Comparando Ciro Gomes e Marina Silva

Ciro Gomes e Marina Silva são dois possíveis candidatos para a eleição presidencial de 2018 (ou 2017?). Existe grande diferença entre ambos. Ciro é desenvolvimentista. Marina atualmente pode ser descrita como eco-liberal. Ciro foi grande incentivador da transposição do Rio São Francisco. Marina foi contra. Porém, há semelhanças entre ambos. Os dois foram ministros de Lula. Os dois disputam o mesmo eleitorado: aquele que já votou no PT, acha que o PT já deu o que tinha que dar, mas deseja uma alternativa que não seja nem pela direita, nem pela extrema-esquerda. Quem já tentou alcançar este público foram Cristóvam Buarque, Eduardo Campos e Eduardo Jorge, que acabaram se perdendo quando aceitaram passivamente o papel de linha auxiliar do PSDB.

Marina Silva tem um passado mais esquerdista do que Ciro Gomes. A política acreana foi seringalista do tempo do Chico Mendes, iniciou sua carreira política no PT. Foi senadora, foi ministra do Meio Ambiente de Lula, depois saiu do governo Lula, saiu do PT, saiu da esquerda, candidatou-se a presidente em 2010 pelo PV, em 2014 pelo PSB, e depois fundou a REDE. O político cearense iniciou sua carreira política no PDS, partido sucessor da Arena. Posteriormente, passou pelo PSDB, onde foi grande aliado de Tasso Jereissati. Foi governador do Ceará e Ministro da Fazenda, exercendo este cargo no tempo do lame duck do Itamar. Depois passou pelo PPS, depois pelo PSB, depois pelo PROS, e agora está no PDT.

Mas passado é passado e presente é presente. Atualmente, Ciro Gomes está à esquerda de Marina Silva. O programa de Ciro Gomes não é muito esquerdista. É simplesmente o novo desenvolvimentismo do Bresser Pereira. Um programa diferente tanto daquele implantado por Collor, Itamar, Fernando Henrique e Temer, quanto daquele implantado por Lula e Dilma. Tanto os governos neoliberais, quanto os governos petistas, permitiram a sobrevalorização da moeda brasileira. Os primeiros por consideraram que o livre mercado é o melhor regulador do câmbio, os segundos por verem o real forte como um meio para aumentar o poder de compra das classes mais baixas. A consequência disso foi que a indústria de transformação, que já teve participação de mais de 30% do PIB brasileiro nos anos 1980, passasse a ter participação em torno de 10% atualmente. Ciro Gomes pretende manter o real mais desvalorizado, para facilitar a reindustrialização. Ele também pretende diminuir os juros. Seu programa não é muito esquerdista porque para evitar que moeda estrangeira mais cara e juros mais baixos aumentem a inflação, serão necessárias políticas fiscal e salarial mais austera. Obviamente ele procura falar pouco dessa necessidade, para não espantar apoios de esquerda. Com mais dificuldade para redistribuir renda através do aumento da despesa pública, Ciro Gomes pretende redistribuir renda através do aumento da progressividade do sistema tributário, uma política desejada pela esquerda. A Marina Silva, por sua vez, tem um programa econômico mais liberal. Seu principal guru em economia é Eduardo Gianetti. Na campanha de 2014, defendeu a independência do Banco Central, algo que nem Aécio fez.

Apesar de seu programa não ser muito de esquerda, Ciro Gomes busca consistentemente uma base de apoio sólida dentro da esquerda. Por isso, apoiou duas vezes a eleição da Dilma, se posicionou veementemente contra seu impedimento, faz duras críticas a Eduardo Cunha, Michel Temer e políticos do PSDB, faz duras críticas ao MBL, elogia Guilherme Boulos e Jean Wyllys. Seu perfil no Facebook “Time Ciro Gomes” passa uma imagem de que ele é mais de esquerda do que realmente é. Enquanto isso, Marina Silva parece biruta de aeroporto. Tentou alguns apoios de esquerda na eleição presidencial de 2010. Apoiou alguns candidatos de esquerda nas eleições municipais de 2012. Posicionou-se à direita na eleição presidencial de 2014. Defendeu uma agenda econômica liberal, apoiou Aécio Neves no segundo turno. Quando fundou a REDE, recebeu nomes de esquerda, como Luiz Eduardo Soares, Randolfe Rodriguez e Alessandro Molon. Ao longo de 2015, não apoiou o impeachment, apoiou apenas a cassação da chapa e realização de nova eleição presidencial. Com o derretimento do PT, parecia que Marina Silva estava disposta a retornar para a esquerda e disputar com Ciro Gomes o espaço vazio deixado pelo PT. Eis que perto da votação do impeachment no plenário, Marina Silva, diferente da maioria de seu partido, decide apoiar o impeachment. Por diferenças de pensamento com a Marina sobre a política brasileira atual, Luiz Eduardo Soares deixou a REDE. Recentemente, Marina Silva defendeu as reformas previdenciária e trabalhista, sinalizando disposição de atrair um eleitorado mais direitista. Talvez este posicionamento tenha ocorrido porque Lula recuperou nas pesquisas e o PSDB teve desgaste de nomes importantes, além do desgaste de ser cabeça do governo Temer.

Ciro está à esquerda de Marina, mas ambos estão à direita do PT e à esquerda do bloco PMDB/PSDB/DEM. E por isso enfrentam o mesmo problema: a elevada polarização entre o PT e o anti-PT não deixa espaço para posições intermediárias. Na intensa polarização entre coxinhas e mortadelas, quem tenta não ser coxinha nem mortadela é chamado de mortadela por coxinhas e de coxinha por mortadelas. O PDT do Ciro Gomes teve algumas vitórias nas eleições municipais de 2016 no Ceará, incluindo a capital do estado, porque Ciro é uma grande força local. Mas a REDE da Marina teve um grande fiasco, ficando com menos de 1% na maioria das cidades, elegendo pouquíssimos vereadores no Brasil inteiro, e elegendo prefeito apenas em Macapá, onde o prefeito reeleito havia ganhado pelo PSOL em 2012. A Marta, que havia concorrido à prefeita de São Paulo pelo PMDB mas carregava a possibilidade de contar com pessoas que já trabalharam com ela nos tempos de PT, teve um desempenho pífio. No cenário de elevada polarização, é mais fácil uma terceira força na política brasileira estar à esquerda do PT/PCdoB ou à direita do PMDB/PSDB/DEM do que entre ambos. Jair Bolsonaro já tem dois dígitos nas pesquisas. O PSOL, no ano passado, conseguiu eleger uma razoável quantidade de vereadores e teve bom desempenho em várias cidades grandes. Isto porque o PSOL não pretende ser uma alternativa às coxinhas e mortadelas, e sim uma outra marca de mortadela.

A analogia do carrinho de sorvete na praia diz que da mesma forma que em uma praia com dois carrinhos de sorvete, os dois tenderão a se posicionar um ao lado do outro no meio da praia para ter maior clientela, em uma eleição, em uma eleição, os candidatos tenderão a se posicionar mais ao centro para ter mais chance de vencer. Esta analogia não está funcionando mais, nem no Brasil, nem no resto do mundo.

Percebendo que o cenário político brasileiro não comporta mais posições intermediárias, Ciro Gomes tenta passar uma imagem de ser mais de esquerda do que realmente é. Sabendo que a polarização entre PT e anti-PT não gera espaço para quem tenta ser meio termo, Ciro Gomes não pretende ser candidato em 2018 se Lula for. Caso Lula não seja candidato, Ciro quer ser candidato com apoio do PT. Ele deseja que Fernando Haddad seja seu vice. Ainda assim, é possível que no cenário sem candidatura de Lula, Ciro tenha mais dificuldades do que no Lula teria no cenário sem candidatura de Ciro. Muitos entusiastas de Lula não seriam grandes entusiastas de Ciro. Poderiam votar no Ciro, mas sem fazer militância. Por outro lado, Ciro herdaria a rejeição a Lula. Vimos nas eleições municipais de 2016 que a grande rejeição ao PT se espalhou até mesmo para candidatos que não têm o número 13. Marcelo Freixo herdou o apoio do PT mas também herdou a rejeição ao PT. Marta, mesmo dando flores para Janaína Pascoal, não escapou ilesa da rejeição ao PT.

Acredito que até agora ninguém discutiu esta possibilidade, mas se Lula for candidato e Ciro insistir em ser candidato, uma aliança Ciro/PSOL poderia trazer benefícios para ambos. Poderia ser pensada a possibilidade de uma chapa Ciro Gomes presidente, Chico Alencar (ou Marcelo Freixo) vice. O campo democrático e popular já não tem mais tanta popularidade no Brasil. Talvez seja melhor ser representado por duas do que por três candidaturas. Pode ser estranho um acordo de quem está à direita com quem está à esquerda do PT. Mas também teria sua lógica. O PT não polariza apenas no espectro político geral, mas também polariza dentro da própria esquerda. Tem gente dentro da esquerda que gosta muito do PT, mas também tem gente dentro da esquerda que não quer mais o PT. Toleraria tanto quem está mais, quanto quem está menos à esquerda. Chico Alencar ou Marcelo Freixo de vice na chapa de Ciro poderiam diminuir a resistência de grande parte da esquerda da Região Sudeste ao Ciro. Em compensação, o PDT poderia fornecer seu tempo de televisão para as candidaturas do PSOL para governador e senador do Rio de Janeiro. Apesar dessas vantagens para ambos, haveria também restrições em ambos. Ciro Gomes provavelmente vai querer buscar apoio entre empresários, e por isso não ia querer algum vice muito esquerdista. Uma aliança deste tipo não seria muito bem aceita por muita gente dentro do PSOL, que saiu do PT justamente por não concordar com a política de alianças. É possível ainda que tenha gente dentro do PSOL que considera Ciro pior do que Marina. Ou seja, é praticamente impossível que esta aliança aconteça.

Se tanto Lula, quanto Ciro Gomes, quanto Chico Alencar saírem candidatos, é muito provável que Ciro Gomes receba menos votos do que Chico Alencar na Região Sudeste.

Como foi dito no primeiro parágrafo, Ciro Gomes e Marina Silva têm posições muito diferentes, mas disputam um eleitorado semelhante. Por causa destes dois motivos, há uma grande possibilidade de haver uma guerra entre simpatizantes de ambos nas redes sociais até 2018. O Time Ciro Gomes já faz algumas críticas à Marina de vez em quando. Os negrianos brasileiro, que são um braço de apoio à Marina que algumas pessoas consideram de esquerda, não gostam de Ciro. Um deles já postou até mesmo um texto do Spotniks criticando o político do PDT.

capas ciro e marina

A guerra política de trincheiras na educação brasileira

Há uma guerra política pelo controle da educação brasileira, com dois grupos rivais bem entrincheirados. O primeiro grupo é composto por fundações empresariais de apoio à educação, Globo, Abril e Banco Mundial, e o segundo grupo é composto por sindicatos de docentes e acadêmicos da área de Pedagogia. O único ponto de concordância entre ambos os grupos é que a educação brasileira encontra-se em um estado lamentável. Mas o diagnóstico e as soluções propostas são bem diferentes. O primeiro grupo considera que o problema da educação brasileira é um problema de má gestão, e que para resolver, deveriam ser trazidas técnicas de gestão das empresas privadas, e, se possível, deixar a administração das escolas para as empresas privadas. Em suma, um modelo business. Este grupo é entusiasta de avaliações externas padronizadas de larga escala, remuneração variável para os professores de acordo com o desempenho de seus alunos nessas avaliações e material apostilado. Também considera que se o desempenho dos alunos é muito ruim e se os recursos são escassos, o ensino de leitura e matemática deve ser priorizado. Este grupo também valoriza muito a qualificação de mão-de-obra. Enxergam a educação como um meio do país produzir mais e melhores bens e serviços. O segundo grupo considera que os principais problemas são a histórica falta de prioridade dada à educação no Brasil e a baixa qualidade de vida do povo, e que é necessário mais investimento, melhores salários para os professores, maior autonomia para os professores, gestão mais democrática das escolas e melhor infra-estrutura das escolas. Este grupo tende a defender o ensino de artes, de filosofia e sociologia, e considerar todos os conteúdos igualmente importantes. Não costuma a enxergar a educação como um meio de produzir mais e melhores bens e serviços porque já enxerga a instrução como um bem em si.

Não há igualdade entre os dois grupos. O primeiro tem presença muito maior na grande mídia e influencia muito mais governos. Governos do PSDB, PMDB e PSB aderem integralmente à agenda do primeiro grupo. Governos do PT ficam no meio termo. É importante lembrar que Fernando Haddad, quando Ministro da Educação, fez algumas políticas que agradou o segundo grupo, mas também deu importância para o Ideb e sempre manteve contato com empresários ligados à área de educação. Governos do PSOL favoreceriam o segundo grupo, mas, por enquanto, governo do PSOL só teve em Itaocara.

Entre os mentores intelectuais do primeiro grupo, estão Cláudio Moura de Castro e Gustavo Ioschpe. O Cláudio Moura de Castro é aquele do qual nós dizemos “discordo ideologicamente, mas respeito”. O Gustavo Ioschpe, o que dizer dele? É possível dizer que se o Brasil tivesse uma educação de qualidade, Gustavo Ioschpe não seria visto como um dos maiores especialistas em educação do Brasil. Há algumas pessoas deste grupo que tiveram atitudes que nós podemos elogiar. A ex-secretária Cláudia Costin, uma expoente deste grupo, se opôs à emenda constitucional do teto dos gastos, dizendo que isto prejudicaria muito a educação. Como o primeiro grupo está muito relacionado com conservadores, é possível esperar que este grupo defenda o Escola Sem Partido. Mas é preciso destacar que há pessoas sérias neste grupo, que não defendem essa boçalidade.

