Como hackear o sistema político brasileiro nas eleições de 2018

James Connolly do Santa

Boa parte das tragédias que vimos de 2015 pra cá, entre outros motivos, pode ter sua origem traçada no fato de que a direita brasileira soube se aproveitar de uma situação em grande medida vantajosa. O impeachment e as reformas não seriam possíveis se não houvesse um PT burro o suficiente para negligenciar a importância de uma base sólida no legislativo e na sociedade, e confiar em “mercenários”; e um PSDEMB blindado pela mídia e pelo Judiciário, e bastante ladino para reconhecer e fazer uso de um núcleo insatisfeito com a aliança com o PT dentro do PMDB. Este, por sua vez, soube se utilizar do centrão fisiológico de sempre (o “PMDB fora do PMDB”) e de elementos da extrema direita que angariaram visibilidade e votos nas eleições de 2014. Deu no que deu.

Para 2018, considerando que tenhamos uma eleição nesta data, é possível reverter boa parte dos estragos que o grupo que atualmente está no poder fez neste período. O solo está fértil e arado pra isso: é a profunda impopularidade de seus principais atores e de suas políticas, rejeitadas por pelo menos 70% da população nas sondagens mais otimistas para a atual camarilha. Mas para isso é preciso fazer tudo certo, e não tenho certeza de que os principais caciques da esquerda institucional brasileira estariam dispostos a fazer isso. Seguem minhas sugestões do que se pode fazer:

 – Foco no legislativo: ficou claro, após o impeachment, que quem tem o Executivo não tem nada. O verdadeiro objetivo da esquerda e associados (como por exemplo os trabalhistas verdadeiros) deve ser o de ocupar pelo menos 45% da Câmara dos Deputados, se não quiser que nenhum absurdo enviado por qualquer governo conservador passe. Por mais conservador que um presidente seja, ele vai precisar negociar se quiser que a mínima legislação ordinária passe ou não seja vetada;

– O fim do sectarismo: o grande objetivo deve ser o de evitar que essas reformas passem, então uma espécie de “pacto de não-agressão” deve ser estabelecido entre o grupo que gravita em torno do PT e a oposição institucional de esquerda. E porque não ceder espaço até mesmo pra notórios desconhecidos nas Assembleias Legislativas, por exemplo? Afinal, no frigir dos ovos ambos vão votar mais ou menos do mesmo jeito contra iniciativas antipopulares e pró-população. É possível ser feito um acordo mínimo sobre até onde vai a parceria, deixando a crítica livre a partir de determinado ponto. Em determinados estados, como o RJ, por exemplo, o PSOL tem mais chances de eleger deputados do que o PT e seus aliados. O inverso se aplica a, digamos, SP. Uma análise fria e racional de cada estado deveria definir em quem os esforços deveriam ser centrados; – A escolha das apostas: a análise de cenário nos estados depende necessariamente da força local que cada grupo político possui em cada região. Voltando para os dois maiores colégios eleitorais: quem tem mais chances de conseguir votação massiva no RJ, Freixo ou Benedita (com a vantagem de que o psolista manteria sua proteção contra tentativas de assassinato da milícia)? E em SP, quem teria mais votos, Lula ou Safatle?

– O uso dos medalhões: aqui reside o ponto mais polêmico de minha sugestão. É inegável que gente como Lula, Marina ou Ciro possuem plenas capacidades de vencer uma eleição primária. Mas de que adianta esse pessoal ganhar se não tem base no Congresso? Qualquer um, até Marina com seus “notáveis”, estará sujeito a tomar um impeachment nas fuças se entregar o legislativo ao fisiologismo. E verdade seja dita, as figuras citadas são maiores que seus respectivos partidos e não possuem grandes nomes nos estados, onde poderiam levar 4, 5 cadeiras de uma tacada só. Então, para ter sucesso nessa tática, talvez seja preciso cortar na carne e ceder as candidaturas majoritárias a nobres desconhecidos (ma non troppo) e engordar as bancadas estaduais em Brasília. Por mim, Marina poderia se candidatar no AC (ou em SP, onde abocanharia uma boa quantidade de tilelismo urbano), Lula poderia se candidatar em SP (ou em PE, onde provavelmente levaria 80% da bancada estadual) e Ciro poderia se candidatar no CE. Tudo isso poderia estar inserido em uma ampla campanha, suprapartidária e suprachapa, chamada “Ajude a barrar quem ferra os trabalhadores”. Ela teria o mesmo teor da campanha (https://www.tactical2017.com/) que, supostamente, teria ajudado os trabalhistas a ter uma de suas maiores votações nos últimos anos nas eleições inglesas deste ano. Ela identificava qual candidato de oposição tinha mais chance de vencer uma eleição em cada distrito eleitoral e recomendava voto por lá. Fizeram uma tabela com as opções e a disponibilizaram no Google Docs, recebendo atualizações diárias. Tal medida seria de grande ajuda aqui no Brasil.

hackeando voto

Frente independente – um caminho possível para a esquerda brasileira (2)

