As Três Mudanças Socioculturais do Nosso Tempo

A partir do fim do século XX, uma série de mudanças na maneira como percebemos o mundo criaram novos desafios para a politica convencional e para as instituições liberais. Tais metamorfoses estão se radicalizando no século XXI tornando claro que a democracia formal/representativa e o estado nacional são incapazes de lidar com elas sem uma profunda reforma.

Segundo Elisa Reis, no texto A Sociologia Política e os Processos Macro-Históricos As mudanças de que falo estão ocorrendo na esfera da relação do homem com o meio ambiente, outra é referente à solidariedade aos estados nacionais e, por fim, as que tangem aos valores da igualdade, desigualdade e diferença.

Em períodos pré-modernos a humanidade tinha uma visão de que a natureza era algo a ser temido. O advento da era pós-tradicional mudou essa concepção para a ideia que o mundo natural deveria ser dominado. A grande devastação ambiental causada pela ação humana e os traumas decorrentes disso mudaram essa visão. A partir da década de noventa e com o fim da guerra fria, a pauta da catástrofe ambiental substituiu a da destruição nuclear. Agora tem-se consciência de quão necessário é preservar a natureza sob o risco de colocar a espécie humana e toda vida na terra em risco.

Temos também a mudança na esfera da conformação dos estados nacionais; se, com o seu surgimento, a noção dominante era uma solidariedade diluída no pertencimento a uma comunidade nacional e no mercado com o compartilhamento de interesses entre quem vende e quem compra, nas últimas décadas do século XX vimos surgir um terceiro tipo de solidariedade vindos diretamente da sociedade civil organizada em prol dos mais variados interesses; como exemplo temos movimentos sociais ativos no processo de redemocratização da América Latina que exigiam reparos e antídotos contra o estado autoritário e contra as consequências da modernização conservadora.

O terceiro tipo de mudança diz respeito aos valores de igualdade, desigualdade e diferença. Os estados nacionais erigiram seu amálgama ideológico tendo a autoridade, lealdade e igualdade como eixo principal. A consequência foi que o diferente foi classificado como desigual, incapaz fazer parte da comunidade nacional e gozar de cidadania. Assim, identidades milenares e seculares acabaram sendo ofuscadas pelo estado nacional, resultando em genocídio étnico e segregação. Hoje, o reconhecimento da diferença é um argumento legítimo e como condição essencial para reivindicar a igualdade e a cidadania. Em vez de reprimir a igualdade, o reconhecimento da diferença e seu direito a cidadania tem se tornado importante para sustentá-la.

Tais mudanças, que estão cada vez mais fortes conforme avançamos no século XXI, tem chacoalhado as formas institucionalizadas de fazer politica. Se a democracia liberal e seu modelo de estado não são suficientes para lidar com estas novas demandas, a solução está na implantação de formas participativas e deliberativas de politica, aumentando os fóruns de consulta e discussão de politicas públicas. Precisamos, como defendia Floresta Fernandes, efetuar o planejamento democrático, aproximando os de baixo da politica e, assim, democratizar a democracia.

Ao contrário do dizem os conservadores, estas mudanças não é resultado de uma crise moral do homem, mas de mudanças criadas pelo próprio tempo histórico e pelas consequências inesperadas de milhares de agentes e centenas de instituições que, interagindo entre si, criam mudanças inesperadas no tecido social.

Em outras palavras, a modernidade, com sua imperfeição e seu ímpeto progressista, qual trem desgovernado que não podemos segurar, é o criador desta e de outras grandes metamorfoses sociocuturais que ainda estão por vir.

Elas vieram para ficar, para o bem ou para mal.

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Os Zumbis do Mundo Real

Era um final de tarde abafado e quente, típico da primavera. Eu voltava andando pelas ruas quase desertas, enquanto ouvia All I Was do Tremonti, quando vi uma estranha figura vindo em minha direção. Era um sujeito de pele morena marcada pelo sol, cabelo todo emaranhado, roupas velhas, rasgadas e sujas de terra. Ele andava todo desengonçado, como se tivesse algum problema nos nervos, tinha a cabeça baixa enquanto soltava uns grunhidos estranhos; consta que exalava um cheiro horrível, como uma mistura de sujeira com álcool.