Se o primeiro conseguisse implementar toda sua pauta, haveria um dirigismo stalinista na educação. Se o segundo grupo conseguisse implementar toda sua pauta, haveria um laissez-faire. Não, não houve confusão, pode parecer paradoxal, mas é isso mesmo. Organizações que defendem um laissez-faire na economia são extremamente dirigistas quando falam de educação. Querem padronizar provas, aulas, currículo e material didático. O papel do professor neste modelo seria de mero repassador de conteúdo. Por sua vez, movimentos e partidos que defendem um papel mais ativo do Estado na economia são menos top-down quando falam de educação.

A avaliação padronizada externa de larga escala, defendida pelo primeiro grupo, aumentaria a transparência das escolas, pois permitiria professores, pais, mães, autoridades e a sociedade em geral verificar se e como os alunos estão aprendendo. O desempenho muito ruim de estados e municípios brasileiros no Ideb e o desempenho muito ruim de países (incluindo o nosso) no Pisa pode fazer a sociedade pensar que é necessário investir mais em educação. Porém, quando as avaliações são utilizadas para definir remuneração variável para os professores, os problemas começam. Na menos ruim das hipóteses, existe o incentivo para preparar os alunos exclusivamente para a avaliação. Na pior das hipóteses, existe o incentivo para a trapaça. A implementação de um programa de remuneração variável com base em resultados de avaliações padronizadas de larga escala pode gerar um mal estar com professores. Como não existe almoço grátis, o dinheiro utilizado para o “prêmio por desempenho” não é um prêmio. É um dinheiro que poderia ser utilizado para aumentar a remuneração fixa. Mesmo não dizendo explicitamente, o gestor que implementa uma política de prêmio transmite a ideia de que a educação está ruim por causa da pouca dedicação dos professores. O professor que convive com escolas caindo aos pedaços, salas super lotadas, alunos indisciplinados, balas perdidas e esgoto a céu aberto não terá boa vontade com gestores que indiretamente culpam seu suposto desleixo pelo fracasso da educação. Se não forem utilizadas para políticas de remuneração variável e sim apenas como uma ferramenta de apoio pedagógico, as avaliações padronizadas poderiam ter mais aceitação de professores.

Geralmente, estados e municípios brasileiros que têm bom desempenho no Ideb e países que têm bom desempenho no Pisa são aqueles que valorizam as avaliações padronizadas. Mas, dããããã, é natural que redes de ensino que valorizam provas tenham sucesso quando o sucesso é medido por provas. Devemos também ter um olhar crítico sobre o “sucesso” que estados e municípios têm logo depois de implementar avaliação padronizada e remuneração variável. Muitas vezes, isto ocorre quando um governador ou prefeito quer colocar a educação como vitrine, aí ele implementa estas políticas junto com muitas outras políticas, como aumento de recursos para melhorar a infra-estrutura das escolas, criação de turmas de reforço e aumento da remuneração fixa dos professores. Aí, o “sucesso” pode ser consequência do pacote completo de políticas, e não especificamente da avaliação padronizada e da remuneração variável.

É importante mencionar Diane Ravitch, secretária assistente de educação durante o governo de George Bush (1989-1993) nos Estados Unidos. Em 2010, ela publicou The Death and Life of the Great American School System, em que demonstrou que não foram bem sucedidas as políticas que ela mesmo ajudou a implementar, como os prêmios vinculados aos resultados de avaliações padronizadas e o apoio público às charter schools. Depois de ter ajudado a implementar, ela rejeitou o modelo de business para a educação.

No Brasil, vemos defensores do modelo business, aquele que o primeiro parágrafo deste texto identificou como “primeiro grupo”, utilizando argumentos muito ruins. É habitual vê-los falando que “não há correlação entre quantidade de recursos investido e salários dos professores com o desempenho das redes de ensino”. Realmente, entre os países desenvolvidos, onde em todos eles os professores recebem salários que no mínimo são razoáveis, realmente não há correlação entre salário e desempenho no Pisa. Mas nos países subdesenvolvidos incluídos no Pisa, com destaque para o nosso, os salários são muito mais baixos e o desempenho é muito pior. É habitual vê-los falando também que enquanto o Distrito Federal tem o maior salários do Brasil e desempenho ruim no Ideb, Santa Catarina, que habitualmente lidera o Ideb, tem salário baixo. Mas é necessário lembrar que o Distrito Federal é todo ele uma área metropolitana, que lá são basicamente os pobres que estudam em escolas públicas, que Santa Catarina não tem uma única cidade muito grande, e que o desempenho de cidades grandes muitas vezes é pior. É comum ainda ver defensores do modelo business culpando os sindicatos de professores por serem corporativistas, e por pensarem apenas no bem estar da categoria e por atrapalharem a implementação do que seriam as boas políticas. Bom, sindicatos são sindicatos, não são fundações. É papel dos sindicatos defender seus associados. “Sindicato corporativista” é um pleonasmo. O corporativismo não é uma atividade criminosa. Integrantes de consultorias que tentam vender seus serviços aos governos, e que dizem que o papel das consultorias é importante, também estão sendo corporativistas.

Quando aparecem os resultados do Brasil no Pisa, horríveis como sempre, muitas vezes vemos na mídia comentaristas defendendo o aprofundamento do modelo business. Mas este modelo já é praticado há mais de dez anos em muitos estados brasileiros, e já deveria ter mostrado resultados. O estado de São Paulo, que tem 22% da população brasileira, implementou a bastante tempo a política de prêmio aos professores por desempenho dos alunos em avaliação padronizada.

Do segundo grupo, também há posicionamentos que precisam ser criticados. Alguns sindicatos de professores cometem equívoco quando utilizam a palavra de ordem “não à meritocracia” para lutar contra as políticas de remuneração variável. Isto porque meritocracia não se resume à remuneração variável. A admissão de professores por concurso é uma forma de meritocracia. E acredito que ninguém é contra a realização de concursos como forma de admitir professores. “Não à remuneração variável” seria um palavra de ordem bem melhor.

Integrantes do segundo grupo muitas vezes utilizam a Finlândia como exemplo de sucesso em que não há um currículo nacional rígido e que os professores têm bastante autonomia para elaborar seus próprios currículos. Mas é necessário evitar a confusão entre causa e efeito. Na verdade, a autonomia foi introduzida na década de 1990 depois que o país atingiu um patamar de excelência. Até aquele momento, havia sim um controle rígido do currículo (Porter-Magee, 2013).

O segundo grupo está muito relacionado com partidos de esquerda. Em A Vantagem Acadêmica de Cuba, o pesquisador Martin Carnoy (2009) observa que o sistema educacional cubano é o melhor da América Latina. Quer dizer então que os sindicatos brasileiros de professores defendem algo parecido com o modelo cubano, certo? Não é isso que ocorre. Em Cuba, a autonomia dos professores é bem pequena. O governo traça as instruções do que ensinar e como ensinar. No primeiro ciclo do Ensino Fundamental, há muito mais professores generalistas do que professores especialistas. Em geral, os sindicatos brasileiros de professores não defendem isso.

Para concluir, é importante dizer pensar em melhorias para a educação brasileira implica sair das duas trincheiras. E um alerta necessário: independentemente de quem mandar na educação brasileira nos próximos anos, se for o primeiro ou o segundo grupo, a educação brasileira está seriamente comprometida por causa da emenda constitucional do teto dos gastos.

 

Bibliografia

CARNOY, M. A vantagem acadêmica de Cuba. 2009.

PISA 2012 Results. OECD. 2012. http://www.oecd.org/pisa/keyfindings/pisa-2012-results.htm

PORTER-MAGEE, K. Real Lessons from Finland. Advancing educational excelence. 2013. https://edexcellence.net/commentary/education-gadfly-weekly/2013/january-3/real-lessons-from-finland.html

RAVITCH, D. The death and life of the great American school system. 2010. https://www.amazon.com/Death-Great-American-School-System/dp/0465025579

RODRIGUES, C. Pisa em seu devido lugar. Carta Educação. 2014. http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/pisa-em-seu-%E2%80%A8devido-lugar/

guerra educação brasil

O libertarianismo é menos ruim do que o conservadorismo tradicional?

Os libertarians são um mal menor se comparados com os conservadores tradicionais? A resposta desta pergunta é não. Os libertarians não são nem mesmo tão ruins quanto os conservadores tradicionais. São piores. E por que algumas pessoas de esquerda no Brasil pensam que os libertarians são um mal menor em comparação com os conservadores tradicionais? Porque há uma confusão sobre o uso da palavra libertarian.

Este texto utiliza a palavra libertarian, em Inglês, para mostrar sua origem norte americana. No resto do mundo, a palavra liberal é utilizada para denominar quem defende o Estado mínimo, e a palavra libertário já foi utilizada para denominar anarquistas. Nos Estados Unidos, a palavra liberal é aplicada para a esquerda, restando a palavra libertário para denominar quem defende o Estado mínimo. As maiores referências dos libertarians são Milton Friedman, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Murray Rothbard, Ayn Rand (embora ela rejeitasse o rótulo), Lew Rockwell, o Cato Institute e o Mises Institute.

Alguns brasileiros sabem que libertarian é o que nós chamamos de liberal, mas não têm noção do radicalismo dos libertarians. Os brasileiros de esquerda que pensam erroneamente que libertarians são menos ruins do que conservadores tradicionais pensam que os libertarians são os “liberais no mau e no bom sentido”. Eles pensam que os libertarians são aqueles que “concordam com a direita nas questões econômicas e com a esquerda nas questões sociais”, que defendem o liberalismo na economia e visões progressistas sobre sexo, orientação sexual, direitos humanos e drogas. Pensam que ser libertarian é defender o que o Bill Clinton, o Tony Blair, o Fernando Henrique Cardoso, o Emmanuel Macron, o Banco Mundial, a Economist e a Miriam Leitão defendem. Estes sim são menos ruins do que conservadores tradicionais.

Mas o libertarianismo não trata disso. Em primeiro lugar, o “liberalismo” em economia dos libertarians é muito mais radical do que o “liberalismo” em economia presente nos defensores do neoliberalismo e da Terceira Via. Os neoliberais e os defensores da Terceira Via defendem privatizações, livre comércio, livre fluxo de capitais, rejeitam políticas crédito seletivo do BNDES, mas aceitam o Estado na educação, na saúde e nos programas sociais focalizados, e não questionam que a moeda deve ser emitida pelo Banco Central, apenas defendem um Banco Central independente do governo. Os libertarians rejeitam o Estado até em papéis mais básicos. Milton Friedman, ídolo dos libertarians, chegou a sugerir a substituição das escolas públicas por vouchers para as famílias de baixa renda pagarem escolas particulares. Libertarians, em geral, rejeitam o modesto Obamacare para a saúde, por considera-lo contrário à liberdade de escolha, e rejeitam também as leis anti fumo. Libertarians são contrários a leis trabalhistas, rejeitam o salário mínimo e são contra as restrições ao trabalho infantil. Inspirados na Escola Austríaca (leia mais sobre a Escola Austríaca clicando aqui), muitos libertários defendem que a moeda não deve ser emitida por um Banco Central, e sim por bancos privados. Libertarians defendem ainda um livre mercado de órgãos humanos e um livre mercado de crianças para adoção. A versão mais radicalizada dos libertarians, que são os anarco-capitalistas (conhecidos como ancaps), defende até mesmo a existência de uma justiça privada.

Em segundo lugar, os libertarians não são progressistas nas questões sociais. Eles simplesmente consideram que o Estado não deve interferir nestas questões. Eles não consideram que o Estado deve realizar casamentos homossexuais. Eles consideram simplesmente que o Estado não deve realizar casamentos, nem homo, nem heterossexuais. Os libertarians consideram que o Estado não deve reprimir a homossexualidade, mas também consideram que o Estado não deve ter programas para promover a tolerância. Neste e em outros casos, os libertarians se alinham a ultraconservadores em questões sociais. Por exemplo, libertarians consideram que restaurantes, por serem de propriedade privada, podem ter lugares reservados para brancos e para negros, se esta for a preferência do dono. Para os libertarians, quem não gosta deste tipo de divisão deve simplesmente procurar um restaurante onde esta divisão não existe. O Political Compass ajudou a criar esta confusão, misturando progressismo em questões sociais com não intervencionismo, colocando tudo nos quadrantes de baixo do gráfico.

Nos Estados Unidos, a proporção de homens brancos não hispânicos entre os conservadores tradicionais é maior do que na população como um todo. Entre os libertarians, a proporção de homens brancos não hispânicos é ainda maior do que entre os conservadores tradicionais (há um texto sobre isso que você pode ler clicando aqui). Provável motivo: é natural que quem pertence a algum grupo oprimido seja mais favorável a uma maior ação do Estado para combater a opressão. É mais fácil ser contra qualquer tipo de ação do Estado quando não pertencemos a grupos oprimidos. Para piorar, é possível encontrar racistas entre os libertarians. O libertarianismo não é uma ideologia racista, mas é atraente para os racistas, por defender o direito de discriminar. Ron Paul, um dos mais importantes líderes libertarians dos Estados Unidos, permitiu a publicação de várias newsletters em seu nome, com conteúdo racista e homofóbico.