Por James Connolly do Santa

No texto anterior eu falei das delícias de se constituir uma frente progressista independente. É chegada a hora, no entanto, de falar das dores que tal empreitada trará à tona se levarmos a ideia à frente.
Quem assistiu “A Vida de Brian”, clássico da trupe de humor inglesa Monty Python, sabe que uma das especialidades da esquerda é rachar. As diferenças de visão e de prática são um dos principais motivos para o fim da famosa “unidade da esquerda®”. A menor divergência é motivo para que um grupo se separe lançando anátemas um ao outro, e achando que vai conseguir fazer a revolução® sozinho. Eu mesmo já passei por discussões homéricas com meus pares de outros grupos (outras questões, de ordem pessoal, estavam envolvidas no meio, mas não cabe falar delas neste espaço).
Aí vem a pessoa e me diz: “Bicho, tu tá doido? Tu vai querer colocar diferentes grupos de esquerda num mesmo espaço de militância, reflexão e ação? Quero só ver o que tu vai fazer quando o petista xingar o psolista de esquerda-que-a-direita-gosta, quando o cara de movimentos sociais arrotar pro filiado a partido que quem fez 2013 foi ele, quando o stalino disser pro trosko que vai fuzilá-lo e o anarquista chegar baixando o sarrafo nos dois…”
Bem, o fato é que é preciso constatar algumas coisas, e eu venho percebendo isso inclusive com uma certa relutância de minha parte, mas a realidade é uma criatura que pouco se importa com os nossos melindres. A primeira é que ninguém vai fazer mudanças sendo a Frente de Libertação Democrática Popular da Judeia (aquele grupo de um homem só no filme). A segunda é que em algum momento alguém vai terminar discordando de você no meio da ação. A terceira é que é preciso ter consciência de que você é um ser humano, que você erra, e que quando alguém te aponta um erro ela não está, necessariamente, sendo escrota com você e se tornando sua inimiga para sempre.
Nos tais Círculos de Estudos e Atividades, penso que a lógica do racha pode ser hackeada reconhecendo que os seus membros constituintes possuirão liberdade para agir como quiser. Se você quiser gritar “Lylamito” na rua, vá lá, você pode gritar. Você quer criticar a galera que age como o cara da hipótese anterior, vá em frente. Quer colocar essas questões em pauta no seu círculo para votação, beleza. A questão é que não necessariamente estas atitudes serão endossadas pelo pleno, em votação democrática, e que na verdade é melhor que não haja endosso explícito, especialmente fora do período eleitoral, nem críticas que tenham um cunho desrespeitoso, que tenham como intenção apenas diminuir alguém por suas opções ou sair se pavoneando com uma superioridade moral que, no fundo, não serve pra muita coisa.
O que vai dar a liga a esse pessoal é o tal do programa mínimo, sob o qual as atividades dos círculos obrigatoriamente ocorrerão, sem um milímetro pra fora (neste caso, a ação ficaria por conta do indivíduo). É a definição daquilo no qual as pessoas concordam e que possam levar a frente com suficiente conforto. Essas questões normalmente surgem em momentos de discussão coletiva e podem ser facilmente identificadas como pontos de partida, e se escolhe avançar. É um processo longo, mas a identificação dos pontos em comum surge com muito estudo e compartilhamento de ideias, cabendo ao grupo o fomento desta cultura e a coibição de práticas puramente destrutivas. Alguns grupos políticos chamam isso de consenso progressivo.
Os membros dos círculos definem seus programas mínimos e se empenham, com toda energia, em fazê-los avançar. Da mesma forma, é possível que representantes de círculos, em plenárias estaduais e nacionais, definam seus programas mínimos e façam avançá-los. Mas se o pleno de um círculo sinta que a divergência de um ou outro membro à interpretação é inconciliável com suas posições, pode fazer um chamamento a que este faça uma autocrítica ou mesmo que o desligue das
atividades. Por mais que tenhamos boa vontade, nem sempre é possível acolher qualquer coisa em nome de bom-mocismo.
Para que isso ocorra, é preciso um ambiente democrático e atuante. Reuniões periódicas, frequentes e utilizando-se dos recursos que a tecnologia proporciona (videoconferência, fórums, etc.) auxiliam neste sentido. Um periódico, como um blog, uma newsletter eletrônica ou até mesmo um fanzine mimeografado (!), ajudam não só na propagação de ideias para fora como também internamente, em que textos com teses teóricas ou de atuação podem ser compartilhados e fomentar um ambiente de debate respeitoso.
Finalmente, gostaria de deixar um aviso contra o “democratismo”, ou seja, aquela tentativa de tentar definir absolutamente tudo através de uma eleição que pode se mostrar por vezes redundante. Atividades de caráter operacional, como por exemplo comunicação, tesouraria, logística, podem ser muito bem deixadas com membros ou comissões eleitas especificamente para aquele fim. Caso contrário, corre-se o risco de paralisação e perda de dinamismo.

frente independente 2

Frente independente – um caminho possível para a esquerda brasileira (1)

