Max Weber e a Jaula de Aço do Capitalismo Moderno

Um das facetas mais interessantes a cerca do sociólogo de Munique é o seu pessimismo cultural referente às mudanças pelas quais a Alemanha e o mundo estavam vivendo no final do século XIX e início do século XX, conforme é explorado na obra de Michel Lowy, A Jaula de Aço: Max Weber e o Marxismo Weberiano (2014).

Por pessimismo cultural (Kulturpessimismus) entende-se como uma desconfiança perante as mudanças causadas pelo capitalismo e pela técnica numa sociedade em acelerada transformação em direção à modernidade. Ele era uma marca da elite acadêmica alemã do período, que sentia-se ameaçada diante da modernização e apontavam para a dissolução da comunidade e dos valores genuínos no labirinto do anonimato, da impessoalidade e da tecnologia, conforme relata Fritz Ringer em O Declínio dos Mandarins Alemães: a comunidade acadêmica alemã (1969).

O pessimismo cultural pode assumir muitas formas, sendo um dos seus mais conhecidos representantes Friedrich Nietzsche, a quem Weber admirava, e estava presente em muitos espectros políticos. Na direita ele assumiu uma preocupação com a decadência das elites e da nação; à esquerda ele tomou forma como uma desconfiança com relação ao mundo burguês, à liberdade, e à racionalidade instrumental e o que elas poderiam trazer para a vida dos trabalhadores e do homem comum.

Sua origem remonta ao surgimento do romantismo, no início do século XIX. Não pode ser tomado como simplesmente uma corrente literária, mas umas das principais formas de sensibilidade moderna diante das consequências do iluminismo e do capitalismo — que começava a se tornar um sistema mundial. Era um protesto contra a nascente sociedade moderna em nome de valores do passado, como a honra a lealdade e a moralidade. Havia a oposição entre Kultur, considerada como uma série de valores éticos, culturais e religiosos e a civilização, tido como o universo da técnica, da impessoalidade, do cálculo e da burocracia. Portanto, nessa visão de mundo temos a oposição irreconciliável entre a comunidade orgânica do passado longínquo e a sociedade moderna fundada no mercado e no contrato social (Lowy, p. 43).

Para compreender o pessimismo cultural de Weber precisamos remontar a sua tese sobre a formação do capitalismo desenvolvida no fundamental A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904), onde apresenta o nascimento do capitalismo como resultado da ação social de determinados grupos sociais, as seitas protestantes do final de idade media e início da era moderna, cuja singularidade cultural se caracterizava por uma visão do trabalho como um meio de adoração a deus. Ascético, disciplinado, desprezando os prazeres mundanos, voltado para a acumulação dividendos e enxergando a riqueza como uma prova da salvação divina, as ceitas protestantes acabaram por dar forma, mesmo que sem a intenção, à ação social do moderno empreendedor capitalista do nosso mundo — calculista, disciplinado e devotado ao trabalho e a acumulação de fortuna.

O protestante quis ligar-se a deus através de uma ética do trabalho e conseguiu, mas o custo disso foi a criação de uma sociedade que, em vez de prometer a libertação do homem, criou novas formas de servidão. A ascese puritana, conforme ele afirma, que criar o bem mas sempre cria o mal. Em outras palavras, ao se tornar a forma de sociabilidade dominante, perdemos o senso de universalidade e em seu lugar fomos forçados a adotar a especialização extrema, perdendo a liberdade e a capacidade de escolha. O poderoso arcabouço da maquinaria e da técnica moderna, que é a ciência posta a serviço do capital, determina com um poder de coerção nunca antes visto o destino de milhares de homens e mulheres que se transformam em coisas, em bucha para alimentar o canhão do mundo industrial; e talvez só acabará quando a última tonelada de carvão fóssil seja consumida — eis o que é a Jaula de Aço, onipresente, onipotente e inevitável…

O debate diante a destruição do genuíno, do belo, do eterno e sua substituição pelo artificial, pelo número e pelo impessoal era uma das principais pautas de discussão tanto entre a elite acadêmica alemã quanto na sociedade civil. Weber, enquanto atento observador do seu mundo, acompanhou de perto as polêmicas em torno do assunto e foi influenciado por ele. Contudo, nosso autor não se filiou completamente ao pessimismo em sua variante conservadora ou à sua vertente critica, ou socialista. A posição dele era mais ambivalente, de onde nasceu sua original e complexa analise do capitalismo. Ele era liberal, acreditava que o capitalismo era o mais eficaz sistema social já criado e era um nacionalista alemão, defendia um estado forte capaz de liderar o processo de construção nacional. Apesar de ver com desconfiança o processo de modernização da sociedade, ele não via como a volta ao passado de valores pré-modernos ou a utopia e a construção de uma sociedade futura poderiam ser saídas viáveis para o mundo contemporâneo. Sua posição era de um individualismo heroico, influenciado por Friedrich Nietzsche, apegado aos verdadeiros valores de universalidade, especialmente aqueles nascidos durante a Renascença, observa com o um olhar arguto e critico o mundo mudar e ser imerso cada vez mais na Jaula de Aço do capitalismo moderno.