Vimos então que os libertarianismo não tem “a parte boa e a parte ruim”. O libertarianismo é somente a “parte ruim”. Não é possível dizer que “os libertarians são de direita em economia, mas são legalzinhos quando tratam de liberdades individuais”. Vimos que muitas dessas “liberdades individuais” defendidas pelos libertarians consistem em defender o direito de ser racista e homofóbico. Sim, os libertarians defendem a legalização da maconha, e foi um progresso a maior parte da esquerda ter passado a defender a legalização da maconha. Mas não é só por causa de um item em comum que vamos passar a considerar que os libertarians são o mal menor. Os conservadores tradicionais são menos ruins do que os libertarians, pois ao menos têm alguma ideia de solidariedade com os menos favorecidos, derivada muitas vezes das grandes religiões tradicionais. Os democratas cristãos europeus, que podem ser considerados conservadores tradicionais, aceitam uma rede de proteção social. Dentro da direita, os libertarians só não são piores do que os fascistas.

Muitas vezes associamos ideias anti-ciência com religiões e dessa forma associamos com conservadores tradicionais. Mas muitos libertarians gostam do negacionismo do aquecimento global e também se opõem ao financiamento público de atividades de pesquisa. E gostam da Escola Austríaca de Economia, aquela que não liga para o teste de falseabilidade.

ronpaul confederate

Mesmo para ideias certas, existem argumentos tortos

Muitas vezes outras pessoas têm opiniões diferentes das nossas. Algumas opiniões realmente são absurdas. Outras, são simplesmente diferentes das nossas. Às vezes, pessoas muito queridas nossas têm opiniões bem diferentes sobre alguns assuntos. Às vezes, pessoas com quem concordamos na grande maioria dos assuntos têm opinião diferente das nossas em um ou outro assunto.

Um bom exercício para combater o fanatismo e praticar a tolerância é examinar quais são os argumentos ruins utilizados para defender o que nós defendemos. Existem argumentos ruins para defender ideias opostas às nossas, que nós os reconhecemos facilmente, óbvio, mas também existem argumentos ruins frequentemente utilizados para defender o que nós defendemos. Aí temos que reconhecer estes argumentos para não utilizá-los.

Vamos a alguns exemplos daquilo que eu considero argumentos equivocados para defender o que eu defendo.

Sou a favor das cotas nas universidades públicas, tanto para estudantes de colégios públicos, quanto para negros e índios. Servem como um paliativo momentâneo para desigualdades do presente. Mas rejeito o argumento da “dívida histórica com as populações negra e indígena”. O direito não reconhece nem mesmo que dívidas de dinheiro passem de pai morto para filho vivo. Haveria uma arbitrariedade muito grande falar que um povo tem dívida com o outro por causa de fatos passados. Há argumentos respeitáveis contra as cotas, como este. Mas também há argumentos ruins. Um deles ocorre quando o branco não pobre critica as cotas alegando defender o branco pobre. Em primeiro lugar, existem cotas para alunos de colégios públicos, que incluem os brancos. Em segundo lugar, tem muito branco não pobre que só se lembra de que os brancos pobres existem na hora de falar mal das cotas.

A argumentação do “branco pobre” consiste em uma pessoa que não pertence a um grupo desfavorecido alegar a defesa de um grupo desfavorecido apenas para parecer mais simpático ao defender seu próprio grupo não desfavorecido, e nunca mostrar solidariedade ao mencionado grupo desfavorecido em outros momentos. Argumentos do tipo “branco pobre” existem até para defender aquilo que eu defendo, e que eu não gostaria que fossem utilizados.

Eu sou contra a criminalização da profissão do sexo. Escrevi aqui os motivos. Mas penso que o argumento do “direito das mulheres pagarem por serviços de trabalhadores sexuais masculinos (putos?)” é muito parecido com o do “branco pobre”, quando emitido por homens que nunca viram uma mulher que pagou por serviços de trabalhadores sexuais masculinos nem um trabalhador sexual masculino. Eu mencionei este argumento no texto linkado e me arrependo disso depois que refleti melhor sobre o assunto.

Eu não concordo com algumas coisas que as feministas radicais (vulgo radfem) defendem, um exemplo disso pode ser visto no parágrafo anterior. Mas acho que quando homem cisgênero heterossexual que diz que “odeia as radfem porque elas são transfóbicas”, os transgêneros nessa argumentação são o “branco pobre” quando quem diz isso habitualmente não liga para transgêneros em outras situações.

Eu sou a favor da legalização da maconha e não vejo qualquer problema em defender abertamente a legalização até mesmo para uso recreativo. Mas quando alguém que não é médico, que habitualmente não tem interesse por assuntos relacionados à medicina, vive postando no Facebook notícias sobre os benefícios do uso medicinal de maconha só porque quer também a legalização para uso recreativo, os doentes que precisam da Cannabis sativa para fins terapêuticos são uma forma de “branco pobre”.

cebolinha maconha

Eu sou a favor da legalização do aborto porque considero que levar uma gravidez adiante deve ser uma escolha, e não uma obrigação, e que interromper o desenvolvimento de um aglomerado de células não é “matar uma pessoa”. Mas vincular a queda da criminalidade nos EUA ao Roe vs Wade, embora cientificamente realmente faça sentido, ajuda dar munição àqueles que relacionam aborto com higienismo social.

Conforme disse, sou a favor da legalização da profissão do sexo, da maconha e do aborto. Muitos defensores destas três legalizações dizem “é impossível proibir, vai existir de qualquer jeito, regulamentando tem menos danos do que tentando proibir”. Quem utiliza o “é impossível proibir, vai existir de qualquer jeito, regulamentando tem menos danos do que tentando proibir” deveria observar que quem defende a “regulamentação” da pedofilia, do trabalho infantil, da violência doméstica e da tortura também utiliza este argumento. Então é melhor que este argumento nunca seja utilizado.

Alguns argumentos, mesmo corretos, são perigosos. Dizer que “maconha é menos prejudicial do que álcool” pode até ser correto, mas dado o momento político ultraconservador no Brasil atual, este argumento pode incentivar mais a criminalização do álcool do que a descriminalização da maconha.

Dizer que “a concessão para o estupro no caso do aborto é uma prova de que a proibição não tem a ver com defesa da vida, e sim com gravidez como punição para quem quis fazer sexo sem desejar a gravidez” pode ser correto, mas dado momento político ultraconservador no Brasil atual, este argumento pode incentivar mais o fim da concessão para o estupro do que a descriminalização do aborto.

Sou contra o negacionismo do aquecimento global, mas dizer que há prova do aquecimento global só porque o dia de hoje está quente é ajudar os negacionistas, pois basta vir um dia frio para eles falarem que não existe o aquecimento global. Centrar a argumentação contra o negacionismo nos “interesses da indústria do petróleo e do agronegócio” é se igualar aos negacionistas que centram a argumentação nos “interesses dos globalistas e dos comunistas”, pois se trata de desqualificar um argumento desqualificando um argumentador. Apesar da discussão do aquecimento global ter implicações políticas, a pesquisa científica pode identificar se existe o impacto do ser humano no aquecimento ou não, portanto, a discussão não pode ser apenas política. Ao que tudo indica, as pesquisas indicam que existe sim o impacto do ser humano no aquecimento.

Não sou vegan, e sei que tese do “corpo humano naturalmente herbívoro”, utilizado por alguns vegans, não tem qualquer respaldo científico (escrevi esse texto sobre o assunto). Mas dizer que os humanos têm tendência a comer carne por causa dos dentes caninos também não tem respaldo científico. E dizer que “os leões comem gazelas, então não tem problema eu comer porco” não é bom, porque a natureza não pode ser utilizada para justificar comportamentos humanos, caso contrário, seria justificável mijar e cagar no chão.

Sou completamente contra o Escola Sem Partido (escrevi esse texto aqui), mas fico preocupado quando alguém usa como argumento o “tudo é ideologia, o que temos que fazer é escolher entre a ideologia do opressor e a ideologia do oprimido” porque este argumento gera um espantalho que dá munição aos defensores do projeto. O Escola Sem Partido deve ser combatido por ser uma tentativa de grupos de direita alegarem uma suposta “doutrinação de esquerda” para imporem uma doutrinação de direita, e para chamarem de “doutrinação de esquerda” aquilo que eles simplesmente não gostam. E defender a liberdade de escolher o que ensinar como um direito absoluto não é o caminho para combater o Escola Sem Partido. Nenhum professor deveria ter o direito de ensinar que o criacionismo é verdadeiro, que o aquecimento global é falso e que somente pessoas religiosas têm moral. Aliás, são coisas que os defensores do Escola Sem Partido gostariam de ensinar.

Sou ateu, mas não me considero mais inteligente e culto por causa disso. Há mais ateus entre pessoas mais escolarizadas e em países com média de escolaridade mais elevada, mas correlação não necessariamente indica causalidade.

Sou contra a emenda constitucional do teto dos gastos não porque eu desprezo responsabilidade fiscal. Eu considero que responsabilidade fiscal é importante, que déficits fiscais devem ser exceção e não a regra. Defender que déficit fiscal é bom sempre é pseudokeynesianismo. Os keynesianos que são economistas profissionais não defendem isso. A sacanagem da emenda do teto é utilizar o medo que a população tem do atual déficit como pretexto para impor um Estado mínimo a longo prazo. A intenção da emenda do teto não é só acabar com a diferença entre despesa pública e receita pública. É diminuir a receita no longo prazo.

Nas eleições mais recentes, eu votei em candidatos do PSOL porque eles defendem muitas coisas que eu defendo também, mas acho dizer que “o PSOL é o único partido que não está mencionado nas delações das propinas da Odebrecht” não é um bom argumento para defender o partido. Ninguém vai querer subornar quem não faz parte de governos. Ética deveria ser obrigação (e muitos partidos não cumprem), e não a principal bandeira de partidos. O debate político não pode ser reduzido a “quem é mais honesto, quem é mais safado”.

caminhos tortos

Como a Escola Austríaca de Economia pode involuntariamente ajudar a esquerda

Nos mais recentes anos, houve um crescente interesse no Brasil pela Escola Austríaca de Economia (no resto do texto será chamada de EAE). Este fenômeno foi mais marcante nas redes sociais, em debates de leigos, do que na academia. O motivo não é muito difícil de entender. Houve um surto de direitismo na opinião pública brasileira, porque a raiva com o petê se transformou em raiva com tudo que tem a ver com esquerda, aí tudo que passou a ser associado com anti-esquerda ganhou evidência, e isto inclui a EAE. Enquanto isso, geralmente quem é de esquerda tem repulsa à EAE. Mas a EAE pode ter efeitos colaterais benéficos para a esquerda.

A EAE é uma escola de pensamento econômico que não pertence ao mainstream. No pensamento econômico, o mainstream é composto pelos neoclássicos. Por isso, os neoclássicos também são chamados de ortodoxos. Enxergam o sistema econômico como um sistema composto por agentes racionais que tentam maximizar seu bem-estar em um mundo onde os recursos são escassos. Para empresas, isto significa maximizar lucro, dadas as vendas e os preços dos insumos. Para consumidores, isto significa maximizar a satisfação (chamada de utilidade) proveniente dos bens de consumo, dado sua renda e o preço dos bens. A interação entre estes agentes gera um equilíbrio, que pode ser descrito através de sistemas de equações matemáticas. Os neoclássicos consideram que existe incerteza, que pode ser medida por cálculo probabilístico. Os neoclássicos formalizam seu pensamento em linguagem matemática bastante sofisticada. Na macroeconomia, os neoclássicos têm algumas divergências entre eles, se dividem em monetaristas, novos clássicos e novos keynesianos (quem quiser saber mais sobre esta divisão pode ler este texto), mas a microeconomia que serve como base para todos é semelhante.

A economia é a mais conservadora das ciências sociais, e os economistas do mainstream são em sua maioria conservadores, mas nem todos são (notáveis exceções são Joseph Stiglitz e Paul Krugman) e nem é necessário ser (quem quiser saber mais pode ler este texto). Os esquerdistas, em geral, preferem escolas heterodoxas como a marxista e a pós-keynesiana (no resto do texto será chamada de EPK), que são escolas à esquerda do mainstream. A EAE, por sua vez, é uma escola heterodoxa à direita do mainstream. A defesa da não intervenção do Estado na economia feita pela EAE é mais forte do que a feita pelos ortodoxos. Os journals mais bem classificados e os departamentos de economia das universidades mais conhecidas do mundo são dominados por economistas ortodoxos. Tanto o marxismo, quanto a EPK, quanto a EAE dominam um ou outro departamento menos conhecido, tem um ou outro acadêmico nos departamentos mais conhecidos e tem journals em posições não muito elevadas nos rankings. Os marxistas e os pós-keynesianos são mais importantes em partidos de esquerda do que nas universidades. Os austríacos são mais importantes em fundações ultraconservadoras mantidas por milionários do que nas universidades.

A EAE é tão antiga quanto a escola neoclássica. Ambas surgiram por volta de 1870. Ambas foram uma resposta ao pensamento clássico, de Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx, que considerava que o valor de uma mercadoria é a quantidade de trabalho que existe nela e que enxergava a economia através das classes sociais. Tanto neoclássicos quanto austríacos mudaram o foco das classes sociais para os indivíduos e ambos deixaram de considerar o valor da mercadoria como o trabalho que existe nela e passaram a considerar a satisfação que a mercadoria causa ao consumidor (a utilidade) como seu valor. Os primeiros economistas da EAE foram Carl Menger e Böhm von Bawerk. No século XX, os maiores expoentes da EAE foram Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Os economistas “austríacos” não necessariamente têm que ter nacionalidade austríaca. Murray Rothbard e Israel Kirzner foram dois importantes “austríacos” nascidos nos Estados Unidos.