Por James Connolly do Santa

Eu não preciso dizer a vocês que a política brasileira está vivendo seu crepúsculo dos deuses. As
principais lideranças político-partidárias do país foram abatidas, e nos mesmos escândalos de
corrupção (em especial nas propinas da JBS e da Odebrecht). Se caciques do PMDB e do PSDB
foram implicados, Lula e algumas eminências pardas do PT também, e não há sinal de que irão sair
ilesos também. No entanto, os elementos agregadores do futuro ainda estão em construção, e nem
sempre sinalizam algo de bom: Dória e Bolsonaro tentam agitar a direita brasileira, mas falta ao
primeiro resultados concretos e ao segundo inteligência, e a ambos falta empatia e compreensão
com a população mais humilde e marginalizada. Marina Silva não tem mais o mesmo charme de
outrora, tendo em vista que levanta nos ricos desconfiança de que irá levar a cabo suas reformas e
nos pobres levanta desconfiança de que irá efetivamente proteger seus direitos, e a Rede ainda não
decidiu o que quer ser, além de uma grande tenda mais ou menos libertária.
O Psol ainda precisa gastar sola de sapato e língua nas periferias, deixar ocupar-se mais pela favela,
campo e precariado, e construir um programa econômico mais consistente antes de se constituir em
uma alternativa séria para o país. Ciro se mostra como uma alternativa por sua boquirrotisse,
conseguiu um programa econômico que não é necessariamente progressista (em alguns pontos é
francamente de direita) e tem passados (o mais recente é o de governador do Ceará) a lhe
assombrarem. Finalmente, existem os aventureiros que são incensados aqui e ali, mas que possuem
como projeto algo que vai pouco além do “consertar o Brasil”, se tanto.
No entanto, existem pessoas dentro dos partidos de esquerda e movimentos sociais, e mesmo fora
deles (eu diria que a grande maioria está nesta situação) que não gostariam de ficar à mercê dos
acontecimentos, que gostariam de discutir a crise das lideranças, e que estão atualmente sem espaço
para fazer qualquer coisa. Seja por não saber como articular um movimento, ou mesmo por não
saber que podem fazer tal coisa, estas pessoas hoje em dia se veem órfãs, quando não descambam
para o niilismo e a desesperança. Tal realidade precisa mudar, caso queiramos ter um futuro, e eu
penso que posso apontar um dos caminhos alternativos. Notem bem: estou elocubrando aqui como
faria em uma mesa de bar ou assistindo um jogo do meu querido Santa Cruz Futebol Clube, o
tricolor do Arruda. Não estou dizendo que é pra fazer as coisas desse jeito, mas ficaria feliz se
alguém tomasse esse rumo.
Eu visualizo o surgimento de Círculos de Estudos e Atividades, onde o propósito seria, bem,
estudos e atividades relacionadas a tudo aquilo que se encontre no campo do progressimo. Estes
círculos poderiam constituir-se em nível de bairro, município, estado e nacionalmente, e ainda de
forma temática, ou ainda virtualmente. Quem conheceu a Raiz vai ver ecos de sua organização aqui,
e não por acaso, já que eu já fui parte atuante dela. A organização nestes círculos é uma das coisas
boas que ela gerou, e de forma alguma é responsável por sua degeneração (algo que poderemos
tratar em outra ocasião). É democrática e comporta ampliação com facilidade.
Estes círculos teriam como responsabilidade a discussão ampla e democrática de alternativas para
problemas locais, regionais e nacionais. Nenhuma proposta, no entanto, deve deixar de lado o
escrutínio da população onde o círculo está inserida, que fará o juízo final de sua aplicabilidade e
evita que se “viaje demais”. As propostas deveriam comportar o seu versionamento, tanto para
prover uma contínua atualização bem como recuperação das ideias anteriores para reanálise – e
autocrítica por eventuais bobagens ditas anteriormente.
Por envolver a população, é imprescindível que tais círculos realizem um amplo trabalho de
divulgação de suas ideias. Seja pelos meios tradicionais (jornais, panfletos, reuniões públicas), seja
utilizando novas mídias, é importantíssimo que as ideias saiam da torre de marfim e cheguem a
todos. Também por isso, os círculos deverão priorizar o contato com as populações da periferia, os
trabalhadores urbanos precários, as comunidades rurais e tradicionais e as pequenas cidades do
interior.
O objetivo seria criar uma frente progressista nacional e independente, de caráter suprapartidário,
que admitiria a entrada de membros filiados a partidos ou não, embora imagine que um mínimo de
identidade com as pautas das mais diferentes esquerdas seja necessário para o bom funcionamento.
Tal frente não impediria os membros de se filiarem a partidos políticos ou outros movimentos
(incluso aqui as federações anarquistas), mas se reservaria o direito de endossar candidaturas que
tenham identidade com suas propostas, levadas à frente por seus filiados ou não.
Ao mesmo tempo, esta frente também poderia realizar atividades de militância clássicas, como a
participação em protestos e atos públicos, greves, pressão junto a parlamentares, etc. Promoveria
palestras e reuniões periódicas em espaços públicos abertos à comunidade, como escolas, praças,
centros comunitários, associações de moradores, etc. Ofereceria oficinas e cursos com o intuito de
oferecer medidas de autonomia econômica e social. Apoiaria medidas de autogestão, como
cooperativas populares de produção, fábricas ocupadas, bem como de apoio, como por exemplo a
manutenção de uma banca de aconselhamento jurídico para presos injustos, políticos e de
consciência.
Até aqui tudo bem, mas eu tenho consciência das broncas que tal iniciativa enfrentaria, que são
assunto pro próximo texto.

 

Os guias incorretos

Escrito por Hemerson Ferreira, no Correio da Cidadania, 14 de setembro de 2011

Depois de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, um sucesso de vendas lançado pelo então desconhecido Leandro Narloch, chegou a vez de Guia Politicamente Incorreto da América Latina, do mesmo autor, agora unido ao jornalista Duda Teixeira. Provavelmente também venderá como batata em fim de feira, sobretudo depois de ser propagandeado nos programas do Jô, Faustão e Ana Maria Braga.

“Politicamente incorreto” virou termo da moda, arranjado para substituir tudo quanto é tipo de besteirol, preconceito e ignorância. Ninguém é “politicamente incorreto” ao dizer, por exemplo, que “mulher gosta de apanhar”, “judeu ou palestino tem que morrer”, “negro é tudo macaco” ou que “veado (ou bicha) merece uma bela surra”. Sem eufemismos, o nome correto para isso é machismo, anti-semitismo, racismo e homofobia, respectivamente. É o que existe de mais velho em nossa sociedade, apresentado com “sarcasmo inteligente” e como sendo novidade.

Os dois livros de Narloch e Teixeira tiveram por objetivo atacar personagens históricos que, segundo seus autores, seriam figuras “caricatas” e “desprezíveis” só que “sacralizadas” por “historiadores e professores marxistas” ao longo dos anos. “Mitos” maldosa e trapaceiramente inventados por “comunistas”, com finalidade de “doutrinar” com suas idéias nefastas estudantes inocentes e indefesos.

Confunde-se aqui teoria historiográfica com militância política. Muitos historiadores marxistas realmente foram ou são ligados a partidos políticos, social-democratas, socialistas ou comunistas, um direito de todos. Certamente existiram mais historiadores conservadores e ligados à direita que historiadores de esquerda, mas desconhecemos estudos estatísticos neste sentido.

Para alguns, a produção historiográfica teve uma finalidade muito além das questões partidárias, sendo, sim, pessoalmente, uma obrigação profissional, moral e social. Já outros certamente mais fizeram uso desta ou daquela corrente historiográfica com fins apenas carreiristas e burocráticos. Muitos nunca militaram em partido político algum, seja de esquerda, centro ou de direita, mas enfocaram suas pesquisas em conflitos sociais, influenciados ou não pelo marxismo.