As teses de Weber sobre o capitalismo ainda são extremamente atuais. Enquanto os economistas liberais, bem como todos os outros ideólogos do ortodoxismo vulgar, advogam a retirada das proteções trabalhistas e sociais que os trabalhadores secularmente conquistaram, tudo em nome de uma dinamização da economia, percebemos com o capital se descolou da sociedade. A economia, ao invés de servir à sociedade e àqueles que realmente produzem, os trabalhadores, acabou se tornando uma rainha controlada por rentistas, por altos burocratas, por megaempresários e pelo capital global.

A tudo isso que as elites nacionais e globais chamam eufemisticamente de ajustes e politica de austeridade, nada mais é do que estrangular a sociedade, o homem comum, o trabalhador… Nós é que somos os ajustáveis, os que devem sofrer com a austeridade, a bucha de canhão a serem queimadas e descartadas pelo arsenal do Capital e sua Jaula de Aço.

Weber nunca esteve tão atual. Precisamos meditar que tipo de sociedade queremos, aquela que dá a possibilidade de um desenvolvimento pleno e democrático das virtudes humanas ou esta onde todos estamos aprisionados na Jaula de Aço.

Fidel: “meu escudo é minha moral”

 

Talvez a coisa mais difícil de ser adquirida para si é a autoconsciência daquilo se é perante o mundo material. A ideia não nos molda, mas do contrário, a realidade molda nossas ideias e, assim, quem somos. A propaganda é a arma do negócio: bate no peito muito fácil, mira a lêiser para miragem do consumo daquilo que se não quer e não se precisa. Vendem-nos irrealidades para a massa alienada. A elite tem de domar o rebanho para que ele não se rebele.

A morte de Fidel (último líder revolucionário) mostra que tempos sombrios rondam ao nosso lado. A importância histórica do personagem dentro de determinado contexto é inexorável ao que neandertais reacionários pensam. Como Fidel mesmo disse: “meu escudo é minha moral”.

Chomsky diz que “nos EUA, um em cada seis dólares é gasto em marketing. As pessoas são bombardeadas com propaganda e publicidade todos os dias na televisão, desde a infância. O ideal da vida social é você e seu aparelho de TV”. O imperialismo cria cadelas para resguardarem-se através da ilusão da “liberdade”.

A verdade para esses não importa. Hiroshima e Nagasaki é uma página negra da história da humanidade. Enquanto Fidel “exportou” milhões de médicos e professores para o mundo, o “reino da democracia” – os EUA – a cada dia bota na conta milhões de mortes perpetradas pela “luta contra o autoritarismo”.

Comandante Fidel terá seu nome eternizado na história. Parafraseando Getúlio Vargas em que Fidel Castro saiu da vida para entrar para a história; e esses personagens que difamam-no não terão suas condolências sinceras registradas.

Muito se sabe de um caráter da pessoa numa tragédia. Mas essa manada esquecem que “um revolucionário pode perder tudo: a família, a liberdade, até a vida. Menos a moral”. – Fidel Castro.

 

HASTA LA VICTORIA, SIEMPRE!

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Liberalismo contra a liberdade e subjetivo à emancipação humana

 

O cientista político Noam Chomsky afirma, com toda razão, que o neoliberalismo não tem nada de novo, tampouco de liberal. O “liberalismo” se converteu em mera ideologia construída em prol das elites (através de seus sacerdotes, vulgo economistas), legitimando a exploração e a miséria da grande maioria da população em prol da “liberdade” de uma minoria privilegiada. E Domenico Losurdo aponta o âmago da questão ao denunciar a associação entre “liberalismo” e concepções escravocratas.

Locke não defendeu a escravidão?…

John Calhoun reconhecia na escravidão não um mal necessário, mas propriamente um bem positivo, e até mesmo Washington e Jefferson eram coniventes com a prática da escravidão. Dessa faceta nasce o neoliberalismo de Mises, Friedman, Hayek e afins. Se louva a liberdade sempre em favor de alguns poucos afortunados.

Donde Mises e Hayek escreveram “elogios” ao fascismo e à uma “ditadura liberal” e, Friedman, por sua vez, que foi conselheiro econômico de Pinochet, na ditadura militar chilena.

A crescente onda liberal que toma roupagem de modismo é um claro sintoma de pouco conhecimento teórico e uma perspectiva unilateral. O real liberalismo, em seus elementos positivos, se mantém vivo nas correntes emancipatórias, que deram uma roupagem universalista para a noção de liberdade.

Não existe liberalismo emancipatório! As correntes posteriores como o socialismo em seus diferentes representantes terão sua raiz em concepções liberais, assim como o anarquismo.

Mas, evidentemente, o liberalismo se converte em uma visão de mundo conservadora e retrógrada. Quando falo que o liberalismo real vive nas correntes emancipatórias me refiro ao elemento teórico de prezar as liberdades individuais e ter por pedra-angular a noção de autonomia.