A escola neoclássica e a EAE têm semelhanças: a ênfase no indivíduo, o valor utilidade, a defesa do livre mercado como melhor forma de alocar recursos. Porém, existem diferenças importantes. Os neoclássicos trabalham com o conceito de equilíbrio. Os austríacos consideram que o sistema econômico está sempre em mudança. Os neoclássicos consideram que a incerteza pode ser descrita por cálculo de probabilidades (exemplo: um empresário tem 50% de probabilidade de ter um lucro de R$100, 25% de probabilidade de ter um lucro de R$150 e 25% de probabilidade de ter um lucro de R$200) e que a informação é uma mercadoria como qualquer outra: gera um retorno, que é a redução da incerteza, mas tem um custo de obtenção. Os austríacos consideram que o mundo é tão incerto que não é possível nem mesmo fazer cálculo de probabilidades, e que a mesma informação não tem o mesmo efeito para todos os agentes econômicos, que é muito subjetivo como cada agente utiliza a informação. (ver mais neste texto). Os neoclássicos formalizam seu pensamento em complexos modelos matemáticos. Por causa da diferente visão sobre equilíbrio e incerteza, os austríacos preferem a descrição de sua teoria em forma verbal à descrição em forma matemática. Apesar disso Hayek se esforçou em formalizar a teoria austríaca em modelos matemáticos. Diferentemente dos neoclássicos, os austríacos não enxergam as empresas como simples compradoras de insumos e vendedoras de produtos. Eles consideram o tempo de produção. Enxergam a economia como um conjunto de atividades que vai da primeira etapa do processamento de matérias-primas até chegar à produção de bens que têm utilidade para consumidores, passando pelos processamentos intermediários. Ou seja, dividem o processo produtivo em etapas. De acordo com a EAE, quando os consumidores decidem poupar mais, a taxa de juros cai e isto incentiva as empresas a produzirem as etapas iniciais. Quando os consumidores decidem poupar menos, a taxa de juros sobe e isto incentiva as empresas a produzirem a etapa final, ou seja, a de bens de consumo. A EAE considera que as crises econômicas ocorrem como um “remédio necessário” para booms supostamente artificiais. Os booms supostamente artificiais ocorrem quando um banco central cria uma taxa de juros artificialmente baixa, os empresários recebem um estímulo para deslocar a produção para as etapas iniciais, e as crises ocorrem quando os empresários descobrem o erro e decidem retornar à produção das etapas finais. Essa transição geraria recessão e desemprego. A intervenção estatal para corrigir o problema acabaria apenas agravando-o (Snowdon & Vane, 2005).

Apesar de ser pouco influente na academia, a EAE atrai conservadores porque é ainda mais anti-intervenção do que a escola neoclássica. Os neoclássicos, em geral, não têm boa visão sobre a intervenção estatal, mas defendem um banco central para administrar a taxa de juros, e reconhecem que alguma intervenção era necessária para combater as crises econômicas ocorridas nos Estados Unidos em 1929-1932, 2001 e 2008-2009. Os neoclássicos consideram apenas que as crises de 1974-1975 e 1980-1982 foram decorrentes de excesso de intervenção, ou seja, uma inflação gerada por políticas do governo que precisou ser corrigida com juros altos. Já os austríacos consideram que até mesmo as crises de 1929-1932, 2001 e 2008-2009 foram causadas por excesso de intervenção, pois mesmo não tendo sido precedidas de inflação elevada, isto é dispensável para os austríacos. A EAE considera que a existência do Fed mantendo os juros artificialmente baixos causou o boom que futuramente gerou a crise corretiva. A EAE defende que não deve existir banco central, que a moeda deve ser emitida por bancos privados.

Em poucas palavras, o “liberalismo” dos austríacos é bem mais forte do que o “liberalismo” dos neoclássicos. Mas este “liberalismo” é apenas econômico. Enquanto que o neoclássico Milton Friedman dizia que “não tinha relação com Pinochet, apenas tinha feito sugestões para a economia”, Friedrich Hayek apoiava abertamente o ditador chileno.

Em relação ao posicionamento sobre a intervenção do Estado na economia, a EPK é o extremo oposto da EAE, apesar de ambas as escolas serem heterodoxas. Entre as escolas ortodoxas, as que menos toleram a intervenção do Estado na economia são, em primeiro lugar, a novo clássica, seguida da monetarista e por fim a novo keynesiana, um pouco mais tolerante. A EPK defende mais a intervenção do Estado na economia do que a novo keynesiana. A EAE se opõe mais à intervenção do Estado na economia do que a novo clássica. A EAE considera que a oscilação da taxa de juros de mercado é um mecanismo eficiente para converter aumento de propensão a poupar em aumento de propensão a investir. Uma taxa de juros criada por agentes públicos criaria distorção.  A EPK tem uma visão completamente diferente sobre a taxa de juros, e considera que é possível existir subconsumo junto com subinvestimento, com desemprego. Nesta situação, a redução da taxa de juros e o aumento do gasto público seriam necessários para aumentar a demanda e reativar a economia.

Apesar disso, a EAE e a EPK são como as duas pontas da letra U. Parecem extremos opostos, mas na verdade não estão tão distantes assim. Podemos fazer uma analogia com a linha 1 do metrô do Rio de Janeiro. As estações Uruguai e General Osório Ipanema são os extremos opostos da linha. Olhando apenas para o mapa da linha, parece que as estações estão realmente muito distantes uma da outra. Mas sobrepondo o mapa da linha ao mapa da cidade do Rio de Janeiro, se percebe que a linha faz um U virado, e que as duas estações não estão tão longe assim. Podemos considerar que a Uruguai é a EPK e a General Osório Ipanema é a EAE (os mais revolucionários poderão querer que a Uruguai seja o marxismo, mas não tem problema, neste caso, podemos considerar que a Saens Peña é a EPK) (ah, e se a EAE é a General Osório Ipanema e a EPK é a Saens Peña, as escolas ortodoxas estariam próximas da Glória, Cinelândia, Carioca e Uruguaiana, e os schumpeterianos estariam no Túnel Rebouças).

U escolas economia

Apesar das recomendações de políticas da EAE e da EPK serem opostas, as duas escolas têm algumas semelhanças na forma de estudar o funcionamento da economia. Enquanto os ortodoxos têm uma visão mais estática do funcionamento do sistema econômico, observando as firmas basicamente como compradoras de insumos e vendedoras de produtos, a EAE e a EPK têm uma visão mais dinâmica, observando a produção como algo que leva tempo. A EAE enfoca os diversos estágios da produção, do início do processamento das matérias-primas até a fabricação dos bens de consumo finais. A EPK enfoca a tomada de decisão do empreendedor de investir, com base na taxa de juros e no retorno esperado, a necessidade de elaboração de contratos de compra de insumos e venda de produtos, a possibilidade de inesperados durante o meio do processo de produção. Os ortodoxos enfatizam mais o consumidor para descrever o funcionamento da economia. A EAE e a EPK enfatizam mais o empreendedor. Os ortodoxos, conforme mencionado anteriormente, enxergam a incerteza como um cálculo de probabilidades. A EAE e a EPK trabalham com incerteza que não pode nem ser mensurada por cálculo de probabilidades. Por causa de todas essas diferenças, os ortodoxos são mais propensos a formalizar seu pensamento em linguagem matemática, enquanto que a EAE e a EPK preferem linguagem verbal, embora ambas tenham pensadores que se esforçam em criar alguma formalização matemática.

E quais são as principais críticas feitas à EAE? Paul Krugman considera incoerente a explicação da EAE para os ciclos econômicos. A EAE considera que a causa das recessões é o período de transição em que os empresários deixam de produzir bens de produção e passam a produzir bens de consumo. Paul Krugman disse que se a transição provocasse recessão, quando os empresários mudam da produção dos bens de consumo para os bens de produção, também deveria haver recessão. Mas este é o período em que a EAE diz que existe um boom. Paul Krugman também considera que a falta de formalização matemática deixa o pensamento da EAE obscuro. Paul Krugman tem divergência tanto ideológica, quanto metodológica, em relação à EAE. Paul Krugman pertence ao braço esquerdo do novo keynesianismo, mas ainda assim é um ortodoxo. Trata-se de um debate invertido ao que acostumamos a ver no Brasil. É um ortodoxo de esquerda brigando com heterodoxos de direita.

Milton Friedman, monetarista, portanto, ortodoxo, se alinha ideologicamente com os austríacos na defesa do Estado “mínimo”, e por isso já teve atuação política em conjunto. Mas a forma de fazer ciência é bem diferente. Friedman já chegou a afirmar que a EAE não passa no teste empírico para explicar as flutuações da economia dos Estados Unidos.

A defesa da EAE sobre a dificuldade de passar no teste empírico é que para esta escola de pensamento, é muito difícil testar teorias econômicas usando dados da realidade. Ou seja, a EAE entra em choque com a definição de verdade feita por Karl Popper, a da falseabilidade. Daí é fácil explicar porque a EAE não tem muito espaço dentro do mundo acadêmico.

Os maiores divulgadores da EAE no Brasil foram colunistas que apareceram através da influência de Olavo de Carvalho. Estes colunistas repetem o pensamento produzido por grupos ultraconservadores norte americanos. Alguns destes colunistas também são simpatizantes do negacionismo da evolução e do negacionismo do aquecimento global. Isto não quer dizer que simpatizantes da EAE também sejam simpatizantes do negacionismo da evolução e do negacionismo do aquecimento global, mas sim que essas ideias encontram meios de divulgação semelhantes.

Um país que serve como exemplo oposto ao que a Escola Austríaca de Economia prega é a Áustria. Lá, o setor público corresponde a mais de 40% do PIB, o mercado de trabalho é bem regulamentado, e ainda assim a Áustria, além de ser um país de alta renda, tem uma economia funcionando bem, com crescimento razoável e desemprego baixo. A euroesclerose nunca passou por lá.

Por fim, quem é de esquerda, o que deve pensar sobre a EAE? Deve discordar de suas ideias, mas nunca dizer “isto não é sério” ou “isto é uma merda”. A EAE para a esquerda é como um jogador de futebol do time adversário que amortece uma bola que estava no ar e involuntariamente deixa esta bola boa para chutar. Muitas vezes, conservadores criticam esquerdistas por gostarem de teorias econômicas com pouca formalização matemática e com pouco respaldo do meio acadêmico, como a marxista e a pós-keynesiana. Agora, se os conservadores gostarem da teoria austríaca, eles poderão criticar a teoria marxista e a pós-keynesiana por outros motivos, mas não mais por essas teorias terem pouca matemática e pouca presença na academia.

O Zizek dizia que quando a esquerda se preocupava demais em bater em malucos à direita do establishment, o establishment ficava intocado.

 

Referências

SNOWDON, B.; VANE, H. Modern Macroeconomics, Its Origins, Development and Current State: EE 2005

JESUS HUERTA DE SOTO. The essential diferences between the Austrian and Neoclassical Schools

KRUGMAN, P. Martin and the Austrians: 2010

mais mises mais marx

 

A Geração X da política brasileira

O Brasil ainda é dominado por políticos velhos. Os principais políticos brasileiros atuais tiveram carreira marcada pela ditadura militar (1964-1985), ou lutando a favor, ou lutando contra. Nem sempre foi assim, tanto no Brasil, quanto no exterior. Fernando Collor de Melo nasceu em 1949 e foi eleito presidente do Brasil em 1989. John Kennedy nasceu em 1917 e foi eleito presidente dos Estados Unidos em 1960. É como se o presidente do Brasil a ser eleito em 2018 tivesse nascido em 1975 ou 1978. Não há qualquer nome nascido nestas datas com possibilidade de vencer a eleição presidencial brasileira no ano que vem. Pela data em que estamos atualmente, seria perfeitamente possível existir políticos que estavam de fraldas ou que nem haviam nascido quando ocorreu o AI-5 (1968), a chegada do homem à Lua e Woodstock (1969). Mas no Brasil eles são muito raros.

Os mais jovens políticos importantes que existem no Brasil são aqueles nascidos ao longo da década de 1960. Este grupo inclui Aécio Neves, Eduardo Campos, Eduardo Paes, Renato Casagrande, Cid Gomes, Fernando Haddad e Marcelo Freixo. O grupo é ideologicamente heterogêneo, mas sem extremos. Aécio e Casagrande estão mais à direita mas nem tanto, Campos, Paes e Cid estão mais ao centro, Haddad e Freixo estão mais à esquerda mas nem tanto. Mas ainda assim, por pertencerem a uma mesma geração, compartilham algumas características. Eram crianças durante o auge da ditadura militar, chegaram à vida adulta já quase no fim da Guerra Fria.

O que os caracteriza é a figura do político gerente. Enxergam fazer política como fazer boa gestão. Não têm grandes projetos de sociedade. Não querem instalar uma ditadura, destruir uma ditadura, criar um grande Estado de Bem Estar Social, destruir um grande Estado de Bem Estar Social, fazer limpeza étnica, combater a limpeza étnica, acabar com discriminações históricas, criar uma sociedade sem classes, lutar pela independência de uma nação. Não querem convencer a sociedade sobre o que é melhor para a sociedade. Partem do princípio de que o que a sociedade quer já está decidido, que é consumir mais e ter bons serviços públicos sem pagar muitos impostos, e aí o que eles consideram como a missão deles no mundo é atender o que a sociedade quer com maior eficiência possível.

