamente uma posição de esquerda, mas está relacionada com defesa do secularismo, que está mais relacionado com a esquerda.

Mesmo entrando nas questões de economia, quem defende arduamente a ciência não pode se posicionar muito à direita. Quem defende o progresso da ciência não tem a possibilidade de defender um Estado mínimo. Ciência depende de investimento em pesquisa básica. Tal atividade não tem como objetivo gerar imediatamente novos processos e produtos, e, portanto, não é atrativa para empresas privadas, que têm o lucro como objetivo. O investimento público é necessário. O Pirula chegou a dizer que nos Estados Unidos existe a prática do mecenato, em que empresas privadas investem em pesquisa básica sem esperar o retorno imediato, mas que isso não é suficiente. Pirula ainda chegou a criticar o governador Geraldo Alckmin por ter dito que a Fapesp financia pesquisas inúteis por não gerar novos bens como resultado. Pirula mencionou exemplos de pesquisas no passado que inicialmente eram “inúteis” (usando a produção de novos bens como critério de “utilidade”), mas que depois se tornaram úteis. Pirula também é contra a substituição de escolas públicas por vouchers para pagar escolas privadas, ideia defendida por seu amigo youtuber Daniel Fraga. E obviamente, Pirula se posicionou contra o Escola Sem Partido, até porque o movimento não se restringe a atacar apenas a “doutrinação comunista” como não poupa nem mesmo o conteúdo das ciências naturais que contradizem religiões. Nesta discussão, como era de se esperar, Pirula deu ênfase à parte das ciências naturais.

Embora o vídeo mencionado no início deste texto em que Pirula explica porque é “nem esquerda, nem direita” não seja dos melhores, ele tem alguns bons vídeos até mesmo sobre assuntos que não são da área de especialidade dele. Fez um vídeo bem didático sobre a questão de Israel versus árabes. Seu vídeo sobre ódio de etnia, gênero e orientação sexual e possíveis atitudes equivocadas de movimentos de minorias também foi muito bom. Ao mesmo tempo denunciou o que tem por trás do “anti politicamente correto”, e fez alguns bons alertas sobre como grupos identitaristas. Raramente Pirula discute partidos políticos, mas em um vídeo que ele fez sobre o PT, ele fez várias críticas ao partido que poderiam ter sido feita mais por militantes do PSOL e da REDE do que por militantes do PSDB e do DEM. Embora uma ou outra parte desse vídeo mostra alguma ingenuidade sobre o funcionamento da política.

Em alguns vídeos, Pirula apresentou opiniões contrárias àquelas habitualmente apresentadas por pessoas de esquerda. O paleontólogo é bastante crítico das políticas de inclusão de pessoas de baixa renda nas universidades feitas por governos do PT, como cotas e ampliação de vagas, por considerar que entraram muitos estudantes com dificuldade de aprendizado, o que poderia comprometer a qualidade do ensino. Este é um dos posicionamentos do Partido da Ciência que mais entra em conflito com partidos de esquerda. Pirula não tem rejeição ao veganismo, mas rejeita os argumentos utilizados por Gary Yourofsky, por considera-los desonestos. Muitos vegans são de esquerda e isto poderia provocar um choque. Mas, ao menos, entre os muitos vegans de esquerda que eu conheço, nenhum utiliza os argumentos do Gary Yourofsky.

Pirula começou a publicar vídeos no Youtube por volta de 2010. Os vídeos em que Pirula defendem posições mais parecidas com aquelas que pessoas de esquerda defendem são mais recentes. Pode ter ocorrido o seguinte: foi crescendo uma direita tão chucra ao longo da década de 2010, que tratava coisas que seriam apenas bom senso (que o Pirula defende) como “coisas de esquerda” que acabou induzindo quem defende essas coisas realmente se aproximar da esquerda. Uma direita muito chucra e barulhenta pode acabar empurrando para a esquerda pessoas que simplesmente têm bom senso.

Um momento em que muitos perfis de redes sociais passaram a tratar Pirula como esquerdidíssimo foi quando ele fez um vídeo falando das patacoadas do Olavo de Carvalho sobre os “fetos abortados no adoçante da Pepsi”. Pirula se limitou a criticar Olavo de Carvalho por causa deste assunto. Mas para os discípulos, qualquer um que mexeu com o Mestre deles é comunista.

Por fim, considero que Pirula, mesmo não sendo comunista, anarquista, socialista, mesmo não estando ligado a partidos de esquerda, movimentos sociais e sindicatos, mesmo manifestando opiniões negativas sobre estes grupos algumas vezes, mesmo se auto-declarando “nem de esquerda, nem de direita”, pode ser considerado levemente (bem levemente) de esquerda pelo seu progressismo em questões sociais, pela defesa do secularismo, pelas suas críticas ao obscurantismo conservador, pela sua defesa do investimento na ciência.

E temos que lembrar que o público alvo do Pirula é a classe média brasileira, que se deslocou bastante para a direita na década de 2010, e que parecer esquerdista nesses tempos pode pegar mal. Então, é possível até que ele tente passar uma imagem de menos esquerdista para evitar perder público.

Eu tenho nove contatos no Facebook que seguem o Canal do Pirula. Oito deles são de esquerda, um é de direita.

pirula

O que Olavo de Carvalho escreveu sobre integralismo, Franco, Salazar e Mussolini

Quem propaga a tese de que o nacional socialismo seria de esquerda é aquele tipo de direitista rudimentar que acha que tudo que é “de direita” tem que ser necessariamente bom e que por isso é necessário se livrar do filho feio. Trata-se do raciocínio do tipo “minha noiva nunca se atrasa porque se ela se atrasar não será mais minha noiva”. Conforme já foi discutido neste texto (clique no link se desejar ler), há dois tipos de propagadores da tese de que o nacional socialismo seria de esquerda. O primeiro tipo é o que acha que ser de direita significa defender a liberdade, e que portanto nenhuma tirania poderia ser de direita. (um completo desconhecimento da história da divisão esquerda/direita). O segundo tipo é o que gosta de ditaduras “moderadas” de direita e utiliza o “Hitler foi eleito” como desculpa para justificar golpes contra governos de esquerda eleitos pelo povo na América Latina.

Em geral, quem faz parte do segundo tipo tem Olavo de Carvalho como maior referência intelectual, embora quem faz parte do primeiro também pode ter. Olavo de Carvalho nunca falou bem do Hitler (ufa), mas vejam uma coletânea do que ele escreveu sobre integralismo, Franco, Salazar e Mussolini. Todas as citações têm link para o respectivo texto, para evitar reclamações como “você tirou a frase do contexto”.

 

Integralismo

“O integralismo foi um fascismo abrandado e inofensivo, um ultranacionalismo sem racismo, que celebrava a glória de índios, negros e caboclos. Entre os líderes do movimento havia, é verdade, um anti-semita declarado, o excêntrico historiador e cronista Gustavo Barroso, maluco não desprovido de talento, várias vezes presidente da Academia Brasileira. Mas, quando começou para valer a perseguição aos judeus na Alemanha e todos os bem-pensantes do mundo fizeram vistas grossas, foi do chefe supremo do integralismo, Plínio Salgado, que partiu uma das primeiras mensagens de protesto que chegaram à mesa do Führer (e na certa foi direto para o lixo).”

“Os escritos de Plínio hoje nos parecem melosos e de um hiperbolismo delirante. Politicamente, seu único pecado é a completa tolice. Moralmente, são inatacáveis. Ademais, o integralismo era católico – e sob o nazismo os católicos, convém não esquecer, eram o terceiro grupo na lista dos candidatos ao campo de concentração, depois dos judeus e dos politicamente inconvenientes”

“Reale ante os medíocres”, Jornal da Tarde, 21 de dezembro de 2000

http://www.olavodecarvalho.org/semana/reale.htm

Comentário: Muito provavelmente os bem-pensantes do mundo não fizeram vistas grossas, apenas suas mensagens de protesto simplesmente não chegariam à mesa do Führer, e foi engraçado Olavo ter escrito “politicamente inconvenientes” ao invés de “comunistas”

 

Franco

“É notório que o general rebelde obteve ajuda técnica e militar da Itália e da Alemanha, mas sem nada ceder a esses incômodos fornecedores (os únicos de que dispunha), defendendo a soberania do seu país com obstinada teimosia, timbrando em manter a neutralidade espanhola durante a II Guerra contra todas as pressões de Hitler e Mussolini e ainda concedendo abrigo a judeus foragidos, no mínimo como agradecimento à comunidade judaica de Valencia que ajudara a financiar sua rebelião.”