A noção de emancipação emerge com os teóricos de uma democracia plena, no sentido originário do termo, de autogestão, de governo do povo pelo povo; como ofensa às oligarquias, em outras palavras, com os socialistas, comunistas e anarquistas. O resto é teologia e propaganda enganosa – idealismo besta com trajes de “verdades”.

O liberalismo não tem por objetivo a emancipação humana. Ele nasce como contraposição ao absolutismo, é um avanço em direção à liberdade humana, mas não sua realização.

 

Por: André dos Santos (adaptado).

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O fracasso de uma ortodoxia asfixiante

O texto abaixo tem como referência o Capítulo 19 do livro  “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, de J. Maynard Keynes, que era economista britânico.

Há uma crença bem comum de que a redução dos salários pode reduzir o nível de desemprego porque “reduz os custos de produção”, aumentando o lucro (e sua taxa) e, portanto, “incentivando” a criação de empregos (sic) – é a crença de muitos empresários, inclusive.

Os adeptos dessa crença negligenciam o efeito da redução de salários sobre a demanda agregada. Lembrem-se: numa economia capitalista, um agente produz se acha que vai vender (lucrativamente); cada capitalista emprega trabalhadores a mais se crê que poderá vender o produto adicional por (pelo menos) um preço básico de oferta – isto é, ele emprega trabalhadores a mais se houver demanda para o produto adicional.

Assim, uma redução dos salários só poderá fazer cair o nível de desemprego se sua queda for menor do que a queda na demanda agregada. Empresários que, frente à queda dos próprios custos salariais, resolverem aumentar o nível de produção terão péssimas surpresas se seu mercado consumidor consistia justamente em trabalhadores cuja renda agora, por ser menor, coage-lhes a priorizar a compra de outros produtos.

Essa discussão, aliás, leva a outra: o governo pode aumentar o nível de emprego através de políticas de estímulo à demanda agregada, como o investimento público – o qual, ao aumentar o consumo, levaria ao aumento do investimento privado para que haja o ajuste entre demanda e capacidade de produção (o que levaria a um ainda mais baixo nível de desemprego e/ou uma subida nos salários pelo aumento do poder de barganha dos trabalhadores). É esse um dos motivos de a PEC 241 – cuja aprovação é, para Michel Temer, questão de urgência – ser tão espúria: ao congelar os gastos públicos por 20 anos, ela inibe a capacidade do Estado de estimular o aumento do nível de produto e de emprego através da política fiscal.

 

(Allefy Matheus, Economista)

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Bem-vindos a Novíssima Velha República

A crise econômica e politica que tomou conta do país significou a quebra de um bloco histórico que se ergueu desde 2003 com a ascensão do Partido dos Trabalhadores a presidência. Agora o que temos diante de nós é a emergência de um novo período histórico, mas que carrega traços de períodos históricos anteriores.

Os últimos treze anos da república brasileira foram baseados no chamado neodesenvolvimentismo, com uma presença mais protagonista do estado na economia através do financiamento dos chamados campeões nacionais e numa relação obscura entre líderes governamentais e grandes empreiteiras, cujas relações com o estado remontam a década 1950 (saiba mais aqui); maior destaque para politicas de assistência social (veja mais aqui); atenção especial para o agronegócio por meio da defesa da exportação de commodities; ênfase em grandes obras de infraestrutura e a reatualização da ideologia do Grande Brasil; tentativa de criar um polo alternativo de poder, claramente terceiro mundista, na politica externa através da valorização dos BRICS; cooptação de líderes de movimentos sociais para a máquina do estado com o objetivo de arrefecer as mobilizações por direitos sociais objetivando criar a paz social necessária para investimentos externos; e, por último, e não menos importante, a Politica da Grande Conciliação, onde o governo federal, apoiando-se no grande desenvolvimento capitalista, conseguia, por assim dizer, equilibrar relativamente os antagonismos, num país de cinquenta milhões de miseráveis, ao conseguir incorporar parte deles na esfera do consumo à revelia de questões como a reforma agrária e a questão das populações tradicionais.

Mas vivemos na época do capitalismo mundial e qualquer equilíbrio ou conciliação tende a ser transitório. As contradições da nossa democracia liberal, sempre assediada pelo poder econômico e cada vez mais distantes do cidadão comum, refém das elites locais e do Grande Capital, alcançaram níveis que esgotaram, para o bem e para o mal, o subsistema político; a política de exportação de commodities, por sua vez, apresentou seu esgotamento, deixando as taxas de exportações claramente comprometidas; os altos índices de corrupção que eram trazidos a tona, numa época em que os valores da ética e da transparência se tornam quase um senso comum na subjetividade coletiva brasileira, terminaram por cavar o túmulo da Nova República.