Além do mais, faz algum tempo que o culturalismo, o relativismo e a verborragia “pós-moderna” roubaram a cena nas academias. As razões disso, a chamada “crise de paradigmas”, são extensas demais para serem tratadas aqui. Falar hoje em modo de produção, exploração, imperialismo, burguesia, proletários, classes, luta de classes e demais conceitos marxistas atrai olhares esnobes, de quem vê essas questões como superadas e démodé.

Os “politicamente incorretos” Narloch e Teixeira reconhecem e até elogiam este “novo” cenário historiográfico, que, segundo dizem, “nos últimos 15 ou 20 anos vem produzindo” livros “bem melhores” e “menos politizados”. Os Guias politicamente Incorretos… são apresentados assim porque, a despeito de todo o esforço da “nova-história” da qual julgam fazer parte, “alguns velhos mitos esquerdistas” ainda persistem.

Zumbi dos Palmares, Antônio Conselheiro, Lampião, Luís Carlos Prestes, Simon Bolívar, Salvador Allende e Che Guevara, entre outros, são alguns nomes tratados na versão I e II dos “politicamente incorretos”. Não teríamos espaço aqui para tratar e rebater cada uma das besteiras escritas a respeito dos mesmos. A maioria delas já foi publicada há algum tempo, em outros livros mais sérios e específicos. Os Guias, portanto, não apresentam praticamente nada de novo. São apenas versões caricatas e resumidas do que já foi dito antes. Mostram assim, por exemplo, um Zumbi dos Palmares como sendo também “um senhor de escravos”.  Só não nos dizem por que trabalhadores escravizados do século 17 assim que podiam fugiam imediatamente dos engenhos escravistas alagoanos e pernambucanos para o quilombo dos Palmares, que era um refúgio de cativos e não o inverso.

As críticas a Simon Bolívar, por sua vez, visam mais atacar o atual presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que falar de História da colonização, dos processos de independência ou do liberalismo na América Latina no séc. XIX. Não tem nada de “história isenta” ali. É puro proselitismo político-ideológico, mas os “politicamente incorretos” pensam que apenas os historiadores de esquerda é que têm ideologias.

Che Guevara é novamente tratado como um “frio assassino” e “mau estrategista”. Mas seguindo matéria já apresentada pela revista Veja recentemente, acrescentam que o guerrilheiro seria também “fedorento” por “não gostar de tomar banho”. Ora, eles queriam que o argentino fizesse uma revolução nas selvas e serras cubanas levando consigo chuveiro portátil na mochila e exalando perfumes franceses.

Não existe nada mais antigo na História que atacar tais personagens latino-americanos. A própria “História da América Latina”, em si, já foi taxada como “coisa de comunista” por certa corrente mais conservadora. O profissional de história seria sinônimo de “perigoso subversivo esquerdista”. História “boa”, para essa gente, é aquela que destaca apenas datas e “homens de bem” das classes dominantes, iniciando na Grécia e terminando nos EUA.

Como lembrou o escritor Luis Fernando Veríssimo, não bastou aos assassinos matarem Zapata. Eles tinham que capturar e tentar matar também seu cavalo, que galopava sozinho pelos campos e fazia com que os camponeses pensassem que seu dono o conduzisse, mantendo vivas as suas causas.

Zapata, Zumbi, Conselheiro, Lampião, Bolívar, Prestes, Salvador Allende ou Che Guevara morreram (a maioria assassinada porque ousou lutar) e estão enterrados há muito tempo na América Latina. Entretanto, continuam sendo símbolos populares da luta contra a exploração deste continente por impérios, governos, cartéis e banqueiros estrangeiros no plano internacional, e contra uma classe de parasitas ricos, poderosos, autoritários e corruptos, dentro de cada um de seus respectivos países.

Os “espíritos” (isto é, o que simbolizam e representam os atacados pelos “politicamente incorretos”) ainda inspiram e percorrem a imaginação, os sonhos, os anseios e as necessidades reais de imensas camadas sociais pobres e exploradas na América Latina. São lendas vivas, bandeiras de liberdade e igualdade que percorrem nossos campos e cidades. É isto que incomoda os “politicamente incorretos”.

Hemerson Ferreira é mestre em História e professor municipal do Ensino Médio no estado do Rio Grande do Sul.

guias-incorretos

A não Política

Por Alexandro Kichileski

Terminado o segundo turno das eleições municipais é possível constatar um porcentual considerável de votos invalidados, por vezes maiores que dos candidatos eleitos. E esses votos inválidos apresentam um problema que necessita ser pensado com  seriedade. Afinal, o que há de errado? Quais fatores  desencadearam esse fenômeno?  Penso que é preciso observar a questão a partir de duas prerrogativas: a primeira no contexto da Modernidade e a segunda diante as especificidades próprias do Brasil.

            Na Modernidade é observado a descrença nas instituições públicas e no nosso sistema representativo. Porém, diferente de outros contextos históricos, essa descrença não vem com uma organização social querendo uma ruptura, apresentando novos projetos societários. Pelo contrário, é sinalizado pela brutal indiferença. É óbvio que existe, no tecido social, grupos mobilizados, mas esses geralmente são marginalizados pela Opinião Pública, sobretudo pelos setores conservadores.

            Nós estamos reféns de uma cosmovisão endossada pelo direcionamento dos desejos ao consumo, e amparado a isso, a constante mutilação de tudo que remete ao público/coletivo. Nossa opinião é formada pelos aparelhos midiáticos, que por sua vez dependem da publicidade. Como observado por Dominique Quessada, a publicidade comunica, mas na ideologia consumista ela é uma ferramenta que [re]orienta os cidadãos (ou seriam  consumidores?) a negar os elementos simbólicos da coletividade, ressaltando  o ideal de vida apenas no individualismo exacerbado. Podemos compreender, inclusive, esse fenômeno como manifestação que rivaliza com o discurso político. Assim, existe uma ideologia que se diz contra ideologias e associa a política a tudo que é pejorativo. Nessa lógica maniqueísta o discurso apolítico é visto como ideal a ser seguido nesse mundo desencantado.