Grande parte desta geração de políticos gosta de parcerias com o setor privado e introdução de métodos de gestão do setor privado no setor público. Alguns associam isso com neoliberalismo, mas este neoliberalismo é mais brando. Mesmo quem está mais à direita no grupo mencionado, que é o Aécio Neves, não entra na defesa “heroica” do “liberalismo” igual Marget Thatcher e Ronald Reagan, que diziam respectivamente que “não existe sociedade, apenas indivíduos” ou que “o governo não é a solução para os problemas, e sim o problema”. Aécio Neves gostava de passar a imagem de um político “não ideológico”, tratando seu gerencialismo como uma necessidade técnica. Quando era governador de Minas Gerais, era conveniente ter boa relação com Lula e Fernando Pimentel, e ele teve. Chegou até a comparecer em evento das “empresas mais admiradas” da Carta Capital. Adotou um discurso fortemente de direita recentemente, mas não como cachorro abanando o rabo, e sim como o cachorro sendo abanado pelo rabo. O discurso conservador que Aécio adotou foi uma tentativa de surfar na onda conservadora de opinião pública, onda esta que não foi gerada por ele. Durante muito tempo, as críticas que Aécio fazia aos políticos de esquerda não mencionavam “ideologia ruim”, e sim má gestão e corrupção (bom, mas aí…).

Mesmo Fernando Haddad, que está à esquerda, não é uma esquerda tradicional. Quando foi ministro da educação, chamou empresários e Cláudio Moura de Castro para conversar. Ajudou na consolidação do Ideb como indicador de desempenho escolar, uma típica prática gerencialista. Foi amigo da Neca Setúbal, aquela que tomou paulada da campanha da Dilma de 2014. Como prefeito de São Paulo, não viu problemas em utilizar Organizações Sociais para a saúde. Diferencia-se da maioria dos demais por não ser o estereótipo do tecnocrata frio. Enxerga bastante relevância nos mecanismos de democracia direta e na cultura popular.

Marcelo Freixo é o mais diferente dos demais mencionados. Assim como Fernando Haddad, valoriza a democracia direta e a cultura popular. Diferente de todos os outros mencionados, nunca teve experiência de Poder Executivo. Perdeu nas duas vezes em que concorreu. Diferente até mesmo de Haddad, não é entusiasta das Organizações Sociais. Mas ainda assim, carrega algumas características de sua geração. Não é um revolucionário 1917. Não ataca o capital como um todo (até porque estava concorrendo só a prefeito) e sim o capital que obtém benefícios indevidos do poder público, algo que líderes de qualquer orientação ideológica poderiam fazer. Ganhou evidência na política ao combater as milícias, mal que poderia ser reconhecido por líderes de qualquer orientação ideológica (embora a campanha de seu adversário no ano passado tenha defendido as milícias). Durante a campanha no segundo turno em 2016, Marcelo Freixo falou em nomear secretários com base em competência, e não em indicação política.

Uma característica em comum a Aécio Neves, Eduardo Campos, Eduardo Paes, Renato Casagrande, Cid Gomes, Fernando Haddad e Marcelo Freixo é que eles não são grandes oradores. Eles não dominam a arte de falar gritado para grandes plateias, de agitar os braços e levantar o punho. Se tentarem fazer isso, fica parecendo forçado. Sentem-se mais à vontade em palestras do que em discursos. Não há discursos memoráveis deles. Isso é um dos principais diferenciais entre políticos gerentes e políticos heróis, grupo este que inclui líderes mais velhos, como Lula, Brizola, Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Lenin, Stalin, Hitler, Mussolini, Churchill, Roosevelt, Mao, Fidel, Kennedy, Luther King, Reagan, Thatcher, Mandela e muitos outros. Óbvio que muitos destes não são nem um pouco “heróis” para nós, mas foram “heróis” para muita gente durante determinado período.

Um exemplo internacional da geração de políticos gerentes é o candidato francês Emmanuel Macron, provável vencedor da eleição presidencial de 2017. Ele nasceu em 1977, algo não imaginável para candidatos brasileiros de 2018, conforme mencionado no início do texto. Um indício de que a política brasileira renovou pouco, é que dois integrantes desta geração “jovem” de nascidos nos anos 1960 (Aécio Neves e Eduardo Campos) são netos de políticos famosos (Tancredo Neves e Miguel Arraes). Cid Gomes é um típico político gerente enquanto que seu irmão mais velho, que talvez concorra a presidente em 2018, se parece mais com políticos dos antigos.

Por fim, um esclarecimento sobre os nomes das gerações. Nos Estados Unidos, a Geração X é oficialmente reconhecida como aquela que inclui nascidos entre 1965 e 1980. É precedida pela Geração Baby Boomer, que vai de 1946 a 1964. A Geração Baby Boomer foi a que surgiu com o baby boom do imediato pós-Segunda Guerra Mundial. Porém, alguns consideram que a Geração Baby Boomer pode compreender nascidos entre 1942 e 1960. Isto porque os nascidos durante os anos finais da Segunda Guerra Mundial nada lembram do acontecimento e se parecem muito com os nascidos no imediato pós-guerra. Enquanto isso, mesmo os nascidos na primeira metade da década de 1960 já podem ser considerados integrantes da Geração X.

geração x políticos

A economia tem sim alguns almoços grátis

Muitos já devem ter visto a seguinte situação: sindicatos e movimentos sociais fazem reinvindicações, que podem ser maiores salários, aumento de vagas nas escolas e nas creches, aumento de recursos para assentamentos, construção de moradias populares, redução da tarifa do transporte público. Aí aparecem os “liberais” criticando “esses esquerdopatas não entendem de economia, não existe almoço grátis”. O “não existe almoço grátis” dito pelos “liberais” sempre vem acompanhado da afirmação implícita ou explícita de que “eu sou inteligente, meus opositores são burros”. Uma parte desta crítica é válida. Ao fazer reinvindicações, movimentos poderiam dar mais atenção à questão de onde poderia vir os recursos para atender essas reinvindicações. Caso contrário, estarão jogando água no moinho de quem fala que só os “liberais” que dizem que “não existe almoço grátis” entendem de economia. Mas a verdade é que apesar de muitas vezes realmente não existir almoço grátis, a economia tem sim alguns exemplos de almoço grátis. Este texto tratará deste assunto.

A expressão There ain’t no such think as a free lunch (não existe almoço grátis) apareceu em artigos de economia nos Estados Unidos nas décadas de 1930 e 1940. A ideia por trás da expressão é que bens têm custo para ser produzidos e que se o usuário não está pagando diretamente por eles, está pagando indiretamente, ou outra pessoa está pagando. O exemplo de que não existe “____ grátis” poderia ter sido qualquer outro. Não existe par de sapatos grátis, não existe livro grátis. Mas o almoço foi escolhido como exemplo porque a expressão “free lunch” ficou popularizada nos saloons do Velho Oeste dos Estados Unidos, que ofereciam almoço grátis para clientes que consumissem bebidas. Na verdade, o almoço não era grátis porque o custo da comida já estava incluído no preço da bebida. A expressão There ain’t no such think as a free lunch tornou-se mais difundida ainda com Milton Friedman, na década de 1970. Esta expressão não se aplica apenas para a economia. Nas ciências naturais, para falar da Lei de Lavousier, também é possível dizer que não existe almoço grátis. https://en.wikipedia.org/wiki/There_ain%27t_no_such_thing_as_a_free_lunch

Uma lição básica de Economia é o gráfico de possibilidades de produção, que pode ser visto abaixo. Para simplificar, este gráfico mostra uma economia que produz apenas dois bens, o Bem A e o Bem B. Como os meios de produção são limitados, não é possível produzir uma quantidade ilimitada dos dois bens. É possível produzir apenas combinações de quantidades de cada um dos bens que estão dentro da área cinza. A curva que delimita esta área contém os pontos de eficiência da economia, ou seja, as maiores combinações que podem ser produzidas. Quando a economia está em um ponto de eficiência, por exemplo o X, não é possível produzir mais A sem produzir menos B, não é possível produzir mais B sem produzir menos A. Neste caso, vale a regra do “não existe almoço grátis”. Mas nem sempre a economia está no X. É possível que a economia esteja no ponto Y, por exemplo, onde é possível aumentar tanto A quanto B, ou seja, onde existem alguns almoços grátis. Vamos a alguns exemplos da vida real.

dois bens A e B

Normalmente, quando o governo quer aumentar a despesa em um determinado programa, ele só pode fazer isso ou diminuindo despesas em outras áreas, ou aumentando impostos, ou se endividando. É o ponto do “não existe almoço grátis”. Mas nem sempre a economia está neste ponto. Existem situações onde há muitos trabalhadores desempregados, muitas fábricas ociosas, muitas lojas vendendo menos do que poderiam. Nesta situação, existem possíveis almoços grátis. O governo pode fazer um programa de obras públicas. Este programa emprega os trabalhadores que antes estavam desempregados. Os trabalhadores poderão fazer compras. Por causa disso, as fábricas poderão produzir mais, e, desta forma, contratar novos trabalhadores. Estes trabalhadores também passarão a comprar, e assim por diante. Toda esta renda gerada ajuda a aumentar a arrecadação do governo. Desta forma, é possível fazer o programa de obras públicas sem ter que aumentar impostos nem aumentar o endividamento do governo. O melhor exemplo disso foi a recuperação dos Estados Unidos da Grande Depressão da década de 1930, com o New Deal de Franklin Roosevelt. O pacote de Obama de 2009, para combater a crise de 2008, teve propósito semelhante.

Agora, vamos passar deste exemplo macroeconômico para exemplos microeconômicos. Sabemos que salas de cinema têm custos: manutenção, limpeza, adquirir os filmes. Porém, estes custos são fixos. Quando uma sala de cinema não está lotada, o custo gerado por uma pessoa a mais que entra é zero. Por causa disso, empresas que administram salas de cinema poderiam vender ingressos para pessoas de baixa renda pela metade do preço e, se for estudante de baixa renda, pela metade da metade do preço. Esta venda poderia ocorrer se ainda estiverem sobrando lugares dez minutos antes de começar a sessão. Neste caso, as empresas não estariam fazendo caridade. Estariam aproveitando uma oportunidade de aumentar a receita sem aumentar a despesa. A única dificuldade seria ter algum comprovante de que a pessoa é realmente de baixa renda.

Outro exemplo está nas despesas com saúde. Vamos considerar que existem cinco pessoas que por causa de diferentes idades, genes e hábitos de vida, geram diferentes custos com saúde. Adriano gera um custo de 600, Bruna gera um custo de 700, Cláudio gera um custo de 800, Darcy gera um custo de 900 e Ernesto gera um custo de 1000. Um operador de plano de saúde privado sabe que as pessoas geram custos entre 600 e 1000, mas não sabem quem gera qual custo. Como imagina que as pessoas que geram mais custos são aquelas que teriam interesse em ter plano de saúde, cobra 900 pelo plano. Somados, os cinco geram 4000, uma média de 800 por pessoa. O governo pode oferecer os serviços de saúde para as pessoas cobrando 800 de impostos de cada um para financiar estes serviços.

Os resultados dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) são outro exemplo clássico de possíveis almoços grátis. Uma empresa investe em P&D, desenvolve um novo produto, ou um novo processo para produzir um produto já existente, e obtém maior lucro com a venda desse novo produto ou uso desse novo processo. Este lucro maior é resultado do investimento em P&D. Isto é o almoço pago. Mas a nova tecnologia descoberta pode ser utilizada por outras empresas para desenvolver novos processos e novos produtos. Isto é o almoço grátis. Bom, relacionado ao assunto, alguém poderia perguntar sobre propriedade intelectual. Este é o link para o texto que escrevi sobre o assunto.

É óbvio que todos os economistas que falam que “não existe almoço grátis” conhecem bem todos estes exemplos. Eles apenas ignoram por considera-los pouco importantes. Alguns ainda discordam do uso do gasto público para combater o desemprego, ideia mais associada com o Keynes. Não é problema falar que “não existe almoço grátis”, porque em muitas situações realmente não existe. O problema dos economistas “liberais” que adoram repetir o “não existe almoço grátis” é que eles tentam empurrar a preferência ideológica deles por um Estado que gasta pouco e arrecada pouco como uma ideia tecnicamente inquestionável. É verdade que, com exceção do caso da Depressão, o Estado não deve gastar mais do que arrecada, mas é perfeitamente possível o Estado gastar muito e arrecadar muito, ou gastar pouco e arrecadar pouco. Os economistas “liberais” do “não existe almoço grátis” tentam empurrar a ideia do gastar pouco, arrecadar pouco, como uma solução possível.

Quem talvez não conhece os exemplos de que existem alguns almoços grátis na economia são leigos no assunto que adoram repetir lugares comuns “liberais” nas redes sociais. Por isso é importante discutir estes exemplos.

Para concluir, algumas pequenas provocações. Quem gosta de repetir que “não existe almoço grátis” em geral idolatra o João Dória, e bate palmas para as políticas feitas em parcerias com empresas privadas, que não causariam custo para a prefeitura. Eu pensava que justamente quem repete tanto que “não existe almoço grátis” deveria ser mais cético com essas coisas. Quem gosta de repetir que “não existe almoço grátis” também foi a favor da emenda constitucional que congelou a despesa da União para os próximos 20 anos. É de notório conhecimento que os serviços públicos brasileiros são péssimos. Quem acredita que com essa mesma quantidade de dinheiro, nos próximos 20 anos será possível ter serviços públicos bons, parece acreditar em almoço grátis.

free lunch

Sobre as pessoas cultas de esquerda que acreditam em Astrologia

Decidi escrever um texto sobre o assunto porque para mim pareceu estranho perceber tantas pessoas instruídas, de esquerda, não religiosas, críticas em outros assuntos, levando Astrologia a sério. Não vou tirar liberdade de crença das pessoas, cada um acredita no que quer, mas também cada um fala o que quer sobre o que os outros acreditam. Não pretendo policiar as crenças dos outros. Jamais deixaria de considerar opiniões de uma pessoa em outros assuntos só porque essa pessoa acredita em Astrologia. Mas não vou deixar de discutir crenças.