“Umas ditaduras são mais iguais do que as outras: Brasil – Mentira IV”, Diário do Comércio, 27 de abril de 2009

http://www.olavodecarvalho.org/semana/090427dc.html

“Moralmente falando, Francisco Franco, Charles de Gaule ou Humberto Castelo Branco, homens de uma idoneidade pessoal exemplar, foram infinitamente superiores a Fidel Castro ou Che Guevara, assassinos em série de seus próprios amigos, isto para não falar de Mao Dzedong, estuprador compulsivo.”

“Causas sagradas”, Diário do Comércio, 17 de janeiro de 2012

http://www.olavodecarvalho.org/semana/120117dc.html

Comentário: Por que o exemplarmente idôneo e moral Generalíssimo só recebeu ajuda da Itália e da Alemanha? Talvez por afinidade ideológica com Hitler e Mussolini, não é mesmo? E por que um país destruído em uma guerra civil entraria em outra grande guerra logo depois? Por que o Generalíssimo seria burro em além de tudo entrar no lado que iria perder? Ainda houve voluntários espanhóis para ajudar os nazistas na União Soviética

 

Salazar

“Não tenho a menor dúvida de que Antonio de Oliveira Salazar foi um homem honesto e um grande administrador. Mas o salazarismo foi infectado da mesma ambição de controle burocrático total que é característica do movimento revolucionário.”

Bruno Garschagen entrevista Olavo de Carvalho, janeiro de 2008

http://www.olavodecarvalho.org/textos/0801entrevista.html

Comentário: Comovente, o Professor Doutor era honesto e grande administrador mas se tinha algum defeito o defeito só poderia ser porque foi infectado pelo “movimento revolucionário”

 

Mussolini

“Mussolini, no começo, era de fato o único antinazista entre os governantes europeus, os quais, isolando-o, acabaram por forçá-lo a mudar de lado, o que acabou por destrui-lo. Também é fato que ele nunca foi anti-semita, mas isso não o absolve do patente racismo antinegro que o impediu de enxergar que a invasão da Abissínia era tão injusta e imoral quanto a da Áustria.”

Postagem no Facebook, 1 de setembro de 2016

“Até Mussolini saiu do governo quando a monarquia mandou. Mas o PT não sai nem quando o povo inteiro manda.”

Postagem no Facebook, 14 de novembro de 2015

Na maior parte das nações onde imperou, o fascismo tendeu antes a um autoritarismo brando, que não só limitava o uso da violência aos seus inimigos armados mais perigosos, mas tolerava a coexistência com poderes hostis e concorrentes. Na própria Itália de Mussolini o governo fascista aceitou a concorrência da monarquia e da Igreja – o que já basta, na análise muito pertinente de Hannah Arendt, para excluí-lo da categoria de “totalitarismo”.

“Mentira temível”, 8 de agosto de 2008

http://www.olavodecarvalho.org/semana/080808dc.html

Comentário: O líder italiano obedecia um rei. Que democrata!

 

Ditaduras anticomunistas em geral

“Vocês já notaram que SÓ nos países católicos foi possível oferecer uma resistência séria ao comunismo? Espanha, Portugal, Itália, Hungria, Polônia, México, Filipinas, o próprio Brasil, mostraram que Antônio Gramsci tinha razão ao declarar que o principal inimigo do comunismo não era o capitalismo e sim a Igreja Católica. O Brasil só se tornou vulnerável ao comunismo quando a Igreja no nosso país se corrompeu e grande parte da população perdeu a fé. Ou expulsamos os traidores de dentro da Igreja, ou será impossível salvar o Brasil.”

Postagem no Facebook, 18 de setembro de 2013

Comentário: Os Estados Unidos e os países do norte da Europa, de maioria protestante, foram as democracias liberais mais estáveis e tiveram partidos comunistas minúsculos. Muitos países do sul, do leste da Europa e da América Latina, de maioria católica, tiveram grandes partidos comunistas e também ditaduras anticomunistas. Parece que o auto-intitulado filósofo prefere as ditaduras anticomunistas às democracias liberais.

 

 

Lendo tudo isso, é possível perceber a grande ginástica argumentativa que é exigida para manter o raciocínio de que tudo o que é de direita é bom, e que tudo que é ruim tem que ser necessariamente de esquerda. É um contorcionismo retórico muito grande ao mesmo tempo considerar que o nacional socialismo era de esquerda e ter como referência intelectual um “pensador” que defende virtudes de líderes e movimentos nacionalistas anticomunistas que existiram na mesma época do nacional-socialismo e que tiveram colaboração.

É dura a vida de quem odeia a esquerda, fala que Hitler era de esquerda, mas que concorda com quem exalta o Generalíssimo Francisco Franco, aquele que chegou ao poder com a ajuda da Legião Condor do esquerdista Hitler.

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O que teve no XXII Encontro Nacional de Economia Política

Foi realizado na Unicamp entre os dias 30 de maio e 2 de junho de 2017 o XXII Encontro Nacional de Economia Política (ENEP), promovido pela Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP). A SEP é uma “sociedade civil sem fins lucrativos, que tem por objetivo primordial garantir um espaço ampliado de discussão a todas as correntes teóricas e áreas de trabalho que entendam a economia como uma ciência inescapavelmente social e que, por isso, tenham na crítica ao mainstream seu elemento comum”. http://www.sep.org.br/ Predomina na SEP a visão marxista, embora também haja espaço para outras correntes heterodoxas, como a pós-keynesiana, a estruturalista e a institucionalista.

Desde que foi criada na década de 1990, a SEP promove anualmente o ENEP. A cada ano, uma faculdade de economia sedia o evento. Em 2017, assim como já aconteceu em 2005, o evento ocorreu no Instituto de Economia da Unicamp. É neste instituto que o evento está mais “em casa”, pois é onde existe a maior quantidade de professores que divergem do mainstream do pensamento econômico. O encontro é composto por sessões ordinárias, em que há mesas onde mestrandos, doutorandos e professores apresentam artigos, e por painéis, onde convidados ilustres discutem assuntos do momento.

O tema principal do XXII ENEP foi óbvio, dado o contexto político e econômico em que vivemos atualmente. Foi sobre a restauração neoliberal que está ocorrendo na América Latina. A descrição oficial foi a seguinte:

“A conjuntura atual da economia mundial recoloca o neoliberalismo como a resposta que o capitalismo constrói para a saída de sua própria crise. Esta conjuntura já explicitada no plano mundial se exacerba no atual momento tanto para a América Latina como para a economia brasileira. A Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) convida pesquisadores, acadêmicos, profissionais, estudantes e demais interessados para participar do XXII Encontro Nacional de Economia Política (XXII ENEP) para refletir criticamente sobre essa conjuntura. O tema deste ano, “Restauração Neoliberal e as Alternativas na Periferia em Tempos de Crise do Capitalismo”, tem esse objetivo, e será tratado por diferentes temáticas cobrindo os tópicos do ajuste fiscal, das reformas estruturais, privatizações e seus impactos sobre os direitos sociais, perspectivas socioeconômicas, e momento político de nossa sociedade.” http://www.sep.org.br/

Conforme nós sabemos, houve o esgotamento dos governos progressistas e uma guinada à direita em grande parte da América Latina. Há um ressurgimento do neoliberalismo como ideologia dominante e como orientação das políticas. Os assuntos discutidos no XXII ENEP em muitas sessões e em muitos painéis foram a crise dos governos progressistas, discutindo-se causas diferentes daquelas apontadas pela mídia comercial, as políticas neoliberais que os novos governos vem implementando, possíveis alternativas a essas políticas e as possibilidades de construir forças políticas para reagir à restauração neoliberal.