O sujeito mais parecia um zumbi vindo do seriado The Walking Dead.

Passou por mim sem notar minha presença. Virei-me para acompanhar aquele zumbi subir a Avenida Brasil e dobrar a esquina e perder-se em sua iniquidade.

Fiquei com aquela imagem na cabeça por algum tempo: o sujeito que o vício tinha transformado em zumbi. Talvez seja isso que acontece quando este demônio se apodera de nosso corpo. Temos nossa individualidade, nossos desejos, nossos valores e nossos medos arrancados e, em seu lugar, é colocado apenas uma coisa, a vontade torturante e inexorável de satisfazer-se com o nosso objeto de desejo, seja o álcool, o cigarro, as drogas, a religião ou a pessoa que desejamos.

Um ponto a se pensar sobre o vício é que ele é um comportamento que surgiu com a modernidade. Em sociedades pré-modernas, apesar de existir o consumo de ervas e substâncias que alteram a consciência, seu uso era fortemente controlado por normas sociais que não deixavam o indivíduo a deriva. Ele sentia que era parte de algo maior, que estava integrado num todo que o deixava seguro e integrado.

Agora, com o advento da ordem social moderna, a relação entre sociedade e indivíduo muda. Ele não está mais integrado por fortes laços numa ordem social estável. O indivíduo passa a ficar a deriva, sua biografia, seus valores e sua trajetória agora dependem de seu próprio esforço. Cabe a ele criar o seu próprio céu ou seu próprio inferno.

Sem embargo, o vício é uma tentativa de indivíduos desgarrados e desesperados para se conectar com algo maior, para encontrar o sentido onde não há sentido, para achar o acolhimento e segurança onde só há desordem, dor e decadência.

Aquele zumbificado que encontrei naquele sábado tinha encontrado o seu ponto de apoio numa sociedade injusta. Mas o preço ia sair muito caro para ele.

Nós temos o direito de julgá-lo?

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O fracasso de uma ortodoxia asfixiante

O texto abaixo tem como referência o Capítulo 19 do livro  “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, de J. Maynard Keynes, que era economista britânico.

Há uma crença bem comum de que a redução dos salários pode reduzir o nível de desemprego porque “reduz os custos de produção”, aumentando o lucro (e sua taxa) e, portanto, “incentivando” a criação de empregos (sic) – é a crença de muitos empresários, inclusive.

Os adeptos dessa crença negligenciam o efeito da redução de salários sobre a demanda agregada. Lembrem-se: numa economia capitalista, um agente produz se acha que vai vender (lucrativamente); cada capitalista emprega trabalhadores a mais se crê que poderá vender o produto adicional por (pelo menos) um preço básico de oferta – isto é, ele emprega trabalhadores a mais se houver demanda para o produto adicional.

Assim, uma redução dos salários só poderá fazer cair o nível de desemprego se sua queda for menor do que a queda na demanda agregada. Empresários que, frente à queda dos próprios custos salariais, resolverem aumentar o nível de produção terão péssimas surpresas se seu mercado consumidor consistia justamente em trabalhadores cuja renda agora, por ser menor, coage-lhes a priorizar a compra de outros produtos.

Essa discussão, aliás, leva a outra: o governo pode aumentar o nível de emprego através de políticas de estímulo à demanda agregada, como o investimento público – o qual, ao aumentar o consumo, levaria ao aumento do investimento privado para que haja o ajuste entre demanda e capacidade de produção (o que levaria a um ainda mais baixo nível de desemprego e/ou uma subida nos salários pelo aumento do poder de barganha dos trabalhadores). É esse um dos motivos de a PEC 241 – cuja aprovação é, para Michel Temer, questão de urgência – ser tão espúria: ao congelar os gastos públicos por 20 anos, ela inibe a capacidade do Estado de estimular o aumento do nível de produto e de emprego através da política fiscal.

 

(Allefy Matheus, Economista)

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O Brasil não é para principiantes

Saiu a notícia que Lula “era o comandante máximo” do esquema da Lava-Jato.

É ‘óbvio’ isso, mas não por ser verídico, aliás. Honestamente, as pessoas andam tendo uma visão baseada no “senso comum” (ler Gramsci). Houve um tempo onde o termo “senso comum” era justamente o oposto do que é hoje. Senso Comum era aquilo que tinha evidências científicas, aquilo que faz parte do conhecimento dos fatos.