Em outras palavras, os processos de desencaixe criados pela Modernidade Mundo fraturaram as estruturas de uma sociedade anômica, levando-a a um impasse entre dois caminhos: a conciliação pelo alto ou reformas de base vindas de baixo para cima.

Seguindo a tradição conciliatória entre grupos majoritários e nossa vocação para nos apegarmos a modelos tradicionais e superados, acabamos optando pela primeira opção.

Apesar de estarmos no início de um novo velho período, é possível traçar algumas linhas, ainda que de caráter impressionista, das suas principais características, conforme já disse o cientista político Christian Edward Cyril Lynch. Entre as principais está o esfacelamento da velha esquerda, que passará a adotar uma postura defensiva por anos ao perder continuamente a luta pelo domínio da narrativa dos caminhos do Brasil. Hegemonia politica da centro-direita, repartida principalmente entre os chamados liberais conservadores (saiba mais aqui). Declínio do nacional desenvolvimentismo; o Estado Nacional tenderá a passar sua tarefa de árbitro social para o Mercado. Também espera-se o esvaziamento de pautas relacionadas aos direitos humanos e às minorias, com o desvio de recursos antes direcionados para a assistência e desenvolvimento social para politicas de segurança de caráter claramente repressivo; o objetivo disso é combater manifestações populares contra medidas de economia politica do Novo Velho Governo e conceder a paz social necessária à reprodução dos investimentos externos, que terão menos regulação. Emergência de um parlamentarismo disfarçado, algo que já acontecia desde a vitória de Eduardo Cunha para presidência da Câmara em 2014, com uma maior força do parlamento sobre o executivo, significando que cada medida urgida pelo pseudo-presidente Michel Temer acarretará em cada vez mais cargos e emendas negociadas com a base parlamentar. Mais força do que Lynch chama de Mandarinato Jurídico, que exercerá um poder cada vez mais moderador e regulador da politica e das relações entre as esferas de poder, redundando numa judicialização dos conflitos políticos. Por fim, teremos os golpes finais sobre o legado trabalhista de Getúlio Vargas com a aprovação de leis que deixarão os trabalhadores cada vez mais à deriva no mundo do trabalho; recebendo cada vez menos e tendo que produzir sempre mais, teremos uma maior incidência de doenças relacionadas aos locais de trabalho e queda do padrão de vida médio dos mesmos. Um fenômeno que já era comum, de pessoas tendo dois empregos e precisando trabalhar pelo menos doze horas por dia, tenderá a ficar cada vez mais corriqueiro.

Obviamente que, em se tratando de ciência politica, sociologia e processos macro-históricos, principalmente os que acabei de descrever, os caminhos nunca são lineares e os fenômenos e fatos sociais nunca mudam de maneira mecânica. Cada ator social neste feixe de forças (trabalhadores não qualificados ou semi-qualificados, classe média, elites judiciárias, politicas e econômicas, movimentos sociais progressistas e regressistas entre outros, impossível para os propósitos deste texto listar todos) tende a reagir aos movimentos de cada um e criar consequências, alianças e lutas muitas vezes imprevistas. Mesmo assim, é possível divisar um bloco liberal e conservador cujo caminho para aprovação das suas medidas num congresso de perfil homogêneo e avesso a mudanças terá pouca resistência.

Aos grupos progressistas, nos quais estou incluído, resta resistir nas ruas (e fazer o que for possível na esfera da politica formal e minimalista), mesmo sabendo que isso acarretará em mais repressão, prisões e mortes.

Mas penso que, em vez de ficarmos numa cantilena ingênua de Fora Todos ou qualquer outro slogan secundário e colateral, deveríamos iniciar a estratégia de contra-hegemonia sendo propositivos, mostrando ao trabalhador porque o projeto de esquerda na verdade nunca se esgotou, pois o que defendemos é a radicalização da democracia, da igualdade, da liberdade e da solidariedade.

O Inverno finalmente chegou e cabe a nós decidir se nos renderemos ou lutaremos contra os Vagantes Brancos que, na verdade, sempre estiveram ai desde a invasão europeia na América.

Bem-vindos à Novíssima Velha República. E que os Orixás nos protejam.

O Brasil não é para principiantes

Saiu a notícia que Lula “era o comandante máximo” do esquema da Lava-Jato.

É ‘óbvio’ isso, mas não por ser verídico, aliás. Honestamente, as pessoas andam tendo uma visão baseada no “senso comum” (ler Gramsci). Houve um tempo onde o termo “senso comum” era justamente o oposto do que é hoje. Senso Comum era aquilo que tinha evidências científicas, aquilo que faz parte do conhecimento dos fatos.

Hoje, senso comum se tornou o terceiro modo do conhecimento, definido por Espinosa como conhecimento por “ouvir dizer”. Ou seja, senso comum é o que se ouve no bar, no jantar em família e na Globo. A mídia é o aparato de manipulação do povo para que um grupo político se mantenha no status quo e desmoralizando aquilo que é ‘inimigo’ (ler Noam Chomsky).