Sobre o Brasil, foi falado em muitas mesas que os governos Lula e Dilma (2003-2016) tentaram fazer políticas em que todos sairiam ganhando, aumentando o consumo dos pobres sem atacar as causas estruturais da elevada concentração de renda e riqueza existente no país. Houve aumento do salário mínimo, aumento de recursos aplicados em programas sociais, aumento de crédito, mas a estrutura tributária foi mantida baseada na predominância dos impostos sobre consumo, em detrimento dos impostos sobre renda e patrimônio, e o tripé macroeconômico foi preservado. Não houve reforma política para diminuir o poder econômico nas eleições nem houve reforma dos meios de comunicação para desoligopolizar as empresas de mídia. O projeto do governo Temer, que chegou ao poder com o golpe parlamentar de 2016, é desmantelar o Estado de Bem Estar Social criado pela Constituição de 1988. Sobre quais políticas alternativas ao neoliberalismo e sobre como criar um ambiente político para reverter o quadro atual, havia entre os apresentadores mais dúvidas do que certezas.

O Painel I teve os professores Pedro Paulo Zaluth Bastos (Unicamp) e Vanessa Petrelli Correa (UFU) falando sobre a restauração neoliberal e as alternativas de política econômica. O Painel II teve Julio Gambina (Sepla, Argentina) e Antonio Elias (Sepla, Uruguai) falando sobre os limites e o esgotamento dos governos progressistas na América Latina. O Painel III teve os professores Plínio Arruda Sampaio Jr. e Leda Paulani falando dos enfrentamentos das políticas de ajuste.

Houve várias mesas de sessões ordinárias. Eu vi algumas. Entre os artigos apresentados que destaco estão “A nova gestão pública como forma de controle do capital financeiro sobre o Estado no capitalismo contemporâneo” de Diogo Santos (UFMG), que rebateu a ideia de que a nova gestão pública seria ideologicamente neutra e que seria uma necessidade. “A guerra de todos contra todos: a crise brasileira”, escrito por diversos autores da UFRJ, UFBA e UFRGS discutiu a crise política brasileira de 2013 a 2017 tentando analisar as motivações e comportamentos de diversos agentes, enfatizando o fato de que os responsáveis pela Operação Lava Jato são defensores de um “liberalismo difuso”, mas não desejam desestabilizar apenas os partidos vistos como antiliberais, e sim todo o sistema político. “Lucratividade e distribuição: a origem econômica da crise política brasileira” de Adalmir Marquetti (PUC-RS), Cecília Hoff (PUC-RS) e Alessandro Miebach (PUC-SP) e “Unsustaintability in wage-led growth regimes: the case of the Brazilian economy in the 2000s” de Felipe Figueiredo Câmara abordaram os limites das políticas dos governos Lula e Dilma de elevar os salários de base. O artigo “A política social e os limites do experimento desenvolvimentista: o período 2003-2016″ de Eduardo Fagnani (Unicamp) e André Calixtre (IPEA) tratou da construção do Estado de Bem Estar Social brasileiro a partir da Constituição de 1988, e enfocou o período dos governos do PT, mostrando o que teve de continuidade em relação à era neoliberal, o que houve de tentativa de mudança, as falhas e as atuais ameaças ao Estado de Bem Estar Social, com o atual governo. “The limits of income redistribution and growth in Brazil, 1992-2013” de Pedro Mendes Loureiro (SOAS, University of London) tratou da evolução do comportamento da renda de diversas classes sociais brasileiras no período mencionado, mostrou como houve uma desconcentração de renda entre assalariados, mas a renda do capital permaneceu intocada, e como não foi possível manter por um período prolongado uma redistribuição de renda com base apenas em aumento de salários de base. “O novo debate sobre cobrança de mensalidades nas universidades federais brasileiras” de Fernando Pereira (ICSA) e Wolfgang Lenk (UFU) refutou os argumentos mais utilizados pelos defensores da cobrança nas universidades federais, mostrando que as famílias dos estudantes das federais não são mais muito mais ricas do que a média da população brasileira, e que a cobrança não é consenso fora do Brasil.

O caderno de resumos de todos os artigos apresentados encontra-se no site da SEP. http://www.sep.org.br/ev/xxii-enep/p/programacao

Apesar do XXII ENEP ter sido em sua maior parte sobre a crise econômica e as mudanças políticas na América Latina e mais especificamente no Brasil, destaque também foi dado aos 150 anos da publicação do primeiro volume de “O Capital”, de Karl Marx. Um painel especial com a presença de Michael Heinrich (Universidade de Berlim) e Luiz Gonzaga Belluzzo (Unicamp) abordou a história, a importância que “O Capital” teve nos últimos 150 anos, e as interpretações que é possível ter da obra. É importante lembrar que apenas o primeiro volume do Capital foi publicado quando Marx estava vivo, que o segundo e o terceiro volume foram publicados por Engels a partir dos manuscritos de Marx, que houve poucos esforços de difusão da obra no final do século XIX e na primeira metade do século XX, que foi uma obra muito influente, mas lida integralmente por poucos, e que deu margem a muitas interpretações. Eventos como esse ajudam a aumentar o interesse pela obra.

enep XXII

Comparando Ciro Gomes e Marina Silva

Ciro Gomes e Marina Silva são dois possíveis candidatos para a eleição presidencial de 2018 (ou 2017?). Existe grande diferença entre ambos. Ciro é desenvolvimentista. Marina atualmente pode ser descrita como eco-liberal. Ciro foi grande incentivador da transposição do Rio São Francisco. Marina foi contra. Porém, há semelhanças entre ambos. Os dois foram ministros de Lula. Os dois disputam o mesmo eleitorado: aquele que já votou no PT, acha que o PT já deu o que tinha que dar, mas deseja uma alternativa que não seja nem pela direita, nem pela extrema-esquerda. Quem já tentou alcançar este público foram Cristóvam Buarque, Eduardo Campos e Eduardo Jorge, que acabaram se perdendo quando aceitaram passivamente o papel de linha auxiliar do PSDB.

Marina Silva tem um passado mais esquerdista do que Ciro Gomes. A política acreana foi seringalista do tempo do Chico Mendes, iniciou sua carreira política no PT. Foi senadora, foi ministra do Meio Ambiente de Lula, depois saiu do governo Lula, saiu do PT, saiu da esquerda, candidatou-se a presidente em 2010 pelo PV, em 2014 pelo PSB, e depois fundou a REDE. O político cearense iniciou sua carreira política no PDS, partido sucessor da Arena. Posteriormente, passou pelo PSDB, onde foi grande aliado de Tasso Jereissati. Foi governador do Ceará e Ministro da Fazenda, exercendo este cargo no tempo do lame duck do Itamar. Depois passou pelo PPS, depois pelo PSB, depois pelo PROS, e agora está no PDT.

Mas passado é passado e presente é presente. Atualmente, Ciro Gomes está à esquerda de Marina Silva. O programa de Ciro Gomes não é muito esquerdista. É simplesmente o novo desenvolvimentismo do Bresser Pereira. Um programa diferente tanto daquele implantado por Collor, Itamar, Fernando Henrique e Temer, quanto daquele implantado por Lula e Dilma. Tanto os governos neoliberais, quanto os governos petistas, permitiram a sobrevalorização da moeda brasileira. Os primeiros por consideraram que o livre mercado é o melhor regulador do câmbio, os segundos por verem o real forte como um meio para aumentar o poder de compra das classes mais baixas. A consequência disso foi que a indústria de transformação, que já teve participação de mais de 30% do PIB brasileiro nos anos 1980, passasse a ter participação em torno de 10% atualmente. Ciro Gomes pretende manter o real mais desvalorizado, para facilitar a reindustrialização. Ele também pretende diminuir os juros. Seu programa não é muito esquerdista porque para evitar que moeda estrangeira mais cara e juros mais baixos aumentem a inflação, serão necessárias políticas fiscal e salarial mais austera. Obviamente ele procura falar pouco dessa necessidade, para não espantar apoios de esquerda. Com mais dificuldade para redistribuir renda através do aumento da despesa pública, Ciro Gomes pretende redistribuir renda através do aumento da progressividade do sistema tributário, uma política desejada pela esquerda. A Marina Silva, por sua vez, tem um programa econômico mais liberal. Seu principal guru em economia é Eduardo Gianetti. Na campanha de 2014, defendeu a independência do Banco Central, algo que nem Aécio fez.