Hoje, senso comum se tornou o terceiro modo do conhecimento, definido por Espinosa como conhecimento por “ouvir dizer”. Ou seja, senso comum é o que se ouve no bar, no jantar em família e na Globo. A mídia é o aparato de manipulação do povo para que um grupo político se mantenha no status quo e desmoralizando aquilo que é ‘inimigo’ (ler Noam Chomsky).

Outra coisa, e, talvez a mais fundamental, seja o fato do pensamento maquiavélico estar bem atual: o que move a política, segundo Maquiavel, é a luta pela conquista e pela manutenção do poder, não importando como. Assim, para se alcançar um objetivo (o poder e sua manutenção) vale utilizar-se de qualquer método – até mesmo praticando golpe de Estado via Parlamento.

Dizemos que Maquiavel é o fundador do pensamento político contemporâneo, pois foi o primeiro a pintar os fatos “como realmente são” e não mais “como deveriam ser”. Ou seja; ao contrário de Hannah Arendt, a questão da moralidade na política é apenas caricata. Hannah Arendt dizia que quando alguém está no poder é porque tem a autorização do grupo para falar em seu nome. Ledo engano. Mas uma coisa ela acertou: Direito [Justiça] é na verdade um complexo fenômeno de relações sociais, políticas, econômicas e culturais. O Direito é comunicação, é fetiche, é sentimento, é proibição, é coação, é instrumento de mando. Entretanto, eu complemento: aparelhado ao poder político, a moralidade pouco importa, e é nisso que Maquiavel está à frente de Arendt.

A prisão de Lula já foi sacramentada, só faltam inventar o crime. Mas por que? Para dar o golpe de misericórdia na ala progressista brasileira (já que a mídia implementou a ideia no povo sendo ele a figura maior desta). Não importa a moral ou a Justiça, pedir a cabeça dele é aliviar os maquiavélicos que estão no poder.

Trata-se, portanto, mais que uma alerta sobre as arbitrariedades das instituições brasileiras considerando as inconsistências da peça acusatória. A esquerda precisa se reorganizar, e o quanto antes.

Como disse Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”.

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7 fatos que você precisa saber sobre estagiários

Qualquer pessoa que me conheça minimamente conhece também o fato de que sou estudante de Direito. Talvez essa divulgação se deva ao fato de que muito me orgulho de tal feito, vinda de família pobre e que não vislumbrava a possibilidade de que a empreitada fosse possível. Ocorre que, chegando à metade do curso, me deparo com a disciplina de Direito Trabalhista, que em pouco tempo envolveu-me e, caloura que sou, cá estou me atrevendo a escrever o artigo a seguir de forma um tanto descontraída, tratando da vivência dos estagiários desse Brasilzão. Este artigo em hipótese alguma almeja se comparar aos acadêmicos sérios e chatos que encontramos pelos caminhos da graduação.

As situações descritas abaixo são totalmente hipotéticas, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

7 fatos sobre estagiários:

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1. Estagiários não são técnicos de impressora.

A menos que estejam cursando algo que se chama Curso de Manutenção de Impressoras e que a grade curricular contenha carga horária de estágio interno ou externo. Não, estagiários de qualquer outro curso não precisam obrigatoriamente saber desobstruir o entalamento de papel, você mesmo, com as mãos que Odin lhe deu, pode fazê-lo. Muitas máquinas vêm com manual caso haja dificuldade.

2. Estagiários não são baristas.

Aqui outro equívoco, não é tarefa diária dos estagiários fazer cafezinho. Muito menos servir cafezinho.  A menos que esteja no curso de barista e novamente, que se exija estágio na grade curricular. Afinal, o grau de dificuldade dos desenhos na espuma é altíssimo, já tentei mil vezes e percebi que o resultado não teve a intenção de ser arte surrealista.

3. Estagiários não são especialistas em refrigeração e ar condicionado.

Afinal, o botão MODE sempre vem escrito em caixa alta e, caso não dê certo, desligar na parede e ligar novamente não me parece tarefa tão difícil.