            Dito isso, parto para a segunda prerrogativa. Acredito que o primeiro problema é a ausência de rupturas políticas na História do Brasil. Nosso processo político sempre se deu de forma mais conciliadora. A transição do modelo colonial para o império foi regido pelo filho do rei. Pagamos, aliás, indenização à Portugal. Posteriormente, como observado pelos historiadores, a República veio por setores sociais que já se beneficiavam das políticas do Império e apesar da etimologia da palavra, a grande maioria da população brasileira não participou desse evento histórico. Quando houve uma tentativa de reformas profundas, com o Jango, grupos opositores aproveitaram da histeria anticomunista e com os militares o tiraram do poder. A redemocratização, depois de décadas de obscurantismo, veio aos poucos, consentida pelos militares e diversos figurões estão no exercício político até hoje.

            Quase sempre a política brasileira foi dirigida por poucos e focado para poucos. Havendo momentos mais populares, mas sob os olhos dos setores dominantes. A participação democrática da população é extremamente recente. Dentro do habitus da grande maioria, o envolvimento político não faz parte de sua realidade, e esse distanciamento excludente é internalizado e naturalizado no processo de socialização. Some-se isso ao contexto da modernidade e da ideologia dominante, que procura destruir toda a credibilidade do que representa o bem comum, sejam os partidos, sindicatos e movimentos sociais, teremos uma carga explosiva de aversão, indiferença e desprezo pela política e por aqueles que estão nesse meio. E esse reflexo está nas urnas, não só nas abstenções/nulos, mas nos discurso de vários prefeitos eleitos.

 

Alexandro Kichileski

Professor de Sociologia

Artigo publicado no jornal impresso Folha de Londrina

teatro-grego

É importante repensar o papel das greves nas universidades públicas

Diferente de greve em fábrica, greve em universidade pública não é luta de classes. Em greves que ocorrem em fábricas, trabalhadores e capitalistas fazem queda de braço para decidir o quanto do valor agregado da produção se converte em salários e o quanto se converte em lucros. Em greves que ocorrem em universidades públicas, e no serviço público em geral, servidores disputam a parcela dos recursos da sociedade que será destinada à sua remuneração. Estes recursos podem vir tanto de maior receita de impostos, quando de menor despesa em outras áreas. Isto não quer dizer que uma greve no serviço público nunca é justa. E sim que não é só porque uma pessoa é de esquerda que tem que apoiar incondicionalmente todas as greves no serviço público. Se opor a algumas greves não faz necessariamente alguém ser pelego, reaça.

O efeito de uma greve em uma universidade pública não é o mesmo do que o efeito de uma greve em uma fábrica. A greve na fábrica para a produção, consequentemente para as vendas, e consequentemente para a receita, causando prejuízo aos patrões. Dessa forma, eles são pressionados a sentar e negociar. Mesmo uma greve no transporte público também tem grande poder de pressão para estabelecer uma negociação, pois impacta imediatamente a vida de toda a população, dos donos da empresa de transporte e das autoridades eleitas. O mesmo não ocorre com a greve na universidade pública. Os maiores prejudicados imediatamente por esta greve são os estudantes. O patrão dos professores e funcionários de uma universidade federal é o presidente da república. O patrão dos professores e funcionários de uma universidade estadual é o governador do estado. O patrão do presidente e do governador é o povo. Sim, funciona dessa forma na teoria, pois na prática é um pouco utópico. Mas, considerando como patrão o Poder Executivo ou o povo, a greve na universidade pública não atinge diretamente os patrões, e sim os clientes. Imagino que se professores de Ciências Sociais da USP, da Unicamp e da Unesp entram em greve, o governador Geraldo Alckmin e seus secretários não acharão uma grande tragédia esses professores não estar lecionando. Aliás, é possível que eles achem isso até bom.

A decisão sobre salários de professores e funcionários de universidades públicas depende de autoridades eleitas pelo povo. Se as universidades públicas ficarem com fama de serem “locais cheios de chatos que vivem fazendo greve”, o povo não se sentirá estimulado em votar em candidatos que valorizam a universidade pública. Há categorias do serviço público que conseguem generosos aumentos sem fazer greve. Outra possível consequência negativa do excesso de greves em universidades públicas é o estímulo a estudantes de Ensino Médio procurarem universidades privadas. Isto prejudicaria a qualidade do único nível de ensino que o setor público brasileiro ainda fornece com qualidade.

Nas universidades federais, o vencimento mensal do professor auxiliar sem retribuição por titulação e sem dedicação exclusiva é de R$2.814,01. O vencimento mensal do professor auxiliar com mestrado e com dedicação exclusiva é de R$5.945,98. O vencimento mensal do professor auxiliar com doutorado e com dedicação exclusiva é de R$8.639,50. O vencimento mensal do professor associado com doutorado e com dedicação exclusiva é de R$15.464,45. O vencimento mensal do professor titular com doutorado e com dedicação exclusiva é de R$17.057,74. Observa-se que professores de universidades federais estão muito distantes de serem proletários de macacão azul. Não, não estou dizendo que professores universitários não devem ter uma remuneração compatível com a qualificação e as exigências do cargo. Ou que suas reinvindicações salariais nunca são justas. Mas sim que quem não é proletário não tem necessidade de copiar seus métodos tradicionais de reinvindicação. Por outro lado, os funcionários administrativos estão um pouco mais próximos da definição de proletário.

Em algumas greves, nem todos os professores concordam em aderir. Quando eu fiz graduação em Economia na Unicamp entre 2002 e 2006, houve algumas greves que só empolgaram o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). O Instituto de Economia (IE) não tinha o hábito de seguir greves. Uma vez, durante uma greve, alguns estudantes do IFCH mostraram uma faixa que dizia “professores do IE, sejam coerentes com aquilo que vocês ensinam dentro de sala de aula”. Foi um típico caso de “o que o cu tem a ver com as calças?”. Não é só porque os docentes do IE são heterodoxos que eles têm necessariamente que ser de esquerda, e não é só porque eles são de esquerda que eles têm necessariamente de aderir à greve.