Apesar de seu programa não ser muito de esquerda, Ciro Gomes busca consistentemente uma base de apoio sólida dentro da esquerda. Por isso, apoiou duas vezes a eleição da Dilma, se posicionou veementemente contra seu impedimento, faz duras críticas a Eduardo Cunha, Michel Temer e políticos do PSDB, faz duras críticas ao MBL, elogia Guilherme Boulos e Jean Wyllys. Seu perfil no Facebook “Time Ciro Gomes” passa uma imagem de que ele é mais de esquerda do que realmente é. Enquanto isso, Marina Silva parece biruta de aeroporto. Tentou alguns apoios de esquerda na eleição presidencial de 2010. Apoiou alguns candidatos de esquerda nas eleições municipais de 2012. Posicionou-se à direita na eleição presidencial de 2014. Defendeu uma agenda econômica liberal, apoiou Aécio Neves no segundo turno. Quando fundou a REDE, recebeu nomes de esquerda, como Luiz Eduardo Soares, Randolfe Rodriguez e Alessandro Molon. Ao longo de 2015, não apoiou o impeachment, apoiou apenas a cassação da chapa e realização de nova eleição presidencial. Com o derretimento do PT, parecia que Marina Silva estava disposta a retornar para a esquerda e disputar com Ciro Gomes o espaço vazio deixado pelo PT. Eis que perto da votação do impeachment no plenário, Marina Silva, diferente da maioria de seu partido, decide apoiar o impeachment. Por diferenças de pensamento com a Marina sobre a política brasileira atual, Luiz Eduardo Soares deixou a REDE. Recentemente, Marina Silva defendeu as reformas previdenciária e trabalhista, sinalizando disposição de atrair um eleitorado mais direitista. Talvez este posicionamento tenha ocorrido porque Lula recuperou nas pesquisas e o PSDB teve desgaste de nomes importantes, além do desgaste de ser cabeça do governo Temer.

Ciro está à esquerda de Marina, mas ambos estão à direita do PT e à esquerda do bloco PMDB/PSDB/DEM. E por isso enfrentam o mesmo problema: a elevada polarização entre o PT e o anti-PT não deixa espaço para posições intermediárias. Na intensa polarização entre coxinhas e mortadelas, quem tenta não ser coxinha nem mortadela é chamado de mortadela por coxinhas e de coxinha por mortadelas. O PDT do Ciro Gomes teve algumas vitórias nas eleições municipais de 2016 no Ceará, incluindo a capital do estado, porque Ciro é uma grande força local. Mas a REDE da Marina teve um grande fiasco, ficando com menos de 1% na maioria das cidades, elegendo pouquíssimos vereadores no Brasil inteiro, e elegendo prefeito apenas em Macapá, onde o prefeito reeleito havia ganhado pelo PSOL em 2012. A Marta, que havia concorrido à prefeita de São Paulo pelo PMDB mas carregava a possibilidade de contar com pessoas que já trabalharam com ela nos tempos de PT, teve um desempenho pífio. No cenário de elevada polarização, é mais fácil uma terceira força na política brasileira estar à esquerda do PT/PCdoB ou à direita do PMDB/PSDB/DEM do que entre ambos. Jair Bolsonaro já tem dois dígitos nas pesquisas. O PSOL, no ano passado, conseguiu eleger uma razoável quantidade de vereadores e teve bom desempenho em várias cidades grandes. Isto porque o PSOL não pretende ser uma alternativa às coxinhas e mortadelas, e sim uma outra marca de mortadela.

A analogia do carrinho de sorvete na praia diz que da mesma forma que em uma praia com dois carrinhos de sorvete, os dois tenderão a se posicionar um ao lado do outro no meio da praia para ter maior clientela, em uma eleição, em uma eleição, os candidatos tenderão a se posicionar mais ao centro para ter mais chance de vencer. Esta analogia não está funcionando mais, nem no Brasil, nem no resto do mundo.

Percebendo que o cenário político brasileiro não comporta mais posições intermediárias, Ciro Gomes tenta passar uma imagem de ser mais de esquerda do que realmente é. Sabendo que a polarização entre PT e anti-PT não gera espaço para quem tenta ser meio termo, Ciro Gomes não pretende ser candidato em 2018 se Lula for. Caso Lula não seja candidato, Ciro quer ser candidato com apoio do PT. Ele deseja que Fernando Haddad seja seu vice. Ainda assim, é possível que no cenário sem candidatura de Lula, Ciro tenha mais dificuldades do que no Lula teria no cenário sem candidatura de Ciro. Muitos entusiastas de Lula não seriam grandes entusiastas de Ciro. Poderiam votar no Ciro, mas sem fazer militância. Por outro lado, Ciro herdaria a rejeição a Lula. Vimos nas eleições municipais de 2016 que a grande rejeição ao PT se espalhou até mesmo para candidatos que não têm o número 13. Marcelo Freixo herdou o apoio do PT mas também herdou a rejeição ao PT. Marta, mesmo dando flores para Janaína Pascoal, não escapou ilesa da rejeição ao PT.

Acredito que até agora ninguém discutiu esta possibilidade, mas se Lula for candidato e Ciro insistir em ser candidato, uma aliança Ciro/PSOL poderia trazer benefícios para ambos. Poderia ser pensada a possibilidade de uma chapa Ciro Gomes presidente, Chico Alencar (ou Marcelo Freixo) vice. O campo democrático e popular já não tem mais tanta popularidade no Brasil. Talvez seja melhor ser representado por duas do que por três candidaturas. Pode ser estranho um acordo de quem está à direita com quem está à esquerda do PT. Mas também teria sua lógica. O PT não polariza apenas no espectro político geral, mas também polariza dentro da própria esquerda. Tem gente dentro da esquerda que gosta muito do PT, mas também tem gente dentro da esquerda que não quer mais o PT. Toleraria tanto quem está mais, quanto quem está menos à esquerda. Chico Alencar ou Marcelo Freixo de vice na chapa de Ciro poderiam diminuir a resistência de grande parte da esquerda da Região Sudeste ao Ciro. Em compensação, o PDT poderia fornecer seu tempo de televisão para as candidaturas do PSOL para governador e senador do Rio de Janeiro. Apesar dessas vantagens para ambos, haveria também restrições em ambos. Ciro Gomes provavelmente vai querer buscar apoio entre empresários, e por isso não ia querer algum vice muito esquerdista. Uma aliança deste tipo não seria muito bem aceita por muita gente dentro do PSOL, que saiu do PT justamente por não concordar com a política de alianças. É possível ainda que tenha gente dentro do PSOL que considera Ciro pior do que Marina. Ou seja, é praticamente impossível que esta aliança aconteça.

Se tanto Lula, quanto Ciro Gomes, quanto Chico Alencar saírem candidatos, é muito provável que Ciro Gomes receba menos votos do que Chico Alencar na Região Sudeste.