4. Estagiários não são técnicos em informática.

O indivíduo que estuda enfermagem com certeza não tem essa disciplina no currículo, não acha? Quando bater aquela vontade de chamar seu estagiário pra criptografar aquele seu arquivo no WinZip, respire fundo, se não souber como fazer dê um Google, mas se ainda assim a tentação não tiver passado, vai pela máxima e reinicie a máquina.

5. Estagiários não são os responsáveis por tudo de errado que acontece.

Que feio fazer caquinha e colocar a culpa em outra pessoa, hein? Ainda mais quando a outra pessoa tem um “emprego” que remunera mal, sem estabilidade alguma e com uma carga enorme, certo? Meça suas ações parça!

6. Levanta a bunda da cadeira e pega.

A impressora tá ali pertinho. O ramal do estagiário não serve pra isso não, viu?

7. Se houverem pausas, estagiários não precisam trabalhar durante elas.

Nem ninguém né?

 

Estagiários estudam, o estágio serve para adquirir vivência, experiência, qualificação. É muitas vezes nessa hora que o estudante define se está na carreira certa, no caminho certo, e você tem papel importante nessa decisão. Sim, é nessa hora que ele erra, e é errando que aprende como diria minha avó. Se você é chefe, colega de trabalho, cliente externo/interno, saiba que estágio não é trabalho secundário. Estagiários não são “reles” secretárias, telefonistas e afins (já ouvi isso), até porque se o fossem (sem o reles), com certeza estariam ganhando muito mais. Não os deprecie, ninguém deve ser tratado como cidadão de segunda classe. Sobretudo lembre-se que ele será seu colega de profissão e, como diria também minha avó, o mundo dá voltas.

Apanhado Não-Exaustivo de Pensamentos Incoerentes

Quando você apela para “Ele é coerente nas suas ideias!” na hora de defender alguém, você está implicitamente admitindo que a pessoa é absolutamente indefensável. O mesmo se aplica a defender um empreendimento atroz porque “gera empregos”.

• Se você comprar um fone barato, ele vai quebrar em poucas semanas e você perdeu R$ 30. Se você comprar um fone caro, ele vai quebrar em poucas semanas e você perdeu R$ 300.

• A última fronteira da homofobia é o futebol. Quando nenhum torcedor zoar mais com torcedores adversários do Fluminense ou do São Paulo nesses termos, a homofobia estará oficialmente extinta no planeta. Senhor, dai-me forças.

• As repetidas viradas de mesa livrando o Fluminense da Série B vêm bem a calhar para esse fim, porque nos dão um excelente motivo para zoar com eles sem a necessidade de envolver orientação sexual.

• Não lhe falta tempo. O que lhe falta é energia vital.

• Você gostaria de se mudar do Brasil, girar uma roleta com os nomes dos outros 189 países independentes reconhecidos, prometendo (e cumprindo!) morar pelo resto da vida naquele onde a bola caísse? Tem certeza? Tem mesmo certeza?

• Só existe uma pessoa no mundo que acredita que Lucy in the Sky with Diamonds não é sobre drogas. É uma senhora idosa que mora em Taubaté, SP. Ao receber nossa reportagem na sua casa, ela estava escutando um vinil de The Lamb Lies Down on Broadway, do Genesis.

• Ninguém tem a menor obrigação de ser imparcial.

• Mães insistem em que a gente compartilhe as coisas, nos aconselham a ter uma vida frugal (ou seja, são anti-consumismo) e estão sempre preocupadas com o que a gente está vestindo por conta do tempo (ou seja, têm preocupação com mudanças climáticas). Oh céus, mães são de esquerda!

• A Santíssima Trindade dos Homens de Voz Fina é composta do Jon Anderson, do Ney Matogrosso e do Neil Tennant, amém.

• Sabe todas aquelas pessoas que tem opiniões políticas que lhe desagradam? Pois bem, elas não são, repito, não são um exército de stormtroopers de pensamento único, marchando impiedosamente para destruir tudo que é bom e justo.

• A cena do filme Os Incríveis em que o chefe do Sr. Incrível explica a ele o que é, essencialmente, uma empresa de seguro de saúde, possivelmente é a cena mais verdadeira já posta numa obra de ficção.