Não estou querendo argumentar que nunca deveria existir greves em universidades públicas. Em algumas situações, as greves são plenamente justificáveis, por exemplo quando os salários não são corrigidos pela inflação há mais de três anos ou quando os prédios estão em situação lastimável. O que se critica aqui é o hábito de fazer greve um ano sim o outro ano também sim, e de fazer greve por tempo indeterminado. A paralização de um dia pode ser utilizada como forma de protesto, tanto em questões relacionadas a salários e instalações, quanto em votações de leis no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas que interessam às universidades. O que não se justifica é fazer greve porque nos últimos 12 meses o salário não foi corrigido de acordo com a inflação. A indexação anual de salários no setor público é inconstitucional. Algumas vezes, quando há queda de receita, governos precisam reduzir o valor real dos salários através da inflação, uma vez que servidores têm estabilidade, e o corte de despesa não pode ser feito com demissão. Trabalhadores do setor privado têm negociação anual de salários. Mas podem ser demitidos. Não possível acumular todas as vantagens de trabalhar no setor público e no setor privado.

Em geral, partidos de esquerda e movimentos aliados destes partidos apoiam greves em universidades. O PT, mesmo tendo sido governo federal por 13 anos, tinha as greves em universidades estaduais para apoiar. O PSOL habitualmente apoiava as greves em todas as universidades. Este apoio incondicional deveria ser repensado, pelos motivos apontados até agora neste texto. Ainda há motivos adicionais: o estudante universitário é jovem, sua cabeça ainda está em formação. O apoio incondicional a todas as greves pode estigmatizar partidos de esquerda e levar estudantes para a direita. O fato dos partidos de esquerda sempre apoiarem qualquer movimento que luta para aumentar despesa pública gera a ideia de que só a esquerda é responsável por crises fiscais. Esta ideia é errônea porque governos de direita também fazem orgia com despesas públicas, com destinos menos justificáveis do que universidades, mas o barulho que a esquerda faz ao defender os movimentos ajuda a fomentar o estigma.

Há bastante tempo, nem todos que são de esquerda apoiam greves em universidade pública. Mas durante muito tempo, houve uma espiral de silêncio dentro da esquerda: quem discordava de greves preferia ficar em silêncio para evitar rejeição dentro do próprio grupo. Como mencionado anteriormente, o Instituto de Economia da Unicamp é um caso de local onde há vários professores de esquerda que preferem evitar as greves. Recentemente, Milton Temer do PSOL do Rio de Janeiro escreveu um texto crítico sobre greves em universidades públicas. Isso mesmo, o MILTON, não confundir com um político de nome parecido.

unicamp

Contra a PEC 241, vamos ocupar as ruas no dia 17 de outubro!

Já demonstrei aqui os vários textos explicando por que ser contra a PEC 241. Temos que ir para as ruas para tentar barrar.

No dia 17 de outubro, está marcada uma manifestação em São Paulo, com uma concentração em frente ao MASP a partir das 18 horas, e uma manifestação no Rio de Janeiro, com uma concentração em frente à Cinelândia a partir das 17 horas.

 

Mais informações sobre a manifestação em São Paulo

https://www.facebook.com/events/1663534680627498/

 

Mais informações sobre a manifestação no Rio de Janeiro

https://www.facebook.com/events/1186648844727938/?active_tab=discussion

 

Acompanhem estas páginas, porque a data pode estar sujeita a modificações.

Procurem no Facebook informações sobre manifestações em outras cidades.

 

 

Aniversário: o Trincheiras completa um ano

O jornal virtual Trincheiras completa um ano de sua criação.

A ideia de criar o Trincheiras surgiu no grupo de debate político no Facebook chamado de “Isso aqui não é uma democracia”, um nome irônico para um grupo que era sim uma democracia. Trata-se um grupo de pessoas que tinham feito parte do “Olavo de Carvalho nos Odeia”.

O propósito foi criar um jornal virtual para expor a grandes audiências abordagens progressistas de alguns temas muito discutidos em redes sociais. Entre estes temas, estão políticas econômicas, políticas culturais, direitos trabalhistas, educação, artes, feminismo, movimentos sociais, opinião pública, mídia de massas, religião e ateísmo, polícias, sistema carcerário.

Enquanto oligopólios de mídia e páginas no Facebook de grupos de direita fazem a cabeça pessoas com ideias conservadoras, muitos progressistas permanecem em suas bolhas dialogando só entre eles. A ideia da criação de um jornal virtual progressista nasceu da percepção de que isto precisava mudar.

Quem inspira muito nesta luta são as ideias daquele pensador italiano que escreveu dentro do cárcere durante o regime fascista em seu país. Tais ideias permanecem vivas e atuais.

A batalha da opinião se torna ainda mais importante dada a situação política do Brasil atual. Eu já escrevi neste jornal virtual sobre a situação política do Brasil atual aqui e aqui, não preciso repetir. Nestes textos, eu expliquei porque a situação é grave e porque não devemos ficar parados.

Devemos criar trincheiras para defender direitos sociais, individuais e políticos, que estão sob ataque de bancadas ultraconservadoras do Congresso, juízes, policiais, oligopólios de mídia e governo sem voto. Quase todos estes itens já existiam um ano atrás. O último item foi estabelecido há menos de um ano.

Em um ano de existência, obtivemos resultados nada desprezíveis. Houve um total de 81.176 visualizações do nosso site. Visualizações que partiram de 54.011 IPs diferentes. Como podemos ver neste gráfico, no primeiro mês, tivemos o maior número de visualizações, porque houve um trabalho intenso de divulgação. Depois que o entusiasmo de alguns colaboradores diminuiu, houve redução da divulgação e consequente redução do número de visitas. Porém, a partir de março de 2016, foi iniciado um novo movimento de crescimento do número de visitas. Em setembro de 2016, houve quase 7.200 acessos, e se mantivermos no mesmo ritmo, o número será ainda maior em outubro, ainda maior em novembro…

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Alguns textos publicados receberam mais de mil visualizações ao longo do ano, como pode ser visto nesta lista

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Além de textos dos nossos colaboradores, neste um ano de existência entrevistamos os professores da UERJ Maurício Santoro e Luiz Fernando de Paula, professores bem conhecidos não apenas no meio acadêmico, como também na mídia.