Como foi dito no primeiro parágrafo, Ciro Gomes e Marina Silva têm posições muito diferentes, mas disputam um eleitorado semelhante. Por causa destes dois motivos, há uma grande possibilidade de haver uma guerra entre simpatizantes de ambos nas redes sociais até 2018. O Time Ciro Gomes já faz algumas críticas à Marina de vez em quando. Os negrianos brasileiro, que são um braço de apoio à Marina que algumas pessoas consideram de esquerda, não gostam de Ciro. Um deles já postou até mesmo um texto do Spotniks criticando o político do PDT.

capas ciro e marina

A guerra política de trincheiras na educação brasileira

Há uma guerra política pelo controle da educação brasileira, com dois grupos rivais bem entrincheirados. O primeiro grupo é composto por fundações empresariais de apoio à educação, Globo, Abril e Banco Mundial, e o segundo grupo é composto por sindicatos de docentes e acadêmicos da área de Pedagogia. O único ponto de concordância entre ambos os grupos é que a educação brasileira encontra-se em um estado lamentável. Mas o diagnóstico e as soluções propostas são bem diferentes. O primeiro grupo considera que o problema da educação brasileira é um problema de má gestão, e que para resolver, deveriam ser trazidas técnicas de gestão das empresas privadas, e, se possível, deixar a administração das escolas para as empresas privadas. Em suma, um modelo business. Este grupo é entusiasta de avaliações externas padronizadas de larga escala, remuneração variável para os professores de acordo com o desempenho de seus alunos nessas avaliações e material apostilado. Também considera que se o desempenho dos alunos é muito ruim e se os recursos são escassos, o ensino de leitura e matemática deve ser priorizado. Este grupo também valoriza muito a qualificação de mão-de-obra. Enxergam a educação como um meio do país produzir mais e melhores bens e serviços. O segundo grupo considera que os principais problemas são a histórica falta de prioridade dada à educação no Brasil e a baixa qualidade de vida do povo, e que é necessário mais investimento, melhores salários para os professores, maior autonomia para os professores, gestão mais democrática das escolas e melhor infra-estrutura das escolas. Este grupo tende a defender o ensino de artes, de filosofia e sociologia, e considerar todos os conteúdos igualmente importantes. Não costuma a enxergar a educação como um meio de produzir mais e melhores bens e serviços porque já enxerga a instrução como um bem em si.

Não há igualdade entre os dois grupos. O primeiro tem presença muito maior na grande mídia e influencia muito mais governos. Governos do PSDB, PMDB e PSB aderem integralmente à agenda do primeiro grupo. Governos do PT ficam no meio termo. É importante lembrar que Fernando Haddad, quando Ministro da Educação, fez algumas políticas que agradou o segundo grupo, mas também deu importância para o Ideb e sempre manteve contato com empresários ligados à área de educação. Governos do PSOL favoreceriam o segundo grupo, mas, por enquanto, governo do PSOL só teve em Itaocara.

Entre os mentores intelectuais do primeiro grupo, estão Cláudio Moura de Castro e Gustavo Ioschpe. O Cláudio Moura de Castro é aquele do qual nós dizemos “discordo ideologicamente, mas respeito”. O Gustavo Ioschpe, o que dizer dele? É possível dizer que se o Brasil tivesse uma educação de qualidade, Gustavo Ioschpe não seria visto como um dos maiores especialistas em educação do Brasil. Há algumas pessoas deste grupo que tiveram atitudes que nós podemos elogiar. A ex-secretária Cláudia Costin, uma expoente deste grupo, se opôs à emenda constitucional do teto dos gastos, dizendo que isto prejudicaria muito a educação. Como o primeiro grupo está muito relacionado com conservadores, é possível esperar que este grupo defenda o Escola Sem Partido. Mas é preciso destacar que há pessoas sérias neste grupo, que não defendem essa boçalidade.

Se o primeiro conseguisse implementar toda sua pauta, haveria um dirigismo stalinista na educação. Se o segundo grupo conseguisse implementar toda sua pauta, haveria um laissez-faire. Não, não houve confusão, pode parecer paradoxal, mas é isso mesmo. Organizações que defendem um laissez-faire na economia são extremamente dirigistas quando falam de educação. Querem padronizar provas, aulas, currículo e material didático. O papel do professor neste modelo seria de mero repassador de conteúdo. Por sua vez, movimentos e partidos que defendem um papel mais ativo do Estado na economia são menos top-down quando falam de educação.

A avaliação padronizada externa de larga escala, defendida pelo primeiro grupo, aumentaria a transparência das escolas, pois permitiria professores, pais, mães, autoridades e a sociedade em geral verificar se e como os alunos estão aprendendo. O desempenho muito ruim de estados e municípios brasileiros no Ideb e o desempenho muito ruim de países (incluindo o nosso) no Pisa pode fazer a sociedade pensar que é necessário investir mais em educação. Porém, quando as avaliações são utilizadas para definir remuneração variável para os professores, os problemas começam. Na menos ruim das hipóteses, existe o incentivo para preparar os alunos exclusivamente para a avaliação. Na pior das hipóteses, existe o incentivo para a trapaça. A implementação de um programa de remuneração variável com base em resultados de avaliações padronizadas de larga escala pode gerar um mal estar com professores. Como não existe almoço grátis, o dinheiro utilizado para o “prêmio por desempenho” não é um prêmio. É um dinheiro que poderia ser utilizado para aumentar a remuneração fixa. Mesmo não dizendo explicitamente, o gestor que implementa uma política de prêmio transmite a ideia de que a educação está ruim por causa da pouca dedicação dos professores. O professor que convive com escolas caindo aos pedaços, salas super lotadas, alunos indisciplinados, balas perdidas e esgoto a céu aberto não terá boa vontade com gestores que indiretamente culpam seu suposto desleixo pelo fracasso da educação. Se não forem utilizadas para políticas de remuneração variável e sim apenas como uma ferramenta de apoio pedagógico, as avaliações padronizadas poderiam ter mais aceitação de professores.

Geralmente, estados e municípios brasileiros que têm bom desempenho no Ideb e países que têm bom desempenho no Pisa são aqueles que valorizam as avaliações padronizadas. Mas, dããããã, é natural que redes de ensino que valorizam provas tenham sucesso quando o sucesso é medido por provas. Devemos também ter um olhar crítico sobre o “sucesso” que estados e municípios têm logo depois de implementar avaliação padronizada e remuneração variável. Muitas vezes, isto ocorre quando um governador ou prefeito quer colocar a educação como vitrine, aí ele implementa estas políticas junto com muitas outras políticas, como aumento de recursos para melhorar a infra-estrutura das escolas, criação de turmas de reforço e aumento da remuneração fixa dos professores. Aí, o “sucesso” pode ser consequência do pacote completo de políticas, e não especificamente da avaliação padronizada e da remuneração variável.

É importante mencionar Diane Ravitch, secretária assistente de educação durante o governo de George Bush (1989-1993) nos Estados Unidos. Em 2010, ela publicou The Death and Life of the Great American School System, em que demonstrou que não foram bem sucedidas as políticas que ela mesmo ajudou a implementar, como os prêmios vinculados aos resultados de avaliações padronizadas e o apoio público às charter schools. Depois de ter ajudado a implementar, ela rejeitou o modelo de business para a educação.

No Brasil, vemos defensores do modelo business, aquele que o primeiro parágrafo deste texto identificou como “primeiro grupo”, utilizando argumentos muito ruins. É habitual vê-los falando que “não há correlação entre quantidade de recursos investido e salários dos professores com o desempenho das redes de ensino”. Realmente, entre os países desenvolvidos, onde em todos eles os professores recebem salários que no mínimo são razoáveis, realmente não há correlação entre salário e desempenho no Pisa. Mas nos países subdesenvolvidos incluídos no Pisa, com destaque para o nosso, os salários são muito mais baixos e o desempenho é muito pior. É habitual vê-los falando também que enquanto o Distrito Federal tem o maior salários do Brasil e desempenho ruim no Ideb, Santa Catarina, que habitualmente lidera o Ideb, tem salário baixo. Mas é necessário lembrar que o Distrito Federal é todo ele uma área metropolitana, que lá são basicamente os pobres que estudam em escolas públicas, que Santa Catarina não tem uma única cidade muito grande, e que o desempenho de cidades grandes muitas vezes é pior. É comum ainda ver defensores do modelo business culpando os sindicatos de professores por serem corporativistas, e por pensarem apenas no bem estar da categoria e por atrapalharem a implementação do que seriam as boas políticas. Bom, sindicatos são sindicatos, não são fundações. É papel dos sindicatos defender seus associados. “Sindicato corporativista” é um pleonasmo. O corporativismo não é uma atividade criminosa. Integrantes de consultorias que tentam vender seus serviços aos governos, e que dizem que o papel das consultorias é importante, também estão sendo corporativistas.