• Não é necessário ser religioso para apreciar a arte de uma igreja barroca em Tiradentes, assim como não é necessário acreditar em Osíris para apreciar a pirâmide de Quéops.

• Batata frita é um prato vegano.

Juan Carlos Castro é engenheiro, desenvolvedor de software, consultor de TI, e zerou Duke Nukem 3D sem cheat codes.

Arábia Saudita e EUA: A desculpa conveniente

O ocidente tende a ter uma visão bem parcial sobre o que ocorre no Oriente, principalmente quando se trata de islamismo. O preconceito ocidental trata o Oriente Médio como uma região violenta, um grande barril de pólvora que tem o Islã como combustível. É comum ver muitos atos preconceituosos contra o Islã, um dia desses ouvi de um amigo que os cristãos são perseguidos pelo Hezbollah e que os árabes vivem em guerra porque o deus deles assim o manda. Acreditem, essa foi das leves, já ouvi coisas muito piores!

Nosso retrato do oriente chega a ser tão bizarro quanto as fantasias que idealizavam sobre o “Novo Mundo” durante o século XVI. As fábulas de monstros marinhos e povos com poderes sobrenaturais que viviam sem moral, bestializados e incapazes de evoluir para os valores da chamada “civilização”. O discurso é diferente, mas o objetivo é o mesmo, tirar a humanidade dessas pessoas para que fique mais fácil julgar seus valores e intervir, levando a “civilidade” (ou “democracia”, adotando o discurso dos EUA) até essas terras, custe o que custar.

Iraque, Líbia e Síria: Ameaça religiosa ou política?

Esses três países possuem algumas similaridades: são países de maioria islâmica, possuem relação conflituosa com os EUA, Arábia Saudita e Israel, abordaram ou adotaram as ideias do socialismo árabe em determinado ponto de sua evolução como nação e tiveram alguma intervenção militar dos Estados Unidos nos últimos anos (no caso do Iraque e da Líbia, seu líder político foi deposto e assassinado com auxílio dos EUA).

Fica claro que o alinhamento político e econômico desses países era conflitante com os interesses dos EUA para a região, eram governos relativamente estáveis, mas que lutaram contra insurreições lideradas por interesses econômicos de minorias abastadas com influência política local e em muitos casos usando a religião como garantia de seu direito de governar ou de impor sua ideologia contra outros povos. Observando do ponto de vista político, foram governos progressistas que amorteceram os impactos da religião nas políticas de estado e garantiram mais direitos ao povo como um todo, indiferente de alinhamento religioso.

Arábia Saudita: Um aliado lutando pelo inimigo

A relação entre EUA e Arábia Saudita é no mínimo questionável, desde o início da chamada “Guerra ao Terror” de George W. Bush os EUA usaram como slogan “levar a democracia” até os países árabes que segundo a visão do EUA estavam “dominados por grupos terroristas islâmicos que pretendem atentar contra a liberdade e desestabilizar a democracia estabelecida nas nações”, e aí entra a parte contraditória dessa aliança. A Arábia Saudita é uma monarquia absolutista islâmica wahhabista, a classificação pode parecer complicada então vamos dissecar o termo para termos uma visão mais clara.

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Por ser uma monarquia absolutista, o povo não tem poder como sociedade civil, o país é governado por um rei que tem autoridade para comandar todo o país, contando apenas com um conselho escolhido pelo próprio rei. A Arábia Saudita é o único país árabe onde nunca houve eleições em toda a sua história.

Sendo uma teocracia, todas as leis são baseadas na Sharia e no Alcorão, ou seja, o país não possui uma constituição própria. Todas as leis e políticas judiciárias são reproduzidas dos textos religiosos do Islã, a Arábia Saudita vem ano após ano batendo seus recordes de execuções, em 2014 executou 90 pessoas, e até 28 de maio de 2015 já havia executado esse mesmo tanto e até a data de hoje foram executadas 142 pessoas. As punições mais comuns são: decapitação, apedrejamento e crucificação, todas as sentenças são aplicadas em locais públicos e os corpos dos crucificados ficam expostos por semanas para “dar o exemplo”.