Outra coisa, e, talvez a mais fundamental, seja o fato do pensamento maquiavélico estar bem atual: o que move a política, segundo Maquiavel, é a luta pela conquista e pela manutenção do poder, não importando como. Assim, para se alcançar um objetivo (o poder e sua manutenção) vale utilizar-se de qualquer método – até mesmo praticando golpe de Estado via Parlamento.

Dizemos que Maquiavel é o fundador do pensamento político contemporâneo, pois foi o primeiro a pintar os fatos “como realmente são” e não mais “como deveriam ser”. Ou seja; ao contrário de Hannah Arendt, a questão da moralidade na política é apenas caricata. Hannah Arendt dizia que quando alguém está no poder é porque tem a autorização do grupo para falar em seu nome. Ledo engano. Mas uma coisa ela acertou: Direito [Justiça] é na verdade um complexo fenômeno de relações sociais, políticas, econômicas e culturais. O Direito é comunicação, é fetiche, é sentimento, é proibição, é coação, é instrumento de mando. Entretanto, eu complemento: aparelhado ao poder político, a moralidade pouco importa, e é nisso que Maquiavel está à frente de Arendt.

A prisão de Lula já foi sacramentada, só faltam inventar o crime. Mas por que? Para dar o golpe de misericórdia na ala progressista brasileira (já que a mídia implementou a ideia no povo sendo ele a figura maior desta). Não importa a moral ou a Justiça, pedir a cabeça dele é aliviar os maquiavélicos que estão no poder.

Trata-se, portanto, mais que uma alerta sobre as arbitrariedades das instituições brasileiras considerando as inconsistências da peça acusatória. A esquerda precisa se reorganizar, e o quanto antes.

Como disse Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”.

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O Perigo de Acreditar em Soluções Fáceis

Um dos maiores perigos, penso eu, nestes tempos em que atravessamos a Zona do Furacão, é a incrível capacidade da maioria das pessoas de acreditar em soluções fáceis, medidas que, tomadas de supetão, se transformariam numa quimera para nossas questões sociais, ou em profetas que trazem as respostas prontas para todos os problemas que atravessamos hoje.

Confesso que sempre desconfiei de respostas prontas para questões difíceis, ou daqueles que, apontando o dedo condenatório para tudo e para todos, se arvoram de uma autoridade messiânica que os fariam capazes de trazer o paraíso à terra. Nunca dei muito crédito para quem tivesse uma postura assim, seja conservador, socialista, liberal, comunista ou tradicionalista.

Nesses tempos difíceis que atravessamos, as instituições da Nova República e sua Constituição de 1988 estão desfalecendo diante das suas contradições e sendo postas a nu. Nossa Constituição funciona como uma espécie de tradição, como uma religião civil que concede a direção certa num mundo desencantado, num país que sentia a ressaca de vinte anos de abusos de período ditatorial. Nossas instituições, por sua vez, eram as guardiães dessa tradição civil, dessa vontade geral, desse texto sacrossanto a quem todos deviam obedecer, respeitar e seguir. As instituições e seus atores eram os zeladores desta convenção, cabia a eles sua aplicação e bom funcionamento.

O grande problema é que, com a Escuridão tomando conta de tudo, com o Furacão destruindo tudo e todos, ficamos desnorteados e incapazes de tomar qualquer direção. O que fazer quando aqueles deveriam zelar pelo contrato social e pela nossa tradição civil são os que mais os desprezam, os denigrem e os violam? O Vórtice da Desilusão, da revolta e da raiva toma conta de nós. Temos a sensação de estarmos vivendo uma farsa. Nossa sociedade se esfacela e entra em estado de anomia.

Então vemos aquilo que mais temíamos enquanto cidadãos acontecer. A Nova República está em plena decadência; o que é pior, não vemos algo novo nascer, não vemos a luz de um novo pacto erguer-se. Muito pelo contrário, vemos um corpo decrépito em seus últimos suspiros tornar-se um zumbi, um natimorto, uma monstruosidade social.

Tudo, é claro, articulado por políticos disfarçados de lobistas e por tecnocratas das instituições e do grande capital. Se depender deles teremos uma república zumbi com direitos sociais e políticos extremamente limitados.

Como afirmei acima, nossa falta de cultura politica nos tornam presas de demagogos e de impostores que nos seduzem com soluções fáceis para problemas difíceis. Isso decorre porque a sociedade brasileira é extremamente autoritária, temos uma resistência sociopática a mudança social, gostamos de ser tutelados politicamente ao mesmo tempo em que desprezamos a Política e acreditamos que ela se resume a politicalha.

Adoramos ideias e esquemas que afagam nosso ego ou se encaixam em nossas pré- noções. Assim desprezamos tudo o que é diferente e tudo que for complicado demais para nosso senso comum. Por isso, ao invés de compreender e interpretar, preferimos julgar e ridicularizar.