Quando aparecem os resultados do Brasil no Pisa, horríveis como sempre, muitas vezes vemos na mídia comentaristas defendendo o aprofundamento do modelo business. Mas este modelo já é praticado há mais de dez anos em muitos estados brasileiros, e já deveria ter mostrado resultados. O estado de São Paulo, que tem 22% da população brasileira, implementou a bastante tempo a política de prêmio aos professores por desempenho dos alunos em avaliação padronizada.

Do segundo grupo, também há posicionamentos que precisam ser criticados. Alguns sindicatos de professores cometem equívoco quando utilizam a palavra de ordem “não à meritocracia” para lutar contra as políticas de remuneração variável. Isto porque meritocracia não se resume à remuneração variável. A admissão de professores por concurso é uma forma de meritocracia. E acredito que ninguém é contra a realização de concursos como forma de admitir professores. “Não à remuneração variável” seria um palavra de ordem bem melhor.

Integrantes do segundo grupo muitas vezes utilizam a Finlândia como exemplo de sucesso em que não há um currículo nacional rígido e que os professores têm bastante autonomia para elaborar seus próprios currículos. Mas é necessário evitar a confusão entre causa e efeito. Na verdade, a autonomia foi introduzida na década de 1990 depois que o país atingiu um patamar de excelência. Até aquele momento, havia sim um controle rígido do currículo (Porter-Magee, 2013).

O segundo grupo está muito relacionado com partidos de esquerda. Em A Vantagem Acadêmica de Cuba, o pesquisador Martin Carnoy (2009) observa que o sistema educacional cubano é o melhor da América Latina. Quer dizer então que os sindicatos brasileiros de professores defendem algo parecido com o modelo cubano, certo? Não é isso que ocorre. Em Cuba, a autonomia dos professores é bem pequena. O governo traça as instruções do que ensinar e como ensinar. No primeiro ciclo do Ensino Fundamental, há muito mais professores generalistas do que professores especialistas. Em geral, os sindicatos brasileiros de professores não defendem isso.

Para concluir, é importante dizer pensar em melhorias para a educação brasileira implica sair das duas trincheiras. E um alerta necessário: independentemente de quem mandar na educação brasileira nos próximos anos, se for o primeiro ou o segundo grupo, a educação brasileira está seriamente comprometida por causa da emenda constitucional do teto dos gastos.

 

Bibliografia

CARNOY, M. A vantagem acadêmica de Cuba. 2009.

PISA 2012 Results. OECD. 2012. http://www.oecd.org/pisa/keyfindings/pisa-2012-results.htm

PORTER-MAGEE, K. Real Lessons from Finland. Advancing educational excelence. 2013. https://edexcellence.net/commentary/education-gadfly-weekly/2013/january-3/real-lessons-from-finland.html

RAVITCH, D. The death and life of the great American school system. 2010. https://www.amazon.com/Death-Great-American-School-System/dp/0465025579

RODRIGUES, C. Pisa em seu devido lugar. Carta Educação. 2014. http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/pisa-em-seu-%E2%80%A8devido-lugar/

guerra educação brasil

Marx e a “natureza humana”

Por Frederico Lambertucci

 

A produção teórica marxiana em muito nos ajuda a pensar as questões ligadas ao sujeito. Pois então vamos lá, inclusive sobre sua “natureza”.

A primeira grande contribuição de Marx, nesse terreno, é enfrentar a ideia de que os seres humanos são indivíduos essencialmente maus, egoístas, mesquinhos, concorrenciais, etc. Na contramão disso, Marx demonstra que “A essência humana’ é o conjunto das relações sociais’. A alma do indivíduo é o nó das relações sociais. Ele terá a alma de sua sociedade, dos nós da sociedade em que ele vive, ou seja, o indivíduo tem, na sua interioridade como ‘alma’, a síntese que reproduz o conjunto social. Por isso a ideia do ser genérico: o ser que, como indivíduo, contém o gênero essencial do seu gênero” (CHASIN).

Nessa linha, Marx também rompe com a falsa oposição entre indivíduo e sociedade, posto que um indivíduo isolado da sociedade seja um homem somente em potência – imaginemos um bebê lançado na selva e que, por um milagre, consiga sobreviver: ele não terá acesso a uma linguagem articulada, sua própria capacidade de entender o seu ambiente e agir sobre ele se aproximará muito mais da forma como outros animais o fazem do que a de indivíduos em sociedade; enfim, ele não terá acesso ao imenso conjunto de conhecimentos acumulados pelo gênero humano. Por outro lado, a sociedade nada mais é do que o conjunto de indivíduos. Portanto, uma sociedade sem indivíduos é uma mera abstração (sem qualquer impacto na realidade).

Assim sendo, nas palavras de Chasin: “O indivíduo (homem) e sociedade (o conjunto dos homens) não são seres distintos, mas são momentos do mesmo ser”. “Na ontologia marxiana não há possibilidade de salvar o indivíduo se a própria sociedade não for salva. Não há possibilidade de salvar a sociedade se não salvarmos os indivíduos”. “Essas duas coisas estão numa interação tal que não é possível pensar na revolução social sem que haja reordenação das individualidades e não é possível pensar na reordenação das individualidades sem que haja reordenação social”. “Portanto, nem anjo, nem demônio, o homem é simplesmente social, e nos contornos desta sociabilidade, que é sua e à qual pertence esse ser ou animal social está naturalmente predisposto a interagir em cooperação com os demais de seu gênero. Virtude e vício, bondade ou maldade, são então avaliáveis pelo metro da efetivação ou desefetivação de atos interativos ou cooperativos; em outros termos, pelo critério da produção e reprodução conjugada da comunidade e da individualidade”.

Contudo, ainda resta uma grande questão: por que Maquiavel, Hobbes, dentre tantos outros, pensavam os seres humanos como essencialmente maus? Ou melhor, por que na nossa cotidianidade os indivíduos realmente apresentam uma série de vícios (egoísmo, mesquinhez, frieza, etc.)?

Isso ocorre posto que, para sobrevivermos numa dinâmica social fundada na escassez e na concorrência (em que, obrigatoriamente, há vencedores e derrotados; e estes pagam as suas derrotas com a própria vida), nós temos que lutar obstinadamente e incansavelmente pela nossa sobrevivência individual, o que significa reproduzir (conscientemente ou inconscientemente) as regras dessa dinâmica social. (“Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhe as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram”.) Portanto, for mesquinho, egoísta, etc. na sociabilidade capitalista nada mais é do que um mero mecanismo de sobrevivência, ou melhor, é a forma por meio da qual podemos garantir a nossa subsistência nessas condições de existência. (Nos termos de Lukács, o capitalismo deforma a nossa subjetividade.)

Assim, “É cristalino que Hobbes simplesmente universaliza o que é próprio à conduta humana no quadro do estado de escassez perfilado no modo de produção capitalista, em que as individualidades estão radicalmente apartadas das condições objetivas do trabalho. Sob esse aspecto toda sua sabedoria se resume como mais tarde virá a acontecer com os economistas clássicos, em “esquecer-se da diferença”, que igualiza e eterniza particularidades, tornando natural o que é produto de um dado modo circunscrito e datado de existência social” (CHASIN).

Dessa forma, fica claro também como toda a teorização e a luta de Marx não se dá contra individualidades, mas sim contra as condições sociais que criam essas individualidades deformadas. Por exemplo, olhando para as condições de existência do proletariado alemão, Marx afirma essa fração social “é, numa palavra, a perda total da humanidade e que, portanto, só pode ganhar a si mesma por um reganho total do homem”. Portanto, não se trata de uma luta contra as individualidades burguesas, mas contra um modo de produção que cria as condições de produção e reprodução de individualidades em condições extremamente favoráveis (burguesas) à custa de outras (muitas) individualidades. Ou seja, trata-se, por um lado, da eliminação de um modo de produção que cria condições de existência radicalmente distintas (ser burguês não é simplesmente ser materialmente mais rico, mas é também ter condições de ser humanamente mais rico – ter melhor acesso ao patrimônio científico, cultural e artístico acumulado pelo gênero humano), enquanto, por outro lado, trata-se da criação de condições para que todos os seres humanos possam viver e se desenvolver de forma plenamente humana.