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E agora chegamos ao ponto mais crítico, a ideologia wahhabista, vertente do Islã que é considerada a mais conservadora de todas, entusiastas de um califado islâmico sonham como o domínio de um só líder islâmico em toda a região árabe através de um governo rigidamente alinhado com as escrituras antigas do Islamismo sunita e repudiam qualquer reformismo ou desvio de interpretação do islamismo ortodoxo e ultraconservador. Dentre os grupos políticos mais conhecidos que seguem o Wahhabismo podemos citar a Al-Qaeda, a Al-Nursa e o Estado Islâmico.

A “democracia” ocidental e o alinhamento econômico com os EUA

Agora vamos estudar os fatos apresentados aqui: os EUA defendem que devem intervir nessas regiões para garantir a paz e o avanço da democracia, ao mesmo tempo são aliados de um país completamente antidemocrático e com alinhamento ideológico nocivo aos interesses dos povos da região. O que a Arábia Saudita pode oferecer então? A resposta é simples: petróleo! E isso se torna ainda mais assustador quando a Rússia encontra poços de petróleo funcionado na Síria sob o controle do Estado Islâmico, a pergunta é: para quem o grupo terrorista estaria vendendo esse petróleo?

Enquanto os EUA avançam contra governos legítimos que procuram defender a autodeterminação de seu povo e garantir a soberania sobre seus recursos, financiam também grupos com interesses particulares na região, grupos assumidamente extremistas e que lutam para manter o poder na mão de poucos, uma aristocracia árabe necessária para a criação de um califado. Os EUA armam e apoiam terroristas! Financiam guerras em países que não entregam seus recursos de bandeja a seus interesses! Agem de maneira sórdida e corrupta sacrificando vidas inocentes para desestabilizar e sabotar anos de conquistas sociais. A “democracia” ocidental não passa de uma desculpa conveniente.

Feira Nacional da Reforma Agrária atrai cerca de 150 mil pessoas em SP

Aconteceu na última semana a Feira Nacional da Reforma Agrária no Parque da Água Branca em São Paulo. Segundo nota publicada no site do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) “Ao todo, foram vendidas 220 toneladas de produtos espalhados em 800 itens de 80 cooperativas e associações. Cerca de 150 mil pessoas passaram durante os quatro dias de evento, segundo a direção do Parque da Água Branca. Apenas no sábado (24), foram 70 mil pessoas, o segundo maior público da história do Parque. A praça de alimentação contou com 15 cozinhas de todas as regiões do Brasil, onde foram servidas 10 mil refeições.”

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Nós do Portal Trincheiras acreditamos sim na possibilidade de um modo de produção livre de exploração. Nossas trincheiras se levantam também contra o agronegócio que coloca comida envenenada em nossas mesas, tira direitos de trabalhadores, aniquila populações indígenas e destrói o meio ambiente. Apoiamos a causa da Reforma Agrária e o MST. Abaixo as cercas! Abaixo o latifúndio.

Confira fotos do evento por Juan Castro:

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Telemarketing: A Precarização Consentida

Muito se fala (mal) sobre o Telemarketing, porém poucos conhecem a realidade desse meio, local onde costumeiramente é primeiro emprego de muitos jovens, ou pais/mães de família sem condições de manter pessoas para cuidar dos filhos e filhas, pessoas já com ensino superior completo, porém com dificuldade para se adequar ao mercado de trabalho.

O que vemos nessa área é uma perfeita demonstração de como a terceirização age, provocando como conseqüência a precarização do trabalhador. Como a empresa contratante usa de empresas terceiras para a manutenção de um serviço, que na linguagem interna é chamado de produto, pode-se pagar menos que o valor real do serviço, gerando mais valor, pode-se demitir mais facilmente funcionários por conta da qualificação ser inferior, pode-se obter lucros enormes mesmo que os supervisores digam aos colaboradores que a empresa só toma prejuízo, etc.