Ideias rasas e soluções medíocres encontram-se em todos os espectros políticos. Tenho uma grande reserva em relação a liberais medíocres como Rodrigo Constantino e a vulgata do Movimento Brasil Livre (MBL). Falar que o problema do Brasil é um problema de falta de liberdade demonstra uma falta de conhecimento dos processos de formação da sociedade brasileira. É impossível, repito, impossível, falar em liberdade num país que está entre os mais desiguais do mundo. Só é possível falar em liberdade entre indivíduos e grupos em condições econômicas, politicas e culturais semelhantes. Algo que é impossível encontrar por aqui, onde os níveis de heteronomia social são altíssimos. Colocar que o problema brasileiro se resume a falta de liberdade da economia é desconhecer que o Estado sempre possuiu uma preponderância no capitalismo brasileiro, também é ignorar que, sem Estado, não há capitalismo. Isso, portanto, é um Não-Problema.

Confesso que também nutro um certo desprezo em relação ao deputado Bolsonaro e seus apoiadores. Ao defenderem que nosso problema se resumiria a um aumento na repressão na segurança pública e onde uma suposta minoria deveria se curvar a vontade de uma suposta maioria, Bolsonaro certamente ignora que a sociedade brasileira sempre foi extremamente repressora, a prova disso são seus altos índices de encarceramento e repressões violentas a movimentos civis em toda a sua história; ela sempre adotou, desde 1500, o Projeto Bolsonaro de segurança pública. Ele e seus fãs também ignoram que a globalização e o processo de divisão social do trabalho tornam as sociedades tão complexas e segmentadas que todos, inclusive ele, fazem parte, de uma forma ou de outra, de alguma minoria. Se ele e seus minions se não sabem disso são mal informados ou se sabem e ignoram agem de má-fé. 

Até a esquerda merece uma critica. Sou do campo socialista desde a adolescência e sempre me estranhou a defesa quase mítica de que uma revolução armada resolveria todos os problemas do Brasil. Será mesmo que uma revolução pode resolver todas as nossas distorções? Ainda é possível pensar num método de mudança social baseado no militarismo cujo sucesso se deu ainda no século XX? Sempre pensei que a mítica Revolução nunca será a solução de nossos problemas mas, ao contrário disso, uma oportunidade para realizar as reformas necessárias. Há ainda outra coisa a ser considerada, com uma economia tão dependente de investimentos estranheiro como a nossa, o rompimento unilateral com os fluxos globais de capital geraria um aumento exponencial do desemprego. Em outras palavras, ficaria um buraco na nossa economia. O que fazer para tapar esse buraco? Altas taxas de desemprego significam trabalhadores descontentes nas ruas protestando. Como lidar com esses protestos? Como lidar com aqueles que seriam contra a revolução? Digo isso porque o trabalhador é extremamente pragmático. Ele não liga muito para ideologias. Ele quer saber de estar empregado e que seu filho, ao completar dezoito anos, também consiga um emprego. Como lidar com isso? Saber o que fazer no momento certo é algo que as esquerdas precisam saber ter e ainda não sabem.

Pessoalmente defendo um reformismo radical. Em outras palavras, defendo um governo que ataque em duas frentes, através da via democrática e institucional tendo o apoio massivo das massas nas ruas. Deste modo cria-se a ambiente propício para as reformas necessárias — algo que o PT teve a chance de fazer e desperdiçou covardemente.

Temos que nos afastar de ideias e soluções levianas, precisamos desconfiar dos impostores, daqueles que gritam aos quatro ventos que tem a solução de tudo, de pessoas que apresentam respostas quiméricas para nossos problemas seculares. Precisamos também tratar a política como ela deve ser tratada, como uma esfera da vida social que precisa ser sempre vigiada e cultivada. Precisamos debater os temas mais espinhosos, precisamos pôr em perspectiva esquemas pré-concebidos, precisamos aumentar os graus de participação politica do trabalhador, seja nos bairros, nas prefeituras e nas escolas.

Precisamos, enfim, deixar de pôr nossa fé em farsantes e em ideias tolas, deixar de pensar que politica se resume à politicalha e começar a fazer politica com P maiúsculo — a política das massas, do povo, da democracia participativa.

Sem embargo, leitor amigo, só assim estaremos dando um primeiro passo para a verdadeira mudança social, que é aquela que vem de baixo para cima.

Os Deveres da Esquerda Numa Época de Crise

O Planalto, acossado por denúncias de corrupção e por um processo de impedimento, se torna impotente para implementar as medidas necessárias para reaquecer a reprodução de capital; este, por sua vez, como precisa de segurança jurídica e paz social para se reproduzir, sai do país em busca de lugares onde estas condições são mais atrativas. É um ciclo vicioso que se retroalimenta.

Quem paga por tudo isso são os trabalhadores, com o aumento da taxa de desemprego, o rebaixamento dos salários (apesar do aumento risível do salário-mínimo), a retirada de direitos trabalhistas historicamente conquistados e uma maior precarização das condições de trabalho.