Para concluir, parabéns a todos nós que colaboramos com este jornal virtual. E esperamos um segundo ano melhor. E esperamos que nossos esforços geram resultados práticos.

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Fotos da manifestação anti-Temer no centro do Rio de Janeiro

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Manifestação anti-Temer realizada no centro do Rio de Janeiro, 31 de agosto de 2016.

O ato foi convocado pela Frente Brasil Popular e pela Frente Povo Sem Medo. Se concentrou na Cinelândia às 18 horas, saiu em caminhada às 19h30, passando pela Firjan e chegando à Alerj. O ato foi pacífico do início ao fim.

Ocorreram manifestações em várias capitais estaduais brasileiras.

Qual teria sido o posicionamento mais adequado para partidos/movimentos à esquerda do PT?

Este texto é muito mais uma dúvida do que uma resposta definitiva.

Sabemos que desde o ano passado, a maior parte do PSOL, principal partido que fazia oposição à esquerda aos governos Lula/Dilma, participou de manifestações contra o impeachment da Dilma, junto o PT e o PCdoB. O PCO fez o mesmo. Sabemos que os partidos da esquerda governista queriam a permanência da Dilma na presidência da República até 31 de dezembro de 2018. Enquanto isso, lideranças minoritárias do PSOL, como Babá e Luciana Genro, o PSTU, e intelectuais de esquerda não petistas como Luiz Eduardo Soares, Idelber Avelar e César Benjamin sugeriram outro posicionamento: mesmo antes de haver previsão sobre o placar da votação do impeachment no plenário da Câmara, ou até mesmo antes do pedido ter sido aceito por Eduardo Cunha, sugeriram a queda de Dilma e Michel Temer, e a consequente realização de nova eleição. Com dupla queda, o presidente da Câmara assumiria a presidência interinamente, então Eduardo Cunha teria que cair antes. A queda de Dilma e Temer poderia ocorrer por renúncia ou cassação da chapa. Uns defendiam um jeito, outros o outro, outros um ou outro.

Quem estava certo? Quem defendia a continuidade de Dilma até 2018 ou quem defendia nova eleição?

Primeiro, vamos aos argumentos favoráveis ao posicionamento da esquerda não petista por nova eleição.

Alguns perguntariam: mas a Dilma não foi eleita? O mandato dela não termina em 31 de dezembro de 2018? Bom, é possível responder com outra pergunta: desde quando a esquerda considera que democracia é a vontade popular só poder se manifestar uma vez a cada quatro anos? A esquerda gritou fora para vários presidentes, governadores e prefeitos eleitos, o “Fora Beto Richa” é bastante recente, a esquerda comemorou queda de presidentes eleitos na América do Sul ao longo das décadas de 1990 e 2000, tendo sido dois deles, Fernando de la Rua da Argentina e Lucio Gutierrez do Equador, eleitos e derrubados por forças de esquerda. Publicações de esquerda em 2001 e 2002 falavam do bravo povo argentino, que derrubava um presidente atrás do outro.

Talvez, ter existido forças significativas de esquerda pedindo “fora Dilma, fora Temer” poderia sido um combate mais eficaz ao impeachment e a formação do “temebroso” governo Temer. Pelo seguinte motivo:

Há três possibilidades de ocupação da cadeira presidencial no Brasil: Dilma até 31/12/2018, Temer até 31/12/2018, nova eleição direta em 2016. As pessoas têm ordens de preferência sobre essas possibilidades. São possíveis seis permutações, que vamos identificar por letras, para facilitar.

 

Ordem de Preferência A

Primeiro: Dilma até 31/12/2018

Segundo: Temer até 31/12/2018

Terceiro: nova eleição direta em 2016

 

Ordem de Preferência B

Primeiro: Dilma até 31/12/2018

Segundo: nova eleição direta em 2016

Terceiro: Temer até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência C

Primeiro: Temer até 31/12/2018

Segundo: Dilma até 31/12/2018

Terceiro: nova eleição direta em 2016

 

Ordem de Preferência D

Primeiro: Temer até 31/12/2018

Segunda: nova eleição direta em 2016

Terceiro: Dilma até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência E

Primeiro: nova eleição direta em 2016

Segundo: Dilma até 31/12/2018

Terceiro: Temer até 31/12/2018

 

Ordem de Preferência F

Primeiro: nova eleição direta em 2016

Segundo: Temer até 31/12/2018

Terceiro: Dilma até 31/12/2018

 

Muito provavelmente, quase ninguém tem as ordens de preferência A ou C, só um antimarinista muito fanático talvez. Acredito que a maioria da população brasileira tem a ordem de preferência F, embora a lavagem cerebral produzida pelas grandes empresas de mídia pode ter feito pessoas que estavam em F terem mudado para D. Os direitistas convictos são D. Os esquerdistas ex-governistas são B. Alguns esquerdistas oposicionistas, como o PSTU, a Luciana Genro, o Babá são E. Seria melhor a oposição de esquerda ter ficado em E ao invés de B?

Quando o resultado da votação do impeachment era incerto, e, principalmente, quando a aceitação do pedido pela Câmara era incerta, teria sido possível uma coalizão de E e F em favor do movimento por dupla (ou melhor, tripla) renúncia. Aí, mesmo os defensores de D poderiam pensar que a pressão por dupla renúncia seria o caminho mais curto para derrubar a Dilma, e a formação do governo Temer ficaria menos viável.

Agora que o impeachment já está quase no fim, e uma das possibilidades (Dilma até 31/12/2018) está quase que certamente eliminada, os adeptos de D podem esculachar de vez a proposta de nova eleição e ainda fazer lavagem cerebral para F virar D. Antes, a proposta de nova eleição poderia ser vista como um dos possíveis caminhos para mudar o comando do país. Atualmente, com a aprovação do impeachment na Câmara e acolhimento pelo Senado como fatos consumados, a proposta de nova eleição passa a ser vista por adeptos de C, D e ex-adeptos de F como mera tentativa de vingança da esquerda.