Isso é um resumo de obviedades. Agora, tratemos do título do texto: Porque tal situação é consentida, seja pelo trabalhador, seja pelo estado burguês? Levantemos algumas hipóteses:

1) Sindicatos cooptados pelo poder (o famoso Peleguismo): Por conta de fatores citados no segundo trabalho, 95% dos trabalhadores da área (desculpem não dispor de fontes com dados, porém, minha experiência profissional na Mobitel/Dedic, Contax e TIVIT me permitem afirmar com segurança isso) não tem consciência da exploração diária que sofrem, mesmo sendo comum jornadas de trabalho em escalas 6×1, o que gera uma situação muito confortável para os burgueses que lucram na área, daí pra um Sindicato como a Força Sindical (não preciso dizer nada sobre Paulinho da Força, né?) controlar o SINTRATEL, o sindicato da categoria do estado de SP é fácil… E o pior, você tem rendimentos descontados para esses parasitas que não fazem nada por ti…

2) Avanço da Terceirização: Vimos que recente nosso congresso, infelizmente atualmente dominado por uma maioria conservadora, capitaneado pelo intragável Deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) recentemente tentou avançar diversos projetos para implantar a legalização da terceirização em serviços da esfera pública. Ora, se empresários já possuem tamanha força, para que tudo dentro do estado burguês democrático possa ser terceirizado, sendo que os serviços públicos são aqueles de acesso universal, conseguiriam fazer algo que só aumentaria a desigualdade social, imagine então no ramo aonde a terceirização ocorre desde sempre? Comentei anteriormente sobre o funcionamento superficial disso, então vou citar dois exemplos práticos pessoais sobre como uma empresa com serviço terceirizado obtém mais valor à custa da exploração abusiva; Em três empresas diferentes, só vi apenas UM funcionário ser contratado pela empresa principal, sendo que somados trabalhei na área 5 anos e 7 meses, e quando trabalhei para o produto final sendo um banco, o gerente de uma agência ganhava por volta de R$ 2.000,00 para fazer um serviço que eu fazendo o mesmo, e tendo mais conhecimento prático da tarefa ganhava R$ 950,00.

3) Falta de proximidade da esquerda e dos cidadãos progressistas: Nesses mesmos anos de trabalho, em conjunto com a militância (militei em algumas organizações de esquerda, de grande à pequeno porte), naturalmente conheci camaradas de esquerda e esquerda revolucionária que trabalharam na área em alguns momentos de suas vidas, porém militância prática dentro das empresas não existe. E sim, já levantei a pauta nessas organizações. Claro que o aparato repressivo moral é terrível, mas a falta de apoio é latente. E pra piorar, muitas pessoas de esquerda/esquerda revolucionária tratam com descaso o operador, um problema terrível, o setor é totalmente ignorado, salvo a grande exceção do prof. Ricardo Antunes (UNICAMP), quase nada na academia é escrito, e novamente voltando a experiência pessoal, eu já tive o desprazer de ter sido destratado ao atender uma acadêmica de muito renome no país, que apesar de toda sua história junto à militância comunista brasileira, agiu como uma burguesa qualquer, ou seja, estamos muito isolados…

O Quadro é complicado? É. Porém, mesmo sem base para compreender a exploração que sofrem, todo operador tem consciência das condições precárias físicas e psicológicas em que trabalha, ou seja, existem condições para que no jogo ideológico a esquerda possa lutar pela hegemonia (olha o Gramscianismo, Olavo!) dessas pessoas, embora o esforço físico e stress impeçam a maioria das leituras. O trabalho ideológico pode ser feito com base de diálogos, propostas visando o choque dialético de idéias, além de panfletagem, Porém voltando a destacar, a linguagem deve ser adequada ao público, afinal, esse é um grande problema da esquerda contemporânea, dialogar com as massas.

Esse foi um pequeno balanço, sobre a situação dentro das empresas de telemarketing. Como é um texto para contextualização, sem citação de fontes convencionais, mais baseando na vivência profissional e visando uma apresentação do contexto da área. Para que esse quadro seja revertido, precisamos repensar os fatores citados nas hipóteses, e ampliar nossos horizontes sobre essa área tão precarizada. Nós do Trincheiras acreditamos que esse quadro deva ser transformado urgentemente, por isso acreditamos na luta pelas bandeiras históricas da esquerda, e lutamos por sua realização, apesar do quadro crítico que vivemos atualmente Penso que a aproximação da esquerda do trabalhador de base, numa militância mais próxima, aliado à um trabalho teórico em linguagem acessível permitirá esse sucesso, e é por isso que não desistimos desse sonho.

Willian Alves de Almeida, 27 anos, é paulistano, graduado em Gestão em Turismo pela FUNDETEC, e licenciatura em História pela UNISA.