Corrupção vindo a tona, perda de controle da base aliada, fim da paz social e estagnação econômica sãos os ingredientes perfeitos para a decadência deste período histórico chamado Nova República…

Neste cenário, onde há crises por todos os lados e onde aquilo que os homens consideravam sólido, o crescimento econômico brasileiro, se esvai, então eles se apegam à utopia, na busca pela saída da crise num modelo de sociedade que se encontra distante no tempo; ou à nostalgia, sendo o retrocesso ao passado como forma de escapar a realidade presente, tão cinzenta e sem perspectiva.

A esquerda encontra-se em desvantagem em relação às narrativas de direita. Primeiro, porque é muito mais fácil para os homens apegarem-se a algo que eles já conhecem — por isso é tão difícil pensar além dos limites imposto pelo tempo histórico. Segundo, porque a esquerda hoje está desacreditada, pela incapacidade proposital de um governo que se recusou realizar as reformas estruturais defendidas historicamente pelo Partido dos Trabalhadores, se afastando dos movimentos sociais e se tornado cada vez mais burocrático, onde a manutenção da governabilidade sufoca a dimensão ideológica. E terceiro, porque governos na América Latina, que se auto declaram de esquerda, como o caso de Venezuela, tem entrado numa aguda crise econômica.

Dentro de um quadro de crise e perdendo terreno para narrativas e discursos de caráter conservador, fica a pergunta: Quais seriam os deveres para os grupos de esquerda se tornarem uma força relevante e, mesmo que não conquistem o poder, ao menos influenciem o direcionamento social do Brasil contemporâneo?

É necessário que a esquerda se imponha como uma alternativa independente, radicalizado o seu projeto histórico. O capitalismo global deve ser mostrado ao trabalhador como um sistema sempre sujeito a crises e criador de mais e mais desigualdades. Diante disso, um novo projeto de sociedade, baseado no gerenciamento democrático dos meios de produção e dos frutos do trabalho deve ser mostrado como uma alternativa possível ao sistema das crises cíclicas. Por isso, mostrar aos trabalhadores que é possível ter um emprego com um salário justo com a alternativa socialista e o principal objetivo que deve mirar a esquerda: a luta pelo fim da exploração do homem pelo homem.

A esquerda também precisa romper com o sistema politico vigente, isto é, deve ter em mente que os atores e o campo politico como estão organizados não contemplam os trabalhadores, só contemplam os beneficiários do capitalismo global. Isso não significa que as forças progressistas devem esquecer a politica tradicional, elas devem ser usadas em prol dos trabalhadores, mas devem ter em mente de que ela é fruto de um modelo de sociedade que deve ser superado. As estruturas do estado podem ser usadas, mas sempre tendo em vista o ponto final e principal para a luta da verdadeira esquerda: a superação da sociedade atual e do modo de produção capitalista.

Uma esquerda genuína é aquela que percebe é a luta de classes o motor da história, sendo ela a base principal onde se forjam todas as desigualdades da sociedade moderna.

Cabe à esquerda, como a verdadeira vanguarda da transformação social, se impor no dever de radicalizar a democracia e tornar real o lema da liberdade, igualdade e fraternidade.

A crise da Nova República pode ser uma alternativa para os campos progressistas, mesmo em desvantagem, para realizar uma autocritica, refazer suas estratégias na luta pela hegemonia, estudar com mais afinco a dinâmica do capital e formas de implementação da democracia participativa, e se preparar para ganhar a consciência dos trabalhadores num futuro próximo ou, quem sabe distante.

Ascensão e Decadência da Nova República

Quando a ditadura chegou ao seu fim nos anos oitenta, um novo modelo politico foi forjado; era um presidencialismo de inspiração parlamentarista e acomodaria as forças politicas hegemônicas tanto novas quanto velhas; do passado teríamos setores sociais responsáveis pelo pacto da modernização conservadora, que deu alma a ditadura militar, isto é, a grande burguesia agrária e industrial, setores do exército, da classe média e da igreja católica; do presente vieram os setores sociais alijados a partir de 1964: os movimentos sociais, a esquerda das universidades e outros setores progressistas brasileiros.

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Assim, um novo pacto, levando em conta o processo de oposição e aliança entre todas essas forças, foi criado. Ele foi chamado de Nova República e a sua marca maior foi a Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã. Nossa Carta Magna foi o resultado da junção destas forças politicas e teve como característica principal o liberalismo e o conservadorismo à brasileira, que dá ênfase na conciliação de interesses. Não obstante, o chamado governo de coalizão é uma marca desse período politico, governos que possuem como aliados partidos muitas vezes contrários ou mesmo sem nenhum programa de governo. Assim, para governar, seria necessário conciliar diversos interesses, resultando na matização do programa original.

Mas a Nova República não surgiu a toa, sua função era conceder sobre vida às instituições politicas brasileiras e assegurar a estruturação de um novo modelo social, herdeiro dos vinte anos de ditadura, sem que fosse necessário mudanças bruscas de caráter revolucionário.