De acordo com a Astrologia, a posição dos astros no momento em que um ser humano nasce tem poder de fornecer informações sobre sua personalidade, seus relacionamentos e seu futuro. O mais conhecido Astrologia são os signos solares, que são determinados de acordo com a passagem do sol por cada uma das 12 constelações do Zodíaco, de acordo com nossa visão. Para efeitos de arredondamento, cada signo dura um mês. O signo solar de cada pessoa é determinado por sua data de nascimento. Por exemplo, meu signo solar é Câncer, porque eu nasci em um dia 29 de junho. O signo solar determinaria como a pessoa é. Além do signo solar, existe o ascendente, que determinaria como o mundo vê a pessoa. O signo ascendente seria aquele que ascende no horizonte quando a pessoa nasce. É determinado pela data, horário e local de nascimento. Como eu nasci no dia 29 de junho de 1984, às 9h50, em Campinas-SP, meu ascendente é Virgem. O signo lunar é o que determinaria as emoções da pessoa. É calculado através da data, horário e local de nascimento da pessoa. Meu signo lunar, assim como meu signo solar, é Câncer.

Existe tanto Astrologia chinesa, quanto ocidental, mas a que mais conhecemos, que é a ocidental, teve início na Mesopotâmia muitos anos antes de Cristo, e foi aprimorada pelos gregos. Em um tempo em que o conhecimento humano acumulado era muito mais limitado, fazia algum sentido as pessoas acreditarem no poder de previsão dos astros. A posição de alguns astros realmente tem impacto na Terra. A posição do Sol tem efeito nas estações do ano, a posição da Lua tem efeito nas marés. Era natural que algumas pessoas começassem a imaginar outros efeitos da posição dos Astros no céu na vida na Terra.

A Astrologia surgiu em um tempo em que se pensava que a Terra era um disco chato fixo e que todos os astros giravam em torno da Terra. Com o conhecimento científico que a humanidade tem hoje, verifica-se que a Astrologia não faz sentido. Sabemos hoje que constelações são artificiais, são grupos de estrelas que os olhos humanos enxergam no céu quando estão no Planeta Terra e que formam figuras que os humanos conhecem, mas as estrelas de uma mesma constelação estão bem distantes uma da outra. O efeito gravitacional de planetas sobre a criança nascendo é muito menor que o efeito gravitacional exercido pelo obstetra, porque apesar do obstetra ser muito mais leve que um planeta, ele está bem mais próximo da criança. O efeito de sinais de rádio emitidos pelo Sol e pelos planetas é muito menor do que o efeito de alguma emissora de rádio localizada nas proximidades da maternidade.

Vários testes científicos foram feitos para verificar a validade da Astrologia, e nestes testes, a Astrologia foi reprovada. Um teste famoso publicado na revista Nature nos anos 1980 consistiu em astrólogos escolherem entre três questionários de personalidade, qual deles se aplicava a um determinado mapa astral. A taxa de acerto ficou em um terço, ou seja, igual a se os questionários tivessem sido sorteados. Também houve teste verificando se há mais divórcios em casais formados por horóscopos tidos como incompatíveis, e foi observado que o percentual de divórcio é o mesmo para casais “compatíveis” e “incompatíveis”.

Os textos com os links a seguir explicam mais detalhadamente a história da Astrologia, suas incompatibilidades com a ciência e os mencionados testes.

Verdades inconvenientes sobre Astrologia – Superinteressante

12 perguntas céticas sobre Astrologia – Universo Racionalista

Astrologia não é ciência – ateus net

Pensamentos sobre astrologia – ateus net

Mas então por que tanta gente acredita em Astrologia, incluindo pessoas bastante escolarizadas, com bastante senso crítico para outros assuntos? Podemos pensar em algumas hipóteses.

Muitas pessoas gostam de encontrar correlações. A Astrologia é uma forma de correlação. Mas existem outras correlações em que existem pessoas que acreditam. Tem gente que usa sempre a mesma cueca quando o time para o qual torce joga porque quando usou essa cueca, o time ganhou. Porém, é possível que muitas dessas pessoas que usam “cuecas da sorte” saibam que racionalmente não faz o menor sentido, e que mantém o hábito da “cueca da sorte” apenas como mania.

É possível ainda que o viés de confirmação induza muitas pessoas a levar a Astrologia a sério. As pessoas já estão propensas a acreditar em Astrologia, leem a descrição de seus signos, e aí acabam encontrando algumas descrições realmente verdadeiras porque querem encontrar essas descrições. Se a descrição de seu signo solar não for verdadeira, basta procurar a descrição do ascendente. Se a descrição do ascendente ainda não for verdadeira, basta procurar a descrição do signo lunar. Aí fica fácil encontrar alguma descrição de signo que realmente se aplica à personalidade.

Por exemplo, como já afirmei, sou de Câncer com ascendente em Virgem e lua em Câncer. De acordo com este site, a descrição do signo solar de Câncer é: “sua missão é nutrir. Suas principais características são: emotividade, saudosismo, ser maternal, pessimismo, magoar-se facilmente e sensibilidade”. A descrição da ascendente em Virgem é: “praticidade, crítica, sistematização, método, perfeccionismo, timidez, preocupação com limpeza e saúde”. A descrição da lua em Câncer é: “emocionalmente maternal. Necessidade de nutrir e ser nutrida”. Algumas destas descrições se aplicam a minha personalidade, outras não. Mas com tantas descrições, encontrar uma ou outra que se aplica é uma tarefa elementar. Características de outros signos também podem se aplicar a minha personalidade. Este vídeo mostra um teste em que a descrição do signo Capricórnio é distribuída para 20 pessoas, que recebem a informação errada de que a descrição é de seu próprio signo. Algumas dessas pessoas, que não são de Capricórnio, pensam que a descrição que elas leram se aplicam a elas mesmas.

Uma curiosidade: este é o signo solar dos principais pensadores de Economia. Tentem achar alguma regra, alguma semelhança entre pensadores que têm mesmo signo. Marx, Hayek e Samuelson são de Touro…

 

Adam Smith: Gêmeos

David Ricardo: Áries

Karl Marx: Touro

John Stuart Mill: Touro

Leon Walras: Sagitário

Alfred Marshall: Leão

Piero Sraffa: Leão

Joseph Schumpeter: Aquário

John Maynard Keynes: Gêmeos

Joan Robinson: Escorpião

Michal Kalecki: Câncer

Ludwig Von Mises: Libra

Friedrich Hayek: Touro

Raul Prebisch: Áries

Celso Furtado: Leão

Paul Samuelson: Touro

James Tobin: Peixes

Franco Modigliani: Gêmeos

Robert Sollow: Virgem

Milton Friedman: Leão

Edmund Phelps: Leão

Robert Lucas: Virgem

Thomas Sargent: Câncer

Edward Prescott: Capricórnio

Joseph Stiglitz: Aquário

Paul Krugman: Peixes

Greg Mankiw: Aquário

Olivier Blanchard: Capricórnio

David Romer: Peixes

Hal Varian: Peixes

Thomas Piketty: Touro

 

Chega a ser irônico que mesmo que um dos grandes ícones da Astrologia no Brasil tenha sido Olavo de Carvalho, que pessoas céticas não acreditem em Astrologia, muitas pessoas de esquerda que se mostram céticas em outros assuntos realmente levam Astrologia a sério. Pessoas que estão no mesmo lado do espectro político de quem critica muito a bancada evangélica. O personagem do ótimo filme brasileiro “Lua em Sagitário” é comum na vida real.

Não vejo muita diferença entre acreditar na posição dos astros determinando a personalidade e o futuro da pessoa e acreditar na Arca de Noé. Em ambos, fazia até um pouco de sentido acreditar quando o conhecimento acumulado pela humanidade era bem mais limitado, mas atualmente não. Sim, eu sei porque tanta gente que não acredita nem em Astrologia nem na Arca de Noé considerarem pior acreditar na Arca de Noé: muitas pessoas que realmente acreditam na Arca de Noé são machistas e homofóbicas. Embora a crença na Arca de Noé não leve diretamente ao machismo e à homofobia, ser um seguidor muito fundamentalista da religião que trata da Arca de Noé leva ao machismo e à homofobia. A crença no poder dos astros normalmente é inofensiva. Embora possa ser definido como preconceito julgar uma pessoa de acordo com a posição dos astros no céu no dia em que ela nasceu. Já pensaram uma pessoa que leva muito a sério a Astrologia ter o poder de definir equipes que vão fazer um trabalho, e usar os astros como critério para escolher as pessoas?

A Astrologia não é a única das crenças que muitos millennials têm. Os millennials, que são os nascidos nas décadas de 1980 e 1990, são bem menos religiosos do que as gerações anteriores, mas não são muito mais ateus do que as gerações anteriores. É muito comum um millennial ser spiritual but not religious, ou seja, não seguir uma religião tradicional, mas crer em alguma coisa sobrenatural.

Por fim, é necessário fazer uma alerta. Devemos ser críticos em relação a Astrologia, Criacionismo e outras crenças mais, mas não é por isso que devemos ter fé na ciência. Quem não é da área de ciências naturais, ao participar de debates sobre o assunto, deve ler textos de divulgação para o público leigo para se informar e formar opinião, e não simplesmente dizer “ele está certo porque ele tem diploma em ciência”.

olavo de carvalho veja astrologia

Qual é o bairro mais esquerdista do Rio de Janeiro? Qual é o bairro mais direitista?

As mais recentes eleições ocorridas na cidade do Rio de Janeiro forneceram um laboratório interessante. Na eleição presidencial de 2014, a candidata Dilma Rousseff, apoiada por partidos de esquerda, teve desempenho melhor em bairros de baixa renda, localizados principalmente na Zona Norte e na Zona Oeste, e o candidato Aécio Neves, apoiado por partidos de direita, teve desempenho melhor em bairros de alta renda, localizados principalmente na Zona Sul. Na eleição municipal de 2016, a situação se inverteu. O candidato Marcelo Freixo, apoiado por partidos de esquerda, teve desempenho melhor em bairros de alta renda, localizados principalmente na Zona Sul, e o candidato Marcelo Crivella, apoiado por partidos de direita, teve desempenho melhor em bairros de baixa renda, principalmente nas Zonas Norte e Oeste. Em apenas dois anos, a polarização ideologia/renda mudou muito. É possível mencionar também que a eleição de 2014 teve resultados por zona eleitoral bem parecidos com a eleição de 2010, que também foi disputada entre Dilma e um candidato do PSDB, e a eleição de 2016 teve resultados por zona eleitoral bem parecidos com a eleição de 2012, que tinha Marcelo Freixo e Eduardo Paes, apoiado por Marcelo Crivella. Neste parágrafo, quando foram mencionadas as eleições de 2010, 2014 e 2016, estava se falando do segundo turno, para efeito de simplificação. Já a eleição de 2012 teve turno único.

Como as eleições de 2010 e 2014, e as de 2012 e 2016 foram muito parecidas, este texto trabalhará apenas com os resultados das eleições de 2014 e 2016, considerando apenas os votos válidos obtidos pelos candidatos no segundo turno. Como foi dito no primeiro parágrafo, a polarização ideologia/renda foi em 2016 oposta da que foi em 2014. Por causa disso, em geral, nas zonas eleitorais em que Dilma 2014 teve desempenho melhor, Crivella 2016 teve desempenho melhor. Nas zonas eleitorais em que Aécio 2014 teve desempenho melhor, Freixo 2016 teve desempenho melhor. Mas a relação não foi completamente linear. Em algumas zonas, tanto Dilma 2014 quanto Freixo 2016 foram bem. Em outras zonas, tanto Aécio quanto Crivella foram bem. Com duas polarizações tão distintas, é possível calcular o quanto esquerdista é cada zona eleitoral do município do Rio de Janeiro, através da média entre o percentual de votos válidos da Dilma em 2014 e do Freixo em 2016. Calculadas as médias, é possível fazer o ranking da zona mais esquerdista, que é a que tem maior média entre Dilma 2014 e Freixo 2016, para a mais direitista, que é a que tem a menor média entre Dilma 2014 e Freixo 2016. O ranking pode ser visto na tabela a seguir.