Aquele que fizer menos força e tiver menos talento será, no padrão médio de uma sociedade comunista, incomparavelmente superior ao dos nossos tempos. Em suma, a eliminação da distinção entre trabalho braçal e intelectual significa que o trabalhador concebido é aquele capaz de se mover em qualquer campo intelectual. Não é que o intelectual de hoje, com todas as suas deficiências, se esvazie da posição de intelectual para adotar a posição rude e brusca dos iletrados. Comunismo não é o universo da igualização por baixo, é a diferenciação aguda por cima. Por isso que socialismo e comunismo não se constroem a partir da pobreza” (CHASIN).

karl marx p&b

O libertarianismo é menos ruim do que o conservadorismo tradicional?

Os libertarians são um mal menor se comparados com os conservadores tradicionais? A resposta desta pergunta é não. Os libertarians não são nem mesmo tão ruins quanto os conservadores tradicionais. São piores. E por que algumas pessoas de esquerda no Brasil pensam que os libertarians são um mal menor em comparação com os conservadores tradicionais? Porque há uma confusão sobre o uso da palavra libertarian.

Este texto utiliza a palavra libertarian, em Inglês, para mostrar sua origem norte americana. No resto do mundo, a palavra liberal é utilizada para denominar quem defende o Estado mínimo, e a palavra libertário já foi utilizada para denominar anarquistas. Nos Estados Unidos, a palavra liberal é aplicada para a esquerda, restando a palavra libertário para denominar quem defende o Estado mínimo. As maiores referências dos libertarians são Milton Friedman, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Murray Rothbard, Ayn Rand (embora ela rejeitasse o rótulo), Lew Rockwell, o Cato Institute e o Mises Institute.

Alguns brasileiros sabem que libertarian é o que nós chamamos de liberal, mas não têm noção do radicalismo dos libertarians. Os brasileiros de esquerda que pensam erroneamente que libertarians são menos ruins do que conservadores tradicionais pensam que os libertarians são os “liberais no mau e no bom sentido”. Eles pensam que os libertarians são aqueles que “concordam com a direita nas questões econômicas e com a esquerda nas questões sociais”, que defendem o liberalismo na economia e visões progressistas sobre sexo, orientação sexual, direitos humanos e drogas. Pensam que ser libertarian é defender o que o Bill Clinton, o Tony Blair, o Fernando Henrique Cardoso, o Emmanuel Macron, o Banco Mundial, a Economist e a Miriam Leitão defendem. Estes sim são menos ruins do que conservadores tradicionais.

Mas o libertarianismo não trata disso. Em primeiro lugar, o “liberalismo” em economia dos libertarians é muito mais radical do que o “liberalismo” em economia presente nos defensores do neoliberalismo e da Terceira Via. Os neoliberais e os defensores da Terceira Via defendem privatizações, livre comércio, livre fluxo de capitais, rejeitam políticas crédito seletivo do BNDES, mas aceitam o Estado na educação, na saúde e nos programas sociais focalizados, e não questionam que a moeda deve ser emitida pelo Banco Central, apenas defendem um Banco Central independente do governo. Os libertarians rejeitam o Estado até em papéis mais básicos. Milton Friedman, ídolo dos libertarians, chegou a sugerir a substituição das escolas públicas por vouchers para as famílias de baixa renda pagarem escolas particulares. Libertarians, em geral, rejeitam o modesto Obamacare para a saúde, por considera-lo contrário à liberdade de escolha, e rejeitam também as leis anti fumo. Libertarians são contrários a leis trabalhistas, rejeitam o salário mínimo e são contra as restrições ao trabalho infantil. Inspirados na Escola Austríaca (leia mais sobre a Escola Austríaca clicando aqui), muitos libertários defendem que a moeda não deve ser emitida por um Banco Central, e sim por bancos privados. Libertarians defendem ainda um livre mercado de órgãos humanos e um livre mercado de crianças para adoção. A versão mais radicalizada dos libertarians, que são os anarco-capitalistas (conhecidos como ancaps), defende até mesmo a existência de uma justiça privada.

Em segundo lugar, os libertarians não são progressistas nas questões sociais. Eles simplesmente consideram que o Estado não deve interferir nestas questões. Eles não consideram que o Estado deve realizar casamentos homossexuais. Eles consideram simplesmente que o Estado não deve realizar casamentos, nem homo, nem heterossexuais. Os libertarians consideram que o Estado não deve reprimir a homossexualidade, mas também consideram que o Estado não deve ter programas para promover a tolerância. Neste e em outros casos, os libertarians se alinham a ultraconservadores em questões sociais. Por exemplo, libertarians consideram que restaurantes, por serem de propriedade privada, podem ter lugares reservados para brancos e para negros, se esta for a preferência do dono. Para os libertarians, quem não gosta deste tipo de divisão deve simplesmente procurar um restaurante onde esta divisão não existe. O Political Compass ajudou a criar esta confusão, misturando progressismo em questões sociais com não intervencionismo, colocando tudo nos quadrantes de baixo do gráfico.

Nos Estados Unidos, a proporção de homens brancos não hispânicos entre os conservadores tradicionais é maior do que na população como um todo. Entre os libertarians, a proporção de homens brancos não hispânicos é ainda maior do que entre os conservadores tradicionais (há um texto sobre isso que você pode ler clicando aqui). Provável motivo: é natural que quem pertence a algum grupo oprimido seja mais favorável a uma maior ação do Estado para combater a opressão. É mais fácil ser contra qualquer tipo de ação do Estado quando não pertencemos a grupos oprimidos. Para piorar, é possível encontrar racistas entre os libertarians. O libertarianismo não é uma ideologia racista, mas é atraente para os racistas, por defender o direito de discriminar. Ron Paul, um dos mais importantes líderes libertarians dos Estados Unidos, permitiu a publicação de várias newsletters em seu nome, com conteúdo racista e homofóbico.

Vimos então que os libertarianismo não tem “a parte boa e a parte ruim”. O libertarianismo é somente a “parte ruim”. Não é possível dizer que “os libertarians são de direita em economia, mas são legalzinhos quando tratam de liberdades individuais”. Vimos que muitas dessas “liberdades individuais” defendidas pelos libertarians consistem em defender o direito de ser racista e homofóbico. Sim, os libertarians defendem a legalização da maconha, e foi um progresso a maior parte da esquerda ter passado a defender a legalização da maconha. Mas não é só por causa de um item em comum que vamos passar a considerar que os libertarians são o mal menor. Os conservadores tradicionais são menos ruins do que os libertarians, pois ao menos têm alguma ideia de solidariedade com os menos favorecidos, derivada muitas vezes das grandes religiões tradicionais. Os democratas cristãos europeus, que podem ser considerados conservadores tradicionais, aceitam uma rede de proteção social. Dentro da direita, os libertarians só não são piores do que os fascistas.

Muitas vezes associamos ideias anti-ciência com religiões e dessa forma associamos com conservadores tradicionais. Mas muitos libertarians gostam do negacionismo do aquecimento global e também se opõem ao financiamento público de atividades de pesquisa. E gostam da Escola Austríaca de Economia, aquela que não liga para o teste de falseabilidade.

ronpaul confederate

Mesmo para ideias certas, existem argumentos tortos

Muitas vezes outras pessoas têm opiniões diferentes das nossas. Algumas opiniões realmente são absurdas. Outras, são simplesmente diferentes das nossas. Às vezes, pessoas muito queridas nossas têm opiniões bem diferentes sobre alguns assuntos. Às vezes, pessoas com quem concordamos na grande maioria dos assuntos têm opinião diferente das nossas em um ou outro assunto.