Esse modelo teve o seu auge nos oito anos da Era Lula, quando o pacto politico instituído com as elites e parte dos movimentos sociais propiciou um crescimento econômico acelerado, aliado a politicas keynesianas de distribuição de renda, e uma estabilidade politica sem precedentes. Pessoalmente, acredito que a conciliação permanente de Lula, detentor de uma virtú sem precedentes, mostrou o máximo que a tradicional politica brasileira do equilíbrio de antagonismos poderia trazer.

Mas todo sistema carrega em si o germe da sua destruição, que cresce, cresce e cresce, até que a contradição seja insuportável e seu colapso inexorável.

Baseada no sistema representativo liberal, onde o poder econômico exerce uma pressão cada vez maior sobre ele, deixando grande parte do povo sem capacidade de representação, e amparada pela própria concepção do equilíbrio de antagonismos, ideologia cara ao conservantismo nacional, a Nova República é incapaz de promover reformas muito profundas e de resolver o problema da desigualdade e lida com esses problemas, próprios do capitalismo, como uma questão de negociação entre as partes, quando, na verdade, deveria ser uma questão de enfrentamento e imposição.

Outra coisa é o próprio limite do sistema liberal e da democracia representativa. Quando se estabelecem, as instituições democráticas passam a não trabalhar mais pelo povo, mas apenas em prol de si mesmas. Nossos políticos, deste modo, ao invés de se concentrarem em discutir os reais problemas nacionais, muitas vezes limitam-se a aprovar emendas cuja única finalidade é se manterem no poder. As instituições se tornam um fim em si mesmas.

Ela também não consegue equacionar o problema da influência do poder econômico na representação politica. Isso significa que nossos políticos se tornam verdadeiros lobistas cujo objetivo é pagar aqueles que lhes financiaram as campanhas, através da aprovação de emendas para favorecer seus patrocinadores. Na democracia liberal, o politico, em algum momento, se torna um lobista e, o lobista, logo pode se tornar um político. A politica se torna um lobby, uma troca de favor, um mercado onde se compram projetos de leis por financiamentos de campanhas.

Essas contradições acabam por criar um distanciamento entre instituições e sociedade. Oliveira Vianna, em Instituições Politicas Brasileiras, procura compreender aquilo que para ele é o grande problema brasileiro, a distância entre o Brasil Real e o Brasil Legal. O primeiro, para ele, era o Brasil do povo, dos costumes, da cultura e das relações, enquanto o segundo era o país das instituições, das leis, da racionalidade e da legalidade. A grande questão, segundo o autor, era que as duas esferas estavam dissociadas. O Brasil legal, com suas leis, dispositivos e racionalidade não conseguia alcançar o Brasil real, regido por uma lógica completamente diferente. Disso resulta no distanciamento do povo das instituições, da politica e do Estado; nossa população se tornava refém do arbítrio e opressão dos senhores locais.

Vianna

O sociólogo brasileiro Oliveira Vianna (1983-1951).

Se atentarmos para o nosso contexto, veremos que o grande problema posto por Vianna ainda permanece atual. Nossas instituições sempre foram distanciadas da população, não possuem transparência e o acesso a elas é extremamente penoso, quando não humilhante. Isso resulta no nível de corrupção que envolve todos os partidos políticos, serviços públicos extremamente ruins e em políticos que absolutamente não conhecem a realidade brasileira, pois não estão lá para modificá-la…

Um sistema politico como este, que não surgiu de um processo de ruptura, mas de negociações e conciliações, acabou herdando todos os vícios de períodos anteriores. Ele se torna incapaz de reformar a si mesmo, e mesmo sua dimensão reformista é limitada, pois segundo sua lógica, tudo que muda deve permanecer como está…

Quanto mais a população procura se aproximar do Poder, lutando para aumentar sua transparência, mas ele se fecha em si mesmo, como se todas as questões sociais fossem apenas um problema transitório de conciliar interesses — na marcha impiedosa da história, um período histórico nunca pode ver além do que a sua própria natureza lhe permite.

Não a toa que as manifestações de 2013 e a descrença da população cada vez maior em nossas instituições é um sintoma de uma ressaca do nosso arranjo politico. Os problemas políticos e sociais que enfrentamos hoje estão além da sua capacidade de resolvê-los.

A única solução é instituir um novo pacto social, não de um ponto de vista conciliatório e conservador, como tivemos em toda a nossa história, mas um novo arranjo nascido das necessidades e condições dos trabalhadores brasileiros. Estamos caminhando para o momento em que a única saída será o enfrentamento e os trabalhadores e as forças progressistas deverão estar preparadas para fazer frente aos grupos e classes que possuem uma resistência patológica a mudança. Em outras palavras, as forças populares precisam deixar as diferenças de lado e se concentrar no único problema real que aflige o Brasil, a desigualdade e a possibilidade de mudança. Isso se a esquerda quiser fazer-se vitoriosa e não mais uma derrotada no bonde da história.

A decadência da Nova República apresenta uma oportunidade única para isso.