Zona Abrangência Dilma 2014 Freixo 2016 média
8 CACHAMBI ENGENHO NOVO JACARÉ MARIA DA GRAÇA ROCHA 64.7% 62.9% 63.8%
164 BAIRRO DE FÁTIMA CATUMBI SANTA TERESA 59.3% 58.7% 59.0%
163 CATETE GLÓRIA LAPA 46.7% 62.5% 54.6%
204 CENTRO CIDADE NOVA SANTO CRISTO 54.0% 55.0% 54.5%
1 CENTRO PAQUETÁ SAUDE 60.7% 46.5% 53.6%
229 CATUMBI ESTÁCIO RIO COMPRIDO 57.0% 48.8% 52.9%
193 BENFICA MANGUEIRA TRIAGEM 71.7% 33.7% 52.7%
16 COSME VELHO LARANJEIRAS 38.3% 67.1% 52.7%
19 ANDARAÍ MARACANÃ VILA ISABEL 47.7% 57.3% 52.5%
213 ENGENHO NOVO RIACHUELO ROCHA SÃO FRANCISCO XAVIER 51.3% 53.7% 52.5%
121 OLARIA 59.8% 43.5% 51.6%
208 ABOLIÇÃO ENGENHO DE DENTRO PILARES 56.5% 46.6% 51.6%
211 GÁVEA ROCINHA SÃO CONRADO VIDIGAL 54.8% 47.7% 51.3%
169 BONSUCESSO DEL CASTILHO HIGIENÓPOLIS INHAUMA 62.2% 39.1% 50.7%
12 CASCADURA MADUREIRA OSWALDO CRUZ 56.3% 45.0% 50.6%
20 ENGENHO DE DENTRO MEIER TODOS OS SANTOS 45.1% 56.1% 50.6%
160 OLARIA RAMOS 56.1% 44.8% 50.5%
161 BONSUCESSO RAMOS 66.1% 34.8% 50.4%
2 CAJU SÃO CRISTÓVÃO 59.4% 41.4% 50.4%
118 CAVALCANTI ENGENHEIRO LEAL MADUREIRA TOMÁS COELHO VAZ LOBO 61.6% 39.1% 50.3%
21 BONSUCESSO INHAUMA RAMOS TOMÁS COELHO 68.0% 32.6% 50.3%
189 BRÁS DE PINA PENHA CIRCULAR VILA DA PENHA 56.5% 44.1% 50.3%
207 CASCADURA CAVALCANTI QUINTINO BOCAIÚVA TOMÁS COELHO 53.2% 47.4% 50.3%
11 BRÁS DE PINA OLARIA PENHA PENHA CIRCULAR 50.9% 49.6% 50.2%
168 ENGENHO DA RAINHA INHAUMA 59.6% 40.3% 49.9%
215 CACHAMBI DEL CASTILHO ENGENHO NOVO MARIA DA GRAÇA MEIER 45.8% 54.0% 49.9%
173 GRAJAÚ VILA ISABEL 39.6% 60.1% 49.9%
4 BOTAFOGO HUMAITA 36.3% 63.3% 49.8%
216 CACHAMBI DEL CASTILHO ENGENHO DE DENTRO MEIER TODOS OS SANTOS 47.8% 51.8% 49.8%
188 PENHA 65.5% 34.0% 49.8%
214 ENGENHO NOVO LINS DE VASCONCELOS MEIER 45.2% 54.2% 49.7%
170 ANDARAÍ TIJUCA VILA ISABEL 40.6% 58.8% 49.7%
177 BRÁS DE PINA CORDOVIL PARADA DE LUCAS VILA DA PENHA VISTA ALEGRE 52.9% 45.9% 49.4%
6 TIJUCA 38.9% 59.9% 49.4%
14 ENCANTADO ENGENHO DE DENTRO PIEDADE 49.8% 48.9% 49.3%
228 MARACANÃ TIJUCA 36.7% 61.9% 49.3%
162 BRÁS DE PINA CORDOVIL PARADA DE LUCAS 63.0% 35.6% 49.3%
10 CASCADURA ENCANTADO PIEDADE QUINTINO BOCAIÚVA ÁGUA SANTA 53.0% 45.4% 49.2%
190 IRAJÁ VICENTE DE CARVALHO VILA DA PENHA VILA KOSMOS 50.1% 48.3% 49.2%
218 IRAJÁ MADUREIRA ROCHA MIRANDA TURIAÇÚ VAZ LOBO 56.5% 41.3% 48.9%
176 JARDIM AMÉRICA PARADA DE LUCAS VIGÁRIO GERAL 59.8% 37.7% 48.7%
209 CASCADURA MADUREIRA OSWALDO CRUZ 52.8% 44.3% 48.6%
171 TIJUCA 44.8% 52.3% 48.5%
217 BENTO RIBEIRO HONÓRIO GURGEL MARECHAL HERMES OSWALDO CRUZ 55.6% 41.4% 48.5%
219 COELHO NETO COLÉGIO HONÓRIO GURGEL ROCHA MIRANDA 59.2% 37.2% 48.2%
166 BOTAFOGO URCA 33.6% 61.3% 47.5%
3 FLAMENGO 32.8% 61.8% 47.3%
22 COLÉGIO IRAJÁ VILA DA PENHA 52.8% 41.6% 47.2%
179 ANIL CIDADE DE DEUS GARDENIA AZUL PECHINCHA RIO DAS PEDRAS 52.9% 40.1% 46.5%
7 TIJUCA 33.7% 59.3% 46.5%
117 CACUIA COCOTÁ RIBEIRA ZUMBI 47.6% 45.3% 46.4%
220 ACARI BARROS FILHO COSTA BARROS PAVUNA 64.8% 27.7% 46.3%
23 DEODORO GUADALUPE 59.1% 33.0% 46.1%
230 BANGU JARDIM BANGU VILA KENNEDY 64.0% 28.0% 46.0%
232 PADRE MIGUEL 59.1% 32.0% 45.5%
234 REALENGO 57.3% 33.6% 45.5%
15 BENTO RIBEIRO MARECHAL HERMES VILA MILITAR 49.4% 41.0% 45.2%
124 BANGU PADRE MIGUEL 53.3% 37.1% 45.2%
175 ACARI IRAJÁ PARQUE COLÚMBIA PAVUNA 61.1% 28.9% 45.0%
24 BANGU SENADOR CAMARÁ 62.6% 27.1% 44.8%
180 TANQUE TAQUARA 48.0% 41.5% 44.8%
231 BANGU PADRE MIGUEL REALENGO 56.5% 33.0% 44.7%
212 JARDIM BOTÂNICO LAGOA 29.2% 60.1% 44.7%
237 AUGUSTO VASCONCELOS SANTÍSSIMO SENADOR CAMARÁ 61.0% 28.3% 44.6%
5 COPACABANA LEME 33.8% 55.4% 44.6%
235 MAGALHÃES BASTOS REALENGO 55.0% 34.2% 44.6%
236 BANGU SENADOR CAMARÁ 55.4% 33.7% 44.6%
191 BANCÁRIOS DENDE FREGUESIA (ILHA DO GOVERNADOR) GUARABU MONERÓ 47.5% 41.4% 44.5%
167 ANCHIETA COSTA BARROS PAVUNA RICARDO DE ALBUQUERQUE 59.7% 28.6% 44.2%
13 FREGUESIA JPA 38.9% 48.9% 43.9%
233 PADRE MIGUEL REALENGO 55.1% 32.1% 43.6%
210 BENTO RIBEIRO CAMPO DOS AFONSOS JARDIM SULACAP VILA VALQUEIRE 42.0% 44.5% 43.2%
25 GUARATIBA NOVA SEPETIBA PEDRA DE GUARATIBA SANTA CRUZ SEPETIBA 57.8% 28.3% 43.0%
246 CAMPO GRANDE COSMOS INHOAÍBA PACIENCIA SANTA CRUZ 62.1% 23.9% 43.0%
182 CURICICA TAQUARA 48.3% 37.3% 42.8%
205 COPACABANA COPACABANA 31.4% 54.1% 42.8%
125 SANTA CRUZ 61.4% 24.1% 42.8%
192 FUNDÃO GALEÃO JARDIM GUANABARA PORTUGUESA TUBIACANGA 40.2% 45.3% 42.7%
122 CAMPO GRANDE SANTÍSSIMO SENADOR VASCONCELOS 55.1% 30.0% 42.5%
240 SANTA CRUZ 59.8% 25.3% 42.5%
252 COPACABANA IPANEMA LAGOA 32.0% 52.9% 42.5%
206 COPACABANA 32.0% 52.7% 42.4%
238 BANGU SENADOR CAMARÁ 57.4% 26.9% 42.1%
244 CAMPO GRANDE 51.7% 32.4% 42.1%
123 ANCHIETA DEODORO RICARDO DE ALBUQUERQUE 55.2% 28.8% 42.0%
245 CAMPO GRANDE INHOAÍBA 56.3% 26.8% 41.6%
120 CAMPO GRANDE SENADOR VASCONCELOS 53.2% 29.9% 41.6%
242 AFONSO VIZEU BENJAMIM DUMONT CAMPO GRANDE CANTAGALO INHOAÍBA 54.5% 27.9% 41.2%
241 COSMOS PACIENCIA SANTA CRUZ 59.9% 22.2% 41.0%
18 COPACABANA 27.8% 52.4% 40.1%
17 GÁVEA LEBLON 24.0% 50.3% 37.1%
165 IPANEMA 21.6% 47.8% 34.7%
9 BARRA CAMORIM RECREIO VARGEM GRANDE VARGEM PEQUENA 26.5% 39.1% 32.8%
119 ALTO DA BOA VISTA BARRA ITANHANGÁ 21.3% 39.6% 30.5%

Por este ranking, a zona mais esquerdista do Rio de Janeiro é a zona 8, que engloba Cachambi, Engenho Novo, Jacaré, Maria da Graça e Rocha, bairros localizados na Zona Norte. Nesta zona, Dilma 2014 e Freixo 2016 tiveram mais de 60% dos votos válidos. Em segundo lugar ficou a zona 164, que engloba Bairro de Fátima, Catumbi e Santa Teresa, localizados no centro. Em terceiro lugar ficou a zona 163, na divisa entre centro e Zona Sul, que engloba Catete, Glória e Lapa. A zona mais direitista é a zona 119, que engloba Barra, Alto da Boa Vista e Itanhangá. A segunda zona mais direitista é a zona 9, que engloba Barra, Camorin, Recreio, Vargem Grande e Vargem Pequena. A terceira zona mais direitista é a zona 165, que tem Ipanema.

O melhor resultado de Freixo 2016 ocorreu na zona 16, que tem Laranjeiras e Cosme Velho. É lá que está localizada a Praça São Salvador, ponto de encontro boêmio que tem muitos eventos de esquerda (e onde a cerveja mais vendida pelos ambulantes é aquela que tem a estrela vermelha no rótulo, hahaha). Naquela zona, Freixo teve 67,1% e Crivella teve 32,9%. Porém, no ranking, esta zona encontra-se apenas em oitavo lugar, porque, em 2014, Aécio teve 61,7% e Dilma teve 38.3%. Quando Dilma ganhou o segundo turno em 2014, houve uma pequena aglomeração de pessoas na Praça São Salvador, sob forte chuva, carregando aquelas bandeiras vermelhas com “Dilma” escrito no estilo letra de mão. Mas eram minoria no bairro. Ainda assim, foi lá onde Dilma teve desempenho menos ruim entre os bairros de alta renda (apesar de não ser o escopo do texto, que trata apenas do Rio de Janeiro, vai aqui uma informação adicional: em bairros com renda parecida com a de Laranjeiras em outras cidades do Centro Sul do Brasil, Dilma não chegou perto de 38%, oscilou entre 15% e 25%).

O pior resultado de Freixo 2016 ocorreu na zona 241, que tem Cosmos, Paciência e Santa Cruz, na Zona Oeste. Lá, Crivella teve 77,8% e Freixo teve 22,2%. Mas esta zona é apenas a sexta mais direitista, porque, em 2014, Dilma teve 59,9% e Aécio teve 40,1%.

A partir do fato de que Crivella 2016 teve melhor desempenho em muitas zonas onde Dilma 2014 teve melhor desempenho, e Freixo 2016 teve melhor desempenho em muitas zonas onde Aécio 2014 teve melhor desempenho, e chegar à conclusão de que quem votou na Dilma 2014 votou no Crivella 2016 e que quem votou no Aécio 2014 votou no Freixo 2016 seria uma falácia ecológica, que consiste em atribuir erroneamente características aos indivíduos a partir de características dos grupos aos quais eles pertencem. É perfeitamente possível que a maioria das pessoas que votaram na Dilma 2014 votaram no Freixo 2016, e que a maioria das pessoas que votaram no Aécio 2014 votaram no Crivella 2016. Basta haver um número suficiente de pessoas nos bairros mais ricos que votaram no Aécio 2014 e no Freixo 2016, e nos bairros mais pobres que votaram na Dilma 2014 e no Crivella 2016, para aparecer a polarização oposta. A figura a seguir resume este argumento.

bairros rio voto 2014 2016

Como não houve pesquisas em que se cruzaram os votos da eleição de 2014 com a de 2016, não é possível tirar conclusões. Mas o fato de que muitos políticos e celebridades que apoiaram Dilma 2014 apoiaram Freixo 2016 e muitos políticos e celebridades que apoiaram Aécio 2014 apoiaram Crivella 2016 fornece indícios de que a situação descrita pelo parágrafo anterior e apresentada na figura aconteceu. Também é importante considerar que tanto a eleição de 2014, quanto a de 2016, teve muitos brancos, nulos e abstenções. É possível que muitos eleitores tenham escolhidos candidatos só em 2014, e muitos eleitores tenham escolhido candidatos só em 2016.

Foi dito anteriormente que apesar de ter ocorrido correlação negativa entre a votação de Dilma 2014 e Freixo 2016, esta correlação não foi tão linear assim. O gráfico a seguir mostra a dispersão das zonas eleitorais do Rio de Janeiro entre a votação de Dilma 2014 e Freixo 2016.

dispersão freixo dilma trincheiras

Verifica-se a correlação negativa, mas verifica-se que esta correlação não é linear. É interessante notar que nas zonas eleitorais de alta renda, que estão circuladas em vermelho no gráfico, a situação se inverte. Há uma correlação positiva entre o desempenho de Dilma 2014 e o desempenho de Freixo 2016. As zonas de alta renda são as que Dilma 2014 teve desempenho pior e Freixo 2016 teve desempenho melhor. Porém, onde Dilma 2014 teve o pior desempenho no município, Freixo 2016 não teve desempenho tão bom, ainda que tenha tido melhor desempenho do que aquele que obteve na maioria das zonas eleitorais pobres. Isto ocorreu notadamente na Barra e Ipanema. Onde Freixo 2016 teve o melhor desempenho no município, Dilma 2014 teve desempenho pior do que a média no município, mas ainda um desempenho melhor do que nas demais zonas de alta renda. Isto ocorreu notadamente em Laranjeiras, Cosme Velho, Flamengo e Botafogo.