E mesmo se o impeachment tivesse sido derrotado no Congresso, o posicionamento E talvez pudesse ter sido melhor do que B para quem se considerava oposição de esquerda. A derrota do impeachment poderia ter sido uma vitória de curto prazo e derrota de longo prazo para a esquerda. Isto porque causaria a manutenção de um governo de baixa aprovação até o final de 2018, contra a vontade de mais de 60% da população brasileira.

Dentro destes mais de 60%, havia os direitistas convictos, mas havia também, talvez a maioria, pessoas que não são nem de esquerda nem de direita, mas queriam outro governo porque estavam insatisfeitas com a vida, por causa da crise econômica, e dos escândalos de corrupção. Caso o governo de baixa aprovação de Dilma Rousseff tivesse se prolongado por muito tempo, esses insatisfeitos que não são nem de esquerda nem de direita passariam a dar cada vez mais os ouvidos para Vem Pra Rua, Revoltados Online e Movimento Brasil Livre, e passariam a ser de direita. Isto porque estes grupos assumiram a vanguarda da luta para derrubar Dilma, ganharam visibilidade por isso. Dessa forma, pessoas que apenas queriam derrubar Dilma passariam ouvir outras coisas que esses movimentos dizem, como as opiniões deles sobre qual deve ser o papel do Estado.

Dada a composição do Congresso, a “guinada à esquerda”, solicitava por movimentos sociais, não poderia ocorrer. Dilma não faria um governo de esquerda. A esquerda levaria a culpa por um governo que não é seu. Forças de esquerda que disputassem a liderança dos insatisfeitos com esses grupos de direita poderiam neutralizar o processo de direitização da opinião pública brasileira. Dada a crise do PT, o campo democrático e popular, o campo progressista, ou, para simplificar, a esquerda, poderia parar de girar em torno da sigla.

O impeachment trocou o PT pelo PMDB como ocupante do Palácio do Planalto. Ou seja, trocou um partido envolvido no escândalo da Petrobras por outro. Por isso, não pode ter sido fundamentado em corrupção. Tiveram que arrumar um outro fundamento. Este processo pode ter sido uma vitória de curto prazo para a direita e uma derrota de longo prazo, ou seja, o oposto do que teria sido o não impeachment. Um governo muito ruim virou o centro das atenções, tirando o foco no PT. O processo de direitização da opinião pública brasileira pode (eu disse apenas pode) ter sofrido alguma pausa. Por outro lado, agora que o PT e todo o resto da esquerda estão no mesmo lado, fazendo oposição ao governo Temer, a criação de uma esquerda independente pode ter sofrido um baque.

Outra pergunta que surgiria é: pedir nova eleição não seria fazer o jogo da direita? Isto porque não há candidatos competitivos de esquerda. Segundo as pesquisas, Lula perde no segundo turno. Ciro tem só um dígito. O PSOL não passa dos 3%. Uma nova eleição poderia dar a presidência a Marina Silva, José Serra ou Aécio Neves (embora este último esteja queimado). Por que a esquerda deveria ajudar Marina Silva ou José Serra a chegar à presidência? A resposta é: porque o movimento por nova eleição não seria feito pensando nos próximos três, e sim nos próximos trinta anos. Uma nova eleição provavelmente elegeria um candidato não esquerdista, mas um movimento por nova eleição feito por organizações de esquerda poderia gerar novas lideranças que teriam importância no futuro. Se parte da esquerda estivesse mais em sintonia com a maioria da população, as ideias de direita teriam mais dificuldade em se propagar. E por fim: José Serra e Marina Silva não são de esquerda, mas se tivessem que disputar um contra o outro uma eleição, ambos teriam que deixar seus programas mais populares para disputar voto. Não haveria margem para um programa tão anti-popular quanto o do Michel Temer. É por isso que as organizações empresariais e midiáticas, e os políticos de direita querem tanto o governo Michel Temer, e não uma nova eleição. Essas organizações querem não apenas um governo de direita, como também um governo de direita que não precisa disputar voto.

Até agora, foram apresentados os argumentos a favor da esquerda não petista ter defendido nova eleição, e não a permanência da Dilma. Agora, vamos aos contrários.

Um posicionamento de parte do campo democrático e popular, progressista, da esquerda, a favor da abreviação do mandato da Dilma poderia ter causado uma grande ferida em um campo já enfraquecido. Os argumentos favoráveis ao posicionamento da esquerda não petista por nova eleição poderiam não ser compreendido por grande parte dos militantes de sindicatos e movimentos sociais. Sites e periódicos favoráveis ao PT, poderiam retratar os defensores de nova eleição como “cúmplices do golpe”. A história de que o PSOL ajuda o PSDB e o PIG é de 2006, ficou completamente desatualizada dez anos depois. Mas a história de que o PSOL agiu propositalmente em favor da Marina Silva, se este partido tivesse defendido nova eleição, poderia ter ecoado entre militantes.

E se a esquerda não petista tivesse entrado para valer na campanha por nova eleição, não há garantia de ocorreria uma nova eleição. Para isso, o Michel Temer teria que ser sensibilizado a renunciar. Uma campanha forte nas ruas por dupla renúncia e nova eleição, unindo esquerda e direita, poderia ter aumentado a pressão para que a mídia pressionasse Temer a renunciar, que PSDB e DEM não se dispusessem a fazer parte de um governo Temer, induzindo-o a aceitar a renúncia como possibilidade. Mas nada disso é certo. O efeito de uma campanha de esquerda por dupla renúncia e nova eleição poderia também ter tido um efeito oposto: a direita organizada ter iniciado mais cedo uma lavagem cerebral pró Temer.

Quanto à cassação da chapa pelo TSE, isto é possível de ser feito se for realmente encontrada prova de crime eleitoral. Caso contrário, seria um mero casuísmo.

 

E vocês: o que pensam sobre o posicionamento de partidos e movimentos à esquerda do PT sobre a crise política brasileira?