Um bom exercício para combater o fanatismo e praticar a tolerância é examinar quais são os argumentos ruins utilizados para defender o que nós defendemos. Existem argumentos ruins para defender ideias opostas às nossas, que nós os reconhecemos facilmente, óbvio, mas também existem argumentos ruins frequentemente utilizados para defender o que nós defendemos. Aí temos que reconhecer estes argumentos para não utilizá-los.

Vamos a alguns exemplos daquilo que eu considero argumentos equivocados para defender o que eu defendo.

Sou a favor das cotas nas universidades públicas, tanto para estudantes de colégios públicos, quanto para negros e índios. Servem como um paliativo momentâneo para desigualdades do presente. Mas rejeito o argumento da “dívida histórica com as populações negra e indígena”. O direito não reconhece nem mesmo que dívidas de dinheiro passem de pai morto para filho vivo. Haveria uma arbitrariedade muito grande falar que um povo tem dívida com o outro por causa de fatos passados. Há argumentos respeitáveis contra as cotas, como este. Mas também há argumentos ruins. Um deles ocorre quando o branco não pobre critica as cotas alegando defender o branco pobre. Em primeiro lugar, existem cotas para alunos de colégios públicos, que incluem os brancos. Em segundo lugar, tem muito branco não pobre que só se lembra de que os brancos pobres existem na hora de falar mal das cotas.

A argumentação do “branco pobre” consiste em uma pessoa que não pertence a um grupo desfavorecido alegar a defesa de um grupo desfavorecido apenas para parecer mais simpático ao defender seu próprio grupo não desfavorecido, e nunca mostrar solidariedade ao mencionado grupo desfavorecido em outros momentos. Argumentos do tipo “branco pobre” existem até para defender aquilo que eu defendo, e que eu não gostaria que fossem utilizados.

Eu sou contra a criminalização da profissão do sexo. Escrevi aqui os motivos. Mas penso que o argumento do “direito das mulheres pagarem por serviços de trabalhadores sexuais masculinos (putos?)” é muito parecido com o do “branco pobre”, quando emitido por homens que nunca viram uma mulher que pagou por serviços de trabalhadores sexuais masculinos nem um trabalhador sexual masculino. Eu mencionei este argumento no texto linkado e me arrependo disso depois que refleti melhor sobre o assunto.

Eu não concordo com algumas coisas que as feministas radicais (vulgo radfem) defendem, um exemplo disso pode ser visto no parágrafo anterior. Mas acho que quando homem cisgênero heterossexual que diz que “odeia as radfem porque elas são transfóbicas”, os transgêneros nessa argumentação são o “branco pobre” quando quem diz isso habitualmente não liga para transgêneros em outras situações.

Eu sou a favor da legalização da maconha e não vejo qualquer problema em defender abertamente a legalização até mesmo para uso recreativo. Mas quando alguém que não é médico, que habitualmente não tem interesse por assuntos relacionados à medicina, vive postando no Facebook notícias sobre os benefícios do uso medicinal de maconha só porque quer também a legalização para uso recreativo, os doentes que precisam da Cannabis sativa para fins terapêuticos são uma forma de “branco pobre”.

cebolinha maconha

Eu sou a favor da legalização do aborto porque considero que levar uma gravidez adiante deve ser uma escolha, e não uma obrigação, e que interromper o desenvolvimento de um aglomerado de células não é “matar uma pessoa”. Mas vincular a queda da criminalidade nos EUA ao Roe vs Wade, embora cientificamente realmente faça sentido, ajuda dar munição àqueles que relacionam aborto com higienismo social.

Conforme disse, sou a favor da legalização da profissão do sexo, da maconha e do aborto. Muitos defensores destas três legalizações dizem “é impossível proibir, vai existir de qualquer jeito, regulamentando tem menos danos do que tentando proibir”. Quem utiliza o “é impossível proibir, vai existir de qualquer jeito, regulamentando tem menos danos do que tentando proibir” deveria observar que quem defende a “regulamentação” da pedofilia, do trabalho infantil, da violência doméstica e da tortura também utiliza este argumento. Então é melhor que este argumento nunca seja utilizado.

Alguns argumentos, mesmo corretos, são perigosos. Dizer que “maconha é menos prejudicial do que álcool” pode até ser correto, mas dado o momento político ultraconservador no Brasil atual, este argumento pode incentivar mais a criminalização do álcool do que a descriminalização da maconha.

Dizer que “a concessão para o estupro no caso do aborto é uma prova de que a proibição não tem a ver com defesa da vida, e sim com gravidez como punição para quem quis fazer sexo sem desejar a gravidez” pode ser correto, mas dado momento político ultraconservador no Brasil atual, este argumento pode incentivar mais o fim da concessão para o estupro do que a descriminalização do aborto.

Sou contra o negacionismo do aquecimento global, mas dizer que há prova do aquecimento global só porque o dia de hoje está quente é ajudar os negacionistas, pois basta vir um dia frio para eles falarem que não existe o aquecimento global. Centrar a argumentação contra o negacionismo nos “interesses da indústria do petróleo e do agronegócio” é se igualar aos negacionistas que centram a argumentação nos “interesses dos globalistas e dos comunistas”, pois se trata de desqualificar um argumento desqualificando um argumentador. Apesar da discussão do aquecimento global ter implicações políticas, a pesquisa científica pode identificar se existe o impacto do ser humano no aquecimento ou não, portanto, a discussão não pode ser apenas política. Ao que tudo indica, as pesquisas indicam que existe sim o impacto do ser humano no aquecimento.

Não sou vegan, e sei que tese do “corpo humano naturalmente herbívoro”, utilizado por alguns vegans, não tem qualquer respaldo científico (escrevi esse texto sobre o assunto). Mas dizer que os humanos têm tendência a comer carne por causa dos dentes caninos também não tem respaldo científico. E dizer que “os leões comem gazelas, então não tem problema eu comer porco” não é bom, porque a natureza não pode ser utilizada para justificar comportamentos humanos, caso contrário, seria justificável mijar e cagar no chão.

Sou completamente contra o Escola Sem Partido (escrevi esse texto aqui), mas fico preocupado quando alguém usa como argumento o “tudo é ideologia, o que temos que fazer é escolher entre a ideologia do opressor e a ideologia do oprimido” porque este argumento gera um espantalho que dá munição aos defensores do projeto. O Escola Sem Partido deve ser combatido por ser uma tentativa de grupos de direita alegarem uma suposta “doutrinação de esquerda” para imporem uma doutrinação de direita, e para chamarem de “doutrinação de esquerda” aquilo que eles simplesmente não gostam. E defender a liberdade de escolher o que ensinar como um direito absoluto não é o caminho para combater o Escola Sem Partido. Nenhum professor deveria ter o direito de ensinar que o criacionismo é verdadeiro, que o aquecimento global é falso e que somente pessoas religiosas têm moral. Aliás, são coisas que os defensores do Escola Sem Partido gostariam de ensinar.

Sou ateu, mas não me considero mais inteligente e culto por causa disso. Há mais ateus entre pessoas mais escolarizadas e em países com média de escolaridade mais elevada, mas correlação não necessariamente indica causalidade.

Sou contra a emenda constitucional do teto dos gastos não porque eu desprezo responsabilidade fiscal. Eu considero que responsabilidade fiscal é importante, que déficits fiscais devem ser exceção e não a regra. Defender que déficit fiscal é bom sempre é pseudokeynesianismo. Os keynesianos que são economistas profissionais não defendem isso. A sacanagem da emenda do teto é utilizar o medo que a população tem do atual déficit como pretexto para impor um Estado mínimo a longo prazo. A intenção da emenda do teto não é só acabar com a diferença entre despesa pública e receita pública. É diminuir a receita no longo prazo.

Nas eleições mais recentes, eu votei em candidatos do PSOL porque eles defendem muitas coisas que eu defendo também, mas acho dizer que “o PSOL é o único partido que não está mencionado nas delações das propinas da Odebrecht” não é um bom argumento para defender o partido. Ninguém vai querer subornar quem não faz parte de governos. Ética deveria ser obrigação (e muitos partidos não cumprem), e não a principal bandeira de partidos. O debate político não pode ser reduzido a “quem é mais honesto, quem é mais safado”.

caminhos tortos