Infelizmente não é fácil coletar dados de renda sobre bairros. Além disso, as zonas eleitorais picotam os bairros, dificultando medir a renda média de cada zona. Mas o diferencial de renda de alguns bairros do Rio de Janeiro é de notório conhecimento (sim, seria necessária uma pesquisa mais detalhada para fazer disso um paper para ser publicado em um journal, mas para este jornal virtual é o suficiente). Portanto, é possível chegar a algumas conclusões. A relação entre renda e votação do Aécio 2014 é quase que perfeitamente linear. Ele teve pior desempenho em zonas que englobam bairros muito pobres da Zona Norte, como Bonsucesso, Ramos, Mangueira e Penha, depois teve desempenho um pouco menos ruim em zonas que englobam os grandes bairros da Zona Oeste, como Bangu, Campo Grande, Santa Cruz, menos pobres do que os mencionados da Zona Norte, teve desempenho razoavelmente bom em Botafogo, Flamengo e Laranjeiras, que são de alta renda, mas não os de mais alta renda do Rio de Janeiro, e por fim teve o melhor desempenho nas zonas de renda mais alta, que englobam Barra, Ipanema e Leblon. Freixo 2016, por sua vez, também teve votação que cresceu com a renda, mas a relação foi muito menos linear. Seu pior desempenho foi na Zona Oeste (Bangu, Campo Grande e Santa Cruz), onde ele esteve na faixa dos 20%. Nos mencionados lugares muito pobres da Zona Norte, ele esteve na faixa dos 30%. Seu melhor desempenho ocorreu em bairros de alta renda da Zona Sul, como Botafogo, Flamengo e Laranjeiras, que ainda não são os bairros de mais alta renda da cidade. Nestes lugares, ele passou dos 60%. As zonas que englobam o topo da renda na cidade, incluindo Barra e Ipanema, foram as únicas zonas de alta renda onde Crivella venceu, ainda que com diferença não tão grande quanto a que ele venceu nas zonas pobres. A figura a seguir mostra um esboço do que foi explicado aqui por palavras.

renda aécio freixo

Curiosidade: o bairro da Cachambi, localizado na zona mais esquerdista do ranking apresentado neste texto, foi coincidentemente o bairro onde Luís Carlos Prestes e Olga Benario se esconderam em 1935

bairros esquerda direita rio

Argumentação do Spotniks: muito cherry-picking e espantalho

O Spotniks é um site liberal. No sentido não norte americano. No sentido nosso mesmo, em que liberal significa estar à direita no espectro político. O Spotniks defende o “Estado mínimo” na economia. Diferente de outros “liberais” brasileiros, que defendem o “Estado mínimo” na economia, mas o Estado máximo para torturar e executar moradores de favela, dificultar a chegada de moradores de favela nas praias, sentar o porrete em qualquer manifestação que não seja aquela dos camisas amarelas, censurar a atividade docente e coibir o aborto e o consumo de drogas, o Spotniks não defende essas coisas. Simplesmente não entra nessas discussões.

Ainda assim há duas características principais da argumentação dos textos do Spotniks que devem ser criticadas aqui: o espantalho e o pega cereja (expressão original em Inglês é cherry-picking). O espantalho consiste em debater não as posições de quem pensa o oposto, mas a caricatura das posições que você mesmo faz de quem pensa o oposto. O pega cereja consiste em selecionar um ou outro fato que sustenta sua posição. É possível defender qualquer posição selecionando um ou outro fato.

Um dos exemplos mais evidentes do uso do espantalho no Spotniks foi o texto criticando os críticos do impeachment. O texto “refutava” argumentos de críticos do impeachment. Mas foram selecionados os piores argumentos para serem refutados. Estes argumentos muito provavelmente foram tirados de falas de pessoas nas ruas e textos panfletários muito ruins. Não foram discutidos os argumentos presentes nas revistas de esquerda mais importantes e nos textos de pensadores mais conceituados que criticaram publicamente o impeachment. Quem ler o Facebook do Luiz Carlos Bresser Pereira, do Renato Janine e da Laura Carvalho não encontrará estes argumentos ruins. O texto “5 ideias de esquerda que jamais fizeram o menor sentido” também usa o mesmo recurso do espantalho. Quem ler textos de autores sérios de esquerda, como Thomas Piketty e Ha Joon Chang, jamais encontrará a defesa dessas cinco ideias de esquerda que jamais fizeram o menor sentido.

A outra prática comum na argumentação do Spotniks, a mais utilizada, é o pega cereja. Isto é possível verificar com maior frequência naqueles textos sobre “o país que implementou as políticas que nós defendemos e prosperou”. Não apenas este site utiliza esta forma de argumentação. Isto é muito comum ver em qualquer revista de business. É possível pegar a cereja tanto para definir o que é um país próspero, quanto para escolher as políticas que o país próspero praticou que mais agradam ao nosso gosto. Um país que prosperou pode ser tanto um país de renda alta, quanto um país que está tendo elevado crescimento da renda. Geralmente, são países diferentes, pois não são os países de renda alta aqueles que têm mais elevado crescimento. Sobre as políticas que cada país aplica, há muitas cerejas para escolher. Não existem países que têm Estado máximo total ou que têm Estado mínimo total. Alguns países têm grande percentual do produto produzido por empresas públicas, mas baixa receita de impostos. Outros países têm o produto praticamente todo produzido por empresas privadas, mas alta receita de impostos. Outros países têm poucas empresas públicas e pouca receita de impostos, mas setor público atuante para fomentar empresas de capital nacional. Aí quem deseja defender o Estado mínimo ou o Estado máximo, basta selecionar o que é conveniente.

Há dois textos do Spotniks em que o pega cereja fica bem evidente. Um deles é sobre o Chile, o país favorito dos pega cereja liberais. O texto relaciona as políticas liberais que o país tem com seu desenvolvimento superior se comparado aos demais países da América Latina. Um pegador de cereja que tem orientação política oposta ao do Spotniks poderia mencionar que o Chile já teve controle de capitais, que nunca deixou seu câmbio sobrevalorizar, que manteve parte da exploração do cobre sob controle do Estado, que a alíquota marginal superior do Imposto de Renda é a maior da América Latina, que há fortes movimentos que contestam a previdência individual e a universidade não gratuita. Também é possível lembrar que o Chile elegeu o partido socialista em três das últimas quatro eleições presidenciais. É verdade que o partido socialista manteve algumas políticas liberais, mas se essas políticas liberais iniciadas na era Pinochet foram tão boas, por que os chilenos não preferiram o original? O texto do Spotniks sobre o Chile não é totalmente ruim. Menciona um ponto interessante: lá no Chile, as políticas são continuadas de uma administração para a outra. Mas… enquanto isso no Brasil, governos com ideologia semelhante à do site Spotniks não tem qualquer preocupação em dar continuidade às políticas de governos anteriores. Outra coisa positiva do texto do Spotniks sobre o Chile é que não há apologia ao autoritarismo do regime de Pinochet. O texto segue a linha do “o autoritarismo é ruim, mas as políticas implementadas foram boas”. Porém, há uma ressalva a ser feita: algumas políticas só puderam ser implementadas porque houve o autoritarismo. Dizer que o autoritarismo foi ruim não vai fazer voltar no tempo e devolver a vida aos opositores executados. Por fim, o texto sobre o Chile foi mal organizado. Foi uma lista de dez tópicos, em que se misturaram políticas e resultados de políticas.

O texto da Suécia foi outro exemplo de pega cereja. O objetivo do texto foi mostrar que a Suécia é um país próspero por causa de características liberais de sua economia, e não por causa da social democracia. O texto mostrou entre outras coisas que a Suécia, em um período recente, diminuiu a carga tributária de 53% para 43%. Mas ainda assim, não conseguiu negar que foi perfeitamente possível a Suécia ter crescimento do PIB superior ao da média dos países desenvolvidos mesmo com carga tributária de 43%, número que já gera chiadeira em muitos países. Dizer corretamente que uma carga tributária de 53% realmente provocou desaceleração do crescimento, com o objetivo de defender um Estado mínimo, é igual dizer corretamente que ter o peso do Jô Soares é perigoso para a saúde, com o objetivo de defender erroneamente que todos devem ter o peso da Gisele Bündchen. O texto também mostrou que a Suécia diminuiu o número de funcionários públicos, mas ainda assim a Suécia continua tendo uma participação de funcionários públicos no total da população ocupada maior do que no Brasil. O texto ainda apresenta uma forte idolatração do PIB: o PIB é indicado para medir sucesso e fracasso de tudo. Por fim, o texto fala da política de privatização parcial do ensino: governo apenas financiando, empresas administrando algumas escolas. Detalhe não discutido: os principais partidos suecos querem rever este modelo.

Outro exemplo de pega cereja no Spotniks foi o texto dizendo que a EC do teto dos gastos, aprovado pelo Congresso brasileiro no ano passado, não iria prejudicar o investimento público em saúde. Tanto quem é a favor, quanto quem é contra a PEC do teto dos gastos, tem um dado aqui outro dado ali para defender suas posições. Mas é impossível os defensores da EC do teto dos gastos esconderem o essencial: esta emenda vai, em 20 anos, reduzir a relação despesa da União sobre o PIB dos atuais 20% para 12%. A queda é muito grande. Não tem um desperdício aqui outro desperdício ali que se cortar, pode salvar a saúde. E se não fosse intenção deliberada conter o crescimento da despesa inclusive com saúde, a EC teria deixado a saúde fora do teto.

E por fim, um dos textos mais pega cereja do Spotniks foi um “argumentando” que o PSDB não é um partido de direita, com base em fatos coletados do passado. Sim, o PSDB não nasceu como um partido de direita, e isto é de notório conhecimento. Mas se observarmos o comportamento dos atuais prefeitos e governadores do partido, e também da atual bancada no Congresso, não é possível negar que o PSDB seja atualmente um partido de direita.

Outro texto ruim do Spotniks que precisa ser comentado é aquele sobre o “dá bilhão”, com propostas sobre como diminuir despesas públicas. Fala-se em “cargo de confiança”, não deixando claro se está falando de cargo em comissão (que é de livre provimento) ou função de confiança (que precisa ser preenchida por servidores efetivos). É elogiável o Spotniks criticar o excesso de cargos em comissão (ou estaria falando de funções de confiança?). Mas é preciso lembrar de uma coisa: governos ideologicamente alinhados ao Spotniks são os que mais gostam de cargos em comissão.

O Spotniks, geralmente, é apenas um site liberal em economia, mas não adere à pauta neocon sobre “valores”. Mas ainda assim, o site adotou uma postura neocon em um texto falando dos exageros do politicamente correto. Em primeiro lugar, “politicamente correto” virou um espantalho para os neocon se referirem a tudo que eles não gostam. Em segundo lugar, realmente há exageros praticados por movimentos de minorias, mas os fãs deste site ainda não estão preparados para discutir de forma séria o assunto. Não é difícil imaginar que o público deste site é predominantemente masculino, branco, heterossexual e de classe média, que habitualmente convive com pessoas que também são assim, e não conhece pessoas que militam em movimentos de minorias. Eu sou homem branco heterossexual e de classe média, já cheguei a pensar que algumas coisas que militantes de movimentos de minorias diziam eram exagero, mas depois eu entendi que faziam sentido e que eu não percebia antes porque não tinha experiência de vida para avaliar. Outras, continuei pensando que é exagero. Só é possível dizer que determinado posicionamento adotado por um movimento de minoria é exagerado se realmente ouvir essa posição, e não apenas o espantalho. Muita gente utiliza os exageros dos movimentos como mero pretexto para desqualificar os movimentos como um todo.

O Spotniks também caiu no macarthismo quando relacionou opiniões políticas de artistas de esquerda com recursos da Lei Rouanet. Outro exemplo de pega cereja. Artistas de direita também captam recursos através da Lei Rouanet. Comentaristas de empresas de mídia que recebem generosas verbas de publicidade do governo Temer defendem as reformas propostas por este governo. E a Lei Rouanet, criada pelo governo Collor, geralmente é muito criticada pela esquerda, por dar às empresas privadas o poder de decisão de quais artistas serão beneficiados por renúncias fiscais.

E por falar em artistas, o Spotniks não fala apenas de artistas brasileiros e da Lei Rouanet. O Spotniks tenta mostrar que não tem simpatia pelo Donald Trump. Mas ainda assim mostra raivinha contra o discurso da Meryl Streep, que fez críticas ferozes ao presidente dos EUA. Por que será?

Por fim, deve se destacar como são arrogantes os títulos de muitos textos do Spotnkis. Utilizam-se muito expressões como “mentiras em que você acreditou”, ou “coisas que você achava”, ou “coisas que você não sabia”. Parece que o Spotniks está trazendo a luz no meio da escuridão. Chega a ser cafona. Muito provavelmente, o leitor habitual deste site não acreditava nas “mentiras”, não achava certo as coisas que o site acha que são erradas. O Spotniks não está trazendo ideias inéditas. Tudo que este site defende pode ser visto diariamente no Valor Econômico, na Exame, na Veja, na Época, na Isto É, na Isto É Dinheiro, na Globo News e na CBN.

O Spotniks não é um fenômeno isolado. Virou um modismo entre jovens brasileiros de classe média ser liberais em economia e razoavelmente progressista em outros assuntos (ou pelo menos indiferente a esses assuntos), ser o que os norte americanos chamam de “fiscal conservative, social liberal”. Esses jovens gostam bastante da revista Economist, do programa Manhattan Connection. Se sentem mais chiques. Talvez o modismo não seja tão novo. No século XVIII, filhos de senhores de escravos que iam estudar na Europa adquiriam ideias liberais.

Apesar de todas as críticas, o Spotniks transmite uma lição importante para a esquerda: mexa o traseiro gordo. É preciso saber se comunicar de forma didática com os leigos. Não adianta gastar horas pregando apenas para os já convertidos e perdendo tempo em discussões internas.

figura spotniks